fotocycle [227] evolução, a marcha para o progresso

paulofski @ na bicicleta

Publicado em 26/05/2018 às 18:25

Temas: fotocycle ciclismo ciclismo urbano ciclistas urbanos do Porto cicloturismo cidades devaneios a pedais fotografia fotopedaladas Gorka humor mobilidade motivação outras coisas penso eu de que... Porto

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Passeio de Bicicleta & Piquenique Bicicultura/MUBi!

Ana Pereira @ Cenas a Pedal

Publicado em 23/05/2018 às 20:38

Temas: Causas Eventos Notícias activismo encontros passeios piqueniques

Não é fácil encontrar em Lisboa oportunidades de passeio e confraternização à volta da bicicleta como meio de transporte. Muitas vezes os passeios que há são para turistas estrangeiros ou são mais na onda do desporto, e as efemérides culturais e sociais escasseiam. 

Por isso, este domingo não se distraiam, venham pedalar e piquenicar com a malta fixe “das bicicletas”! 🙂 Uma oportunidade de conhecerem e confraternizarem com malta do cicloactivismo, e não só.

27 de Maio de 2018 | Passeio de Bicicleta & Piquenique Bicicultura/MUBi!

Passeio para encontro e convívio entre utilizadores de bicicleta, cicloactivistas, e outros fãs da cultura da bicicleta, e angariação de fundos para a constituição oficial da cooperativa Bicicultura

Encontro frente ao Vasco da Gama (Alameda dos Oceanos) às 11h.

Passagem pela Quinta Conde dos Arcos e Parque Urbano dos Olivais. Almoço em formato de piquenique (cada um leva as suas coisas e algo para partilhar) na Mata de Alvalade (há um quiosque com umas tostas fantásticas para quem prefira abastecer-se localmente) – entre as 13h e as 15h.

Arranque cerca das 15h para a 2ª parte do passeio, com passagem pelo Parque do Vale de Chelas, Parque do Vale do Fundão e Parque da Quinta das Flores, e ciclovia ribeirinha até voltar ao ponto de partida no Parque das Nações.

Público: aberto a todos, incluindo principiantes e famílias com crianças. Nós vamos levar a Mutthilda, claro. As distâncias não são nada de mais, e o ritmo será descontraído, para acomodar toda a gente e promover a conversa. 🙂

Inscrição: não há! A participação é livre e gratuita, é um encontro social. Mas um dos objectivos deste encontro, além do recreio e do convívio, é a angariação de fundos para ajudar a cobrir os 600 € de despesas da constituição oficial da cooperativa que alojará A Casa da Bicicultura.

Por isso levem o vosso donativo para meterem no mealheiro que irá passar de mão em mão. Todos os €uros ajudam. 🙂 

Vemo-nos lá?

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Um filho não impede de usar a bicicleta

Mário Meireles @ Braga Ciclável

Publicado em 22/05/2018 às 17:34

Temas: Opinião Bakfiets Bicicleta Bicicleta de Carga Braga Cargo Bike Filhos Minho Ciclável Revista Rua

Quando há uma conversa sobre utilizar a bicicleta como meio de transporte por norma há uma série de argumentos que são utilizados por forma a desculpar o facto de não aderir ao seu uso. Ouvem-se coisas como “o tempo é mau, já viste como chove?”, descurando o facto de temos mais de 200dias de sol num ano em Braga.

Surge também o “ah, mas com o calor suo muito!”, e então tem que se explicar que quando usamos a bicicleta o agasalho tem que ser diferente, não precisamos de levar tanta roupa como quando vamos de carro, até porque estamos a fazer exercício físico. Temos ainda a habitual desculpa dos declives, das “cidades de altos e baixos”, “das colinas”. Só que a maior parte da população de Braga vive e desloca-sena parte plana da cidade de Braga. Não há nada como experimentar.

Com todas as desculpas e todos os argumentos, eu costumo dar o meu exemplo. Também eu já usei o carro como meio de transporte na cidade, mas fiz a mudança para a bicicleta como sendo o meu meio preferencial de deslocação há sete anos. Poucas são as deslocações que faço de carro. Ainda assim, perante todos os argumentos e todas as explicações, conseguiram-me dizer “isso é agora, espera até teres filhos e tu vais ver como deixas logo a bicicleta e compras um carro para ti”.

