Ciclovias ou árvores? A escolha que não pode acontecer

Luís Tarroso Gomes @ Braga Ciclável

Publicado em 24/07/2020 às 23:01

Temas: Opinião Árvores Associações Braga braga ciclável Câmara Municipal de Braga Ciclovias Cidadãos Diário do Minho europa Município de Braga Ricardo Rio Trees


Uma das polémicas atuais da cidade é o abate de árvores no arranque da subida para o Bom Jesus. O motivo é a construção pela Câmara Municipal de um pequeno trecho de ciclovia que ligará a Universidade à zona de Lamaçães. Importa dizer que a Câmara Municipal ao anunciar a obra da “Variante da Encosta” nunca fez qualquer referência ao abate. Foram os cidadãos e as associações que, ao analisarem os escassos elementos gráficos que a Câmara disponibilizou, se aperceberam da intenção de abater árvores adultas (algumas das quais na fotografia). Em resposta às críticas, a Câmara emitiu um comunicado alegadamente esclarecedor mas que, através de eufemismos como “saldo de espécies arbóreas”, “replantar”, “removidas da atual localização”, não explica por que razão o Município quer abater mais árvores (ainda há pouco tempo a Câmara anunciou o abate de 130 árvores na cidade e a I.P. destruiu dezenas de árvores na Av. António Macedo).

A Câmara aproveita ainda o comunicado para, em abstracto, acusar os cidadãos e associações de não estarem informados. Mas uma Câmara que opta por manter sempre a informação e os projetos no segredo dos seus gabinetes, não os tornando públicos pelas inúmeras formas que atualmente existem e divulgando apenas o que lhe convém, pode apontar o dedos aos cidadãos acusando-os de não estarem informados? Não é óbvio que são os gestores da cidade que têm de pôr os projetos de intervenção em cima da mesa com tempo para serem apreciados e debatidos?

O que é claro é que em 2020 um abate a despropósito não pode mais acontecer. Todos sabemos que temos de mudar o nosso estilo de vida se queremos deixar um planeta habitável aos nossos filhos. Há um esforço que todos podemos fazer individualmente. Mas uma grande parte desse salto tem de ser induzido pelas Câmaras Municipais, designadamente na reconversão do imenso espaço público reservado ao automóvel em zonas agradáveis para os peões e os demais modos suaves. E, claro, a Câmara deve constituir o exemplo inspirador para todos. A pandemia que agora atravessamos tem desencadeado por todo o mundo – de Paris a Bogotá ou de Kampala a Lisboa – iniciativas rápidas e económicas do poder local de criação de corredores para bicicletas e afins, roubando espaço aos carros e dando resposta às preocupações dos cidadãos. E Braga? Nada.

Se há coisa que não falta na subida para o Bom Jesus, como, aliás, em toda a rodovia, é espaço para introduzir duas ciclovias (uma em cada sentido) sem qualquer necessidade de eliminar árvores cuja sombra é essencial aos peões e ciclistas. Em 2020 querer destruir árvores adultas para fazer uma ciclovia deveria dar lugar à perda automática de todos os fundos comunitários. Não se pode querer ser ecologista na Europa, e predador da natureza na terrinha.

 

Braga Ciclável aplaude “manutenção profunda” da ciclovia de Lamaçães, mas aponta erros no seu prolongamento à Universidade

Braga Ciclável @ Braga Ciclável

Publicado em 17/07/2020 às 23:01

Temas: Comunicado Notícias Árvores Braga braga ciclável Câmara Municipal de Braga Infraestruturas de Portugal Lamaçães Mobilidade Ricardo Rio UMINHO


A Braga Ciclável vem aplaudir a tão desejada e necessária intervenção na pista ciclável de Lamaçães, intervenção essa que vinha sendo reivindicada há muitos anos pela associação e por todos os utilizadores daquela pista ciclável. A reorganização e proteção das rotundas, a reorganização do estacionamento, assim como a reformulação de toda a pista ciclável, são fundamentais para garantir a segurança de todos os utilizadores daquela Avenida.

É desejável que, no seguimento da conclusão da intervenção, exista já um plano de manutenção previsto para a rede ciclável que permita uma conservação cuidada destas infraestruturas. Assim se evitará a necessidade de investimentos avultados devido a intervenções que acontecem apenas de 10 em 10 anos.

A Braga Ciclável não pode deixar de demonstrar o seu espanto pela insistente manutenção de situações apresentadas há 3 anos, em reunião privada entre os responsáveis do trânsito e da mobilidade, na qual foram deixadas algumas recomendações por parte da associação no sentido da resolução de alguns pontos problemáticos.

Não se compreende como é que na Avenida dos Lusíadas, uma avenida com 24m de largura, quatro vias sobredimensionadas de trânsito automóvel e pouquíssimo tráfego rodoviário, se opta pelo abate de seis árvores saudáveis e a construção de uma perigosa ciclovia bidirecional. Somos da opinião, devidamente fundamentada em parâmetros legais, de que neste caso específico, a pista ciclável pode e deve ser unidirecional em cada um dos sentidos e que deverá ser executada sem que isso implique o abate das árvores, que tão necessárias são para as nossas cidades e para os seus habitantes.

Não se compreende igualmente como é que em quatro momentos a pista ciclável é interrompida e o atravessamento que devia ser de velocípedes, é unicamente de peões, originando nuns verdadeiros “remendos” no meio das rotundas.

“Foi a IP – Infraestruturas de Portugal que obrigou”, dizem os técnicos e responsáveis do Município. Pois bem, se a negociação com o técnico da IP, que avalia a situação à distância, não vai ao encontro das necessidades da cidade e das boas práticas, então deverá requerer-se à IP a transferência de competências desta Avenida, ou deste troço de Avenida, para o Município, executando um plano especificamente adequado ao lugar.

Não se compreende também que, na Avenida de Gualtar, com 22m de largura e quatro vias de trânsito, não se passe a ter apenas duas vias de trânsito e se criem ali duas ciclovias unidirecionais, fazendo um percurso de 200m, para depois continuar pela Rua da Estrada Nova, tal como Previsto no PDM – Plano Diretor Municipal. Ao invés disso, o carro fica com o caminho mais direto e mais rápido, enquanto que quem for de bicicleta é obrigado a dar uma volta que implica o dobro da distância percorrida pelo carro.

Estes contributos e comentários estão vertidos num documento, que agora tornamos público, e que foi enviado às 09:54 do dia 21 de fevereiro de 2017, intitulado “Recomendações da Associação Braga Ciclável sobre o Projeto da Rede Ciclável Urbana (Fase 1: 15 km)”, e enviado, em exclusivo, para o Gabinete do Vereador da Mobilidade. Até à data não obtivemos qualquer resposta.

