o município de Torre de Moncorvo tem pedalada

paulofski @ na bicicleta

Publicado em 23/07/2019 às 14:48

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Foi preciso pedalar até ao concelho de Torre de Moncorvo para ver este sinal. Aproveito para deixar algumas considerações a respeito de uma regra que muito condutor desconhece: respeitar o limite mínimo de 1,5 metros de distância lateral ao ultrapassar o ciclista. Infelizmente, ainda é raro o dia em que eu não sofra aquela tangente desnecessária.

Que eu saiba, Torre de Moncorvo é o único concelho no país com sinalização para a segurança dos ciclistas. Abrangendo todo o concelho, no total são cerca de 70 sinais que estão espalhados pelas estradas municipais e caminhos agrícolas, alertando os condutores para a existência de ciclistas e indicando a distância recomendada à sua passagem, conforme diz a lei.

Desde 2006, a Câmara Municipal de Torre de Moncorvo (CMTM) tem reconvertido em Ecopista alguns dos troços da antiga Linha do Sabor,  que outrora permitia a ligação ferroviária entre o Pocinho e Duas Igrejas (nunca chegou a Miranda do Douro) . Desta forma tem vindo a dar nova utilidade a uma fundamental via de circulação de pessoas e mercadorias desactivada nos anos 80, e “promover a prática de actividade física junto dos munícipes e nossos visitantes”.

“Pela primeira vez um concelho tem sinalética para o cicloturismo. Os sinais estão em todo o concelho com o objectivo de dar mais segurança aos praticantes de uma modalidade que a autarquia patrocina no âmbito do programa Município Activo”, referiu em 2016, Nuno Gonçalves, presidente da CM de Torre de Moncorvo.

Numa óptica mais alargada e de captação de visitantes em bicicleta, foi terminada este ano a ligação desde ao Pocinho, estação onde ainda terminam a marcha os comboios de passageiros da Linha do Douro, até ao centro desta vila transmontana. Com a reconversão de mais 11 quilómetros dedicados exclusivamente a peões e ciclistas, são já cerca de 32 km de infra-estrutura ciclável que o município de Torre de Moncorvo oferece.

É uma alternativa ao asfalto das estradas municipais. Permite não só vencer 300 metros de cota com inclinações nunca superiores a 2.5%, como acrescenta a mais valia de uma perspectiva diferente da envolvente cénica do Rio Douro, das encostas e socalcos vinícolas, bem como da verdejante Foz do Rio Sabor e do Vale da Vilariça.

Em conjunto, os municípios de Torre de Moncorvo e de Miranda do Douro já reconverteram quase metade dos 105 quilómetros desta que será, um dia quem sabe, a mais longa ecopista do país. Ficam a faltar os troços à passagem dos municípios de Mogadouro e de Freixo de Espada à Cinta, ainda em total abandono e sem data prevista para a sua reconversão. De acordo com fontes oficiais da CM TM, este troço foi incluído no Road Book 2019 da Rede Nacional de Cicloturismo.

 

Braga Ciclável intervém na Assembleia Municipal de Braga para reivindicar zero atropelamentos

Braga Ciclável @ Braga Ciclável

Publicado em 20/07/2019 às 1:52

Temas: #BragaZeroAtropelamentos Notícias 1 atropelamento a cada 3 dias Altino Bessa António Barroso Arnaldo Pires Artur Feio assembleia municipal assembleia municipal de braga atropelamentos Bicicleta Braga braga ciclável Braga Zero Atropelamentos bragaciclavel BragaZeroAtropelamentos Daniel Pinto Fátima Pereira Hortense Santos Israel Pinto João Granja João Pires joão rodrigues Joaquim Barbosa Jorge Pires José Eduardo Gouveia Lídia Dias Miguel Bandeira Mortes Olga Pereira Ricardo Rio Ricardo Silva


Esta sexta-feira, dia 19 de julho, a Braga Ciclável, representada pelo médico Arnaldo Pires, participou no período do público da Assembleia Municipal para alertar para o problema da segurança de peões e ciclistas e reivindicar a necessidade urgente de implementar medidas efetivas com vista à eliminação dos atropelamentos em Braga.

O texto lido durante a intervenção foi o seguinte:

Excelentíssima Sra Presidente da Assembleia Municipal
Sr Presidente da Câmara
Srs Vereadores municipais
Srs Deputados municipais

O que me traz cá hoje são os atropelamentos no nosso concelho!

Num concelho que apresenta cerca de um atropelamento em cada 3 dias, relembramos Sebastião Alba, poeta bracarense, que morreu após ser vítima de atropelamento, em 2000, uma das muitas vítimas de atropelamentos que se conhecem no concelho.

O movimento #BragaZeroAtropelamentos tem alertado para esta problemática, destacando que muito há a fazer, para que este número se aproxime do ZERO. O movimento, criado no seio da Associação Braga Ciclável, já reuniu com as diversas forças políticas e de segurança, do concelho, no sentido de cativar os diversos agentes do poder, para que se implementem alterações na mobilidade, de forma a reduzir a nossa sinistralidade rodoviária.