Pois bem, fui pai em julho passado e já antes de a Matilde vir ao mundo eu andava a investigar as melhores soluções para poder andar com ela na cidade. Acabei a encomendar uma bicicleta de carga com oito velocidades mecânicas, com uma caixa longa à frente e uns extras:duas cadeirinhas forradas com um tecido fofo a imitar a lã (uma dos zero aos sete e outra dos sete aos 18 meses) e uma tenda para os dia sem que chove.

Depois de chegada a encomenda e montada na Go By Bike, foi a vez de experimentar fazer uma deslocação com a filhota. Instalada no novo veículo ficou atenta a tudo o que a rodeava. Começamos por ir da Ponte de São João até à Zona Pedonal, sempre pela estrada (aproveitando os ciclos dos semáforos para apanhar poucos carros e reduzir riscos). Da segunda vez fui deixar a Matilde na avó. Durante a viagem foi tranquila, a observar tudo e a fazer furor entre quem a via, de lacinho numa bicicleta tão esquisita. “Que fofa!”, “Que espetáculo!”, “Que riqueza” ia-se ouvindo ao longo do percurso. Não gostou foi de sair da bicicleta. Aos pouquinhos tem andado mais na bicicleta, no entanto ainda é necessário adequar a infraestrutura para que nós possamos sobreviver na estrada, e ela possa, num futuro próximo, viver a cidade utilizando a bicicleta.

 

Pedalada Solidária – Eu Vou de Bicicleta

miguelbarroso @ Lisbon Cycle Chic

Publicado em 21/05/2018 às 18:31

Temas: Uncategorized Bela Vista bicicleta Campo Pequeno Cofidis Cycle Chic evento FPC/UVP fpcub Lisboa Rock in Rio

Em 2014 o Rock in Rio Lisboa desafiou-nos para um passeio, com o objetivo de mostrar que se pode ir bem de bicicleta até ao festival de música. Em quase todas as vezes que lá fui, foi de bicicleta que me desloquei. E acreditem que foi a melhor maneira de o fazer! (uma das vezes tive a triste ideia de ir de carro, e foi bem mais complicado!).

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Este ano, o Rock In Rio resolveu voltar a fazer um passeio, desta vez com um caráter solidário, e no qual a Cofidis também participa!

Assim, no próximo dia 27 de Maio de 2018 (Domingo), pelas 10h00, irá realizar-se um passeio até ao Rock In Rio, no espírito Cycle Chic. Uma calma volta pelo planalto de Lisboa, com um cariz marcadamente não-desportivo, mostrando que a bicicleta é um meio de transporte válido na cidade:

Um passeio para celebrar a bicicleta como meio de transporte, na cidade de Lisboa. Não é um evento desportivo, mas um passeio de bicicleta descontraído pelas ruas da capital. Assim, não é requerido qualquer equipamento para praticar “ciclismo” ou desporto em geral.
Dentro do estilo próprio de cada um, não se exige nenhum código de vestuário – clássico, casual, alternativo… a escolha é sua, mas sempre no espírito Cycle Chic.
O passeio em si, será por um percurso acessível a todos, com o objectivo de mostrar que para se andar de bicicleta em grande parte da cidade, não é necessário ser atleta. É um meio de transporte alternativo, mas que se quer preferencial – uma maneira rápida e conveniente para “ir de A a B”.
Sempre num ritmo descontraído, iremos prezar o convívio, mas sem descurar a segurança. Como acreditamos que a mesma não depende de equipamentos de segurança passiva, mas sim do modo como se circula, essa será a estratégia a seguir – fomentar a segurança ativa, baseada numa condução calma e defensiva.

A participação no passeio será gratuita, mas a inscrição é obrigatória para que os participantes estejam cobertos pelo seguro.

Ponto de Encontro: dia 27 de Maio de 2018, às 10h00 na Praça do Campo Pequeno.

TODOS OS QUILÓMETROS CONTAM

Ao pedalar estará a contribuir para uma causa solidária, pois cada quilómetro pedalado será convertido pela Cofidis em apoio a projetos de escolas de ciclismo e iniciação à bicicleta da Federação Portuguesa de Ciclismo e da Federação Portuguesa de Cicloturismo e Utilizadores de Bicicleta.