Continuamos assim a aguardar, ansiosamente, pela intervenção nos restantes 12 km que complementarão a intervenção, no corrente ano, da Ciclovia de Lamaçães e sua extensão a Gualtar.

 

Era inaceitável mesmo que ela tivesse passado com o vermelho

Ana Pereira @ Cenas a Pedal

Publicado em 16/07/2020 às 0:42

Temas: Causas Indústria e Consumidor Infraestruturas e urbanismo Notícias Políticas Segurança políticas públicas segurança rodoviária urbanismo

A Ana tinha 16 anos e morreu na semana passada.

Morreu atropelada numa passadeira de peões. Caminhava com uma bicicleta pela mão (a bicicleta, aqui, é pouco relevante), viu o sinal verde e avançou, confiando na infraestrutura e nas regras de trânsito e na responsabilidade dos condutores de automóvel.

O “Manuel” (vamos chamar-lhe assim, visto ninguém ter divulgado o seu nome) tem 19 anos e matou a Ana na semana passada. Conduzia um automóvel, não terá visto ou viu mas não respeitou o sinal vermelho, e atropelou a Ana, apesar da visibilidade para o passeio e para a passadeira ser perfeita. Atropelou-a a uma velocidade tal que lhe causou a morte uns dias depois. 

Três dias depois de Ana Oliveira, 16 anos, ter sido atropelada mortalmente nesta mesma passadeira por um motorista que terá passado o vermelho, nada mudou.@FMedina_PCML: o que é que a @CamaraLisboa vai fazer quanto ao constante desrespeito dos motoristas pelos semáforos? pic.twitter.com/S12N1z6ghs

— Capitão Bina (@CapitaoBina) July 13, 2020

A Ana morreu, não está cá para lamentar ter perdido a vida, ter perdido a oportunidade de viver a sua vida, de fazer as coisas que sonhava fazer. Mas estão cá os seus pais, os seus familiares, os seus amigos, que terão que continuar a viver com o choque, a dor da perda e a revolta por uma morte violenta e principalmente, perfeitamente evitável. 

Por que achamos aceitável matar um filho ou uma filha a alguém?

Por que achamos aceitável matar um pai ou uma mãe a alguém?

É que fazemo-lo anualmente, matamos cerca de 600 filhos e/ou pais de outras pessoas. E ferimos gravemente milhares de outros. E nada fazemos para impedir eficazmente isto, ano após ano.

O “Manuel” vai ter que viver sabendo que matou uma pessoa. O que vai isso fazer à sua vida? À sua saúde mental, à sua relação consigo próprio e com os outros? 

Claro que o normal é querermos linchar o “Manuel”. Ele infringiu duas regras, aparentemente. Cometeu um erro e em consequência alguém morreu.

Sim, o “Manuel” deveria ser punido exemplarmente. Mas não basta ser só ele. Têm que ser todos os “Manuéis”, e principalmente, todos os “Manuéis” que vão cometendo estas infrações sem matar nem atropelar ninguém. Antes que atropelem e matem alguém…

Mas o “Manuel” é também uma vítima deste ambiente tóxico que estimula e permite comportamentos perigosos na condução de veículos automóveis. Todos nós, quando conduzimos automóveis, caímos, uns mais, outros menos, nos mesmos erros – excesso de velocidade, manobras perigosas, distrações – simplesmente a maior parte de nós tem a sorte de não acabar matando alguém. O “Manuel” somos nós todos, só que num dia “de azar”.

Sim, temos que ter melhores leis, mas temos depois que ter melhor fiscalização (muito melhor, que somos uma anedota a este nível), e também temos que ter um melhor sistema judicial, um que não deixe prescrever as coimas, um que em julgamento não desculpabilize quem cometa infrações graves, perigosas, e crimes rodoviários.

E sim, precisamos de melhor formação ao tirar a Carta de Condução, e de ações de reciclagem e revalidação regulares ao longo da vida.

E sim, precisamos que os media e toda a gente pare de noticiar estas colisões e estes atropelamentos desta forma:

  • usando a palavra acidente, em vez de colisão ou sinistro – não são acidentes, e isto perpetua  ideia de que não temos poder para os evitar, e temos!
  • fraseando as coisas para fazer parecer que são os carros que matam, que estes já são autónomos (ex.: «Carro ‘voou’ para dentro da BP em aparatoso acidente.», «O carro despistou-se numa curva», «o carro não viu», «o carro não parou», etc, etc. Os carros ainda não têm vontade própria, são conduzidos por pessoas e são as ações destas que, tipicamente, geram colisões. Temos que parar de as desculpabilizar com as palavras.
  • focando-se exclusivamente na vítima, as imagens são do local, ou do veículo, ou do corpo da vítima (principal), reforçando novamente a sensação de impotência e de vulnerabilidade, e o medo de morrer de quem já mais morre – o foco deve ir primeiro para quem mata e quem fere, queremos disseminar o perfil do agressor, só assim podemos, a nível de políticas públicas, perceber onde e como intervir. As notícias não devem servir para disseminar junto das potenciais vítimas o medo de morrer, devem servir principalmente para disseminar junto dos potenciais agressores o medo de matar (e depois também o medo de ser efetivamente punido por fazê-lo!).
  • apontando apenas alegadas falhas de vítimas e de agressores, deixando de lado as falhas das entidades públicas no desenho do ambiente envolvente.

E sim, precisamos de deixar de permitir a publicidade a automóveis associada a comportamentos perigosos, como a velocidade ou a agressividade.

Mas o principal, aquilo que salva vidas, aquilo que previne eficazmente histórias trágicas como a da Ana e a do “Manuel”, é organizar o ambiente urbano e o ambiente rodoviário, e os próprios veículos, de forma a que erros normais, erros naturais, erros observáveis sistematicamente, não acabem com alguém morto ou gravemente ferido.

O “Manuel” cometeu vários erros de condução, e infringiu várias leis, aparentemente, e por isso a culpa da morte da Ana é dele. E podemos, naturalmente, porque somos apenas humanos, dirigir para ele todo o nosso ódio, a nossa revolta, a nossa angústia, por ter roubado a Ana aos seus, e a si própria. E nós sabemos que a Ana poderia ser qualquer um de nós, e qualquer um dos nossos. Mas fazê-lo é injusto, e inútil. Devemos dirigir a nossa raiva para ações que efetivamente levem a mudanças estruturais que previnam coisas destas de acontecer.

É que a culpa é dele também, mas não é só dele. É dos arquitectos das nossas cidades, é dos arquitectos destes ambientes em que para agir de forma prudente temos que ser mais informados que o normal, termos mais empatia do que o normal, termos maior sentido de responsabilidade do que o normal, estarmos mais despertos do que o normal, estarmos menos cansados do que o normal, estarmos mais atentos e concentrados do que o normal. Quando devia ser o contrário, devíamos circular em ambientes em que o piloto automático é prudente, e em que para fazermos asneiras temos que as fazer consciente e deliberadamente.