Segundo a OMS, a nível da sinistralidade rodoviária, mais de metade das mortes dizem respeito a utilizadores vulneráveis. A média europeia, em 2015, era de 11 peões vítimas mortais por milhão de habitantes, e em Portugal de 14. Ou seja, estamos quase 30% acima da média europeia, num indicador onde o objetivo tem de ser Zero. Em Braga, nos últimos 20 anos, desenrolaram-se 2391 atropelamentos, e se acrescentarmos as colisões entre veículos ligeiros e utilizadores de bicicletas o número sobe para 2657 casos, de onde resultaram 55 mortos.

Em 1997, na Suécia, decidiu-se que era fundamental resolver a problemática da sinistralidade e desenvolveram o projeto Visão Zero. Com o foco na redução da mortalidade, os suecos implementaram medidas de segregação, dos intervenientes na mobilidade urbana, tendo obtido uma redução de 66% de mortes por acidentes rodoviários. Neste momento, a Suécia apresenta 2,8 mortes por cada 100.000 habitantes e Portugal 5.1.

Entretanto outros países seguiram esta visão e atingiram semelhantes benefícios, na sinistralidade.

Um aumento de 1% da velocidade automóvel aumenta o risco de acidentes fatais em 4%. Já uma redução de 5% da velocidade reduz em 30% o risco de acidentes fatais. É necessário implementar medidas de contenção da velocidade, no centro urbano. Em 2018, 70% dos Atropelamentos, em Portugal, ocorreram dentro de localidades.

A implementação de zona urbana com velocidade máxima de 30Km/h, é urgente, contudo não basta colocar sinaléticas e pintar o asfalto, é preciso introduzir nas vias de circulação automóvel obstáculos físicos que obriguem ao cumprimento do limite de velocidade.

No nosso concelho descura-se o peão e os utilizadores de bicicleta, seja pelo ruído, pela poluição, ou pela perigosidade de determinadas vias.

Sou médico e trabalho no Serviço de Urgência, Unidade de Cuidados Intermédios e VMER de Braga. Já assisti imensos atropelados. Conheço bem a realidade da cidade, no que toca a esta problemática.

É hora de:

  • averiguar os “pontos negros para os utilizadores vulneráveis” e aplicar ações com vista ao seu desaparecimento;
  • estimular a efetiva redução da velocidade automóvel, na malha urbana;
  • proceder à correta sinalização das vias de coexistência, sobrelevar as passadeiras e a proibir o estacionamento automóvel, ou colocação de outros obstáculos, 5 metros antes e depois das mesmas;
  • realizar operações permanentes de fiscalização da velocidade, nas ruas e avenidas da cidade, como sejam as avenidas que compõem a Rodovia, Avenida da Liberdade, 31 de Janeiro, Júlio Fragata, D. João II e Avenida Imaculada Conceição;
  • garantir a defesa dos utilizadores vulneráveis, levando a que criem campanhas que coloquem o ónus e o foco no veículo e não na vítima; criar Zonas Escola, garantir a existência de passeios, em todas as vias públicas e a segregação de todos os intervenientes na mobilidade, nos casos em que esta é necessária.

Só com uma visão mais humanista e democrática da mobilidade, teremos garantias de promoção da mobilidade ativa e segura, o acesso a estilos de vida saudáveis e diminuição da mortalidade.

É hora desta assembleia decidir mudar a visão da mobilidade do nosso concelho, colocando a vida humana em primeiro lugar, no momento de encontrar a melhor solução para a deslocação das pessoas.

Obrigado.

 

Braga Ciclável reuniu com PSD

Braga Ciclável @ Braga Ciclável

Publicado em 17/07/2019 às 23:03

Temas: #BragaZeroAtropelamentos Arnaldo Pires Bicicleta Bicicleta Braga Braga braga ciclável Braga Cidade Autêntica BragaZeroAtropelamentos Hugo Soares João Granja Joaquim Barbosa Manuela Sá Fernandes Mário Meireles PSD Rafael Remondes Rede Ciclável Segurança Vias vias cicláveis Victor Domingos


Na sequência do recente lançamento do Movimento Cívico #BragaZeroAtropelamentos e das diversas reuniões que vem realizando nesse âmbito, a associação Braga Ciclável reuniu esta segunda-feira, dia 15 de julho, com a concelhia de Braga do Partido Social Democrata (PSD). O encontro serviu para apresentar o movimento #BragaZeroAtropelamentos e também para discutir diversos assuntos relacionados com a mobilidade pedonal e em bicicleta.

Na reunião estiveram presentes Hugo Soares, João Granja e Joaquim Barbosa, do PSD, e Arnaldo Pires, Mário Meireles, Victor Domingos, Manuela Sá Fernandes e Rafael Remondes, da associação Braga Ciclável. O presidente da Braga Ciclável, Mário Meireles, começou por traçar uma retrospetiva acerca da história, dos objetivos e do trabalho desenvolvido pela associação, referindo alguns dos seus projetos, iniciativas e reivindicações mais marcantes. Deu ainda nota do longo historial de estreita colaboração com o Município de Braga, tanto com o executivo PS como com o executivo da Coligação Juntos Por Braga.