Para isso, irão contabilizar o número total de quilómetros percorridos pelos participantes da Cofidis Pedalada Solidária, pelas pessoas que se desloquem de bicicleta para Rock in Rio Lisboa nos dias 23, 24, 29 e 30 de junho de 2018, e todos os visitantes do stand da Cofidis, instalado no festival.

O acompanhamento dos quilómetros poderá ser feito no período do Rock in Rio Lisboa, no stand da marca Cofidis.

Desta forma, e aproveitando as infraestruturas da cidade, a Cofidis e o Rock in Rio Lisboa convidam todos os interessados a participarem no evento e a deslocarem-se de bicicleta para o festival, utilizando o Bike Park, disponível no Parque da Bela Vista.

Mais informações e inscrições no site do evento: http://www.cofidispedaladasolidaria.pt

 

Experimentar andar de bicicleta

João M Fernandes @ Braga Ciclável

Publicado em 19/05/2018 às 13:00

Temas: Opinião Braga ciclista Diário do Minho Experiência Experimentar JMF João M Fernandes Pedalar em Braga

Sou utilizador regular de bicicleta, para locomoção diária em Braga, há mais de 25 anos. Comecei a fazê-lo depois de ter estado a estudar/trabalhar durante 6 meses em Bristol (Inglaterra). A casa onde morava estava mal servida de transportes públicos e ficava longe do local de trabalho, pelo que não tive outra solução a não ser recorrer à bicicleta.

A experiência desta utilização, mais ou menos forçada, da bicicleta revelou-se muito gratificante. Percebi muito rapidamente as diversas vantagens que o seu uso encerra. A saber:

  1. sensação de liberdade (contacto mais directo com a natureza/cidade)
  2. exercício físico diário
  3. maior rapidez de locomoção em trajetos citadinos
  4. facilidade de estacionar perto dos locais para onde nos deslocamos
  5. tempos de viagem mais ou menos constantes, independentemente do estado do trânsito
  6. custos (muito) baixos
  7. baixa pegada ecológica

Quando regressei a Braga, fiz imediatamente o transfer para a bicicleta. E, a cada dia que passa, fico mais convencido que é o modo de transporte mais adequado ao contexto urbano, especialmente para trajetos curtos, planos e na cidade.

Apesar de Braga não ser uma cidade orientada à bicicleta, longe disso, ainda assim é possível usá-la de forma relativa tranquila. Ao fim destes anos todos, aprendi a proteger-me enquanto ciclista e sei bem quais as situações que têm maior perigo. Uma delas é o corte brusco à direita que os automóveis fazem logo após nos ultrapassarem (pela esquerda). É uma manobra muito comum que ainda ocorre com alguma frequência. Uma outra é a ultrapassagem com pouca distância de segurança. Esta manobra é cada vez mais rara, fruto de dois factores. O primeiro está relacionado com a mudança do código da estrada, que desobrigou os ciclistas a terem de circular o mais à direita possível da via. O segundo tem a ver com o facto do número de ciclistas de lazer ter aumentado bastante, o que faz com que muitos automobilistas também sejam ciclistas. Há assim, genericamente, um maior respeito dos primeiros para com os segundos. De facto, dantes era muito comum os automobilistas buzinarem aos ciclistas sempre que estes os impediam de circular de forma mais rápida, fenómeno que sinto ter diminuído significativamente.

Concluo esta minha primeira crónica para a Braga Ciclável, com um desafio para ti, meu estimado leitor: experimenta, durante uma semana, deslocar-te diariamente de bicicleta. Define trajetos em que seja possível fazê-lo de forma segura, por exemplo, de casa para a escola e no sentido inverso; de casa para o treino no ginásio ao fim do dia. Talvez apanhes o gosto pela bicicleta como me aconteceu em Bristol. Se tal acontecer, verás que depois não queres outra coisa…


(Artigo originalmente publicado na edição de 19/05/2018 do Diário do Minho)

 