E se tivesse sido a Ana a passar o sinal vermelho? O “Manuel” passaria a ser visto como uma pobre vítima, para sempre traumatizada, e a Ana passaria a ser vista como infeliz merecedora da sua má sorte. Uma morte trágica, mas causada pelo seu próprio comportamento.

Esta dicotomia do culpado / não culpado é infeliz. Esta dicotomia é o que nos leva precocemente 600 pessoas todos os anos, e o que nos deixa uns milhares estropiados. Preocupamo-nos em definir quem tem a culpa em caso de colisão, em vez de garantir que essa colisão nunca chega a ocorrer, com culpa ou sem culpa seja de quem for.

Sabemos que 90 % das colisões envolvem erro humano. E sabemos que destas, 90 % envolvem velocidades altas, desadequadas. Não é óbvio que temos que desenhar o nosso ambiente urbano e o nosso ambiente rodoviário, para que, quando os erros acontecem, que acontecerão, invariavelmente, seja de quem for, tal não resulte na morte ou grave ferimento de ninguém? E que isso passa, principalmente, por condicionar física e psicologicamente a velocidade de circulação dos veículos automóveis conduzidos por esses mesmos humanos?

Se baixarmos – por desenho – a velocidade máxima de circulação dos automóveis em meio urbano (e em povoações), de 50 Km/h (teóricos, porque a maior parte dos condutores circula a mais que isso) para 30 Km/h efetivos, garantimos que haverão muito menos colisões, e que as que houver terão 9 em cada 10 pessoas a sobreviver, em vez de apenas 1 em cada 10.

Até quando vamos aceitar manter as nossas crianças e os nossos velhos tristemente reféns em espaços fechados, impedidos de estar e de circular na cidade de forma autónoma, para que nós possamos circular pela cidade a velocidades incompatíveis com a vida, só porque sim?

Quantas pessoas achamos aceitável que morram ou que fiquem estropiadas para que nós possamos exceder os 30 Km/h no meio das cidades ao volante de um objeto de 1 ou 2 toneladas? E quantas destas pessoas podem ser das “nossas”? Aceitamos que nos possam, a qualquer momento, matar um filho, para que possamos todos, coletivamente, conduzir de forma perigosa, e por motivos fúteis?

Por que é que matámos uma filha aos pais da Ana? O que é que vamos fazer para que mais nenhum pai nem nenhuma mãe perca um filho desta forma estúpida? Para que mais ninguém fique sem um irmão, ou sem um pai ou uma mãe desta forma violenta e evitável?…

Hoje, às 19h, estaremos na vigília.

Mas não confundir uma vigília destas com ação. Se queremos mudança temos que fazer lobby junto do governo, junto do parlamento, junto dos partidos, junto da ANSR, junto de n outras entidades públicas. E temos que fazer pressão também junto de entidades privadas, como as escolas de condução, os media, as empresas de transportes coletivos, as empresas de logística, etc, etc. Tornarmo-nos sócios e apoiar o trabalho de associações como a MUBi, e um pouco de #ativismodesofá, mandar mails, mandar cartas, escrever “cartas do leitor” para jornais, intervir em programas de rádio e de TV, etc. 

Temos que mudar o paradigma para ele depois nos mudar a nós.

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can´t miss [215] sicnoticias.pt/mundo

paulofski @ na bicicleta

Publicado em 15/07/2020 às 14:18

Temas: can't miss it bons exemplos ciclismo ciclistas no mundo cicloturismo coisas que leio covid-19 devaneios a pedais dos malucos das biclas voadoras mobilidade motivação outras coisas pandemias partilha quarentena testemunho

Da Escócia à Grécia de bicicleta. A “ideia mais maluca” em tempo de pandemia

Querer é poder.

Kleon Papadimitriou, um jovem grego de 20 anos, estudante na Escócia, estava sem possibilidades de regressar à sua terra natal pelo sucessivo cancelamento de voos (3) de regresso a Atenas devido à pandemia de Covid-19. Vai daí, decidiu fazer-se à estrada e partiu de bicicleta a pedalar os 4.100km para chegar a casa.

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“”O confinamento faz-te pensar fora da caixa e eu acabei de ter a ideia mais maluca! O que estás a fazer no confinamento?”

Foi desta forma que Kleon Papadimitriou, um estudante grego, de 20 anos, a estudar em Aberdeen, cidade escocesa, deu a conhecer o seu “desafio do confinamento”.

Uma viagem de 4.100 quilómetros entre Aberdeen e a capital grega, Atenas, de bicicleta.

O impacto e a propagação da pandemia da Covid-19 pelo continente Europeu, sendo o Reino Unido uma das regiões mais afetadas, o que obrigou ao encerramento de fronteiras e ao cancelamento de milhares de voos, impediu Kleon de passar o período de confinamento junto da sua família.

[…]

Kleon admite que ainda não tem noção do que conseguiu alcançar, mas reconhece que este precurso fê-lo crescer pessoalmente e espera inspirar outras pessoas a saírem “da sua zona de conforto”.”

Podes ler esta notícia/aventura em: https://sicnoticias.pt/mundo/2020-07-15-Da-Escocia-a-Grecia-de-bicicleta.-A-ideia-mais-maluca-em-tempo-de-pandemia

A entrevista de Kleon à CNN aqui: https://edition.cnn.com/travel/article/greek-college-student-bikes-home-48-days-trnd/index.html

 

Manifestação Nacional – Basta de Atropelamentos

Braga Ciclável @ Braga Ciclável

Publicado em 15/07/2020 às 10:43

Temas: #BragaZeroAtropelamentos Eventos ANSR Braga braga ciclável BragaZeroAtropelamentos manifestacao nacional Mobilidade Sinistralidade zeroatropelamentos


Em consequência de mais uma morte de uma jovem vítima de atropelamento, a FPCUB – Federação Portuguesa de Cicloturismo e Utilizadores de Bicicleta convida a uma manifestação pacífica a nível nacional amanhã, dia 16 de julho de 2020, às 19:00, para que se pense qual o caminho a seguir, para que se escolha um futuro mais promissor, onde as pessoas possam usufruir do espaço público sem medo, e onde as crianças possam brincar na rua com mais segurança.
A presença de todos é fundamental para mostrar que a sociedade civil está atenta e preocupada com este flagelo, mostrando que se pretende respostas e soluções que salvem vidas e evitem vítimas nas ruas e avenidas das nossas cidades.

Juntos podemos fazer diferença e vamos mudar consciências!!

Em Braga a associação Braga Ciclável apoiam esta iniciativa convidando a comunidade para que marque presença.

