Projecto Bacalhau: Dia 14 - Chaves!

@ Lisboa Bike

Publicado em 6/05/2021 às 13:25

Temas: bikepacking viagem volta a Portugal

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Chaves! Rejubilai!

O tempo continua farrusco quando regresso à N103 pela manhã, mas não chove e depois do dia de ontem, isso agradece-se. A nacional tem vindo a revelar-se muito aprazível. Não tem a altimetria maluca das estradas secundárias dos montes e vales do Gerês, mas tem curvas e sobe e desce suficiente para não ser aborrecido. O trânsito é ligeiro e não provoca stress. Pelo meio da manhã tenho que concluir que, se não chover, vai ser um dia divertido. 


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Estas nuvens ladram mas não mordem


Por vezes custa a acreditar que já levo oitocentos quilómetros nas pernas, sozinho, sem treino e sem apoios, mas sempre a carregar oito quilos de carga. Estou a atravessar o país ao meu ritmo, sem complicações, sem restrições, sem regras que não sejam as minhas. A ideia de chegar a Chaves e começar a Nacional 2 é motivação mais que suficiente para o dia, mas se isso não chegasse, há sempre a paisagem do Norte, que não desilude.  


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Quase

Tenho que parar algumas vezes para afinar o desviador, o trabalho feito no parque de campismo não ficou perfeito. Mas é só questão de usar o afinador do cabo, não é preciso ferramentas. De resto o dia vai correndo, entre visitas às barragens e paragens para as fotografias do costume. O tempo vai-se aguentando e embora esteja frio, não chove.

A nacional 103 tornou-se tão agradável que fico mesmo com pena quando percebo que me estou a aproximar dos arredores de Chaves e vou ter de parar em breve. Que estrada fixe para rolar! Tudo indica que a N2 será ainda melhor, por isso a expectativa vai aumentando e as boas energias também, enquanto as minhas rodas deslizam pela zona antiga da cidade de Chaves e as suas muitas e bonitas pontes. Nunca aqui tinha estado, e isso acrescenta à sensação de realização e aventura. 


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Pontes


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E mais pontes


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E pontes...


Fui almoçar a uma conhecida casa de hamburgers do outro lado do rio, e aproveito o WiFi para fazer uso do telemóvel e tratar da reserva num hotel muito modesto, perto do estádio municipal. Depois vou passear pela cidade, magnífica e muito acessível a pé. Tenho também compras para fazer, sinto que estou a começar uma viagem dentro da viagem, e quero estar preparado.

Mais tarde estou a tirar fotos a mais uma belíssima ponte, a da primeira imagem desta página, quando reconheço o que é. Quase sem dar conta, fico mais sério de repente. Sinto um ligeiro formigueiro no estomago. Baixo o telemóvel. Trata-se da ponte romana de Chaves! Além de ser uma obra famosa da antiguidade, aquilo é practicamente terreno sagrado. Sim meus amigos, do outro lado daquela ponte está o início da mítica Nacional 2. O lendário quilómetro zero fica logo do outro lado do rio Tâmega, para lá daquelas pedras milenárias. E está agora ao meu alcance.



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Bicicleta no quarto! Win!


Dia 14. Venda Nova-Chaves. 72Km (Estrada).
 

Projecto Bacalhau: Dia 13 - No fio da Navalha

@ Lisboa Bike

Publicado em 5/05/2021 às 14:30

Temas: bikepacking viagem volta a Portugal

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Perdido no Gerês

A manhã do 13º dia da expedição é em tudo igual às anteriores. Chove continuamente. Trata-se de um desastre, mas há esperança: a previsão é de ligeira melhoria ao longo do dia. Eu decido que já esperei o suficiente e que hoje vamos mesmo fazer quilómetros. Dê por onde der. Nisto conto com o apoio do Dentuça, já que ele é aquele tipo de mamute de peluche que quando alguém diz "mata" ele logo diz "esfola!"


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A paisagem nunca desaponta

Ainda demos tempo ao tempo, a ver se este melhorava, mas não parou de chover. A tenda foi arrumada molhada, o que é sempre bastante desagradável, mas não havia alternativa. No GPS tinha um caminho carregado que serpenteava e ziguezagueava pelos montes. Isto era uma contrariedade inevitável, já que o caminho mais simples e com menor altimetria era pela fronteira, que estávamos impedidos de cruzar. A manhã já ia longa quando por fim tudo ficou arrumado, e arrancámos, debaixo de chuva e de um céu tenebroso. 


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O GPS achava que era por aqui


Uma coisa que os caminhos camarários e outras estradas secundárias têm de particular é a aparente ausência de regras no que toca a inclinação máxima ou o quanto apertadas podem ser as curvas. Houve momentos em que tive que desmontar, a inclinação da estrada era demasiado mesmo para a minha mudança super baixa 30-34. As descidas não eram menos animadas, aliás nada como uns 20% em empedrado molhado cheio de musgo para definir novos patamares de modulação da travagem em descida. Os travões mecânico-hidráulicos estiveram sempre à altura. 

A paisagem nunca desapontava, mas já o GPS continuava a fazer das suas. Dei por mim a entrar em trilhos de BTT, perseguido por um cão do tamanho de um burro, apenas para logo depois perceber o erro e ter que voltar para trás, para entretenimento do dono do entusiasmado Cão dos Baskervilles.

A chuva continuava a cair, por vezes com intensidade. Eu conseguia manter o tronco mais ou menos seco, protegendo os órgãos vitais, mas o resto ia ficando ensopado e o frio instalava-se. Em circunstâncias normais não estaria muito preocupado. Mas como sempre nesta viagem, aqui estava sozinho, a quilómetros de casa e de qualquer ponto de abrigo conhecido. Ninguém sabia onde eu estava e eu dependia e podia contar apenas comigo mesmo.
   