Porto-Fátima-Porto, uma santa volta

paulofski @ na bicicleta

Publicado em 17/05/2018 às 17:30

Temas: marcas do selim amigo Couto amigo Jacinto boas ideias ciclismo cicloturismo devaneios a pedais dos malucos das biclas voadoras esta malta é maluca!... Fátima fotografia fotopedaladas longas pedaladas motivação outras coisas Porto randonneur Rui

Nas minhas pedaladas pós-laborais casualmente encontro o jovem Jacinto  em pedaladas recreativas mais a sua mui querida Branquinha. Bem, a probabilidade de o encontrar a pedalar uma das suas bicicletas no eixo marginal Matosinhos/Freixo são fortes, pois o Jacinto nas suas alegres e bem pedaladas 69 primaveras não está para ficar prostrado no sofá ou num banco de jardim a bater umas cartas.

– Então Jacinto, como vai isso? Esse joelho está melhor?

– Está melhor. O que me mata é estar parado, quando pedalo nem o sinto.

Conversa vai, conversa vem, disse-me o jove que estava a planear nova pedalada a Fátima, no 12 de Maio, para depois regressar de “quimboio”. Logo ali me fiz de convidado a acompanhá-lo. Esta espécie de “bicigrinação”, cumprir os duzentos e poucos quilómetros a pedal entre o Porto e Fátima, já se tornou uma clássica, como tal era mais pelo passeio e pelo convívio. Entretanto, o Manel Couto e o Rui intrometeram-se no plano e elevaram a fasquia para um nível épico.

– Bamos e boltamos? É, ou bai ou racha.

– Autonomia total? Bamos?… E fomos.

O ciclismo de longas distâncias requer apetrechos extras, kit de sobrevivência, vestuário reforçado e pede faróis. O roteiro estava traçado e o desvario teria alguns condimentos saborosos. “Ó pra lá” com a luz do dia e “ó pra cá” sob o céu estrelado. Seriam apenas 18 horas de rabo sentado num selim a rodar as pernocas por mais de 400km. Das 24 horas planeadas para a longa jornada, quatro ou cinco seriam gastas com as bicicletas encostadas a descansar. Foi mais ou menos assim.

Meeting point às 6 da matina. Sob um manto de nuvens suspeitas, quatro animosos amigalhaços encontram-se, tiram a selfie da praxe e dão ao pedal ao longo da margem esquerda do Douro. São Pedro não se fez rogado e à passagem da comitiva pela sua devota Afurada abençoou os convivas com uma valente molha. Refugiados sob o alpendre da esquadra local, ficam a fazer companhia ao polícia de plantão e só meia hora depois retomam difinitivamente a pedalada.

Ainda poucos se aventuravam a colocar o nariz fora de portas e estes bicicgrinos já levavam um bom pré-aquecimento. A manhã estava frescota e húmida e só a espaços o sol aclarava o dia. Esperançados em aproveitar a Nortada, não demorou muito a sentirem a sua infalível pseudo-força. Aquela ventania fria que no verão desalenta os banhistas, é uma benesse para os ciclistas que rumam a sul. Sim, sabe bem quando sopra forte pelas costas, mas é um martírio quando se pedala contra.

– “Ó pra lá” o bento está do nosso lado, “ó pra cá” é que bai ser!, diz o Paulo ao pessoal.

Rumo ao sul, as primeiras horas de pedalada foram cumpridas a bom ritmo. Nota amarga para o manto florestal que desapareceu e para os pinhais sepulcrais de troncos calcinados à espera do golpe final da motoserra. Já a praga do eucalipto renasce espontaneamente das cinzas.

Às tantas o Couto desistiu de dar música à malta e guardou a grafonola chinhoca. O Jacinto seguia ao seu ritmo, dando asas à sua veia poética e ia fazendo as suas reportagens, “Isto é assim”. O Rui mantinha-se introspectivo e focado na estrada. E eu? Eu começava a sentir um certo desconforto no cano de escape, digamos assim. O hemorroidal estava em modo crise!

A estrada nacional 109 não é nada de especial. No seu longo trajecto, de piso nivelado e muito degradado, é enfadonha e agitada q.b.. O motivo de maior interesse é a passagem pelas vilas. A opção da bicicleta como veículo de eleição na estrada é um modo de vida. São velhos e novos, homens e mulheres, que nas suas pasteleiras do século passado desempenham a sua independência, a sua liberdade na mobilidade. Amiúde, passamos por nativos ciclistas onde a bicicleta é sempre um bom tema de conversa…

– E a senhora, também vai a Fátima?