Apelamos para que se desloquem de bicicleta ou a pé, que mantenham as devidas distâncias físicas e uso de máscara.

Aveiro: A aguardar confirmação
Braga: Praça da República, junto ao Chafariz da Av. Central
Évora: Praça do Giraldo
Faro: A aguardar confirmação
Guarda: Jardim dos Castelos Velhos
Lisboa: Campo Grande junto à Biblioteca Nacional
Mértola: Largo Vasco da Gama
Porto: junto à Casa da Música
Santarém: Largo do Seminário

 

Um outro tipo de contágio

Sara da Costa @ Braga Ciclável

Publicado em 10/07/2020 às 23:01

Temas: Opinião amor andar de bicicleta Bicicleta Braga braga ciclável contagiada Contágio Segurança


Comecei a andar de bicicleta porque me deixei contagiar por alguém que acorda a pensar em bicicletas, desde os seus parafusos às suas rodas. Não consegui ficar indiferente a esse fascinante interesse. Gostei do sabor que essa vontade me deixou e não parei de pensar em arranjar uma coisa dessas para me deixar levar.

Foi então que senti os primeiros sintomas: adquirir uma bicicleta à minha medida e que permitisse chegar onde precisava sem perder o ar nos cabelos; querer arranjar uma maneira de levar tudo o que me fazia falta; olhar para todas as bicicletas que passassem por mim e começar a achar que tudo é demasiado longe para ir a pé e demasiado perto para precisar de outro transporte e, por fim, sentir e valorizar o sabor de uma outra liberdade.

Quem tem reparado e observado o movimento da cidade e das pessoas nota claramente que há mais gente a andar de bicicleta. Gosto de olhar para elas e pensar de onde vêm, para onde vão e como foram contagiadas por esta vontade. Com certeza ouviria muitas belas histórias, porque quem anda de bicicleta, geralmente, tem sempre uma história para contar. Se calhar ouvir essas histórias seria importante para perceber o que motiva as pessoas a andarem de bicicleta, em cidades como Braga, sem as mínimas condições para a utilização deste meio.

Que pessoas são estas que arriscam, mas que não desistem e seguem caminho nas suas bicicletas? Somos nós, são outros tantos e, na verdade, pode ser qualquer um.

O melhor incentivo e, provavelmente o mais eficaz, é contagiar com a nossa vontade em andar de bicicleta e revelar o quão simples e prático essa mudança pode ser. Assim, quanto mais pessoas utilizarem a bicicleta nas suas deslocações mais evidente e imperativo será a necessidade de agir em prol da segurança de todos nas estradas.
Trata-se de um contágio que só traz saúde.

 

fotocycle [249] obrigado Vhils

paulofski @ na bicicleta

Publicado em 3/07/2020 às 7:53

Temas: fotocycle motivação 1 carro a menos arte urbana bicicleta bike to home bike to work ciclismo urbano ciclistas urbanos do Porto cidades fotografia Hospital São João mobilidade outras coisas Porto Sua Alteza Vhils

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“o nosso dia-a-dia é isto, tentarmos dar o nosso melhor para que as pessoas fiquem bem”

 

can´t miss [214] lavozdegalicia.es

paulofski @ na bicicleta

Publicado em 19/06/2020 às 11:55

Temas: can't miss it 1 carro a menos bike to work boas ideias ciclismo ciclismo urbano ciclistas no mundo cicloturismo ciclovia coisas que leio covid-19 covid19 espalhando os bons exemplos Espanha Galiza mobilidade motivação noticia outras coisas pandemias partilha

E enquanto a Covid-19 paira no ar, ali na vizinha Espanha, via La Voz de Galícia, unem-se esforços entre o Governo e associações de ciclistas para juntamente construir o que eles chamam de Estratégia Estatal de Bicicleta, com o objetivo de manter a actual tendência em favor da mobilidade limpa “estabelecendo medidas que promovam o uso da bicicleta”.

La bicicleta, una cuestión de Estado a rebufo del covid-19

“El Ministerio de Transportes se lanza a diseñar una estrategia nacional para promover su uso

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“La política no siempre se desploma de arriba a abajo. Excepcionalmente se deja impregnar por las inquietudes de la gente. El Ministerio de Transportes ha sabido detectar la época dorada que vive la bicicleta en la desescalada sanitaria, por su efectividad en los desplazamientos inferiores a cinco kilómetros -los que más aumentaron con el fin del confinamiento- y su seguridad intrínseca respecto a los preceptos del distanciamiento social. El ministro Ábalos reunió ayer a varios colectivos de reivindicación ciclista para construir con ellos lo que denominó la Estrategia Estatal por la Bicicleta, con el objetivo de mantener esta tendencia en favor de la movilidad limpia «estableciendo medidas que fomenten el uso de la bicicleta».” […]

Continuar a ler o artigo em: https://www.lavozdegalicia.es/noticia/galicia/2020/06/19/bicicleta-cuestion-estado-rebufo-covid-19/0003_202006G19P9992.htm

 

Thank you, John Forester

Ana Pereira @ Escola de Bicicleta

Publicado em 24/04/2020 às 0:07

Temas: Acidentologia Aprender e ensinar Pessoas ativistas pessoas

Foi em 2007 que comecei a interessar-me pela questão do Código da Estrada e as bicicletas e pela questão da formação em condução de bicicleta (e de carro, face a bicicletas!). Muita pesquisa fiz eu nesses primeiros anos, principalmente, era tudo novo. Em 2007, no ano em que publiquei as FAQ do Código da Estrada, li o Effective Cycling. Em 2008 o Bicycle Transportation. Ambos escritos pelo John Forester, uma figura incontornável do cicloativismo e que cunhou o termo “vehicular cycling” e o mantra “Cyclists fare best when they act and are treated as drivers of vehicles.

Estes livros, em particular o segundo, e o trabalho do John Forester (e de vários outros que lhe seguiram ou que foram seus contemporâneos), mudaram a minha vida.

Aprendi a conduzir uma bicicleta em qualquer contexto, de forma confiante e segura, e deixei de sentir limites ao que podia fazer de bicicleta, aonde podia ir ou deveria ir, por onde poderia circular, e qual era “o meu lugar” na via pública, no espaço público. Em 2008 comecei a formar outras pessoas para atingirem o mesmo resultado.

Comecei a ganhar uma noção mais clara da inferiorização que as nossas sociedades carrocêntricas fazem de quem não se encontra dentro de um carro, e de como essa inferiorização é perpetuada através de políticas públicas, urbanismo, legislação, regulamentação, formação de condutores, cultura das forças policiais e judiciais.

Percebi também que a promoção da bicicleta era muitas vezes uma causa cega, e era feita de forma a tornar a bicicleta aparentemente mais atrativa para mais pessoas, mas sacrificando a sua segurança e a sua conveniência, em nome da captação de mais utilizadores, que frequentemente não surgiam, e quando surgiam não vinham do carro para a bicicleta, que era a única forma de se estar a resolver algum problema.