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Aqui já estava molhado até aos ossos


Descendo perto da Barragem de Vilarinho das Furnas, por uma serpenteante estrada estreita, onde mal cabia um carro, ia levando com um Mercedes que circulava fora de mão e só me viu no último instante. O dia estava escuro e com a chuva e a estrada sinuosa, a visibilidade era ridícula. Eu tinha colocado luzes à frente e atrás, mas não parecia fazer grande diferença. Entretanto os meus calções estavam ensopados já há algum tempo e a única forma de evitar a possível hipotermia era não parar, para não arrefecer.


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Sem comentários...

Seguia o meu GPS com uma confiança religiosa, pois não queria estar sempre a parar naquelas condições, para me orientar ou por qualquer outro motivo. Mas algumas paragens eram inevitáveis. Como quando havia gado na estrada, coisa comum por estas paragens. Não tenho fotos, pois a minha atenção nessas alturas ia para os cornos dos bichos. Juro que uma das vacas estava a dizer "Estás a olhar para onde? Esta manhã já caguei coisas maiores que tu!" Dizem que as vacas matam mais pessoas por ano que tubarões, e eu acredito. Outra fauna fácil de encontrar são os famosos garranos, que andam à solta pelos montes e vales. Vi também um acidente, que paralisou totalmente a N304, à excepção este vosso escriba, que contornou o carro virado ao contrário e seguiu caminho, deixando para trás filas quilométricas de enlatados desesperados.


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Só faltava o Sol!


Depois de muita chuva e quase 2000m de acumulado, sem ter feito paragens para comer, estava a ficar claro que Chaves não era um destino realista para o dia. Estava exausto, molhado e com frio. Precisava de uma refeição quente e de uma boa noite de descanso, num sítio confortável. E acabei por ficar no excelente Hotel São Cristovão, à beira da N103, que, assim o esperava, me havia de levar a Chaves. Saindo das roupas molhadas no meu quarto com vista para a Albufeira da Venda Nova, tomei um merecido duche prolongado e em breve iria jantar luxuosamente no restaurante ali mesmo ao lado, e de manhã estaria como novo.


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Um dos sítios onde a bicicleta ficou no quarto


Dia 13.
 Entre ambos os Rios-Venda Nova. 76Km (Estrada).

 

Projecto Bacalhau: Dia 12 - Mais Chuva

@ Lisboa Bike

Publicado em 4/05/2021 às 11:35

Temas: bikepacking viagem volta a Portugal

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O mundo continuava molhado lá fora


Quem diria que meados de Junho poderiam ser dias tão chuvosos no Gerês? Muita gente, se calhar. Pois é o dia décimo segundo da expedição e o Dentuça e eu parece que estamos a reviver o dia anterior. A manhã é passada na tenda, a ver o mundo por uma nesga aberta, a esperar que a chuva pare. Mas ela não para. E o tempo vai passando e chega uma altura que já é demasiado tarde para arrancar.

Pouco mais há a fazer a não ser ir até ao café-restaurante-mini mercado do parque. Mas isso depressa se torna aborrecido. Primeiro because COVID, afinal aquilo é um espaço fechado, que nem é muito grande, e a esplanada está fora de questão devido à água que continua a cair do céu. Segundo porque o pessoal do parque alterna entre o extremamente simpático e o muito estranho. Havia mesmo um indivíduo que fazia questão de não me servir. A outras pessoas até preguntava se estava tudo bem, se precisavam de alguma coisa, mas comigo fingia que não via que eu o estava a chamar à meia hora. É verdade que o parque era um bocadinho fancy, adaptado a malta do Norte que faz desportos náuticos, e não só. Não sei se era xenofobia, afinal eu estava vestido como um típico emigrante brasileiro (amigos do Brasil, por aqui ninguém vai ao supermercado de calções e havaianas em pleno dezembro, just saying).

Fosse como fosse, a minha estadia no parque parecia cada vez mais uma contrariedade. O parque é amplo, limpo, num espaço natural, sem o cimento e a sobre-construção que arruínam outros lugares deste género. Permite ainda muito espaço entre as tendas. Tem além de tudo isso, vistas absolutamente paradisíacas. Mas mesmo no paraíso um tipo sente-se preso se tem  outros planos. Eu andava a sentir-me culpado por ter uma média fraca de quilómetros diários e agora tinham passado dois dias com zero quilómetros. Não era ideal. 

Enfim, fechado na tenda, a mordiscar os últimos mantimentos que me sobravam, tipo amendoins e bolachas, ia fazendo planos para os próximos dias. A fronteira permanecia fechada, por isso tinha eliminado a hipótese de visitar amigos que tinha na Galiza, ali ao lado. A ideia agora era fazer a Nacional 2 em toda a sua extensão. Este era o próximo objectivo que me motivava. Uma viagem bucket list que eu tencionava incluir na minha volta a Portugal! Para isso, o próximo destino seria Chaves, onde a N2 tem início. Eu estava ansioso por começar, mas primeiro a chuva tinha de acalmar.

Dia 11. Entre Ambos os Rios. 0Km.

 

Projecto Bacalhau: Dia 11 - O Equipamento

@ Lisboa Bike

Publicado em 3/05/2021 às 14:41

Temas: bikepacking viagem volta a Portugal

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Pronta a rolar

É o décimo primeiro dia da viagem. Fechados numa tenda pouco maior que um sarcófago, o Dentuça e eu observamos a chuva cair no Gerês. Chove continuamente durante toda a manhã. As minhas regras dizem que não se arranca debaixo de chuva e gosto ainda menos de arrumar uma tenda molhada. A determinada altura demos a manhã como perdida e com ela o dia todo. Já não valia apena arrancar. E continuava a chover.


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    O acampamento base


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Mudar o dropout sem tirar o cabo do desviador


Concentrei-me no que podia fazer. Procurei um lugar abrigado no parque, e fui tratar do desviador traseiro. A queda do dia anterior provavelmente teria empurrado o desviador e o dropout estaria torto. Uma coisa que acontece. Por isso mesmo, tinha comigo um dropout extra, foi questão de trocar e afinar. Ficou muito melhor, mas a indexação mais tarde veio a dar problemas e só resolvi isso já na estrada.  