Por sua vez, Arnaldo Pires explanou as razões que motivaram a constituição do Movimento Cívico #BragaZeroAtropelamentos, com um grupo multidiciplinar a dar suporte ao movimento que tem como ponto comum a falta de segurança ao circular a pé ou de bicicleta em Braga. Isso é comprovado com o elevado número de atropelamentos no concelho que, ao longo dos últimos anos, têm causado a morte a dezenas de pessoas, entre outros danos. Destacou, por isso, a necessidade de “focar a mobilidade nas pessoas, tornando-a mais humana e menos máquina, levando assim a uma melhoria da qualidade de vida para os Bracarenses que hoje se deparam com 1 atropelamento a cada 3 dias”.

O movimento #BragaZeroAtropelamentos tem como base a iniciativa sueca Visão Zero, que se iniciou na década de 90 do século passado, e que fez com que todo um país conseguisse em poucos anos implementar medidas concretas que levaram a uma redução drástica no número e gravidade dos atropelamentos.

Arnaldo Pires deu ainda o exemplo de outras cidades, como Bogotá ou Pontevedra e explicou que o objetivo deste movimento criado pela Braga Ciclável é levar o Município a implementar medidas que reduzam efetivamente as velocidades de circulação em meio urbano e a criar infraestruturas, incluindo vias segregadas, por forma a permitir que as deslocações a pé ou de bicicleta sejam feitas em segurança, intervindo para tal em eixos estruturantes, mas, também, junto das escolas. Sugeriu ainda que sempre que esteja prevista uma intervenção numa determinada rua da cidade, seja ela de que jurisdição for, o projeto contemple medidas que melhorem as condições para quem pretende deslocar-se a pé ou de bicicleta. Por fim deixou algumas medidas concretas a título de sugestão, como sendo fechar ao trânsito motorizado certas zonas junto das escolas, impedir fisicamente os estacionamentos junto a cruzamentos ou passadeiras, retirar contentores do lixo junto às passadeiras, segregar todos os intervenientes das ruas e intervir nos pontos críticos onde são registados atropelamentos de forma recorrente: Avenida Imaculada Conceição, Avenida João XXI, Rua Cidade do Porto, N101 – Nogueiró, e outros que estão a ser mapeados pelo movimento #BragaZeroAtropelamentos, em conjunto com as forças de segurança da cidade.

Por sua vez, o presidente da Braga Ciclável, Mário Meireles, sugeriu ainda que se reduza o número de vias de circulação na Avenida 31 de Janeiro. “Uma avenida que em 40% da sua extensão já só tem duas vias e funciona, levando inclusive a velocidades mais reduzidas”, lembrou. Recomendou também a alteração da Avenida da Liberdade, que “hoje em dia tem duas das suas cinco vias de trânsito com estacionamento em segunda fila, ou seja, a avenida funciona com 3 vias de trânsito automóvel”, e da Avenida Imaculada Conceição, que desde os “Pelames” até à Avenida da Liberdade apenas tem duas vias de circulação automóvel e também funciona. “Ao reduzir as vias vai-se conseguir reduzir o volume de automóveis e, também, uma redução da velocidade”, refere.

Avenida Imaculada Conceição – desde os “Pelames” até à Avenida da Liberdade apenas tem duas vias de circulação automóvel e funciona.

Mário Meireles reitera que as pessoas em Braga só vão passar a utilizar modos ativos se o puderem fazer em segurança, deixando ainda números sobre a realidade de cidades centradas no automóvel: no máximo, apenas 3% da população pedala em cidades sem infraestrutura segura. Assim, defende que se avance com medidas pontuais e mais rápidas de implementar, com menos custos, e que se vá avaliando o impacto das mesmas. Deixou ainda a nota para que ao se construirem as ciclovias se evite a todo o custo os erros técnicos que cidades como Guimarães e Vila Verde cometeram. “Pintar passeios de vermelho, ou com uns pictogramas, não é construir uma rede ciclável, é potenciar conflitos entre pessoas que andam a pé e de bicicleta, provocando um efeito contrário aos que se pretende, despromovendo assim a utilização destes dois modos”, alerta o presidente da Braga Ciclável.

Hugo Soares afirmou que entendia as reivindicações da Braga Ciclável, agradecendo a apresentação das propostas. Relembrou que quem decide precisa de ter uma visão mais holística que vai mais além do que as bicicletas, sendo que cabe aos eleitos tomar essas decisões, podendo estes ouvir a sociedade civil, e salientou que “esta é também uma imagem de marca deste executivo: envolver as pessoas”. Deu nota que a concelhia do PSD tentaria sensibilizar para a problemática, acreditando que o Plano de Mobilidade que o Município contratou irá solucionar as questões.

João Granja deu nota que foi aprovada por unanimidade, em sede de Assembleia de Freguesia de São Victor, uma proposta levada pela CDU, relativamente à sinistralidade rodoviária e aos atropelamentos, demonstrando assim algo que a Braga Ciclável tem vindo a defender, ou seja, que a mobilidade ativa e a segurança rodoviária é um tema transversal e que pode, e deve, gerar consensos entre todas as forças partidárias e associativas da cidade. Ao mesmo tempo, questionou qual a opinião da Braga Ciclável sobre o projeto da Requalificação da Variante da Encosta. A associação mostrou-se agradada com a requalificação, mas apreensiva com o tipo de implementação previsto para a sua expansão até à Universidade do Minho. João Granja relembrou ainda que a cidade é muito conservadora, dizendo que tem consciência que “ainda somos uma cidade que valoriza muito o automóvel, a individualidade e que ainda há algum status associado à posse do mesmo”. No entanto defendeu que é necessário dar passos sólidos, criar espaços para circulação, haver uma consciencialização das pessoas, campanhas e trabalho integrado para o uso dos modos ativos, numa lógica de progressão em várias frentes.

