o ciclista mascarado

paulofski @ na bicicleta

Publicado em 1/05/2020 às 7:45

Temas: motivação 1 carro a menos bike to home bike to work ciclismo urbano ciclistas urbanos do Porto covid-19 devaneios a pedais fotografia fotopedaladas máscaras mobilidade opinião outras coisas pandemias penso eu de que... Porto testemunho

Os trabalhadores da saúde, independentemente da função que exercemos, estamos todos a usar máscara no hospital. Se no início estranhei colocar o “açaime”, como lhe chamo, o uso da máscara já se entranhou de tal forma no meu quotidiano laboral que já saí a pedalar com ela na fronha. Hoje só dei conta dela quando chegava a casa! Pensando nisso, resolvi fazer esta selfie e vir aqui falar sobre isso.

Está comprovado, o uso de máscara é uma medida crucial na prevenção da disseminação do coronavírus. Ajuda na nossa protecção, mas é ainda mais crucial na prevenção. Pessoas assintomáticas podem ser portadoras e assim infectar outras pessoas. Quando é difícil evitar contacto próximo com outras pessoas, é sensato usar máscara, como por exemplo em ambientes fechados, nos transportes públicos e supermercados.

E quando estamos a correr ou pedalar ao ar livre? A OMS recomenda o exercício físico, os passeios a pé ou de bicicleta, mas também recomenda o distanciamento físico. Usar uma máscara durante estas actividades apenas substitui um risco à saúde por outro. À primeira vista parece ser recomendável cobrir o nariz e a boca enquanto se está a exercitar, mas essa medida pode levar a outros problemas. Usar máscara durante o exercício, a respiração mais ofegante tende a tornar-se mais difícil. Outro facto é que a máscara ficará molhada e deixa de ser eficaz. As máscaras húmidas perdem a eficiência antimicrobiana, podendo inclusive potenciar um possível contágio.

A recomendação é que os atletas, corredores e ciclistas, se exercitem livremente, devendo contudo manter a maior distância possível dos outros. Não há evidências suficientes para lhes exigir o uso de máscara. Durante a prática desportiva, e no exercício do commute, ou seja do transporte em bicicleta para e do trabalho, o importante é estar sozinho. Mas, se por um acaso encontrar um amigo, é importante socializar, mantendo uma certa distância. É que se estiver de máscara é possível que ele não me reconheça.

 

can’t miss [212] mubi.pt

paulofski @ na bicicleta

Publicado em 28/04/2020 às 12:09

Temas: can't miss it boas ideias ciclismo ciclismo urbano cidades coisas que leio covid-19 mobilidade motivação MUBI noticia opinião outras coisas partilha segurança das biclas segurança rodoviária

A associação MUBI escreveu ao Governo propondo o plano para fazer da bicicleta uma alternativa no pós-covid, defendendo medidas como a diminuição da velocidade para 30 km/h e o incentivo à construção de ciclovias para evitar o regresso massivo ao uso do automóvel.

A bicicleta, uma aliada na saída do confinamento

Imagem-semaforo.jpg

“Preparamo-nos para a saída do confinamento e teme-se um incremento da utilização do automóvel individual, com congestionamento e poluição das nossas cidades. Os modos activos de deslocação têm-se provado seguros e saudáveis durante a pandemia, contribuem para a resiliência dos sistemas de transporte e ajudam a descongestionar os transportes públicos. Tal como se observou em 2008, com a degradação das condições económicas, é previsível que a bicicleta assuma um papel importante na mobilidade dos indivíduos. A MUBi propõe um plano de medidas prioritárias para apoiar e fomentar o uso dos modos activos durante a saída do confinamento. […]”

Podes ler aqui no site da MUBI a noticia completa com o plano de medidas propostas ao Governo  para apoiar e encorajar os modos activos de deslocação como modo preferencial de transporte durante o período de saída progressiva do confinamento.

 

Thank you, John Forester

Ana Pereira @ Escola de Bicicleta

Publicado em 24/04/2020 às 0:07

Temas: Acidentologia Aprender e ensinar Pessoas ativistas pessoas

Foi em 2007 que comecei a interessar-me pela questão do Código da Estrada e as bicicletas e pela questão da formação em condução de bicicleta (e de carro, face a bicicletas!). Muita pesquisa fiz eu nesses primeiros anos, principalmente, era tudo novo. Em 2007, no ano em que publiquei as FAQ do Código da Estrada, li o Effective Cycling. Em 2008 o Bicycle Transportation. Ambos escritos pelo John Forester, uma figura incontornável do cicloativismo e que cunhou o termo “vehicular cycling” e o mantra “Cyclists fare best when they act and are treated as drivers of vehicles.

Estes livros, em particular o segundo, e o trabalho do John Forester (e de vários outros que lhe seguiram ou que foram seus contemporâneos), mudaram a minha vida.

Aprendi a conduzir uma bicicleta em qualquer contexto, de forma confiante e segura, e deixei de sentir limites ao que podia fazer de bicicleta, aonde podia ir ou deveria ir, por onde poderia circular, e qual era “o meu lugar” na via pública, no espaço público. Em 2008 comecei a formar outras pessoas para atingirem o mesmo resultado.

Comecei a ganhar uma noção mais clara da inferiorização que as nossas sociedades carrocêntricas fazem de quem não se encontra dentro de um carro, e de como essa inferiorização é perpetuada através de políticas públicas, urbanismo, legislação, regulamentação, formação de condutores, cultura das forças policiais e judiciais.

Percebi também que a promoção da bicicleta era muitas vezes uma causa cega, e era feita de forma a tornar a bicicleta aparentemente mais atrativa para mais pessoas, mas sacrificando a sua segurança e a sua conveniência, em nome da captação de mais utilizadores, que frequentemente não surgiam, e quando surgiam não vinham do carro para a bicicleta, que era a única forma de se estar a resolver algum problema.

O John Forester fez de mim uma condutora de bicicleta muito diferente. E fez-me também uma ativista muito diferente.