O John Forester fez de mim uma condutora de bicicleta muito diferente. E fez-me também uma ativista muito diferente.

Uma figura polémica até ao fim, e bastante desprezada por muitos ativistas das últimas décadas, o John Forester não era uma pessoa agradável de trato, pelo menos no âmbito dos temas da bicicleta. Mas isso é irrelevante. Foi o trabalho dele em defesa do direito dos utilizadores de bicicleta ao uso das estradas (numa época em que este esteve em risco de ser revogado, o que teria condenado o futuro da bicicleta como meio de transporte, desporto e lazer – em Portugal não estivémos também assim tão longe), e na área da educação dos condutores para que esse uso seja o mais seguro possível (além de prático e eficiente), que lhe deram o estatuto que tem.

Como é óbvio, não concordo com tudo o que o Forester defendia, e sei que o trato abrasivo que tinha só contribuiu para criar anti-corpos nas outras pessoas (nomeadamente nas que não concordavam com ele). É uma figura polémica, muito por ignorância e/ou por desonestidade intelectual, ou pelo menos alguma soberba, sempre me pareceu, dos seus críticos na análise dos factos e dos seus argumentos, e na contextualização das suas ações (os EUA dos anos 70 não eram a Holanda dos anos 70, e muito menos a Europa dos anos 2000 e 2010’s. Os argumentos clássicos são “o “vehicular cycling” falhou como estratégia de promoção do uso da bicicleta”, e o “se a segregação das bicicletas é assim tão má, porque é que na Holanda anda tanta gente de bicicleta?”.

Ora, o “vehicular cycling” não é propriamente uma estratégia de promoção do uso da bicicleta, é um modelo educacional para salvaguardar a integridade física de quem usa a bicicleta em cidades onde há carros, e muitos, e/ou a andar muito depressa (que são todas as cidades do mundo, praticamente), e garantir a competitividade da bicicleta como meio de transporte, em termos de tempos de deslocação. Claro que se dermos às pessoas uma ferramenta que lhes dá mais segurança e maior eficiência a usar um modo de transporte, é mais provável que elas o adotem, mas isso é um efeito colateral – o objetivo é melhorar a vida a quem já o adotou ou já quer mesmo adotá-lo. Como analogia, não é por tirarmos a Carta de Condução que vamos querer andar de carro, tiramos a Carta de Condução porque já queremos andar de carro, e queremos andar de carro porque a rede de estradas é imensa, razoavelmente segura e confortável, direta, temos estacionamento fácil e gratuito ou quase em todo o lado, o crédito à compra é fácil, nascemos numa cultura em que toda a gente anda de carro ou quer fazê-lo, e onde o carro é uma forma de expressão de status sócio-económico – e vivemos numa cultura onde esta ostentação é tolerada, e porque o carro é uma bolha física e psicologicamente confortável. Além disso, o nosso (des)ordenamento do território e políticas públicas de urbanismo e mobilidade sofríveis, faz com que o carro seja grosseiramente mais rápido e/ou confortável do que qualquer outra forma de deslocação, principalmente fora dos maiores centros urbanos.

Na Holanda, e noutros países, não é a segregação das bicicletas que justifica os números de utilizadores. É a segregação dos carros – na forma de ruas sem saída para carros, menos espaço alocado ao carro, pouca oferta de estacionamento para carros, cara e “fora de mão”, impostos altos na compra de carros, maior fiscalização dos comportamentos anti-sociais (estacionamento abusivo, excesso de velocidade, etc), acalmia de tráfego, cultura mais avessa à ostentação de status sócio-económico por via de bens materiais, etc, além da cultura universal da bicicleta como um meio de transporte, e a excelente articulação com uma boa rede de comboios (e outros modos). E mesmo assim, a quota modal do carro não é muito diferente da nossa, a bicicleta compete principalmente com o andar a pé e com o transporte público – a segregação dos veículos por modo, além da normal segregação por destino, torna todo o sistema mais ineficiente, nomeadamente com as medidas necessárias à mitigação do risco acrescido criado pela segregação (nomeadamente os semáforos).

Uma pessoa versada nos princípios tornados famosos pelo Forester, anda de bicicleta de forma segura e eficiente em qualquer lado, em qualquer infraestrutura, em Lisboa, em Londres, em Copenhaga, em Amesterdão, ou na China. Pessoas experientes a andar de bicicleta em sítios como a Holanda ou mesmo como Sevilha, só andam de bicicleta na Holanda, ou em Sevilha (e muitas vezes sofrendo colisões causadas pela segregação), chegam a cidades bastante pacíficas (all things considered) como Lisboa dos últimos 10 anos e encostam a bicicleta, porque não sabem partilhar as estradas em segurança com os carros em sítios onde as bicicletas rareiam.

Mas este post não é para entrar em argumentações nem em revisões da história da bicicleta e do cicloativismo (been there, done that, já não tenho tempo nem paciência). Este post é para lembrar, e agradecer publicamente, o trabalho de imenso valor de uma pessoa que o mundo perdeu recentemente, e a quem eu e muitos outros utilizadores de bicicleta têm uma eterna dívida de gratidão. Thank you, John Forester!

John Forester – Foto: Peter Flax

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O contra-relógio

Blogueaomundoembicicleta @ Blogue ao Mundo Em Bicicleta

Publicado em 18/02/2020 às 14:30

Temas: Ciclismo

Os gajos estavam nervosos.

Um grupo de 9 gajos ali no meio (comigo 10), de volta de um saquinho de plástico, tentando distribuir uns dorsais.

– Quem é o Edgar Santos?

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9 gajos (comigo 10) que mal se conheciam, vestidos cada um com o que calhou, com bicicletas todas diferentes, parecendo tudo menos uma equipa.

– Vais levar esse casaco? Vais ter calor.

– Não, depois tiro. Está um frio do catano.

– Como combinámos levar um jersey azul, e esse casaco é azul, pensei…

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Passava pouco das 8 da manhã de um domingo daqueles de inverno, em que nem chove, nem faz sol. A rotunda dos trabalhadores do campo estava com uma animação invulgar para um domingo de manhã.

À volta daqueles 9 gajos (comigo 10), que tentavam quebrar o silêncio com conversas de circunstância, estavam as equipas. Os carros (daqueles com várias barras no tejadilho e logotipos nas portas) alinhados a esquadro, ladeando as tendas (daquelas 3 x 3, coloridas, com badejas com o nome da equipa), e ciclistas (daqueles verdadeiros, com capacetes bicudos atrás e óculos incorporados, e fatos completos), deitados sobre bicicletas (daquelas mesmo a sério, com rodas lenticulares e barras no guiador), pedalando sem sair do mesmo sítio, em rolos que zumbiam , transformando Porto Alto numa colmeia gigante.