– Ah! Eu, não, eu venho do cemitério.

Parados num semáforo, percebe-se o som de distintivos cliques do desencaixe dos cleats para deixar os Sidi provarem o alcatrão. Um grupeto equipado a rigor e nas suas máquinas velocarbónicas, topam-nos e interagem nas conversas. Assim que cai a luz verde do semáforo, o “Alfa-Pendular” arranca e acelera a toques de urgência, transpirando. O grupeto passa por mim a zunir, em direcção à capital, e um dos prespicazes sprinters tem tempo de ler os dizeres “Randonneurs Portugal” no meu colete laranja, pedindo-me: – Oh pá, manda cumprimentos à Lenita.

Pois precisamente à mesma hora, os meus amigos randonneiros, entre eles a receptora da mensagem, estavam a dar o litro num brevet bem durinho, o Brevet Cávado ao Tâmega 400. A encomenda foi mais tarde entregue na caixa de comentários do FB da nossa heroína, que certamente aplicaria uma carochada de todo o tamanho no pódio mensal da Divisão Velopata, mais propriamente na categoria Jersey Melhor Fêmea Ressabiada, caso fizesse parte de tão restrito e ressabiado clube, p’stá claro.

Na Figueira da Foz, os vaidosos cicloturistas deixam a ponte sobre o Mondego para trás e detêm a pedalada para morfar. Mais ou menos dentro do tempo estimado, esticam as gâmbias debaixo da mesa, dão ao dente e eu dei algum descanso aos glúteos. O Jacinto besunta o joelho direito com uma espécie de betume, pomada analgésica ou lá o que era aquilo:

– Ai se a minha médica sabe disto! Ironizava.

Mas não tardou muito a voltarmos a espalmar o rabo no selim, cada vez mais desconfortável. Ainda intrigados com a conta apresentada, suspeitando que nos haviam metido a unha, pedalávamos agora mais para o interior, aguentando as rajadas de vento lateral. O jovem herói seguia no seu ritmo e, a seu lado, o Paulo maçava-o ainda mais:

– Mais cedo ou mais tarde havemos de lá chegar, ai havemos, havemos.

Depois do desvio habitual na Guia, e depois de um gelado como sobremesa, neste caso como sobreselim, mais à frente depois do cruzamento do Barracão, a estrada outrora esburacada apresenta agora um fofinho tapete negro. Aqui e ali, grupos de peregrinos na berma esquerda que iam aumentando, sendo que num desses encontros resolvo sacar do telemóvel para os enquadrar numa fotografia. Se fosse uma bídio-reportage poderiam escutar a sempre simpática saudação e animado incentivo do Couto.

Nisto, um jipe da Gêénérre surge sorrateiro ao meu lado e o xõr guarda no lugar do morto tem este diálogo comigo:

– Xôr ciclista, não sabe que tem de circular o mais à direita?

– Aããã… Onde! Como! Quem! Mas xôr guarda, estou a circular à direita!

– O xôr está no meio da estrada…

Óbalhamedeuje, vejam lá na foto se estou no meio da estrada?

E no momento em que lhe ia relembrar o nº 3 do artigo 90 do Código da Estrada:

“Os condutores de velocípedes devem transitar pelo lado direito da via de trânsito, conservando das bermas ou passeios uma distância suficiente que permita evitar acidentes” …

– Ainda por cima o xôr ciclista vai de telemóvel na mão…

– Ups!

Aí o xôr ciclista calou-se, meteu a viola no saco, e seguiu viagem.

Batiam as 17 badaladas quando os romeiros alcançaram o prémio de montanha da Serra de Santa Catarina e, satisfeitos, desceram por entre um mar de peregrinos, entre um rio de ciclistas, a ultrapassar uma fila de carros em águas estagnadas.

Chegamos ao Santuário, o “ó pra lá” estava concluído. Não demoramos mais de uma hora para as devidas formalidades, fotos e preparos. Estava uma ventania gelada e quando uma mais afoita rajada nos deita as biclas ao chão, decidiu-se:

– Bamos já para casa.