Uma figura polémica até ao fim, e bastante desprezada por muitos ativistas das últimas décadas, o John Forester não era uma pessoa agradável de trato, pelo menos no âmbito dos temas da bicicleta. Mas isso é irrelevante. Foi o trabalho dele em defesa do direito dos utilizadores de bicicleta ao uso das estradas (numa época em que este esteve em risco de ser revogado, o que teria condenado o futuro da bicicleta como meio de transporte, desporto e lazer – em Portugal não estivémos também assim tão longe), e na área da educação dos condutores para que esse uso seja o mais seguro possível (além de prático e eficiente), que lhe deram o estatuto que tem.

Como é óbvio, não concordo com tudo o que o Forester defendia, e sei que o trato abrasivo que tinha só contribuiu para criar anti-corpos nas outras pessoas (nomeadamente nas que não concordavam com ele). É uma figura polémica, muito por ignorância e/ou por desonestidade intelectual, ou pelo menos alguma soberba, sempre me pareceu, dos seus críticos na análise dos factos e dos seus argumentos, e na contextualização das suas ações (os EUA dos anos 70 não eram a Holanda dos anos 70, e muito menos a Europa dos anos 2000 e 2010’s. Os argumentos clássicos são “o “vehicular cycling” falhou como estratégia de promoção do uso da bicicleta”, e o “se a segregação das bicicletas é assim tão má, porque é que na Holanda anda tanta gente de bicicleta?”.

Ora, o “vehicular cycling” não é propriamente uma estratégia de promoção do uso da bicicleta, é um modelo educacional para salvaguardar a integridade física de quem usa a bicicleta em cidades onde há carros, e muitos, e/ou a andar muito depressa (que são todas as cidades do mundo, praticamente), e garantir a competitividade da bicicleta como meio de transporte, em termos de tempos de deslocação. Claro que se dermos às pessoas uma ferramenta que lhes dá mais segurança e maior eficiência a usar um modo de transporte, é mais provável que elas o adotem, mas isso é um efeito colateral – o objetivo é melhorar a vida a quem já o adotou ou já quer mesmo adotá-lo. Como analogia, não é por tirarmos a Carta de Condução que vamos querer andar de carro, tiramos a Carta de Condução porque já queremos andar de carro, e queremos andar de carro porque a rede de estradas é imensa, razoavelmente segura e confortável, direta, temos estacionamento fácil e gratuito ou quase em todo o lado, o crédito à compra é fácil, nascemos numa cultura em que toda a gente anda de carro ou quer fazê-lo, e onde o carro é uma forma de expressão de status sócio-económico – e vivemos numa cultura onde esta ostentação é tolerada, e porque o carro é uma bolha física e psicologicamente confortável. Além disso, o nosso (des)ordenamento do território e políticas públicas de urbanismo e mobilidade sofríveis, faz com que o carro seja grosseiramente mais rápido e/ou confortável do que qualquer outra forma de deslocação, principalmente fora dos maiores centros urbanos.

Na Holanda, e noutros países, não é a segregação das bicicletas que justifica os números de utilizadores. É a segregação dos carros – na forma de ruas sem saída para carros, menos espaço alocado ao carro, pouca oferta de estacionamento para carros, cara e “fora de mão”, impostos altos na compra de carros, maior fiscalização dos comportamentos anti-sociais (estacionamento abusivo, excesso de velocidade, etc), acalmia de tráfego, cultura mais avessa à ostentação de status sócio-económico por via de bens materiais, etc, além da cultura universal da bicicleta como um meio de transporte, e a excelente articulação com uma boa rede de comboios (e outros modos). E mesmo assim, a quota modal do carro não é muito diferente da nossa, a bicicleta compete principalmente com o andar a pé e com o transporte público – a segregação dos veículos por modo, além da normal segregação por destino, torna todo o sistema mais ineficiente, nomeadamente com as medidas necessárias à mitigação do risco acrescido criado pela segregação (nomeadamente os semáforos).

Uma pessoa versada nos princípios tornados famosos pelo Forester, anda de bicicleta de forma segura e eficiente em qualquer lado, em qualquer infraestrutura, em Lisboa, em Londres, em Copenhaga, em Amesterdão, ou na China. Pessoas experientes a andar de bicicleta em sítios como a Holanda ou mesmo como Sevilha, só andam de bicicleta na Holanda, ou em Sevilha (e muitas vezes sofrendo colisões causadas pela segregação), chegam a cidades bastante pacíficas (all things considered) como Lisboa dos últimos 10 anos e encostam a bicicleta, porque não sabem partilhar as estradas em segurança com os carros em sítios onde as bicicletas rareiam.

Mas este post não é para entrar em argumentações nem em revisões da história da bicicleta e do cicloativismo (been there, done that, já não tenho tempo nem paciência). Este post é para lembrar, e agradecer publicamente, o trabalho de imenso valor de uma pessoa que o mundo perdeu recentemente, e a quem eu e muitos outros utilizadores de bicicleta têm uma eterna dívida de gratidão. Thank you, John Forester!

John Forester – Foto: Peter Flax

The post Thank you, John Forester appeared first on Escola de Bicicleta.

 

diários de um ciclista urbano numa cidade (quase) fantasma

paulofski @ na bicicleta

Publicado em 21/04/2020 às 11:58

Temas: motivação 1 carro a menos bicicleta bike to work ciclismo urbano ciclistas urbanos do Porto cidades covid-19 devaneios a pedais devaneios apeados fotografia fotopedaladas mobilidade no meu percurso rotineiro pr'o trabalho opinião outras coisas Porto quarentena testemunho

XR5UDidyrHSXprxTjvge3S7-c5IxcUe66lSCS2JRLLc-2048x1536.jpg

Antes da pandemia as palavras significavam o que elas significavam. Agora, não. Agora, os dicionários, assim como o glossário que nos entra em casa, têm outro conteúdo, outra incerteza. Curva epidemiológica; Cerca sanitária; Ventilador; Letalidade; Vírus… A tele-escola da covid-19 obriga-nos a re-alfabetizar. A adoptar conceitos que devem ser explicados e entendidos, sobretudo nos tempos extraordinários como os que vivemos.