Rafael Remondes deu conta que a falta de rede é um problema gritante na cidade de Braga e que a requalificação e expansão não vão resolver este problema. Deu como exemplo a falta de ligação entre a Rua D.Pedro V e Rua Nova de Santa Cruz, cada vez mais utilizadas por estudantes universitários que recorrem à bicicleta para se deslocarem nesta rua, bem como a falta de ligação desde o Rio Este até à zona pedonal, frisando que hoje é nesta zona que as pessoas mais se sentem seguras a andar de bicicleta.

Joaquim Barbosa questionou a viabilidade da utilização da bicicleta na cidade de Braga devido à sua orografia e níveis de pluviosidade. Mário Meireles respondeu que em Braga existem 195 dias sem chuva, ao passo que em Utrecht apenas não chove em 130 dias e há gelo em 64 dias. Na vizinha Espanha, em San Sebastian, uma cidade que se assemelha a Braga, há 176 dias sem chuva, há mais pluviosidade total do que em Braga, e há ainda assim mais gente a pedalar do que em Braga. Quanto à orografia, frisou que em Braga 55% da população vive numa zona densa e plana, mais densa do que Amesterdão, e que 73% dessa população faz deslocações dentro da cidade. Deu ainda nota que não se pretendem extremismos ao ponto de ter toda a gente a andar de bicicleta, mas sim que possa haver a hipótese de escolher o modo mais adequando à deslocação, sem que seja necessário correr risco de vida.

Para rematar, Manuela Sá Fernandes disse que espera não ter que aguardar mais 6 anos para ver, efetivamente, alguma mudança. Os representantes do PSD garantiram que não seria o caso.

As reuniões levadas a cabo pela Braga Ciclável foram no sentido de unir esforços para acabar com os atropelamentos. A Visão Zero (isto é, o fim dos atropelamentos) é um objetivo que algumas cidades europeias já abraçaram, e a Braga Ciclável defende que Braga deve seguir esse exemplo e ambicionar uma cidade sem atropelamentos, porque todas as vidas contam.

 

fotocycle [245] Porto Carvoeiro

paulofski @ na bicicleta

Publicado em 16/07/2019 às 15:20

Temas: fotocycle 1 carro a menos bicicleta ciclismo cicloturismo devaneios a pedais Douro fotografia motivação outras coisas pelos caminhos de Portugal penso eu de que... Porto Carvoeiro street art Porto Tripas Vila da Feira

A estrada não é apenas um caminho, é algo mais do que isso. Por mais vezes que repitamos o mesmo caminho, a mesma estrada, não consideramos fazer “um desviozinho”. E porque a estrada é uma encruzilhada onde convergem e divergem outros caminhos, há outros lugares que desconhecemos e esperam por nós para serem descobertos.

Por uma questão de falta de tempo oportunidade fui adiando o desejo de fazer aquele curto desvio num dos meus caminhos. Ir explorar aquele pedaço de estrada nacional sem saída, como indica o sinal rodoviário. Talvez o facto de saber que depois teria de subir tudo de volta seria um mero pretexto, mas naquela manhã lá decidi e virei à esquerda.

Acompanhado por uma esplêndida paisagem, deslizei suavemente pelas curvas e contracurvas de um asfalto renovado. O sol reflecte-se no espelho de água e, pouco depois, surge um pacato casario. Após o íngreme declive da estrada, agora de em empedrado escorregadio, desci ao nível do rio.

Enquadrada entre o Douro e uma densa floresta, Porto Carvoeiro tem o estatuto de Aldeia de Portugal. Foi uma bela surpresa. Acabei rendido a este recôndito e tranquilo lugar. Em tempos este pequeno cais fluvial foi um importante entreposto comercial, onde ancoravam barcos Rabelos e outras embarcações que carregavam e descarregavam vários tipos de mercadorias, como o vinho do Porto, o sal, madeiras e o carvão.

Após uma breve pausa à borda d’ água para respirar todo aquele sossego, tirar uma fotografia e deglutir um snack, confirmei que dali eu só tinha uma saída. Voltar por onde havia chegado e subir de volta tudo o que havia descido. Confirmei também que quando escolhemos seguir um caminho desconhecido, este pode-nos dar a oportunidade de ver algo novo. Algo extraordinário.

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Ok, depois cheguei atrasado para o almoço, mas sei que este meu pequeno desvio de rota valeu bem a pena.