Reforçada a armadura, o “ó pra cá” estava em acção. Retomou-se a mesma estrada para a descer e entrar na N113, até Leiria. O objectivo seria alcançar a N109 para norte, mas entretanto a N1/IC2 atravessou-se no nosso caminho. A opção é certa, a dúvida é capciosa. Se o arrependimento matasse… Nem sei como saímos dali vivos. O trânsito era infernal e nada os impedia de acelerar. Tal como nós. Quatro ciclistas em fila, encolhidos e assarapantados à espera de encontrar uma placa com os dizeres “BARRACÃO”, para sair daquele turbilhão.

Finalmente escapamos daquela estrada e calcamos alcatrão conhecido, o mesmo que havíamos feito no sentido inverso. Mas algo roncava e não era motorizado. Era o estômago mesmo. Qualquer aroma a comida no ar captada pelas narinas nos impelia os narizes em todas as direcções a espreitar menus. No aconchegado Restaurante Carreira (Carnide) fizemos um repasto à maneira e um brinde à amizade.

Entretanto a noite caiu, o vento amainou e o frio apertava bem. Vesti tudo o que levava, até uns saquinhos de plástico cedidos pela simpática senhora do restaurante eu enfiei nos pés. Passados uns minutos já estavam morninhos. Já os meus comparsas de aventura em bib-shorts e pernas ao léu foram batendo o dente. Satisfeitos e com os focos apontados ao alcatrão, passamos pela Figueira da Foz à conversa para, com um pequeno engano lá pelo meio, no topo da Serra da Boa Viagem reagruparmos. Agora e sempre que surgisse uma pendentezinha, a subitida era já ultrapassada a um ritmo bem mais pesaroso.

Com praticamente um terço da distância por percorrer, logo voltaram as longas rectas da Tocha a Mira. Nesta altura já não se sente as pernas, quando muito sono e a desconfortável tortura do selim, que para mim já não era tão desconfortável assim. Do nada, um motor rosna, tenso, ameaçador à distância. Eu vi logo, o Fittipaldi saia de uma esplanada a queimar borracha. Café  aberto na madrugada significa uma tosta mista e um abatanado, e isso era algo de que eu estava bem necessitado. As paragens fazem-se agora mais demoradas para deixar o corpo descansar.

Os nossos heróis continuam firmes. O jovem Jacinto seguia o velho truque de se ir deixando ficar para trás, muito ao de leve, muito aos poucos, segurando garbosamente os seus ímpetos em nome da sobrevivência, e do rabo. Após um derradeiro esforço, avisa-me que ouviu os conselhos do seu joelho e decidiu aproveitar a reconfortante boleia do comboio urbano das quatro da manhã em Aveiro. Pedalar quase 350 km de uma assentada é desde logo um feito. Parabéns amigo Jacinto, somos gratos pela tua companhia, entusiasmo e inspiração. Outras mega loucuras virão.

O Homem-máquina, metade é a combinação complexa de articulações e músculos, a outra é uma bicicleta. Uma delas é infinitamente ajustável e adaptável, o outro é um ciclista. O ideal é uma união perfeita entre as duas separadas entidades, actuando em harmonia e vontade, excepto a realidade geralmente desigual, que envolve joelhos massacrados, costas doloridas e ombros queixosos.

Despedidas feitas, os três da vida airada aumentam o ritmo, puxando à vez na tentativa de aquecer o motor e distrair a soneira. Até ao dia clarear nada mais se passou senão pedalar com andamentos adequados às necessidades, evitando ter de levantar as nalgas do selim, evitando um desgaste extenuante e desnecessário. As pernas já reclamam descanso e até as subidas mais ligeiras, nos momentos em que a cadência das pedaladas fica reduzida ao mínimo indispensável, é precisa concentração máxima para enxergar as curvas, os cruzamentos e eventuais condutores matinais. À passagem por Ovar caem as primeiras pingas que refrescam ainda mais a carcaça. Faltavam cumprir cinquenta e poucos quilómetros.