Re-alfabetizado, portanto, passei a época da Páscoa e a semana seguinte confinado em casa, em evicção – mais uma palavra a acrescentar ao meu vocabulário. Poderia estar feliz, sentindo-me sadio por estar livre, até ver, do vírus. Poderia estar sereno, em paz, por estar em casa, horas infinitas a ler, a ver filmes, me rendendo ao comportamento bovino e passivo do noticiário e das redes sociais.

“As saudades que eu já tinha da minha
alegre casinha tão modesta quanto eu
Meu Deus como é bom morar no rés do
primeiro andar a contar vindo do céu…”

Um edifício entre muitos edifícios. Um apartamento entre muitos apartamentos. Com os ouvidos percebo o que a vizinha de cima calça, com o olfato sei o que os vizinhos da frente estão a cozinhar. Distanciamento social, o que é isso? Nunca estivemos tão longe uns dos outros, tão apartados, tão separados, e, por incrível que pareça, nunca estivemos tão perto. Passamos agora os dias ao vídeo-telefone com a família.

Desde que a normalidade foi cancelada, em qualquer noite deste Abril apocalíptico que durmo mal. Ando ansioso, meio abatido, com receio do futuro. Tenho alternado “dias sim” e “dias não”. Sem o pretexto de sair a pedalar para o trabalho, evitei a bicicleta. Um verdadeiro ansiolítico, que me poderia atenuar estes dias de quarentena privilegiada, não sentei o rabo no selim. Fiquei em casa, numa espécie de penitência. Com o desejo de pedalar para qualquer lugar, o meu estado de espírito estava longe, do lado de fora da janela.

Respeitando o distanciamento social, o sol permitiu-me escapar de mão dada com a minha mais que tudo, em precárias saídas da prisão domiciliária para as compras essenciais. Ir à padaria, ir à mercearia,  “deitar o lixo”. Esticar as pernas e tomar ar, em curtos momentos de liberdade para fazer os tais “passeios higiénicos”. O privilégio de explorar e usufruir a natureza, os maravilhosos jardins que temos à volta de casa.

A primavera não foi avisada e o planeta está a beneficiar do confinamento dos humanos. O novo coronavírus esvaziou ruas, encerrou negócios e interrompeu milhões de vidas, menos o canto dos pássaros. Com a brusca diminuição da presença humana nas ruas, os animais selvagens urbanos têm caminho livre para reivindicar a cidade.

O tempo mudou de tempo, e o novo tempo é de estar desconfiado, de tudo e de todos. O bicho é cruel e democrático, mas o mundo dividido em dois, entre as pessoas que respeitam as normas pelo bem de todos e as que somente pensam nos seus próprios interesses, a paciência está a esgotar-se. Quanto tempo vai demorar, ninguém sabe. Dia após dia fica cada vez mais difícil, mas não é apenas do ponto de vista económico que os comportamentos irracionais emergem. Há o mecanismo cobiçoso que faz com que pessoas que se dispunham a respeitar as regras, ao ver a tendência de maus exemplos desejam violar também esse compromisso É a teimosia do egoísmo, do “se os outros não cooperam, nós também não cooperamos”. O problema é que estas pessoas incumpridoras são as mais perigosas.

Terminado este período de evicção… Ok, para vos poupar o trabalho de pegar num calhamaço Português-Português, “evicção” é, no caso, mais ou menos isto: a redução do ritmo de trabalho com vista à prevenção do profissional de saúde perante acidentes e doenças profissionais.

Prontes, então, dizia eu, terminado este período de evicção, volto finalmente a alapar o rabo na bicicleta. Noto que as ruas já não estão tão desertas, há mais movimento rodoviário, mas as escolas e as lojas permanecem fechadas. Ao início da manhã, estou a chegar ao local de trabalho no centro da cidade. A corrente ecoa em ruas outrora congestionadas. Não estranho pois o tempo de chuva é aliado com as autoridades nestes tempos de confinamento. Só mesmo quem realmente precisa é que pedala nas ruas. “Pareces um maluquinho!”, ouço à chegada!

UAH1Vu7sAAvKi8ej7cVpSdykTSFbV8bZbddy7xE6gpk-2048x1536.jpg

 

Depois da Pandemia

Zé Gusman @ Braga Ciclável

Publicado em 18/04/2020 às 13:02

Temas: Opinião Braga COVID 19 Depois da Pandemia Desenvolvimento José Gusman Barbosa Mobilidade Modos Ativos pandemia


Subitamente vimo-nos todos no centro daquilo que sentimos como uma qualquer distopia de ficção científica filmada em Hollywood. Dizem os cientistas que ainda há muito para descobrir sobre este vírus. Questões como qual é a sua taxa de letalidade, a sua sensibilidade às condições ambientais, o grau de imunidade que tem alguém que tenha sido previamente infetado e a percentagem de pessoas infetadas que não apresentam sintomas, não têm ainda respostas estabelecidas. Das respostas que obtivermos, vai depender muito do nosso futuro próximo.

Sabemos, no entanto, que o vírus é especialmente perigoso para os mais velhos e por isso, aceitamos empenhadamente as medidas que as autoridades definiram como necessárias para o conter. Essas medidas têm um custo económico enorme, fala-se que poderá ser a maior recessão dos últimos cem anos, mas essa é uma fatura que aceitamos pagar, numa prova de grande solidariedade intergeracional.

Embora estejamos a percorrer um caminho ainda com mais dúvidas do que com certezas, sabemos que chegará o momento em que o problema de saúde pública estará controlado e teremos de começar a reconstruir as nossas economias. Estou tentado a adivinhar que por essa altura ouviremos muitas vezes o argumento de que deveremos pôr de lado preocupações ambientais para favorecer o crescimento económico. Não estarei a falhar por muito se imaginar que, entre outras coisas, serão postos em causa, por exemplo, os limites e taxas às emissões de carbono, a proteção da biodiversidade terrestre e marinha, o ordenamento urbano, bem como as limitações ao tráfego automóvel e a promoção dos transportes públicos e da mobilidade ciclável.

Não tenho grandes ilusões e sei que este argumentário terá muitos adeptos, mas fará realmente sentido? Não me parece. Independentemente da pandemia, os problemas ambientais não deixaram de existir. Se fomos capazes de, a uma escala global, parar para proteger os nossos mais velhos, não seremos capazes de nos mobilizar para estratégias de desenvolvimento que protejam os mais novos, nomeadamente aqueles que ainda não nasceram?