 

A Pertinência dos Eventos

Marta Sofia Silva @ Braga Ciclável

Publicado em 13/07/2019 às 18:27

Temas: Opinião associação Bicicleta Braga braga ciclável Braga Cidade Autêntica Braga Cycle Chic Ciclável Cicloturismo Eventos Eventos Cicláveis Marta Sofia Silva Passeios


Aconteceu em Braga, no passado dia 29 de Junho, o “V Braga Cycle Chic”. Um evento anual que, através de um passeio de bicicleta pela zona envolvente ao centro histórico da cidade, pretende promover a utilização da bicicleta em contexto urbano, no dia-a-dia. Cerca de duas semanas antes, no dia 16 de Junho, acontecia o “Ciclo Passeio Solidário de São João”. Um passeio de bicicleta, desta feita de cariz solidário e com um percurso mais alargado, dotado de uma componente informativa e histórica sobre aquela que é a maior festividade da cidade. De uma forma periódica, acontecem também os “Encontros Com Pedal”, encontros informais onde os amantes das bicicletas se reúnem para passeios temáticos ou para pedalar juntos e conhecer parceiros que a estes eventos se associam.

Muitos se questionarão da pertinência de juntar um grupo de pessoas a pedalar pela cidade. Se vale a pena todo o trabalho de coordenação e logística envolvido, para colocar um número, nem sempre previsível, mas sempre significativo, de ciclistas a circular pela cidade. Na Braga Ciclável, acreditamos que sim! É pela presença nas ruas, seja ela conjunta ou individual, que nos fazemos sentir.

Todos os dias vemos aumentar o número de pessoas que utilizam a bicicleta nos seus percursos. Nuns mais do que em outros. Basta que tiremos um par de horas, durante um dia da semana, e nos sentemos numa esplanada do eixo Rua D. Diogo de Sousa/Rua do Souto, sobretudo nas horas pré e pós horário de expediente, para perceber a enorme quantidade de pessoas que se arrisca por este percurso em bicicleta. “Arrisca” porque se trata de uma zona pedonal que, quiçá, pela presença continua de ciclistas, poderá ver o seu estatuto e condições infraestruturais revistas pelas autoridades competentes.

Mas não são apenas as instituições, como o Município ou as forças de segurança, que pretendemos sensibilizar. Queremos também fazer-nos notar junto dos automobilistas, queremos familiarizá-los com a circulação de bicicletas nas estradas para que se possa construir um respeito mútuo. Existem regras de trânsito a respeitar, nomeadamente no que diz respeito a distâncias de segurança, mas acima de tudo, existem princípios morais e humanos a preservar.

É preciso insistir, estranhar, para depois entranhar e aceitar.

 

can’t miss [204] 24.sapo.pt/desporto

paulofski @ na bicicleta

Publicado em 12/07/2019 às 11:40

Temas: motivação Almeirim ciclismo ciclistas no mundo cicloturismo coisas que leio esta malta tem cá um pedal!... longas pedaladas Nepal noticia outras coisas pedaladas solidárias Pedro Bento quem pedala assim... randonneur

Em Abril dei a conhecer aqui o objectivo que Pedro Bento se propunha concluir: pedalar os mais de 10 mil quilómetros que separam Almeirim, a sua terra natal, da capital do Nepal, Katmandu, numa pedalada solidária de angariação de fundos para os Bombeiros de Almeirim e para dois jovens nepaleses do projecto “Dreams of Katmandu”.

Cumpre-me agora partilhar também o resultado de tão epopeica viagem. Parabéns Pedro.

Pedalou 10 mil quilómetros até ao Nepal e reuniu 11 mil euros para causas

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“O atleta Pedro Bento percorreu, de bicicleta, perto de 10.000 quilómetros entre Almeirim (no distrito de Santarém) e Katmandu (Nepal) em 71 dias, tendo recolhido perto de 11.000 euros que vai entregar a várias causas.

Pedro Bento, que vai narrar a sua aventura sexta-feira (hoje) à noite, no cineteatro de Almeirim, disse à Lusa que ficaram a faltar cerca de 100 quilómetros para a meta que tinha estabelecido, mas o objetivo de reunir 10.000 euros – o lema do projeto era “1 euro por 1 quilómetro” – foi ultrapassado.

O desafio a que se propôs teve inicialmente por objetivo apoiar os Bombeiros Voluntários de Almeirim, em agradecimento por todo o apoio recebido na sequência do acidente grave que sofreu em abril de 2017, e o projeto “Dreams of Katmandu”, do português Pedro Queirós.

Pedro Bento afirmou que o apoio ao projeto de Katmandu (no total de 1.500 euros), destinado inicialmente a garantir bolsas de estudo e alimentação a dois jovens nepaleses, foi alargado à compra de uniforme e livros escolares para um outro jovem de um orfanato local e ao pagamento de uma ida das oito crianças desse orfanato, pela primeira vez, a uma piscina.”

[…]

Podes ler a notícia completa em: 24.sapo.pt/desporto/

 

can’t miss [203] santaremnomundo.blogspot.com

paulofski @ na bicicleta

Publicado em 5/07/2019 às 12:03

Temas: can't miss it 1 carro a menos até Santiago bêtêtê Caminho ciclistas no mundo cicloturismo coisas que leio dicas Europa motivação outras coisas partilha turismo

Histórias de viagens em bicicleta, aventuras pelos Caminhos de Santiago, visitas guiadas a locais relevantes da Europa. Nada melhor que uma visita ao blogue Santarem no mundo onde o autor partilha os seus momentos de cicloturismo, com abundantes fotografias e vídeos, dando a conhecer interessantes rotas “bêtêtistas” e disponibilizando boas sugestões para os amantes das longas pedaladas. É um excelente guia com excelentes conselhos que pode ajudar a planear rotas e toda a logística necessária para quem está pronto a iniciar mais uma ciclo viagem.