Aproveitemos esta pausa na viagem para falar do que tenho comigo para permitir fazer estes quilómetros com algum conforto. Falemos então do equipamento.

A Bicicleta

A minha bicicleta é uma TRIBAN RC 520 GRAVEL de 2019. Este modelo é uma versão gravelizada daquilo que no fundo é uma bicicleta de estrada de endurance (A Triban 520 standard). Trata-se pontanto de uma bicicleta de estrada com uma posição confortável, apta para grandes distâncias. Tem travões de disco e o quadro aceita pneus até 36mm, oficialmente, e 40mm não oficialmente.


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Uma das alterações feitas à Triban


As diferenças para o modelo mais convencional são a pintura especial, o guiador mais largo e com flare, 46cm no meu caso, e os pneus largos Hutchinson Overide, de 35mm. A estas diferenças tenho de acrescentar as que eu próprio levei a cabo. A Saber: 

  • A pedaleira Shimano 34-50 pareceu-me demasiado para uma bicicleta carregada, e alterei para uma Miche 30-46 ligeiramente mais leve e bem mais simpática nas subidas. 
  • Pelas mesmas razões, a cassete 11-32 de origem foi trocada por uma Shimano 105 de tamanho 11-34, o maior tamanho que o desviador aceita (a acreditar na Shimano, mas ninguém acredita).
  • Os pneus foram os mesmos recomendados pela marca, mas montados Tubeless.
  • O guiador foi trocado por um FSA de 44cm, também de gravel, por uma questão de tamanho, mas também por preferência ergonómica.
  • O espigão do selim, e o avanço foram trocados por questões de bike fit, e também estética e peso.
  • Os pedais são uns SPD da Shimano, os PD-M540.
  • As rodas de origem, por fim, foram trocadas por umas DT Swiss, uns cubos 240 montados em simples aros R470 da mesma marca, um conjunto robusto e suficientemente leve.

Tudo somado, a bicicleta pesava cerca de 10,25Kg. Para descer deste peso, era preciso gastar bastante dinheiro. Para mim o peso era suficiente, e as escolhas davam garantias de fiabilidade, que era o mais importante. 

Os Sacos

Para transportar tudo o que era necessário, optei por um set-up convencional de bikepacking, saco de guiador, bolsa de quadro, bolsa de selim e mais uma bolsa pequena de tubo superior.  Tinha também dois feedbags no guiador, para água e comida. Abaixo ficam as capacidades e os conteúdos.


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Saco de Guiados da Topeak


Saco de Guiador. É um modelo de 8 Litros, e servia para transportar a tenda de 1 pessoa da Decathlon, de 1.6Kg, mais o colchão de campismo insuflável. A arrumação tem a ver com o formato da tenda, mas também ajuda na distribuição de peso.


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Esses chinelos já viram muita coisa!


Saco de selim. Modelo de 10 Litros, aqui ia o kit de comida (o fogareiro a álcool, álcool, mais o pote, isqueiro, talheres e mini esponja para lavagem), mais o saco cama ultra leve, e roupa. A roupa para ciclismo que não ia vestida era constituída por jersey, jersey de inverno e impermeável, e manguitos e pernitos. Para uso fora da bicicleta tinha uma t-shirt de desporto ultra leve e uns calções de desporto genéricos. Levava alem disso uma muda de meias e roupa interior, e uma toalha de desporto de secagem  rápida. Amarrados por cima do saco, embora por vezes fossem noutro lado, ficavam uns básicos chinelos de dedo.


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Conteúdo da bolsa de quadro Restrap


Saco do quadro. Modelo de 4.5 Litros. Aqui viajavam a minha mini-bomba, câmaras de ar, as ferramentas, as peças extra, e alguma comida. Havia também um pequeno kit de primeiros socorros, e o necessaire. Os itens de electrónica viviam também aqui, powerbanks (2x5000mAh), tomada USB com várias saídas, rádio MP3, auriculares, cabos. Tinha também um cadeado baratucho, para aqueles momentos em que tinha mesmo que deixar a bicicleta sozinha por uns minutos. Todos os sacos são da Topeak, excepto este do quadro, que é da Restrap.


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Bolsa de quadro Topeak


Bolsa de quadro (tubo superior). Cerca de 0.5 Litros. Aqui estavam barras energéticas e outros itens pequenos, como luzes. Por vezes o powerbank vinha para aqui, para uso em andamento, mas foi coisa que nunca foi necessária, pois o meu GPS aguenta mais de 30h seguidas de navegação.  


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Vista do Cockpit 


Feedbags. Cerca de 0.6 Litros (x2) Nestas úteis bolsas transportava 1 bidão de 600ml e comida. Por exemplo um pacote de frutos secos já aberto. Escolhi levar estas bolsas em parte devido à impossibilidade de transportar mais água no quadro, existem apenas os dois apoios tradicionais e com os sacos apenas conseguia montar bidões relativamente pequenos. Tudo somado transportava 600ml x2 + 750ml, ou seja quase 2 litros de líquidos. 


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A minha capacidade de água para a viagem


O peso de todo este material totalizava 8Kg, o que me deixava razoavelmente satisfeito. No início do projecto tinha decidido que o peso total para a viagem não deveria ultrapassar os 100Kg, para poupar as rodas e manter algum prazer na condução, também nas subidas e fora de estrada. A meta foi atingida, mas eu tive de perder algum peso antes da data da partida!

Dia 11. Entre Ambos os Rios. 0Km.
 

diz que “Grande Porto lidera a revolução da bicicleta”

paulofski @ na bicicleta

Publicado em 3/05/2021 às 14:35

Temas: mobilidade bicicleta ciclismo ciclismo urbano ciclistas urbanos do Porto cidades coisas que leio JN MUBI outras coisas partilha Porto testemunho avulso

Resumidamente, o artigo do JN via MUBI:

“É essencial que passe a existir da parte dos nossos governantes a vontade e a coragem política em concretizar este potencial, apoiando e estimulando o uso de modos de transporte saudáveis, económicos e ambientalmente sustentáveis em alternativa ao automóvel individual, à semelhança do que acontece em numerosas cidades e regiões do resto da Europa.