 

can’t miss [211] randonneursportugal.pt

paulofski @ na bicicleta

Publicado em 7/04/2020 às 9:48

Temas: can't miss it ciclismo ciclistas no mundo cicloturismo coisas que leio dos malucos das biclas voadoras esta malta tem cá um pedal!... França motivação outras coisas Paris-Brest-Paris partilha randonneur testemunho

Voltando a satisfazer o compromisso de aqui partilhar relatos dos aventureiros tugas no Paris-Brest-Pairs de 2019, ao ritmo que vão saindo novos testemunhos do forno dos Randonneur Portugal, chega a vez de dar a conhecer a crónica de Carlos Herlander, um dos randonneurs repetentes do PBP.

Sai mais um excelente relato, leitura apropriada a estes tempos de confinamento e de pouco entretenimento.

“…quando dou por ela estou em Brest, desta vez noite clara a proporcionar uma visão magnífica lá do alto da ponte…”

IMG_8391aaaa-193x300.jpg

Carlos Herlander
Randonneurs Portugal Nº20120060
Paris Brest Paris 2019

[…] “Seguia eu de madrugada, mais ou menos congelado, pois tinha acabado de sair de Fougeres onde dormi duas horas (desta vez sob as estrelas que a árvore ficou em Brest) e ainda não tinha conseguido aquecer, quando junto a uma casa tipicamente rural vejo uma luz proveniente dum candeeiro a gás colocado em cima duma mesa onde não faltavam bolachas e bolos de todos os feitios. Assim que paro, aparece-me logo um casal de velhotes, enrolados em mantas. Tinham dado um pulo a casa para renovarem o stock de café quente. Em noite fria, café a ferver acabado de fazer e bolinho caseiro não é para todos. Brevemente, alguém em França irá receber um postal do Ribatejo acompanhado duma garrafa de vinho do Porto. É por estas e por outras que o PBP é o que é!” […]

Podem ler o relato completo do Carlos em: https://www.randonneursportugal.pt/pbp-2019-por-carlos-herlander/

 

diários de um ciclista urbano numa cidade fantasma

paulofski @ na bicicleta

Publicado em 28/03/2020 às 11:21

Temas: testemunho 1 carro a menos bicicleta bike to home bike to work boas ideias ciclismo urbano cidades coisas que vejo covid-19 devaneios a pedais fotografia fotopedaladas mobilidade motivação opinião outras coisas Porto quarentena Sua Alteza

Esta coisa do coronavírus, codvid-19, quarentena, estado de emergência, virou muitas vidas do avesso. Pessoas confinadas ao domicilio, escolas encerradas, fábricas paradas, comércio de rastos. Uma pandemia com efeitos devastadores imediatos.

Por motivos profissionais, o meu dia-a-dia pouco se alterou. A vida continua, e para que vá trabalhar continuo a pedalar, exclusivamente utilizando a bicicleta como meio de transporte, fazendo os meus percursos habituais, observando o Porto, sentindo o pulsar moribundo de uma cidade (quase) fantasma.

O Porto assim tão deserto é o éden rodoviário para o ciclista urbano tripeiro. Mas não, preferia ver a normalidade de uma hora de ponta. Normalidade aparente que se vive no hospital. Qualquer mensagem de apoio dá motivação e compromisso aos nossos guerreiros. Obrigado Super Dragões.

Hora de ponta do chamado “dia útil” é mais calma que uma manhã de domingo! No commute matinal, a certa altura, numa rua momentaneamente sem carros e sem gente, senti-me como um aventureiro do apocalipse.

Diz que em tempo de guerra não se limpam armas e a nossa arma perante tão malévola ameaça é o distanciamento social, a protecção individual, respeitar e acatar as indicações das autoridades. Mesmo que na tua pedalada solitária passe um colega de trabalho, não te aproximes dele e deixa-o ir.

Fica em casa. No fim de semana não podes ir dar a tua demorada volta recreativa, dá asas à imaginação. Olha, dá uma volta nos rolos… Não tens rolos nem o Zwift, coiso, tive uma ideia mas desde já te aviso, evita o rolo da massa, dá uso aos rolos de papel higiénico que açambarcaste e ainda deves ter aos montes.

Evita ao indispensável necessário as saídas higiénicas, passear o cão, o gato, o piriquito, ou então não imitar gente estúpida como os meus vizinhos que andam a butes na ciclovia em amena cavaqueira. Distanciamento social, o qu’é isso? Deixem-se estar que estão bem, cambada de…

🎼 só eu sei porque fico em casa 🎼, no fim de semana porque segunda feira, bute. Mas…

 

 

Braga Ciclável apela ao uso da bicicleta

Braga Ciclável @ Braga Ciclável

Publicado em 27/03/2020 às 0:17

Temas: Recortes de Imprensa Bicicleta braga ciclável Correio do Minho covid


A Associação Braga Ciclável sugeriu ao presidente da Câmara Municipal de Braga, Ricardo Rio, que pedisse aos munícipes para “evitarem o uso dos transportes públicos durante este período, apelando para que, nos casos excepcionais em que tenham que fazer alguma deslocação, o façam recorrendo, sempre que possível, ao uso da bicicleta”.

Outra das sugestões apresentadas à edilidade foi a redução temporária do número de vias na Avenida da Liberdade, Avenida 31 de Janeiro, Avenida Imaculada Conceição, Avenida João XXI, Avenida João Paulo II, Av. Robert Smith e Av. Dr. António Palha. No entender da associação possuem actualmente, menos trânsito (devido à pandemia do Covid-19), mas registam velocidades mais elevadas por parte dos automobilistas. “A supressão de uma via de trânsito em cada uma destas artérias, levará a uma acalmia de tráfego que é desejável e necessária para a segurança de todos”, considera a Braga Ciclável.

As sugestões apresentadas têm como referência as práticas adoptadas por algumas cidades da Dinamarca, Holanda e Reino Unido.