Não tens medo de andar sozinho?

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“Sou alvo de muitas perguntas sobre esta matéria. A primeira questão que me colocam é:

– Não tens medo de andar sozinho?
O mundo é muito melhor do que o sensacionalismo criminal das TVs indica. A perceção televisiva é que cada desconhecido é um perigo, em verdade é uma oportunidade de convívio e amizade. Em rigor não tenho tido medo, algumas vezes receio. Planeamento e prevenção são as minhas palavras-chave e solução sobre que situação for.

[…]

– Que ganhas nessas viagens?

Conhecimento histórico e social, prazer do contato com a natureza, aprender novas culturas e línguas, visitar imensos locais históricos, percorrer a beleza da vida… Ah, faço muitas perguntas; talvez seja o cicloviajante mais chato e curioso 🙂 🙂

Afinal, viajar é a única atividade em que se fica mais rico gastando dinheiro!”

Fonte: https://santaremnomundo.blogspot.com/

 

por um caminho duraDouro

paulofski @ na bicicleta

Publicado em 26/06/2019 às 12:02

Temas: marcas do selim 1 carro a menos aldeia bicicleta Carla ciclismo cicloturismo devaneios a pedais Douro fotografia fotopedaladas longas pedaladas Lugar do Castelo Mós do Douro motivação N108 N222 outras coisas passeio randonneur Régua Resende sayago blues testemunho Torre de Moncorvo Tripas Vila Nova Foz Côa

Quando se está só, sentado no selim de uma bicicleta, não há nada entre o mundo que me rodeia. Não há vidro, não há metal, não há interior climatizado que me contenha a liberdade e o tempo. Apenas o devaneio e o espaço. Apenas o ar que respiro, que me torna vivo. Livre, a ambiência chega natural e envolve-me nas variáveis condições. Nos humores do clima e na ambiguidade da estrada. Os sentidos, esses, são seduzidos a cada curva.

por um caminho duraDouro #3 por um caminho duraDouro #1 por um caminho duraDouro #10

Pedalar pelas nuances do Douro é pura alegria. A estrada empina e desempina. Tão depressa se levanta o rabo do selim como se baixa o queixo e se fincam as mãos, em alta velocidade. A bicicleta tem asas. Com o ímpeto do vento na cara, com o fôlego renovado pela companhia do exuberante vale, ganha-se um momento de emoção em mais uma fotografia, capturando coloridos lembretes da encantadora manhã, do cenário, desprezando o desconforto do selim e o protesto das pernas.

por um caminho duraDouro #12 por um caminho duraDouro #14 por um caminho duraDouro #15

É uma bofetada de estímulos sensoriais que alimentam o espírito e regulam o corpo. É a sensação maravilhosa do vento na pele, das variações do clima. Um furor de aromas que invade as narinas, não apenas o perfume das flores mas dos campos lavrados, do pão a ser cozido e da chuva fresca no asfalto quente. Em movimento se explora tudo, a estrada, uma montanha, uma aldeia. Tudo aquilo, que me chega e uma leve brisa tem para me oferecer. As expressões nos rostos das pessoas. Um ou outro pormenor, que me prende a atenção e me recorde uma canção.

por um caminho duraDouro #5 por um caminho duraDouro #4 por um caminho duraDouro #6

A música que se ouve à passagem, esse coro de risos e vozes, medley sonoro da natureza misturado nos fragores da humanidade. Acordes fortuitos que ficam na cabeça por algum tempo. Os maravilhosos contornos do horizonte, um padrão definido no céu, os pontos altos daquela elevação. Ao ritmo de um cágado, girando os pedais, pingando suor, a escalada não é fácil. Dentes cerrados, ritmo lento. Embrenhado no meu pensamento, envolvido numa espécie de mantra com aquele cenário à minha volta, é sempre um reforço motivacional e energético.

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É espantoso o ruído que me ensurdece quando embalo na descida, sentindo as suaves vibrações das rodas no pavimento, dobrando as curvas, pisando algo solto no asfalto. Uma espécie de caos coreografado, acelerado, concentrado. Por vezes o ar é pesado, outras vezes é um quente e frio que me faz arrepiar caminho. Não preciso de ser mais rápido, apenas sentir-me vivo, decidir por onde ir, até onde quero ir e seguir no próprio ritmo.

por um caminho duraDouro #16 por um caminho duraDouro #11 por um caminho duraDouro #2

Não importa quantas vezes eu pedale por ali, pelo Alto Douro Vinhateiro, que nunca serei capaz de compor tudo numa só imagem. Nunca serei capaz de exprimir tudo num só parágrafo. Tudo aquilo alimente a mente e a imaginação. Uma encenação dos deuses em horas de contemplação, num dos mais simples e agradáveis actos que é a alegria de pedalar uma bicicleta.