«Portugal é o maior fabricante europeu de bicicletas, mas vai na cauda do pelotão no que diz respeito ao uso das duas rodas como meio de transporte. Só 1% dos portugueses pedala diariamente, longe dos 43% no baluarte dos ciclistas, a Holanda.

A diferença também é cultural, mas a mobilidade sustentável releva, sobretudo, do ambiente, da saúde e da economia mais pura e dura. Por cá, um estudo científico das bicicletas esquadrinhou o país de lés a lés e concluiu que o Porto é o município com maior valor bruto ciclável. Matosinhos, Gaia, Trofa e Gondomar também estão no “top ten”.

Descarbonização

O Centro de Investigação do Território, Transportes e Ambiente (CITTA) é um polo de investigação da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP) e da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra. Esta frente científica passou os últimos anos a investigar o potencial estratégico da bicicleta para o desenvolvimento dos territórios. E assim nasceu o projeto “Impulsionar a Bicicleta em Cidades Principiantes”.

Resumidamente, o projeto “Boost” – tão graficamente explícito, com um selim, um volante e rodas aplicadas aos ós – é um estudo para a mobilidade sustentável. Gaba os méritos ecológicos que o orientam à partida e que o definem ainda mais à chegada, a pedalar pela descarbonização, pela saúde e pela economia em circuitos curtos.

Fatura ambiental

Todos os municípios do país foram avaliados e mais de uma dezena deles, exatamente 21 – 20 do Continente e um da Madeira, Machico – foram pilotados para estimativa dos impactes ambientais, energéticos e económicos da bicicleta. Sabia que 123273 portuenses gastam diariamente 159464 euros em combustíveis para deslocação (ida e volta) ao trabalho ou à escola? E que se os ciclistas, em vez dos agora estimados 2,24% (2761) fossem 51% (62869) esses mesmos custos baixariam para 96329 euros (economia anual de 8,415 milhões de euros)?

Estes e outros números, achados na ponderação do valor económico da bicicleta são amplamente demonstrados no estudo do CITTA e podem ser encontrados em “boost.up.pt”, onde também se avaliam faturas ambientais (emissões de carbono, qualidade do ar) e impactes para a saúde, também associados ao exercício físico nas deslocações quotidianas, para o trabalho ou para a escola.

Também determinada na conjugação de vários indicadores – a geografia, a densidade populacional, a taxa de motorização, a proximidade de centralidades… -, esta cadeia de valor há de igualmente entroncar em estimativas menos tangíveis. Exemplo: Portugal não só é autossuficiente como é o maior fabricante europeu de bicicletas, pelo que a rendição do carro pelas duas rodas tem ainda mais alcance socioeconómico. E ainda mais se se verificar que 98% dos carros comprados em Portugal são importados.

“O debate é por um território mais humanizado, que ofereça às pessoas, numa escala mais pequena, aquilo que as pessoas precisam, para podermos reduzir as grandes deslocações, das grandes distâncias, e dessa forma reduzir a utilização e a dependência do automóvel”, afirma Cecília Silva, coordenadora do projeto do CITTA.

Meios suaves

“Neste momento – conclui a investigadora da FEUP -, a questão da mobilidade por meios mais suaves tornou-se incontornável, não tanto pela mobilidade em si, mas pelas preocupações internacionais cada vez mais fortes relativamente à descarbonização e à necessidade de atenuarmos as alterações climáticas ou, pelo menos, mantê-las sob controlo. A questão da sustentabilidade entrou na agenda política e com ela a mobilidade sustentável, porque é uma área que tem impacto significativo na vida das pessoas”.

Porto: vaga a crescer entre a moda e a emergência

Algures entre a mola que segura a bainha das calças do deputado sueco a pedalar em Estocolmo, a fleuma britânica de Boris Johnson a acelerar pelas ciclovias de Londres ou uma certa tendência hipster, mora também um conceito social da mobilidade sustentável. No Porto, a tendência ganha corpo, mas é bem menos sofisticada.

“Eu não ando por modas. O médico deu-me uma ordem e a bicicleta foi a minha melhor amiga para parar com o álcool e com o tabaco. Deixei de fumar de um dia para o outro e, hoje, ando 40 quilómetros por dia. Faço tudo de bicicleta”, diz António Fonseca, de 57 anos, tripeiro de Massarelos, a pedalar pela marginal e pela Foz.

“Pois, a bicicleta é muito importante para alterar os hábitos de mobilidade e pensar em meios de deslocação mais ecológicos, mas, para isso, é preciso criar condições. E, já agora, um mercado acessível. Hoje em dia, as bicicletas a preços abordáveis, aí até 200 ou 300 euros, estão esgotadas. Só há das mais caras”, diz José Abreu, de Matosinhos.

Já para Paloma Ariston, carioca de 41 anos, a bicicleta junta o agradável à emergência sanitária: “Com a pandemia, quero evitar transportes públicos”, diz a cidadã brasileira, que regista “melhoria nas ciclovias” do Porto.

Na Invicta há 54 quilómetros de pistas para ciclistas. A MUBi – Associação pela Mobilidade Urbana em Bicicleta quer mais e melhores condições e tem em curso uma petição pública para sensibilizar a Câmara do Porto a perseguir os esforços pela “mudança de paradigma”.

“O Governo e as câmaras têm de fazer muito mais no combate às alterações climáticas. A bicicleta tem servido em Portugal essencialmente para maquilhar de verde discursos políticos!”, diz a MUBI.

FACTOS E NÚMEROS

Combustíveis

Os portuenses gastam 20,411 milhões por ano em deslocações (ida e volta) para o trabalho (1,29 euros diários per capita). Em Lisboa, a fatura atinge os 52,767 milhões (1,35 euros diários per capita).