Além dos benefícios do exercício físico, o uso da bicicleta evita que as pessoas viagem em espaços contaminados.

@Correio do Minho 27 de Março de 2020

 

O contra-relógio

Blogueaomundoembicicleta @ Blogue ao Mundo Em Bicicleta

Publicado em 18/02/2020 às 14:30

Temas: Ciclismo

Os gajos estavam nervosos.

Um grupo de 9 gajos ali no meio (comigo 10), de volta de um saquinho de plástico, tentando distribuir uns dorsais.

– Quem é o Edgar Santos?

IMG-20200216-WA0011[1]

9 gajos (comigo 10) que mal se conheciam, vestidos cada um com o que calhou, com bicicletas todas diferentes, parecendo tudo menos uma equipa.

– Vais levar esse casaco? Vais ter calor.

– Não, depois tiro. Está um frio do catano.

– Como combinámos levar um jersey azul, e esse casaco é azul, pensei…

IMG-20200216-WA0012[1]

Passava pouco das 8 da manhã de um domingo daqueles de inverno, em que nem chove, nem faz sol. A rotunda dos trabalhadores do campo estava com uma animação invulgar para um domingo de manhã.

À volta daqueles 9 gajos (comigo 10), que tentavam quebrar o silêncio com conversas de circunstância, estavam as equipas. Os carros (daqueles com várias barras no tejadilho e logotipos nas portas) alinhados a esquadro, ladeando as tendas (daquelas 3 x 3, coloridas, com badejas com o nome da equipa), e ciclistas (daqueles verdadeiros, com capacetes bicudos atrás e óculos incorporados, e fatos completos), deitados sobre bicicletas (daquelas mesmo a sério, com rodas lenticulares e barras no guiador), pedalando sem sair do mesmo sítio, em rolos que zumbiam , transformando Porto Alto numa colmeia gigante.

E 9 gajos, (comigo 10), lá no meio, sem saber se haviam de levar os telemóveis (nunca se sabe , pode fazer falta), se haviam de abrir já as barras energéticas (depois em andamento é mais difícil), ou se deviam voltar à casa de banho da Tasca da Tété, porque talvez não tivesse saído tudo.

– Tive de abrir a porta da casa de banho e chamar a senhora, porque não havia mais papel. E depois teve de mo passar por baixo da porta!

Às 8:30 partem os primeiros. 9 gajos arrancam de lá de cima da plataforma, descendo a rampa a todo o gás. Passam por nós como foguetes, 9 gajos de branco, tipo gémeos, sem qualquer expressão nas caras, todas iguais, as rodas a rasgar o alcatrão e a cuspir pedras em todas as direcções, obrigando-nos a agarrar bem as bicicletas (eu a agarrar bem o saquinho já com os casacos e os telemóveis), e fazendo-nos virar as caras, para as voltar a virar de seguida e já os vermos lá ao longe, quase a desaparecer.

No topo da plataforma, já prontos para partir, mais 9 gajos, agora todos de licras cor de laranja, e perfeitamente alinhados. E nós ali, sem nexo, sem qualquer sinal da mínima coisa em comum, a tentar parecer uma equipa.

O tempo passava depressa, saltando de 2 em 2 minutos, consoante o rugir dos arranques das equipas. E nós ali, com pele de galinha (eles. Eu cá tinha o meu casaco novo), porque estava frio e porque sabiam que, assim que arrancassem, nunca mais teriam tempo sequer de pensar que tinham frio. Ou calor. Nunca mais teriam tempo de pensar em nada disso. Em nada.

Bem, bora lá tirar uma fotografia, para a posterioridade?

grupo.png

 

9:25

3 Minutos para a partida. Estou parado na Rotunda, onde o guarda me indicou que aguardasse. O telefone do Pinto preso no suporte colado ao vidro, para filmar em directo. Como é que ele me disse para fazer? 2 Minutos agora. Desbloquear…ligar o facebook. Escrever qualquer coisa. Epá, sei lá o que é que vou escrever! 1 Minuto…colocar o telefone no suporte, espera assim não os vejo, tirar do suporte, sair do carro, filmar… – Epá, está muito longe…Já partiram! Raios, pôr o telefone no suporte, ajeitar e …

partida.png

Vrummm, vrummm, vrrumm, vrummm, vrrumm, vrummm, vrrumm, vrummm, vrrumm

9 vultos entram repentinamente na rotunda, mesmo à minha frente. Entram quase deitados, cortando a curva como facas, para rapidamente se alinharem milimetricamente atrás uns dos outros, e desaparecerem no horizonte. 9 vultos de ciclistas, que vistos assim, pedalando em conjunto, avançando como um comboio, finalmente parecem um só. Uma equipa.

 

Rápido, arrancar. Não anda. Tirar travão de mão. 1ª, 2ª, 3ª, 4ª….aproximo-me rapidamente e colo-me ao grupo, como se fosse um deles, na roda. O ponteiro do velocímetro fixa-se nos 50 kms por hora, e mantém-se por ali durante aquela recta que parece nunca acabar. 3 Quilómetros feitos em cerca de 4 minutos!

À frente, aproximando-se rapidamente, uma mota da GNR e um guarda indicam uma curva à esquerda. Mantenho o carro a quase 50 kms / hora mesmo até à curva, tentando não perder a roda daquele pelotão. Preciso de fazer um esforço constante, para me lembrar que estou num carro, e para travar antes que eles deixem de pedalar. Eles pedalam mesmo até à entrada da curva, e só aí fixam o pedal esquerdo no ar, para se fazerem à curva. No segundo seguinte estão novamente alinhados, engatando novamente a mudança mais pesada e fazendo vergar aquelas pobres peças de carbono.

Encosto-me novamente à cauda do pelotão. O ponteiro não baixa dos 45 kms/h. Ali, tão próximo deles como me é possível estar, consigo ver mais do que os meus olhos veem. Consigo sentir aquelas mãos a estrangular os guiadores, as travessas quase a partirem e os elos das correntes em brasa, prestes a rebentar. Consigo sentir o alívio de quem se afasta para o lado, depois de dar tudo de si, durante minutos que parecem horas lá na frente. Um respiro tão breve quanto lhe permite o instante de ver passar por ele o último do pelotão, e ter de voltar a dar tudo para voltar a colar-se a ele.