 

CargoBikeFestLx

Ana Pereira @ Cenas a Pedal

Publicado em 26/06/2019 às 0:37

Temas: Eventos Iniciativas necessidades especiais Notícias Notícias CaP Pedelecs e e-bikes Produtos CaP bicicletas de carga

É já no próximo domingo dia 30 de Junho que vai ter lugar aqui em Lisboa, (integrado no evento A Rua é Sua!, da Câmara Municipal de Lisboa, em que o trânsito automóvel é interditado nos Restauradores e na faixa de rodagem central da Avenida da Liberdade e dado espaço a actividades de animação da rua), o 1º CargoBikeFestLx, um encontro que visa celebrar e divulgar as bicicletas de carga para facilitar (e tornar mais fixe!) a vida na cidade. Tipo o evento do Dia da Mãe de 2017, mas ainda mais alargado! 🙂

1º CargoBikeFestLx

30 de Junho de 2019, 11h-17h, Avenida da Liberdade, Lisboa

Programa:

»» Encontro de utilizadores
»» Exposição (bicicletas de lojas e de utilizadores privados!)
»» Gincana (vamos testar a perícia da malta em bicicleta de carga! 🙂 )
»» Workshops:

  • Segurança passiva (Cedric Leclerc)
  • Segurança activa – condução preventiva (Ana Pereira)
  • Segurança anti-roubo para bicicletas de carga (Miguel Cambão)
  • Pedalar com chuva (João Ralha)
  • Utilização da bicicleta de carga no dia-a-dia (António Leitão)

Esperamos ter malta a aparecer com bicicletas e triciclos, normais e eléctricas, longtails, midtails, bakfietsen, compactas, atrelados, etc.

Nós vamos estar presentes oficialmente pelo menos com a nossa bakfiets compacta e-Muli (c/ kit Pendix) + atrelado da CarryFreedom e com a longtail Surly Big Dummy do Bruno. Mas desconfiamos que deverão aparecer por lá também coisas como a longtail compacta pedelec Tern GSD, a midtail Yuba Boda Boda pedelec e normal, a bakfiets pedelec Riese und Muller Load, a bakfiets Babboe, o atrelado Croozer, a longtail Yuba Mundo, a quasi-midtail pedelec Riese und Muller Multicharger, o triciclo de passageiros Van Raam OPair, a bakfiets Christiania, uma longtail Xtracycle, um triciclo Nihola, uma longtail Radwagon, etc, etc. 🙂

Se tens uma bicicleta de carga, junta-te a nós neste encontro! E não é preciso muito para transformar uma bicicleta normal numa “de carga”, cadeiras de criança, cestos, alforges, caixas, aumentam dramaticamente a capacidade de carga de qualquer bicicleta – não te coíbas de aparecer. 😉

Se não tens uma bicicleta de carga mas estás curioso, não percas esta oportunidade. MESMO! Em Portugal, encontrar esta variedade potencial de bicicletas num só lugar, e poder falar com quem as usa acerca da sua experiência, é mesmo uma oportunidade única.

Organização: MUBi, Bicicultura, Cenas a Pedal, Câmara Municipal de Lisboa (projecto europeu City Changer Cargo Bike)

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can’t miss [202] publico.pt

paulofski @ na bicicleta

Publicado em 5/06/2019 às 9:20

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Mesmo sem previamente ter solicitado autorização ao autor do texto, Abel Coentrão, transcrevo na mesma, na integra, o excelente artigo de opinião publicado na edição do Publico P3 de segunda-feira, 3 de junho passado.

Bicicleta, uma arma para a democracia urbana

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Diz o calendário que dia 3 de Junho é Dia Mundial da Bicicleta. Em Portugal, ou nas cidades portuguesas, não é ainda. Vai começando a ser, à medida que alguns autarcas, numa corrida não isenta de opções técnicas erradas, se atiram a cicloviar (desculpa-me o verbo inventado), as ruas que, nas últimas décadas, deixamos que fossem transformadas em estradas. O país está naquela fase em que se estranha, e até entranhar, vamos ter de nos habituar a levar com a ignorância de quem, desconhecendo o código, ainda acha que um ciclista deve baixar do seu veículo para atravessar a pé uma passagem para velocípedes devidamente assinalada. Um acto que pode dar multa pois nenhum peão, que é o que somos, de bicicleta na mão, deveria atravessar ali.

A morte é, para já, eterna, a ignorância pode não ser, se a quisermos combater. E o mesmo acontece à mudança, que só não acontece a quem não se predispuser a ela. Em Setembro do ano passado, nas vésperas do Dia Europeu Sem carros, entregámos, lá em casa, um automóvel para abate, ficamos com outro, e comprámos, para as deslocações que fazíamos sozinhos, e sem os filhos, uma bicicleta. Que poderia ser convencional, mas é eléctrica, para colmatar as debilidades de uma deficiência física que me acompanha desde que nasci.

Portugal está quase a ver publicada a Estratégia Nacional para a Mobilidade Activa 2020-2030, que pressupõe uma inversão de prioridades na forma como nos deslocamos. Diz a nossa estatística doméstica, comum à de muitas casas por essas cidades fora, que deixámos de ter dois carros parados 95% do tempo na estação de metro de onde seguimos, 30 quilómetros em transporte público, para o trabalho. Passamos a ter um, com um uso mais racional, está bom de ver. O utilitário que abatemos conseguia a proeza de estar 100% parado na maior parte dos fins-de-semana. E nunca nos tínhamos questionado sobre isso.