E 9 gajos, (comigo 10), lá no meio, sem saber se haviam de levar os telemóveis (nunca se sabe , pode fazer falta), se haviam de abrir já as barras energéticas (depois em andamento é mais difícil), ou se deviam voltar à casa de banho da Tasca da Tété, porque talvez não tivesse saído tudo.

– Tive de abrir a porta da casa de banho e chamar a senhora, porque não havia mais papel. E depois teve de mo passar por baixo da porta!

Às 8:30 partem os primeiros. 9 gajos arrancam de lá de cima da plataforma, descendo a rampa a todo o gás. Passam por nós como foguetes, 9 gajos de branco, tipo gémeos, sem qualquer expressão nas caras, todas iguais, as rodas a rasgar o alcatrão e a cuspir pedras em todas as direcções, obrigando-nos a agarrar bem as bicicletas (eu a agarrar bem o saquinho já com os casacos e os telemóveis), e fazendo-nos virar as caras, para as voltar a virar de seguida e já os vermos lá ao longe, quase a desaparecer.

No topo da plataforma, já prontos para partir, mais 9 gajos, agora todos de licras cor de laranja, e perfeitamente alinhados. E nós ali, sem nexo, sem qualquer sinal da mínima coisa em comum, a tentar parecer uma equipa.

O tempo passava depressa, saltando de 2 em 2 minutos, consoante o rugir dos arranques das equipas. E nós ali, com pele de galinha (eles. Eu cá tinha o meu casaco novo), porque estava frio e porque sabiam que, assim que arrancassem, nunca mais teriam tempo sequer de pensar que tinham frio. Ou calor. Nunca mais teriam tempo de pensar em nada disso. Em nada.

Bem, bora lá tirar uma fotografia, para a posterioridade?

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9:25

3 Minutos para a partida. Estou parado na Rotunda, onde o guarda me indicou que aguardasse. O telefone do Pinto preso no suporte colado ao vidro, para filmar em directo. Como é que ele me disse para fazer? 2 Minutos agora. Desbloquear…ligar o facebook. Escrever qualquer coisa. Epá, sei lá o que é que vou escrever! 1 Minuto…colocar o telefone no suporte, espera assim não os vejo, tirar do suporte, sair do carro, filmar… – Epá, está muito longe…Já partiram! Raios, pôr o telefone no suporte, ajeitar e …

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Vrummm, vrummm, vrrumm, vrummm, vrrumm, vrummm, vrrumm, vrummm, vrrumm

9 vultos entram repentinamente na rotunda, mesmo à minha frente. Entram quase deitados, cortando a curva como facas, para rapidamente se alinharem milimetricamente atrás uns dos outros, e desaparecerem no horizonte. 9 vultos de ciclistas, que vistos assim, pedalando em conjunto, avançando como um comboio, finalmente parecem um só. Uma equipa.

 

Rápido, arrancar. Não anda. Tirar travão de mão. 1ª, 2ª, 3ª, 4ª….aproximo-me rapidamente e colo-me ao grupo, como se fosse um deles, na roda. O ponteiro do velocímetro fixa-se nos 50 kms por hora, e mantém-se por ali durante aquela recta que parece nunca acabar. 3 Quilómetros feitos em cerca de 4 minutos!

À frente, aproximando-se rapidamente, uma mota da GNR e um guarda indicam uma curva à esquerda. Mantenho o carro a quase 50 kms / hora mesmo até à curva, tentando não perder a roda daquele pelotão. Preciso de fazer um esforço constante, para me lembrar que estou num carro, e para travar antes que eles deixem de pedalar. Eles pedalam mesmo até à entrada da curva, e só aí fixam o pedal esquerdo no ar, para se fazerem à curva. No segundo seguinte estão novamente alinhados, engatando novamente a mudança mais pesada e fazendo vergar aquelas pobres peças de carbono.

Encosto-me novamente à cauda do pelotão. O ponteiro não baixa dos 45 kms/h. Ali, tão próximo deles como me é possível estar, consigo ver mais do que os meus olhos veem. Consigo sentir aquelas mãos a estrangular os guiadores, as travessas quase a partirem e os elos das correntes em brasa, prestes a rebentar. Consigo sentir o alívio de quem se afasta para o lado, depois de dar tudo de si, durante minutos que parecem horas lá na frente. Um respiro tão breve quanto lhe permite o instante de ver passar por ele o último do pelotão, e ter de voltar a dar tudo para voltar a colar-se a ele.

É impossível ficar ali atrás. Mesmo no carro, o meu coração acelera e instintivamente mudo de faixa e sigo ao lado deles. Cerca de 20 minutos de prova e sente-se o esforço de quem vai já no limite. De quem veio sempre no limite. E de quem continua sempre no limite. Tiro o telemóvel do suporte e avanço lentamente ao lado deles, percorrendo com a câmara as expressões de cada rosto. Sei o quanto custa manter o corpo naquela luta. Lutar por não abrandar, por dar o melhor de si, por honrar os outros, e também por se manter ali, por não cair para trás, por não ouvir o corpo a pedir para parar, para sair. Estar no meio, protegido pelos da frente, e ver passar ao nosso lado, um após o outro, os que lutaram na frente e se afastam desgastados. Ver que só restam mais dois, e saber que vai chegar a nossa vez. Ver sair mais um, a respirar finalmente após o seu tempo de sufoco. Seguir o mais junto possível do único que resta à nossa frente, a sentir o seu esforço brutal, de quem luta por rasgar o ar e abrir caminho para toda a equipa.

Vai ser agora! Ele afasta-se para o lado e nem tempo tens de respirar fundo pela última vez! Uma parede de ar à tua frente que tens de partir como um ariete. Cabeça baixa, investindo todos as tuas forças contra ela. Não sentes nada, não ouves nada, não respiras nada. Dás tudo o que tens dentro de ti, e mais ainda, sem sentir dor, sem sentir nada. O tempo pára e segundos não passam, sem noção de mais nada senão de que tens que continuar a dar tudo. A rasgar o ar.

E de repente, reages! Deixas ir a bicicleta, que há muito que te puxava para o lado e sentes de novo o ar a entrar nos teus pulmões, a encher o teu corpo completamente vazio. Por momentos o teu coração respira e relaxa, como se tudo tivesse terminado. Mas não. Não te deixes ir, não fiques para trás. Cola-te ao último e prepara-te, pois vão precisar de ti novamente no máximo, daqui a pouco. E tudo recomeça, mais uma vez, dezenas de vezes, ao longo daqueles 90 minutos!