É impossível ficar ali atrás. Mesmo no carro, o meu coração acelera e instintivamente mudo de faixa e sigo ao lado deles. Cerca de 20 minutos de prova e sente-se o esforço de quem vai já no limite. De quem veio sempre no limite. E de quem continua sempre no limite. Tiro o telemóvel do suporte e avanço lentamente ao lado deles, percorrendo com a câmara as expressões de cada rosto. Sei o quanto custa manter o corpo naquela luta. Lutar por não abrandar, por dar o melhor de si, por honrar os outros, e também por se manter ali, por não cair para trás, por não ouvir o corpo a pedir para parar, para sair. Estar no meio, protegido pelos da frente, e ver passar ao nosso lado, um após o outro, os que lutaram na frente e se afastam desgastados. Ver que só restam mais dois, e saber que vai chegar a nossa vez. Ver sair mais um, a respirar finalmente após o seu tempo de sufoco. Seguir o mais junto possível do único que resta à nossa frente, a sentir o seu esforço brutal, de quem luta por rasgar o ar e abrir caminho para toda a equipa.

Vai ser agora! Ele afasta-se para o lado e nem tempo tens de respirar fundo pela última vez! Uma parede de ar à tua frente que tens de partir como um ariete. Cabeça baixa, investindo todos as tuas forças contra ela. Não sentes nada, não ouves nada, não respiras nada. Dás tudo o que tens dentro de ti, e mais ainda, sem sentir dor, sem sentir nada. O tempo pára e segundos não passam, sem noção de mais nada senão de que tens que continuar a dar tudo. A rasgar o ar.

E de repente, reages! Deixas ir a bicicleta, que há muito que te puxava para o lado e sentes de novo o ar a entrar nos teus pulmões, a encher o teu corpo completamente vazio. Por momentos o teu coração respira e relaxa, como se tudo tivesse terminado. Mas não. Não te deixes ir, não fiques para trás. Cola-te ao último e prepara-te, pois vão precisar de ti novamente no máximo, daqui a pouco. E tudo recomeça, mais uma vez, dezenas de vezes, ao longo daqueles 90 minutos!

Porra! Conduzir e filmar ainda consigo. Agora atender o telefone, tudo ao mesmo tempo é mais complicado. É o Carlos Borrego. Atendo: – Sim, sou eu que estou a filmar. O quê? A imagem está ao contrário? É o que dá, porem-me a filmar isto, em vez de me porem na frente do pelotão a puxar pelos gajos! Cada um é para o que nasceu e filmar com telefones esquisitos não é para um sprinter de gema!

Com 30 minutos de prova, o ritmo é alucinante! Os kms são devorados rapidamente, bem como as peças perdidas de outros pelotões que se foram desfazendo à nossa frente. Ciclistas esgotados, que se arrastam após terem deixado tudo na frente do seu pelotão. Ciclistas cujo corpo cedeu, após terem ido ainda mais fundo do que o seu limite o permitia. E se por um lado, alguns de nós reagem com entusiasmo a estas conquistas, de alcançar outros que partiram antes, fazendo-nos sentir cada vez mais fortes, outros de nós sentem-se atraídos por um abandono assim, capaz de pôr um fim ao sofrimento que já nos domina e outro pior que ainda está para vir. É fácil desistir naquele momento em que estamos incapazes de gerir as emoções, e em que vemos outros a decidir assim. Mas luta-se até parecer que é o fim. Luta-se e dá-se sempre mais ainda. Ninguém quer desistir, apesar do corpo pedir há muito para desistir. E ninguém veio até aqui para desistir!

Desses vários ciclistas por quem passámos, dois deles, da equipa ciclismo 2640,também pensavam assim. Colaram-se ao pelotão, aproveitando para descansar o pouco que conseguissem e para sentir o pulsar de todos os que ali iam. Do carro, eu conseguia ver o seu esforço em não perturbar a dinâmica do grupo, dando espaço para deixar entrar na sua frente quem vinha a descair da frente do pelotão.  E estes Zés das Bikes deviam valer a pena, pois mesmo sendo de outra equipa, resolveram saíram do fim do pelotão e partir para a frente, sem se importarem com o facto de que estavam em prova, a ajudar uma equipa adversária.

Quase a chegar a meio do percurso, um pelotão de agora 12 ciclistas, 11 bicicletas e 1 carro continuava a devorar quilómetros. A estrada seguia agora na direcção do Biscaínho, tornando-se mais sinuosa e com alguns desníveis, que começavam a esticar mais o pelotão. Pequenas subidas e descidas faziam alterar a velocidade do grupo, e tornava-se mais difícil manter o ritmo constante. Por vezes, a quebra do pelotão parecia eminente, mas todos lutavam por se manter no grupo, voltando sempre a agrupar. Até ali. Até ao km 30, numa recta infindável daquelas que parecem planas, com 1 ou 2% de inclinação, começámos a ver um topo, ao longe. E esses 1 – 2 %, passaram para 3 – 4% e depois para 5 – 6%, e foi então que um dos ciclistas se deixa ficar para trás. E depois outro. E mais outro. Em 50 metros, perdemos 3 ciclistas, que não resistem a só mais um pequeno esforço, depois de tanto esforço e de terem dado tanto de si aos outros. O Guilherme, o Pedro Soares e o ciclista da equipa ciclismo 2640, que não sei o nome, e que se tinha juntado ao pelotão há uns quilómetros atrás.

No meu breve curso de treinador de ciclismo, dado pelo Carlos Duarte em horário pós-laboral via whatsapp, nunca falámos em ter de decidir entre acompanhar o pelotão ou ficar junto de quem fica para trás, dando-lhe incentivo para continuar e tentar reentrar. E por mais que o meu coração me dissesse para optar pela 2ª, e não abandonar ninguém assim tão cansado, sabia que tinha que seguir, atrás de quem continuava a lutar pelo melhor para todos e por honrar o esforço de quem não tinha mais para dar.