Emissões CO2

O estudo do CITTA calcula em 944 mil euros os custos anuais das emissões de C02 dos portuenses em deslocações (ida e volta) para o trabalho. Em Lisboa, a fatura quase triplica: 2,444 milhões de euros.

Copenhaga à frente

A cidade dinamarquesa é a capital europeia com mais utilizadores de bicicleta (35%) nas deslocações para o trabalho. Amesterdão (32%) e Berlim (31%) completam o pódio. Lisboa fica na cauda (2,21%).

Eurovias

Da ponta norte da Escandinávia ao contorno de toda a costa atlântica portuguesa, a EuroVelo1 (11 mil quilómetros) é uma das 17 vias cicláveis abertas na Europa, num total de 70 mil quilómetros. Quando o projeto da Federação Europeia de Ciclistas estiver concluído, a soma dos circuitos transcontinentais ascenderá a 90 mil quilómetros.

DADOS

424 milhões de euros em exportações

Portugal bateu o recorde de exportações de bicicletas em 2020. Mesmo em ano de pandemia, a venda para o estrangeiro rendeu 424 milhões de euros, um acréscimo de 5% face a 2019.

2,7 milhões de bicicletas fabricadas no país

Em 2020, Portugal foi o maior fabricante europeu de bicicletas. Segundo o Eurostat, produziu 2,7 milhões de bicicletas. O setor (uma centena de empresas) cria 1900 empregos diretos e 5900 indiretos.»”

Fontes:

https://mubi.pt/

https://www.jn.pt/local/noticias/porto/porto/grande-porto-lidera-a-revolucao-da-bicicleta-13658624.html

 

Projecto Bacalhau: Dia 10 - No Gerês!

@ Lisboa Bike

Publicado em 2/05/2021 às 15:10

Temas: bikepacking viagem volta a Portugal

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De. Sonho.


Amanhece em Vila Praia de Âncora, mas não entra muita luz pela janela do meu quarto na guest house. Como sempre, tinha consultado a previsão, e no fundo sabia que ia chover. Mas estava a relativizar essa informação, porque também tenho uma regra que diz que não se saí de casa para uma volta se na hora de arrancar já estiver a chover lá fora. Pequeno almoço tomado, tudo arrumado, não podia adiar mais a decisão. A alternativa é ficar mais um dia, e passar 24h fechado num quarto.

Portanto desço para recuperar a minha bicicleta do anexo e assim que ponho as rodas na rua, começa a chover. But of course! O dono da casa, que me observava da porta (seria o baixinho do letreiro?), ainda alerta para o facto de,  talvez, se calhar, não ser boa ideia arrancar com aquele tempo. Mas eu já eliminei as alternativas da cabeça, agora é para avançar. 


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Saiu cara esta imagem


Antes de me fazer à estrada, vou até à praia, para a despedida. Resolvo fazer uma última foto, e a imagem de cima foi tirada imediatamente antes de uma rajada de vento tombar a bicicleta carregada para o lado do desviador. Tudo parecia bem, mas assim que preciso de trocar de mudança, percebo que o desviador foi mesmo afectado. Tenho as mudanças todas afaralhadas (sim, é uma palavra), com a corrente a querer saltar em boa parte delas.


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A paisagem não decepciona


Com a esperança de que a chuva pare e o vento amaine, vou fazendo o meu caminho para Oriente. O impermeável parece ser suficiente para a intempérie e encontro uma mudança que parece rolar suave nos carretos e tento manter-me nela, até ter oportunidade de dar uma olhada no desviador.  A estrada é bonita e tem curvas e paisagem que cativa, pelo que, apesar das condições, os quilómetros não se fazem penosos. 


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Ponte da Barca


O tempo melhorou e não chove quando chego a Ponte da Barca. Não recordava devidamente a beleza singular desta terra, e logo decido que este vai ser o destino para almoço, já que a vila tem também grande reputação na importante área do petisco. E tive que me apressar, já que por todo o lado se viam turistas, que aparentavam ter como eu um saudável apetite e os lugares nos restaurantes já escasseavam.


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Festa


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Grandes fotos, para onde quer que se aponte


Com uma enorme francesinha a aconchegar o estômago, sigo pela N203 rumo aos limites do Parque Nacional Peneda-Gerês. A paisagem vai ficando mais desprovista de marcas da presença humana à medida que vou avançando. Na reunião que tive com Dentuça durante o almoço identificamos um parque de campismo pouco depois de cruzados os limites do parque, perto de Entre Ambos os Rios. Dadas as condições, é talvez o melhor destino para hoje. 


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Gerês!


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Água por todos os lados!


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Resistência à água prestes a ser testada


Dia 10. Vila Praia de Âncora-Entre Ambos os Rios. 60km (Estrada).
 

Projecto Bacalhau: Dia 9 - Vila Praia de Âncora

@ Lisboa Bike

Publicado em 1/05/2021 às 23:45

Temas: bikepacking viagem volta a Portugal

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Ponte sobre o Cávado, N13


A alvorada é em Vila Chã, uma zona rural muito perto do Porto. Enquanto trato do pequeno almoço no belo parque de campismo local, não posso deixar de reparar que, apesar das etapas curtas, já levo quase seiscentos quilómetros nas pernas, e estou cada vez mais perto do Gerês. Considero que o meu corpo já teve algum tempo para se adaptar, e que eu deveria fazer um esforço para conseguir aguentar etapas maiores, já que com o equipamento que tenho isso é perfeitamente possível. 

Nesse sentido, deixei para trás alguns itens mais "pesados", do pouco que eu carregava: o meu powerbank extra, de reserva, de apenas 5000 mAh e que só funcionava quando lhe apetecia, e o meu fogareiro a álcool, que andava a funcionar mal e além disso o combustível vinha-se revelando muito difícil de encontrar. Mais leve meio quilo, se tanto, rumei a Norte, possivelmente pela última vez.