Porra! Conduzir e filmar ainda consigo. Agora atender o telefone, tudo ao mesmo tempo é mais complicado. É o Carlos Borrego. Atendo: – Sim, sou eu que estou a filmar. O quê? A imagem está ao contrário? É o que dá, porem-me a filmar isto, em vez de me porem na frente do pelotão a puxar pelos gajos! Cada um é para o que nasceu e filmar com telefones esquisitos não é para um sprinter de gema!

Com 30 minutos de prova, o ritmo é alucinante! Os kms são devorados rapidamente, bem como as peças perdidas de outros pelotões que se foram desfazendo à nossa frente. Ciclistas esgotados, que se arrastam após terem deixado tudo na frente do seu pelotão. Ciclistas cujo corpo cedeu, após terem ido ainda mais fundo do que o seu limite o permitia. E se por um lado, alguns de nós reagem com entusiasmo a estas conquistas, de alcançar outros que partiram antes, fazendo-nos sentir cada vez mais fortes, outros de nós sentem-se atraídos por um abandono assim, capaz de pôr um fim ao sofrimento que já nos domina e outro pior que ainda está para vir. É fácil desistir naquele momento em que estamos incapazes de gerir as emoções, e em que vemos outros a decidir assim. Mas luta-se até parecer que é o fim. Luta-se e dá-se sempre mais ainda. Ninguém quer desistir, apesar do corpo pedir há muito para desistir. E ninguém veio até aqui para desistir!

Desses vários ciclistas por quem passámos, dois deles, da equipa ciclismo 2640,também pensavam assim. Colaram-se ao pelotão, aproveitando para descansar o pouco que conseguissem e para sentir o pulsar de todos os que ali iam. Do carro, eu conseguia ver o seu esforço em não perturbar a dinâmica do grupo, dando espaço para deixar entrar na sua frente quem vinha a descair da frente do pelotão.  E estes Zés das Bikes deviam valer a pena, pois mesmo sendo de outra equipa, resolveram saíram do fim do pelotão e partir para a frente, sem se importarem com o facto de que estavam em prova, a ajudar uma equipa adversária.

Quase a chegar a meio do percurso, um pelotão de agora 12 ciclistas, 11 bicicletas e 1 carro continuava a devorar quilómetros. A estrada seguia agora na direcção do Biscaínho, tornando-se mais sinuosa e com alguns desníveis, que começavam a esticar mais o pelotão. Pequenas subidas e descidas faziam alterar a velocidade do grupo, e tornava-se mais difícil manter o ritmo constante. Por vezes, a quebra do pelotão parecia eminente, mas todos lutavam por se manter no grupo, voltando sempre a agrupar. Até ali. Até ao km 30, numa recta infindável daquelas que parecem planas, com 1 ou 2% de inclinação, começámos a ver um topo, ao longe. E esses 1 – 2 %, passaram para 3 – 4% e depois para 5 – 6%, e foi então que um dos ciclistas se deixa ficar para trás. E depois outro. E mais outro. Em 50 metros, perdemos 3 ciclistas, que não resistem a só mais um pequeno esforço, depois de tanto esforço e de terem dado tanto de si aos outros. O Guilherme, o Pedro Soares e o ciclista da equipa ciclismo 2640, que não sei o nome, e que se tinha juntado ao pelotão há uns quilómetros atrás.

No meu breve curso de treinador de ciclismo, dado pelo Carlos Duarte em horário pós-laboral via whatsapp, nunca falámos em ter de decidir entre acompanhar o pelotão ou ficar junto de quem fica para trás, dando-lhe incentivo para continuar e tentar reentrar. E por mais que o meu coração me dissesse para optar pela 2ª, e não abandonar ninguém assim tão cansado, sabia que tinha que seguir, atrás de quem continuava a lutar pelo melhor para todos e por honrar o esforço de quem não tinha mais para dar.

Continuavam 8 no pelotão: O Nuno Pimpão, o Fernando Miguel, o Manuel Rodrigues, o Álvaro Gaboleiro, o João Pinto, o Ricardo Lemos, o Henrique Lopes, e o Tiago Silva, da ciclismo 2640. Cada um, à vez, rendia os outros na frente, dando o máximo de si. Eu, no carro, apitava como se fosse num casamento, (pois não conheço músicas de ciclismo, ainda para mais que possa apitar no carro). Procurava na rádio uma música que os pudesse motivar, e quando apanhava uma de jeito, lá me punha lado deles, com o volume no máximo, para ver se os motivava mais (pelo menos assustava-os, pois as minhas habilidades de condução de carros não são assim tão espetaculares como quando conduzo a jackie).

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O percurso continuava, rectas e mais rectas, sempre a um ritmo alucinante, sem baixar dos 40 km/h. Já sem qualquer noção do tempo e do percurso, só pensava que não deveria faltar muito para terminar, até porque me parecia que eles já não deviam aguentar muito mais. Mas os gajos aguentavam, sempre ali que nem uns cavalos esbaforidos!

Ao km 49 (minuto 1:11 do filme), aproximámo-nos rapidamente de uma rotunda, em que não havia aparentemente sinalização. Íamos tão rápido, tão rápido, que só mesmo em cima da rotunda é que vimos um guarda a indicar para virar logo à direita. Eu tive de dar uma volta à rotunda, para me certificar que o caminho era pela direita. O Tiago Silva ia na frente e entrou em sentido contrário, ficando completamente sozinho, a uns 30 metros do grupo, e raios que o partam, não é que os foi lá buscar outra vez!

 

E daí até ao final era só mais uma recta.

Uma recta enorme. Ao longo da qual aqueles 8 corpos e cabeças cansadas já não conseguiam gerir tão bem o esforço. E depois daquele erro na rotunda, com a ânsia de recuperar, foi voltar a dar tudo até ao próximo topo, em que o grupo esticou tanto, tanto, até quase partir. O Álvaro na frente a querer dar mais e mais, sem se aperceber que apenas levava o Nuno Pimpão e o Fernando Miguel com ele.

Foi saltar para o meio da estrada, meter uma segunda e desatar ao berros: – Menos! Menos!  Estão a ficar para trás!

E aqueles gajos de bocas arreganhadas, de dentes a ranger, deitados com os peitos a sentir cada fibra de carbono do tubo superior das bicicletas, cada um a berrar mais alto do que os outros, lá se voltaram a colar uns aos outros, como dantes. Primeiro oTiago, que vinha a encostar, e depois todos os outros, com o Lemos e o Pinto no fim, um a retribuir ao outro as ajudas que já havia recebido.