Continuavam 8 no pelotão: O Nuno Pimpão, o Fernando Miguel, o Manuel Rodrigues, o Álvaro Gaboleiro, o João Pinto, o Ricardo Lemos, o Henrique Lopes, e o Tiago Silva, da ciclismo 2640. Cada um, à vez, rendia os outros na frente, dando o máximo de si. Eu, no carro, apitava como se fosse num casamento, (pois não conheço músicas de ciclismo, ainda para mais que possa apitar no carro). Procurava na rádio uma música que os pudesse motivar, e quando apanhava uma de jeito, lá me punha lado deles, com o volume no máximo, para ver se os motivava mais (pelo menos assustava-os, pois as minhas habilidades de condução de carros não são assim tão espetaculares como quando conduzo a jackie).

todos.jpg

O percurso continuava, rectas e mais rectas, sempre a um ritmo alucinante, sem baixar dos 40 km/h. Já sem qualquer noção do tempo e do percurso, só pensava que não deveria faltar muito para terminar, até porque me parecia que eles já não deviam aguentar muito mais. Mas os gajos aguentavam, sempre ali que nem uns cavalos esbaforidos!

Ao km 49 (minuto 1:11 do filme), aproximámo-nos rapidamente de uma rotunda, em que não havia aparentemente sinalização. Íamos tão rápido, tão rápido, que só mesmo em cima da rotunda é que vimos um guarda a indicar para virar logo à direita. Eu tive de dar uma volta à rotunda, para me certificar que o caminho era pela direita. O Tiago Silva ia na frente e entrou em sentido contrário, ficando completamente sozinho, a uns 30 metros do grupo, e raios que o partam, não é que os foi lá buscar outra vez!

 

E daí até ao final era só mais uma recta.

Uma recta enorme. Ao longo da qual aqueles 8 corpos e cabeças cansadas já não conseguiam gerir tão bem o esforço. E depois daquele erro na rotunda, com a ânsia de recuperar, foi voltar a dar tudo até ao próximo topo, em que o grupo esticou tanto, tanto, até quase partir. O Álvaro na frente a querer dar mais e mais, sem se aperceber que apenas levava o Nuno Pimpão e o Fernando Miguel com ele.

Foi saltar para o meio da estrada, meter uma segunda e desatar ao berros: – Menos! Menos!  Estão a ficar para trás!

E aqueles gajos de bocas arreganhadas, de dentes a ranger, deitados com os peitos a sentir cada fibra de carbono do tubo superior das bicicletas, cada um a berrar mais alto do que os outros, lá se voltaram a colar uns aos outros, como dantes. Primeiro oTiago, que vinha a encostar, e depois todos os outros, com o Lemos e o Pinto no fim, um a retribuir ao outro as ajudas que já havia recebido.

Uma recta de 16 quilómetros, em que devo ter gritado – Bora lá! e – Está Quase! e Descansar é no fim!  umas mil vezes  (acho que não disse asneiras, porque me lembrei sempre que estava em directo) e em que devo ter buzinado mais do que no casamento da minha prima Susete do Sobral (já depois do copo de água)! 16 quilómetros com o coração a 175 bpm, em que honestamente vivi cada um deles como se estivesse ali a pedalar, colado atrás do Pinto, e no meio de todos, a dar o meu máximo na frente quando me calhasse, durante bué de tempo ( 5 segundos já não era mau!), a suar com eles, a sentir as pernas a ferver, e o sangue na boca, a ansiar ver a meta ao fundo da estrada! 16 quilómetros em que muitos outros gajos foram sendo apanhados e depois deixados para trás, mas em que os 8 seguiam juntos.  Se num momento algum parecia estar sem forças, a descair, no momento seguinte estava lá à frente, a dar o máximo e a puxar por todos!

Cada vez mais casas, mais pessoas nas bermas e alguns ciclistas já em sentido contrário. Cada vez mais polícias (ou guardas) e mais pessoas, junto às bermas, a tirar fotos e a puxar por nós. A estrada mais larga, duas faixas para cada lado. As pessoas cada vez a gritar mais alto e o guarda na rotunda, a indicar a curva à direita e a gritar – Força! Bora lá! É já ali!

E a meta! O arco laranja! Uma multidão de pessoas e a meta ao fundo!

No meio daquela euforia, deixas novamente de sentir o que sentes. O corpo desliga os sentidos e volta-se para dentro. Não distingues o que te gritam, nem quem te grita o quê. É tudo um som que apaga tudo, um barulho sem sentido. Não ouves nada. Não sentes nada, nem o pulsar do coração a disparar sangue dentro de ti. Não sentes os dedos da tua mão direita a empurrarem a manete sem tu mandares, nem ouves a mudança mais pesada a entrar. Não sentes o teu corpo a levantar do selim, sem tu o mandares. Ele age sozinho, por instinto. É agora ou nunca! E de um corpo esgotado, quase vazio, consegues arrancar forças para cortar a meta ao sprint, a gritar e levantar os braços em sinal de vitória!

Vitória!

meta.png

Raisparta o polícia, que não me deixou seguir com eles e que me impediu de passar a meta e perder aquele momento!

42,2kms/h!   65kms em 1 hora e trinta e dois minutos! A apenas 6 minutos dos primeiros classificados! Um molho de gajos ciclistas, que sem treinar, fizeram uma equipa, durante aquela hora e meia.

Não conhecia o Fernando Miguel nem o Manuel Rodrigues, e mal conheço o Nuno Pimpão (pedalámos juntos há umas semanas). Por respeito, e porque ainda não os conheço muito bem e me podem levar a mal, não lhes vou chamar mais nada do que Grandas Cavalões! Fizeram aquela hora e meia como se fosse um passeio, sem nenhum deslize ou fraqueza, arrastando a equipa quilómetros e quilómetros a um ritmo impressionante, só saindo da frente do pelotão porque lhes pediam. Acho que o André Greipel, quando vir as filmagens, vai pedir aos preparadores para lhe duplicarem a dose de suplementação, para não passar vergonhas quando vier fazer o contra-relógio de Samora Correia, para o ano que vem.