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Mercado da Póvoa do Varzim


A manhã é passada na N13, e apesar de haver algum trânsito, o ambiente é simpático, já que é feriado (10 de Junho) e há muitos outros ciclistas na estrada. A estrada em si é interessante, já que passa por muitas terras onde eu e o Dentuça poderíamos perfeitamente perder umas horas, (Vila do Conde, por exemplo) mas onde infelizmente não vamos parar desta vez. 


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Já é um monumento da cidade


Parar só parei em Viana do Castelo, depois de atravessar mais uma ponte dos demónios (N13) para chegar à cidade. O tempo estava mais freso, instável até, e havia vento de Norte para abrir o apetite. A cidade tinha uma atmosfera estranha, já que ao contrários das outras, havia muitos turistas e até alguns peregrinos, coisa que me custava a compreender, já que a fronteira continuava fechada e não me parece que ir a Santiago seja uma excepção aceite para a cruzar.


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Outro marco de Viana. Aparentemente


O excelente almoço foi na esplanada de um restaurante na zona nobre da cidade, daqueles sítios onde a comida é boa, o atendimento é excelente e o preço não aleija. O empregado mostrou muito interesse na minha bicicleta e na minha viagem e a conversa fez-me bem ao ânimo. Não desfazendo no Dentuça, parece que até eu preciso de falar com pessoas de quando em vez. Entretanto usei o telemóvel para fazer reserva de quarto em Vila Praia de Âncora. Este pequeno luxo era necessário, porque depois de 3 noites consecutivas de campismo tinha todos os gadgets a ficarem sem bateria.

O resto do dia fez-se sem maior dificuldade, mas em Vila Praia de Âncora, ao tratar das minhas rotinas pós pedalada, arranjei maneira de ainda fazer uns 10km a pé, já que o supermercado onde eu insistia em querer adquirir fortes quantidades de alimentos, teimava em só existir na base de dados da página web que eu consultei, e não na realidade física do universo conhecido. 


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O tempo estava a mudar em V. P. de Âncora


Confortavelmente instalado na cama, de volta ao meu quarto da Guest House "Baixinho", com a bicicleta a salvo num anexo no piso térreo, fiz os meus planos para o o futuro: se tudo corresse bem, amanhã estaria, por aquela hora, dentro do parque do Gerês. Tinha que ter em consideração que, longe do litoral, a altimetria diária iria aumentar consideravelmente. E assim o esforço. E eu não andava satisfeito com o meu rendimento diário até aqui. A ideia era aumentar a quilometragem das etapas, não diminuir. Precisava de um plano.

Dia 9. Vila Chã - Vila Praia de Âncora. 75km (Estrada)

 

Em busca do projeto perdido

Rafael Remondes @ Braga Ciclável

Publicado em 1/05/2021 às 8:00

Temas: Opinião Avenida 31 de Janeiro Avenida da Liberdade Câmara Municipal de Braga ciclovia Ciclovia da Encosta Ciclovia de Lamaçães projeto aprovado Projeto de Mobilidade Rodovia Universidade do Minho - Centro


O título pode remeter para um filme do Indiana Jones ou para o livro de Marcel Proust: “Em busca do tempo perdido”. Na verdade este texto é sobre um projeto de mobilidade para a cidade de Braga que não saiu do papel.

O projeto

O projeto de mobilidade que falo foi encomendado ao conceituado arquitecto, José Gigante, estando o mesmo concluído e entregue em 2017. Nele estão previstas 4 áreas de intervenção para a cidade:

  • Avenida da Liberdade;
  • Avenida 31 de Janeiro/Avenida Dr. Porfírio Silva e Rua Padre Francisco Almeida;
  • Ciclovia da Encosta com extensão da ciclovia até à Universidade do Minho;
  • Avenidas que compõem atualmente a Rodovia: Imaculada Conceição, João XXI e João Paulo II.

Nessas áreas estavam planeadas as seguintes intervenções:

  • Ciclovias unidirecionais segregadas em cada um dos sentidos;
  • Vias dedicadas ao transporte público;
  • Manutenção do mesmo espaço de passeios para os peões;
  • Fim das hediondas e tenebrosas passagens subterrâneas, substituídas por passadeiras à superfície.

O que trazia de novo para a cidade?

A implementação na plenitude deste projeto permitiria duas coisas muito importantes:

● Ciclovias a ligar pontos estratégicos da cidade (Universidade, centro histórico, estação de comboio, zonas com elevada densidade populacional);

● Sendo segregada e unidirecional, permitiria o uso da bicicleta em segurança.

Convém recordar que é precisamente por falta de segurança que não se usa a bicicleta em Braga. Ficando só pela mobilidade ciclável, este projeto seria suficiente para criar um boom na utilização da bicicleta.

Obviamente, há ainda benefícios para peões e utilizadores de transporte público. Para os peões (a promessa de uma maior) mais segurança com o fim das passagens subterrâneas e com atravessamentos à superfície. Para os utilizadores do autocarro, maior conveniência, com a via dedicada, o autocarro pode ser mais rápido e, ao sê-lo, torna-se mais frequente e pontual.

Era… Mas deixou de ser

Depois de questionada pela Braga Ciclável, a câmara respondeu por carta a informar que suspendeu, informalmente, o projeto.

Caíram as ciclovias unidirecionais e caíram as passagens de peões à superfície. O BRT não caiu, mas vem sendo anunciado há tanto tempo que ainda corre o risco de se tornar o “novo aeroporto de Lisboa” de Braga.

Sobrou a ciclovia da encosta. Mas se considerarmos que os 3,5 km de ciclovia já existiam e que foi apenas remodelada, no fim ficamos com mais 900 metros extra de ciclovia.

Não foram apresentados os motivos para a suspensão, apenas foi dito que numa “reunião de amigos” se suspendeu uma decisão de um órgão municipal. Democrático…

Só é vencido quem desiste de lutar

O projeto foi suspenso, mas a Braga Ciclável continua à procura dele. Não literalmente à procura, porque já temos propostas pensadas e elaboradas: Zero atropelamentos de peões e ciclistas (hoje há um atropelamento a cada 3 dias na cidade), ciclovias nas principais avenidas, numa primeira fase, e incentivos à compra e utilização da bicicleta.