Entretanto, como desejávamos, vendemos uma casa num espaço periurbano, onde essa dependência do automóvel me incomodava o espírito de poluidor em remissão e, principalmente, um ombro direito, sobrecarregado, na condução, pela debilidade do esquerdo. E como, com um ombro a latejar, escrever se torna tarefa impossível, preservar o instrumento do meu trabalho enquanto jornalista parecia-nos razão suficiente para deixar para trás uma casa de sonho. Sem deixar de sonhar.

Há um mês deixámos assim uma casa com áreas generosas e cheia de boas memórias, e fomos para um apartamento, grande, mas muito menos espaçoso, claro, quase no centro da cidade ao lado. A cadela estranhou, todos estranhamos, mas, por motivos vários, já conseguimos entranhar a mudança. E um desses motivos é a mobilidade. Se antes estávamos a 3,5 quilómetros do comboio, agora vemo-lo da varanda, e quase dá para gritar que esperem por nós, se nos atrasarmos. E se a pé tínhamos só um mini-mercado, agora, num raio de cinco minutos, temos todas as opções, em modo comércio local.

Mas a melhor surpresa antecipámo-la no primeiro dia, em que, enquanto nos entretínhamos a carregar caixas e caixas, na rua funcionários da autarquia pintavam símbolos de bicicletas na faixa de rodagem, junto à berma.

Estranhámos o presente, sabendo que não tinha anunciado, ao município da Póvoa de Varzim – cujo presidente vai de bicicleta para o local de trabalho – que íamos mudar-nos para ali. Uma das minhas vizinhas, que gere uma loja no prédio, estranhou também, e, num interessante debate entre quase desconhecidos, aceitou ser convencida do erro em que enformava o seu raciocínio. A vizinha reclamava que os seus clientes já não teriam um sítio para estacionar. E eu, que atravessara de carro aquela rua algumas vezes, perguntei-lhe se ela alguma vez tinha reflectido no facto de essa fila de carros ali parada, tapando, agora, as bicicletas desenhadas no chão, obrigar os automobilistas a descer a rua em contramão, em clara infracção.

Desenhar bicicletas no piso de uma estrada onde não há uma via dedicada para ciclistas parece um desperdício de recursos. E será, no dia em que todos percebermos que uma bicicleta, ou velocípede, no jargão do Código da Estrada, é um veículo com praticamente os mesmos direitos e deveres dos restantes. Nesse dia, as bicicletas pintadas na faixa de rodagem das ruas das nossas cidades servirão, quando muito, para lembrar àqueles que julgam que, sendo de todos, a estrada é basicamente sua, que há mais quem precise daquele espaço; e que o Estado não tem de investir na criação de um número infinito de lugares de estacionamento.

As mesmas pessoas que reclamam por um sítio para estacionar o segundo ou terceiro carro que já não cabe na garagem, ou que compram um único automóvel mas esperam que a câmara – nós todos – assuma o preço do espaço para o estacionar na rua são, não raras vezes, as mesmas que reclamam pela introdução dos limites de 30 km/h. São, não raras vezes, as que se queixam das passadeiras elevadas que lhes “estragam” as suspensões. São, no fundo, as que acham que a cidade deve fazer tudo para facilitar a sua existência enquanto automobilistas, esquecendo o quanto estas medidas impactam, positivamente, na nossa vida, a deles incluída, sempre que assumimos o papel de peões e de ciclistas.

Depois de uma época em que se estreitaram passeios e até derrubaram árvores para arranjar mais espaço para carros parados ou em andamento, em nome de uma certa ideia de fluidez, muitos dos nossos autarcas, mesmo os que raramente andam a pé ou de bicicleta, já perceberam que poderão não perder muitos votos – e até ganhar alguns de onde não esperavam – se responderem positivamente àqueles para quem se tornou urgente uma outra revolução: as nossas estradas têm de voltar a ser ruas – com ou sem carros – mas acima de tudo espaços onde seja seguro circular em modos activos, ou suaves como também se diz.

Esta é uma questão de saúde pública, de ambiente, mas também de sociabilidade e democracia. O espaço público não pode ser um quase-exclusivo de quem tem o dinheiro ou o crédito, ou a idade para ter um automóvel. E para respirar ar puro não deve ser necessário andar quilómetros até ao parque urbano mais próximo. Qualquer sociedade poderia impor esta agenda andando mais a pé – ou protestando pelo direito a fazê-lo em segurança­ – mas a bicicleta tem uma vantagem óbvia. Ao disputar directamente espaço ao carro particular, ela é uma arma com um potencial enorme para tornar evidente a ditadura do automóvel em que (ainda) vivemos, com as consequências nefastas em termos de sinistralidade rodoviária que bem conhecemos.

Essa ditadura está bem patente quando um automobilista, com a arrogância insuflada pela ignorância, mostra, de viva voz, que pára por favor na estrada para um ciclista atravessar onde a lei diz que o deve fazer sem sair do seu veículo. Enquanto houver gente a comportar-se assim, olhando de cima para quem lhe vem roubar um privilégio, a bicicleta tem que ser celebrada, como coisa estranha que ainda é. Porque temos o direito a sonhar por um país em que a democracia chegue também ao espaço público.

(fonte: www.publico.pt)

 
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