O Álvaro esteve sempre à altura, discreto e elegante, (tirando aquele deslize, em que ia na frente e se distraiu, e quase deixou metade do grupo para trás, não fosse eu ter acelerado, posto-me ao seu lado a gritar para abrandar). Que máquina infernal! Se se tivesse distraído, desaparecia da vista de todos!

O Guilherme e o Pedro Soares apanharam um grupo de gajos ainda mais cavalões que eles. Deram o que tinham e o que não tinham, e se não fosse aquele topo aos 30 kms, tinham ido até ao fim e ainda tinham ajudado e muito o grupo (depois era sempre a descer). E o Pedro Soares, de certeza que se fosse para ir almoçar à Igrejinha, não ficava para trás!

Ao Tiago Silva (da ciclismo 2640) tiro-lhe o cap! Que patrão! Entrar assim numa equipa adversária, com a postura certíssima com que entrou, e conseguir partilhar mais de metade da prova com toda a equipa, ajudando tanto ou mais do que todos os outros, mostra que é não só um grande ciclista, mas um grande Homem (deve ser do nome)!

E finalmente os Zés:

– Lemos: Muita experiência tens tu nesse lombo, para aguentares 65 kms a esse ritmo, ao lado de umas bestinhas desse gabarito! Sem nunca te negares ao trabalho na frente, sem nunca teres um deslize ou um atraso, também te tiro o chapéu. Deixo-te só um conselho: Quando escolheres os sapatos, tenta acender a luz, para acertares com o par!

– Henrique: Estavas a curtir tanto, mas tanto! Por duas ou 3 vezes me coloquei no carro ao teu lado, a filmar, e a tua cara demoníaca dizia tudo! Foste feito para isto! Esta cena das corridas é mesmo a tua praia! Enquanto os outros sofrem, tu divertes-te à grande!

– Pinto: Meu Cabron! Lá me obrigaste a passar mais uma noite em branco, a escrever disparates, com tanta coisa que eu tenho para fazer. Mas ainda bem que me conheces bem e sabes o gozo que me dá isto de deixar a malta toda cá de casa ir dormir, ligar um som e deixar que as memórias passem para os dedos!

Não foi bem o tipo de provas que tudo gostas. És um gajo meticuloso e organizado, e uma equipa feita à pressa, sem treino, deve ter-te feito dar voltas na cama. És um gajo de estratégias bem definidas e com os watts bem medidos. Durante estes kms, muitas vezes te vi a tentar gerir tanta potência descontrolada, querendo responder aos puxões da frente, mas a deitar o olho para os que iam atrás de ti.

Estás a ficar um cavalão, mas completo. Um boi-cavalo! Um gajo que treina para uma prova de longa distância, mas que faz contra-relógios! Como te conheço melhor do que os outros, acho que não levas a mal se te disser que estás a ficar uma granda Besta, pois não?

 

Aliás, são todos umas grandas bestas, pronto, que pedalam que sa fartam! (como eu gostava de ser e de pedalar, um dia!) Parabéns a todos

 

Pinto, se não quiseres publicar esta parte, põe só esta:

– Pinto: Até não estiveste malzinho, mas sinceramente esperava mais de ti! A pagar fortunas a um treinador, o mínimo que se esperava era um lugar no pódio. E ter um telefone que filma de pernas para o ar e não avisa, também não é brilhante! O que me valeu foram aqueles filmes caseiros que tinhas no cartão de memória e que fui a ver durante a viagem, senão a manhã tinha sido uma seca do caraças!

 

Se não tiverem mesmo nada para fazer, podem ver o vídeo aqui

 

Créditos:

Fotos: Inês Costa (na página do facebook de Arepa BTT ) https://www.facebook.com/permalink.php story_fbid=2533044763621417&id=1633214810271088

 

 

 

 

Pelos olhos dos outros...

@ Eu e as minhas bicicletas

Publicado em 8/02/2020 às 18:26

Temas:

Apesar de a nossa capital ser grande e ter muitas pessoas, amiúde vejo nos meus caminhos caras conhecidas e gente amiga... os que como eu rolam ou nos cruzamos e acenamos ou apenas um mero cumprimento, ou às vezes acompanhamos por algumas centenas de metros em amena cavaqueira.

Como agora atravesso a cidade quase de uma ponta à outra (cada viagem são cerca de 19kms e picos, ida e volta são quase 40kms/dia) vejo muitas vezes a rolar o LCarvalho, o EduardoS, o MiguelC, o MiguelB, o RLeiria e o JLeiria, o PedroG e a Maria, o ArturL, RuiA, o HugoM e o HerculanoR, o RuiR, o JoãoB, e ex colegas de trabalho como o PauloS, ManuelC e a VerónicaF e tantos tantos outros...

Há dias um desses mega licrados de bicicleta (como eu tb sou às vezes quando vou dar umas voltas na estradeira) começa a chamar-me quando vinha na ciclovia a caminho de casa, e eu não estava a ver quem era... os anos passam! Era um ex-colega de liceu que até está na minha rede do facebook e reconheceu a Gestrudes. Foi um bom reencontro!

Outra vez passei ali noutra ciclovia e passavam muitos peões e há um que grita "Woowww, tu, heeiii..." e não liguei pois pensava que não era para mim. Mas depois gritou o meu nome... Era um grande amigo da altura da faculdade!! Também reconheceu a Gestrudes! :)

Mas desde que tenho a Gestrudes, que é vistosa, muito mais gente amiga que anda de carro ou de transportes também me vê...

04690f4a-d3d3-437d-9483-34bc8365a556.jpg

82551688_2367992353512779_7401573753160728576_n.jpg

IMG_1090.jpg

Um deles goza comigo "Hoje vi outra vez o autocarro azul a passar por mim!" ou então...

veiculopesado.PNG

Mas dos mais hilariantes foi este audio que recebi e ouvi só quando cheguei a casa, num dia que o trânsito estava caótico e as filas de carros eram intermináveis e recordo ter ouvido uma buzinadela no sentido contrário ao meu, mas eu ia "depressa" (a 20 kms/h praí) e não vi que era.

Clicar para ouvir: "Ca ganda vergonha pá!"

O que eu me ri com isto... ! :)

 
Página 2 de 42 | << Anterior Seguinte >>