Continuamos e continuaremos sempre a propor ideias concretas ao Município de Braga e aos Bracarenses para que este projeto, ou outro que vá no mesmo sentido, seja implementado.

Não desistimos de ter em Braga uma mobilidade para todos: bicicleta, peões, transporte público e carro.

Não desistimos de ter uma cidade mais amiga das pessoas que andam a pé, de bicicleta e de transporte público.

 

Projecto Bacalhau: Dia 8 - O Brilho da Invicta

@ Lisboa Bike

Publicado em 30/04/2021 às 18:22

Temas: bikepacking viagem volta a Portugal

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O Porto a dar o máximo. Como habitualmente

É o oitavo dia da expedição e o Dentuça e eu acordamos no Parque de Campismo da máfia local, tendo concluído que este espaço só pode ser parte de algum engenhoso esquema de lavagem de dinheiro. O empregado desconfiado da recepção do dia de ontem tinha acabado por confessar que era o seu primeiro dia naquele trabalho, e por isso estava algo hesitante, mas nós não nos deixamos enganar. O que aqui se passa é claramente coisa do crime organizado!

Cometo o erro de não abandonar o lugar tão depressa quanto possível, e uma vez que ali havia uma pastelaria, resolvi que o melhor era sair já com o pequeno almoço tomado. A pastelaria parecia ser aliás mais importante que o próprio parque, já que era ampla e servia as muitas pessoas que passeavam à beira mar. Poder-se-ia mesmo dizer que se tratava de uma pastelaria com parque de campismo, e não ao contrário. 

Mas ainda antes de conseguir comer alguma coisa, já estava a ser repreendido sem contemplações, por ter encostado a bicicleta a uma parede, onde não estorvava ninguém. Fui então obrigado a deixar a bicicleta já carregada num daqueles estacionamentos entorta-rodas, longe da vista. Achei que não valia a pena perder muito mais tempo por ali, e fui devolver o meu cartão do parque, mas não havendo ninguém na recepção, tentei entrega-lo na pastelaria. Uma senhora disse que sim, podia ficar com o cartão, mas deixou logo bem claro que não me podia deixar sair, já que não tinha confirmação de que eu tinha pago. (Eu tinha, na tarde anterior). Eu disse que aguardaria que ela confirmasse e ela disse que eu teria mesmo que esperar pelo patrão, que ela não sabia onde se encontrava nem quando viria.

Nesta altura tive que tapar a boca ao dentuça, e controlei-me eu próprio para não lhe dizer onde é que ela podia por o cartão e mais o patrão e as regras da casa. Acabei por sair sem voltar a ver o capo da cosa nostra local, mas desconfio que ele deve ter autorizado a minha saída pelo telefone, porque ninguém veio a correr atrás de mim, quando montei na bicicleta e rumei ao Porto.


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    Baby needs a new pair of shoes


Tinha que me organizar. Hoje tinha coisas para fazer! Depois de uma semana a vagabundear pelo país, sem grandes pressas ou obrigações, hoje tinha planos para concretizar. Primeiro na lista estava comprar uns sapatos. As exigentes caminhadas dos últimos dias tinham deixado os meus históricos Shimano em muito mau estado, e eu já não acreditava que resistissem ao resto da viagem, pelo que queria aproveitar que estava numa grande cidade para trocar de sapatos. 


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O Douro pela manhã

Não tive grande sucesso nas lojas de bicicletas dos arredores de Gaia e resolvi ir para o Porto. A ideia era seguir sempre pela costa, primeiro, e depois pela margem do Douro, até à ponte D. Luís. De notar que, embora aqui tenha passado muito pouco tempo da minha vida, eu nasci em Gaia, e tenho muito boas recordações do Porto, pelo que aquela manhã tinha um sabor muito especial.


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Ah, o Porto...

E foi assim que fiz toda a excelente ciclovia até à marina do Douro e passei para a estrada, na Afurada. O caminho serpenteava junto ao rio, passando também por velhos armazéns e palacetes. Vi barcos rabelos a serem reparados (construídos?), turistas a passear e a silhueta familiar do Porto a ser progressivamente revelada, na outra margem. Havia uma luz incrível junto ao Douro naquela manhã e, por alguma razão, nenhum carro na estrada. Abrandei o ritmo, pois sabia que dentro de nada estaria na ponte D. Luís. Queria apreciar o momento. A luz, a vista, a estrada vazia, o som da corrente a deslizar nos carretos da bicicleta, que me tinha trazido até ali, ecoava pela rua. Parecia tudo tão... Perfeito. Naquele instante, não precisava de absolutamente mais nada. Já tive outros momentos assim, mas não muitos.

  

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Não havia miudagem a saltar para a água


Atravessando para o outro lado, esta tranquilidade foi logo substituída pela agitação da cidade invicta. E a determinada altura tive que me afastar do rio, já que tinha que tratar da segunda coisa na minha lista do dia: o almoço com a ex. Efectivamente: tinha combinado almoçar com uma amiga que em tempos tinha sido muito mais do que isso, e com quem eu não tinha um programa de qualquer tipo há mais de dois anos. O constrangimento estava no ar, mas eu queria mesmo vê-la, saber dela, e normalizar o contacto, se possível.

Além de tudo, era a minha primeira interacção social de algum relevo desde que iniciara a viagem e confesso que estava nervoso. O Dentuça mal podia conter conter o riso, enquanto eu me atrapalhava a subir as escadas do prédio onde tinha estado inúmeras vezes. Uma pesada porta corta fogo, de mola automática, chegou mesmo a acertar em cheio no quadro da bicicleta e acho que falhei um batimento cardíaco ou dois. Mas não houve estrago. 