Amanheceu, e a visão da cama de casa cada vez mais perto assustou-me. O manto de nuvens negras no horizonte prometia uma banhoca, muito antes de chegar a entrar na banheira. Contornada a praia do Cabedelo na Foz do Douro, já só faltava atravessar o rio para a escalada final da íngreme rua de D. Pedro V. Sentindo a meta já bem perto, com a luz de reserva bem acesa, veio o momento zen. Se São Pedro nos abençoou a partida haveria também de nos abençoar à chegada, na sua Afurada

Quatrocentos e tal mil metros depois, felizes e triunfais, famintos e cansados, após um dia inteirinho a dar ao pedal, eis que os nossos protagonistas se abrigam no mesmo abobadado alpendre da PSP da Afurada, param o registo no Strava e dão por concluído o giro para finalmente terem o merecido descanso.

E agora vou-me repetir:

Para algumas pessoas, estes tipos não passam de um grupo de cotas malucos metidos a radicais. Como assim!? Então, se pedalar por sete ou oito horas, até Fátima, fazem-no apenas por puro prazer e vontade, dar meia volta e voltar da mesma forma ao ponto de partida, é o quê? O mais importante não é o quanto pedalaram. O que importa é curtir a pedalada, apreciar a paisagem e o espírito de grupo. De outra forma eu não saberia descrever esta mistura de adrenalina, vento, sorrisos soltos, sol, curvas, natureza, chuva, esforço, contentamento, sacrifício, ar puro, sono, silêncio, escuridão, carros acelerados, pernas pesadas, vontade e puro prazer.

 

teaser – uma santa volta

paulofski @ na bicicleta

Publicado em 14/05/2018 às 7:53

Temas: o ciclo perfeiro ciclismo ciclistas no mundo ciclo chico cicloturismo cycle chic devaneios a pedais fotografia longas pedaladas motivação pasteleiras e vintageiras roda de amigos teasing

“E a senhora também vai a Fátima?

“Eu! Ah, não, eu venho do cemitério.

 

 

de bicicleta com a luz ao fundo do túnel

paulofski @ na bicicleta

Publicado em 9/05/2018 às 13:21

Temas: motivação 1 carro a menos bike to work ciclismo ciclismo urbano devaneios a pedais dicas fotografia mobilidade opinião outras coisas penso eu de que...

Tenho colegas que ainda se admiram quando me vêm chegar a pedais para trabalhar!!! E o que lhes digo?

Olha, a maneira como eu vejo isso, é que qualquer um pode fazer isso. Não é sobre como está a minha condição física ou há quanto tempo pedalo. Para começar precisas de uma bicicleta e algum equipamento, mas no final do dia o facto mais importante é que com determinação suficiente, qualquer coisa pode ser feita. É a tal força de vontade, quer seja para pedalar um quilómetro para o trabalho quer seja para correr uma maratona. Tento dizer que não comecei a pedalar 200 km’s de uma assentada. É em pequenas etapas que vamos progredindo. Vamos superando as dores e as subidas. Vamos apanhar chuva e vento de frente. Vamos suar e cheirar mal. Todas essas coisas são fáceis em comparação com a dificuldade de nos desafiarmos, saindo da nossa zona de conforto. A parte mais difícil é sempre dar o primeiro passo, a primeira pedalada, para fazer algo que nunca fizemos antes. Depois disso, tudo é fácil.

 

Fórum Parlamentar Segurança Rodoviária 2018

Ana Pereira @ Cenas a Pedal

Publicado em 8/05/2018 às 19:35

Temas: Infraestruturas e urbanismo Leis e Códigos Mobilidade Políticas Segurança Videos governo política sinistralidade rodoviária

Hoje estivémos no Fórum Parlamentar Segurança Rodoviária 2018.

Fórum Parlamentar Segurança Rodoviária 2018

Procurámos intervir no Debate para chamar a atenção para o problema gritante da poluição automóvel nas nossas cidades, e a necessidade de agilizar a fiscalização sobre o estacionamento ilegal e sobre as manobras de condução perigosa.

Coisas positivas a apontar em particular:

A GNR – Guarda Nacional Republicana a recomendar a desmaterialização e digitalização dos processo de contra-ordenação (ser mais fácil e rápido multar), e criminalizar o excesso de velocidade como já é a condução com álcool no sangue (e nós acrescentaríamos também a condução em estado de fadiga extrema e privação de sono).