Uma recta de 16 quilómetros, em que devo ter gritado – Bora lá! e – Está Quase! e Descansar é no fim!  umas mil vezes  (acho que não disse asneiras, porque me lembrei sempre que estava em directo) e em que devo ter buzinado mais do que no casamento da minha prima Susete do Sobral (já depois do copo de água)! 16 quilómetros com o coração a 175 bpm, em que honestamente vivi cada um deles como se estivesse ali a pedalar, colado atrás do Pinto, e no meio de todos, a dar o meu máximo na frente quando me calhasse, durante bué de tempo ( 5 segundos já não era mau!), a suar com eles, a sentir as pernas a ferver, e o sangue na boca, a ansiar ver a meta ao fundo da estrada! 16 quilómetros em que muitos outros gajos foram sendo apanhados e depois deixados para trás, mas em que os 8 seguiam juntos.  Se num momento algum parecia estar sem forças, a descair, no momento seguinte estava lá à frente, a dar o máximo e a puxar por todos!

Cada vez mais casas, mais pessoas nas bermas e alguns ciclistas já em sentido contrário. Cada vez mais polícias (ou guardas) e mais pessoas, junto às bermas, a tirar fotos e a puxar por nós. A estrada mais larga, duas faixas para cada lado. As pessoas cada vez a gritar mais alto e o guarda na rotunda, a indicar a curva à direita e a gritar – Força! Bora lá! É já ali!

E a meta! O arco laranja! Uma multidão de pessoas e a meta ao fundo!

No meio daquela euforia, deixas novamente de sentir o que sentes. O corpo desliga os sentidos e volta-se para dentro. Não distingues o que te gritam, nem quem te grita o quê. É tudo um som que apaga tudo, um barulho sem sentido. Não ouves nada. Não sentes nada, nem o pulsar do coração a disparar sangue dentro de ti. Não sentes os dedos da tua mão direita a empurrarem a manete sem tu mandares, nem ouves a mudança mais pesada a entrar. Não sentes o teu corpo a levantar do selim, sem tu o mandares. Ele age sozinho, por instinto. É agora ou nunca! E de um corpo esgotado, quase vazio, consegues arrancar forças para cortar a meta ao sprint, a gritar e levantar os braços em sinal de vitória!

Vitória!

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Raisparta o polícia, que não me deixou seguir com eles e que me impediu de passar a meta e perder aquele momento!

42,2kms/h!   65kms em 1 hora e trinta e dois minutos! A apenas 6 minutos dos primeiros classificados! Um molho de gajos ciclistas, que sem treinar, fizeram uma equipa, durante aquela hora e meia.

Não conhecia o Fernando Miguel nem o Manuel Rodrigues, e mal conheço o Nuno Pimpão (pedalámos juntos há umas semanas). Por respeito, e porque ainda não os conheço muito bem e me podem levar a mal, não lhes vou chamar mais nada do que Grandas Cavalões! Fizeram aquela hora e meia como se fosse um passeio, sem nenhum deslize ou fraqueza, arrastando a equipa quilómetros e quilómetros a um ritmo impressionante, só saindo da frente do pelotão porque lhes pediam. Acho que o André Greipel, quando vir as filmagens, vai pedir aos preparadores para lhe duplicarem a dose de suplementação, para não passar vergonhas quando vier fazer o contra-relógio de Samora Correia, para o ano que vem.

O Álvaro esteve sempre à altura, discreto e elegante, (tirando aquele deslize, em que ia na frente e se distraiu, e quase deixou metade do grupo para trás, não fosse eu ter acelerado, posto-me ao seu lado a gritar para abrandar). Que máquina infernal! Se se tivesse distraído, desaparecia da vista de todos!

O Guilherme e o Pedro Soares apanharam um grupo de gajos ainda mais cavalões que eles. Deram o que tinham e o que não tinham, e se não fosse aquele topo aos 30 kms, tinham ido até ao fim e ainda tinham ajudado e muito o grupo (depois era sempre a descer). E o Pedro Soares, de certeza que se fosse para ir almoçar à Igrejinha, não ficava para trás!

Ao Tiago Silva (da ciclismo 2640) tiro-lhe o cap! Que patrão! Entrar assim numa equipa adversária, com a postura certíssima com que entrou, e conseguir partilhar mais de metade da prova com toda a equipa, ajudando tanto ou mais do que todos os outros, mostra que é não só um grande ciclista, mas um grande Homem (deve ser do nome)!

E finalmente os Zés:

– Lemos: Muita experiência tens tu nesse lombo, para aguentares 65 kms a esse ritmo, ao lado de umas bestinhas desse gabarito! Sem nunca te negares ao trabalho na frente, sem nunca teres um deslize ou um atraso, também te tiro o chapéu. Deixo-te só um conselho: Quando escolheres os sapatos, tenta acender a luz, para acertares com o par!

– Henrique: Estavas a curtir tanto, mas tanto! Por duas ou 3 vezes me coloquei no carro ao teu lado, a filmar, e a tua cara demoníaca dizia tudo! Foste feito para isto! Esta cena das corridas é mesmo a tua praia! Enquanto os outros sofrem, tu divertes-te à grande!

– Pinto: Meu Cabron! Lá me obrigaste a passar mais uma noite em branco, a escrever disparates, com tanta coisa que eu tenho para fazer. Mas ainda bem que me conheces bem e sabes o gozo que me dá isto de deixar a malta toda cá de casa ir dormir, ligar um som e deixar que as memórias passem para os dedos!

Não foi bem o tipo de provas que tudo gostas. És um gajo meticuloso e organizado, e uma equipa feita à pressa, sem treino, deve ter-te feito dar voltas na cama. És um gajo de estratégias bem definidas e com os watts bem medidos. Durante estes kms, muitas vezes te vi a tentar gerir tanta potência descontrolada, querendo responder aos puxões da frente, mas a deitar o olho para os que iam atrás de ti.

Estás a ficar um cavalão, mas completo. Um boi-cavalo! Um gajo que treina para uma prova de longa distância, mas que faz contra-relógios! Como te conheço melhor do que os outros, acho que não levas a mal se te disser que estás a ficar uma granda Besta, pois não?

 

Aliás, são todos umas grandas bestas, pronto, que pedalam que sa fartam! (como eu gostava de ser e de pedalar, um dia!) Parabéns a todos

 

Pinto, se não quiseres publicar esta parte, põe só esta:

– Pinto: Até não estiveste malzinho, mas sinceramente esperava mais de ti! A pagar fortunas a um treinador, o mínimo que se esperava era um lugar no pódio. E ter um telefone que filma de pernas para o ar e não avisa, também não é brilhante! O que me valeu foram aqueles filmes caseiros que tinhas no cartão de memória e que fui a ver durante a viagem, senão a manhã tinha sido uma seca do caraças!

 

Se não tiverem mesmo nada para fazer, podem ver o vídeo aqui

 

Créditos:

Fotos: Inês Costa (na página do facebook de Arepa BTT ) https://www.facebook.com/permalink.php story_fbid=2533044763621417&id=1633214810271088

 

 

 

 
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