O almoço decorreu num ambiente a que eu, naquele contexto, não estava habituado. Falámos de coisas sérias, de família, de responsabilidades, de preocupações. Além disso, ela estava na pausa do almoço e tinha coisas para fazer, horário a cumprir. E ali estava eu, a disfrutar da companhia, e do almoço que me era oferecido, sem pressas, sem horários, e sem uma preocupação no mundo. 


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Simples, mas mesmo o que estava à procura


Vim-me embora a sentir-me profundamente privilegiado por ter esta oportunidade na minha vida e mais decidido ainda a viver a minha volta a Portugal com a intensidade e dedicação que a ocasião merecia. Recebi ainda uma valiosa dica para uma loja de bicicletas ali ao lado, que talvez tivesse sapatos para mim. E assim era, tive que esperar que a loja abrisse, mas logo depois, em poucos minutos estava de volta à estrada, com uns fantásticos Specialized  novos nos pês. Rejubilai!


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De volta à estrada


O resto do dia foi gasto em sair da mancha urbana do Porto, navegando por ciclovias e estradas concorridas, com muitas paragens para fotos, no porto de Leixões, na refinaria, e num largo etc. Sabia que a tarde não daria para muitos quilómetros, mas já haveria tempo para etapas maiores. Por hoje contentava-me em encontrar um parque de campismo fora da zona urbana e dormir longe do barulho das luzes, depois de um dia cheio.



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Porto de Leixões



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Isto ainda existe em 2021?


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Home, sweet home


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Bacalhau!


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Também tive companhia para o jantar


Dia 8. Gaia-Vila Chã. 26km (Ciclovia/Estrada)
 

Projecto Bacalhau: Dia 7 - A Máfia de Gaia

@ Lisboa Bike

Publicado em 29/04/2021 às 19:38

Temas: bikepacking viagem volta a Portugal

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Mais ciclovias de sonho!

A manhã começou cedo, mas não fui muito longe. Tinha que apanhar o ferry para São Jacinto, a Norte, para continuar a circular junto à costa. Dei com o sítio sem problemas, mas os intervalos do horário eram bastante espaçados, e tive de esperar quase duas horas pelo barco. Cheguei mesmo a duvidar se os ferries estavam em actividade, pois não se via ninguém, mas um telefonema rápido confirmou que tinha apenas que esperar. 


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Tudo tranquilo no porto


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Demasiado tranquilo...


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Lá vem ele!


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À espera dos últimos clientes


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A zona de São Jacinto é lindíssima


Uma vez do outro lado, não podia deixar de reparar na beleza das paisagens e congratular-me com a minha escolha do percurso. Não conhecia a zona, mas dava vontade de explorar. A estrada (N327) era tranquila e fui apreciando as vistas magníficas enquanto me encaminhava para Norte pela estreita língua de terra entre a lagoa e o mar. O clima é que era decididamente mais fresco e já se notava agora que estava no "Norte".


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Paragem para fotos. E almoço!

Parei no Furadouro, mais uma bonita terra com ciclovia, uma terra que eu não conhecia, e que parecia ter algum turismo em actividade. Após umas fotos junto ao mar, aproveitei para mais um almoço de luxo numa esplanada, mas desta vez estava decidido que não ia parar tão cedo, pretendia chegar pelo menos a Gaia. E sem dar tempo a acomodar-me, regressei à estrada. 


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Querem melhor que isto?

Por vezes havia troços de ciclovia de grande qualidade, e eu aproveitava sempre para rolar por lá. Este caminho era um gosto e aproveitei o máximo que pude. As coisas começaram a mudar à medida que me ia aproximando de Gaia. Mais pessoas, mais trânsito, mais confusão. Em principio a zona do Porto seria a última grande cidade que visitaria em muito tempo, e tinha decidido passar por lá.   

Quanto mais me aproximava da urbe, pior era o trânsito, e a determinada altura passei para uma ciclovia ribeirinha. O meu GPS meteu-me em caminhos malucos, em passagens tão estreitas que tinha que parar para deixar passar peões. Mas o pior eram as ciclovias nos arredores de Gaia, cheias de gente, com cães, crianças pequenas em patins, e vendedores ambulantes com a sua mercadoria a ocupar toda a faixa.  

Toda esta gente e a súbita agitação e actividade estavam já a provocar-me não poucas comichões, pelo que quando vi um parque de campismo à beira da ciclovia disse para o Dentuça: é já aqui! As reviews do sítio eram bastante más, mas eu queria sair da confusão e pagar pouco pela dormida, e aquele parque parecia ser a solução. Quão mau poderia ser? Am I right?

Pois bastante, seria a resposta. O empregado na recepção estava muito surpreendido e atrapalhado com o facto de eu querer ali passar a noite e não parecia querer avançar com o registo. A ideia de que eu, com uma tenda, queria dormir num parque de campismo, aquele, parecia-lhe realmente estranha. Acabou por dizer que tinha que chamar o "patrão". Levou algum tempo, mas o patrão lá apareceu, um destes empreendedores modernos do Norte, cheio de e atitude, e que trata os empregados como se fosse um industrial do Séc. XIX.

 

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A fazer amigos por todo o país


O patrão fez-me muitas preguntas, como se a autorização para a minha estadia dependesse das respostas, e por fim acabou por autorizar. Depois mostrou-me em pessoa exactamente onde é que eu podia montar a tenda, sendo que o parque estava practicamente vazio, mas ele é que decidia onde é que eu ia dormir. De notar que o valor da dormida era o dobro do habitual e o mais caro que paguei por um parque de campismo em toda a viagem (este parque foi também o pior, empatado com o de S. Martinho).  Enfim, pelo menos eu estava fora da confusão e tinha a companhia de um cachorrinho simpático para montar a tenda.

Estava tão cansado que depois da rotina de higiene e lavagens do costume não fui a lado nenhum e cozinhei o que me sobrava de comida mesmo ao lado da tenda, antes de adormecer ao som dos piões e atravesadelas dos aceleras da zona.  Toda uma experiência. 

Dia 7. Gafanha da Nazaré-Gaia. 64km (Estrada/Ciclovia)

 
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