Divulgaram que só houve 4 pessoas fiscalizadas / autuadas por ultrapassagem ilegal a condutores de bicicletas…

Fórum Parlamentar Segurança Rodoviária 2018

A Prevenção Rodoviária Portuguesa defendeu também como uma das prioridades uma maior celeridade e agilização do processo de fiscalização e autuação (menos “garantismo”, uma melhor formação e examinação dos candidatos a condutores de automóvel, tornar públicos os relatórios das auditorias das vias, etc.

A ACA-M falou de mais além de estatísticas, mas do que está por trás e à volta da forma como desenhamos as cidades e como regulamos o acesso ao espaço público. De nada nos serve conseguir reduzir a sinistralidade rodoviária das crianças, por exemplo, se isso é conseguido à custa do seu sequestro do espaço público, da sua perda de autonomia e votação a um estilo de vida sedentário e sensorialmente e socialmente pobre.

A FPCUB – Federação Portuguesa de Cicloturismo e Utilizadores de Bicicleta também interveio falando mais destas questões macro, da importância de olharmos para a “bigger picture”, e de copiarmos os bons exemplos de outras cidades.

A MUBi interveio nas sessões de debate, tal como nós.

A resposta da Polícia Segurança Pública a uma questão sobre a autuação de condutores de automóvel que efectuam ultrapassagens ilegais a condutores de bicicleta mostrou bem que é fundamental haver mais e melhores canais de comunicação entre entidades e a sociedade civil. Precisamos de dialogar mais!

A primeira parte do Fórum foi gravada e disponibilizada online aqui. Fotografámos alguns slides mais interessantes, e estão aqui.

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Vamos falar de civismo

Helena Gomes @ Braga Ciclável

Publicado em 1/05/2018 às 15:00

Temas: Opinião automóveis Bicicleta Braga Civismo estrada Portugal Respeito Ultrapassagens

O civismo é o conjunto de comportamentos que um cidadão adopta para mostrar respeito para com a sociedade em que vive. São atitudes básicas de empatia, uma forma de mostrarmos que não olhamos apenas para os nossos umbigos e que para chegarmos mais depressa a casa passamos à frente de todos na fila do supermercado.

Portugal nunca foi conhecido pelo seu espírito de civismo. Temos todos a mania de que somos uns coitadinhos e que senão formos espertos, alguém nos vai passar a perna e isso é que não pode! E no que toca à condução automóvel, somos conhecidos pelas piores razões – falta de civismo dos portugueses quando estão à frente de um volante por trás do escudo de uma tonelada de metal é gritante. Buzina-se, insulta-se, praticam-se altas velocidades, há uma impaciência total pelo colega condutor e por todos os outros que partilham as vias – é um stress só!

Em relação aos ciclistas esta falta de empatia é ainda maior. Ultrapassagens rentes, buzinadelas aos ouvidos, condução sem espaço de segurança e até “brincadeiras” para empurrar os ciclistas para a berma. Isto para não falar da utilização das ciclovias, das zonas de acesso a bicicletas, peões, carrinhos de bebé e cadeiras de roda, como se estes fossem os melhores sítios para parar o carro aqueles 5 minutos, ou mesmo para o estacionar.

Todos os dias, no meu percurso casa-trabalho, eu, condutora automóvel (sim eu também tenho carro), partilho a estrada com ciclistas. É claro que eles andam mais devagar que eu nas subidas, é claro que tenho de abrandar e fazer talvez 1km em marcha lenta até ter traço intermitente e espaço para ultrapassar com segurança, mas as buzinas e os roncos dos carros atrás de mim incomodam-me muito mais do que o abrandar o passo. Mas sabem o que é que me atrasa mesmo a chegada a casa? São os carros estacionados em segunda e terceira fila à porta das escolas. Isso sim, rouba-me às vezes 20 minutos desesperantes todos os dias e ainda assim, juro-vos, não meto a cabeça de fora do carro ou tento abalroar criancinhas e respectivos pais. Chama-se civismo, meus caros, e fica sempre bem.


(Artigo originalmente publicado na edição de 1/05/2018 do Diário do Minho)

 
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