Os carros não moram nos passeios

Marina Cerqueira @ Braga Ciclável

Publicado em 11/06/2022 às 7:00

Temas: Opinião Bicicleta Braga carros morecycling Passeios

“Os carros não moram nos passeios”. Esta é uma das frases que mais ouço do meu filho no caminho que fazemos diariamente para o infantário.

Um carro em cima de um passeio ou até na zona pedonal da cidade, quer parado ou em andamento, capta sempre o olhar atento da criança de 3 anos que carrego na traseira de minha bicicleta “Mãe, este carro não mora aqui, mora na estrada.”

Gostava de lhe dizer que as bicicletas também não “moram” nos passeios, mas para isso teria de lhe explicar que a cidade onde vivemos não está preparada para pessoas como nós, que preferem deslocar-se de bicicleta em vez de carro. Que para sairmos do passeio era importante haver ciclovias ou zonas destinadas às bicicletas e à respeitosa convivência entre bicicletas e carros. Teria de explicar que utilizamos aquele percurso, entre passeios e zonas pedonais porque tenho medo de andar na estrada, principalmente levando-o na bicicleta, pois não sinto que haja respeito dos automobilistas em relação aos ciclistas, nem que as velocidades praticadas na estrada sejam as adequadas para a nossa segurança. Já para não falar que o percurso nas nossas viagens, de casa para o infantário, passa pela rua do Caires, que é extremamente movimentada e na qual não há qualquer respeito pelo limite de velocidade e está permanentemente com carros parados em segunda fila.

Como não utilizar o passeio em situações como esta onde é preferível arriscar infringir o código da estrada em vez de arriscar a própria vida e a vida daqueles que levamos connosco e a quem mais queremos bem?

Sinto que ao utilizar o passeio e as zonas pedonais, não afeto os peões, pois respeito a sua passagem, desmontando muitas vezes da bicicleta em prol da segurança de todos. Por respeitá-los e talvez por levar uma criança comigo, observo que me respeitam também e que não se sentem incomodados com a minha passagem. Provavelmente, compreendem que eu utilize o passeio e zonas pedonais em vez da estrada. 

Acredito que no futuro cada vez mais pessoas escolham formas mais ecológicas de se deslocar, pois já tenho visto um aumento nesse sentido ao longo dos 8 anos que utilizo a bicicleta.  Para isso, espero que, como em muitas cidades europeias, também Braga comece a apostar numa rede ciclável viável para todos aqueles que optem por não utilizar o carro como meio de transporte.

Enquanto isso não acontece, vou fazendo o meu trajeto entre a estrada, a zona pedonal e o passeio sempre que achar que é mais seguro.

 

com a cereja no topo do bolo

paulofski @ na bicicleta

Publicado em 27/05/2022 às 9:26

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Foz do Rio Teixeira, portal para “os bons velhos tempos”

Longas temporadas da minha infância foram magnificamente vividas no Lugar do Castelo, em Frende, a aldeia dos meus avós maternos. Sempre que lá vou, qualquer árvore, as pedras, todos os possíveis aromas têm o poder de soltar memórias que me remetem a momentos mágicos. Das muitas aventuras que faziam parte do nosso quotidiano, vividas juntamente com o meu irmão Tó e os amigos da aldeia. De autênticas loucuras, banais para eles mas absolutamente arrojadas para dois ousados rapazes do Porto que iam para casa dos avós gozar umas semanas de férias.

Quantas situações difíceis em que escapamos por um triz são agora motivos de risos. Quantas reprimendas ouvi do meu avô por nos ter visto em brincadeiras junto à linha do comboio. Quantas proezas da mais pura irresponsabilidade, abusando da benevolência da minha tia Sílvia, nós sobrevivemos. Da nossa inconsciência, onde as aventuras encorajadas pelos rapazes da aldeia nos faziam superar os mais arriscados desafios. Dos dias de absoluta rebeldia, num sítio onde dois irmãos da cidade viviam livres como se fossem personagens de um dos contos do Tom Sawyer e onde o Douro era o nosso Mississípi. Em outras palavras, eram os bons velhos tempos. 

O Douro não é um rio que se possa confiar, mas o Tónio, o Rui, o Quim, tinham dele uma compreensão destemida. Uma das coisas inevitáveis nos raros reencontros com um destes amigos “do Castelo” é relembrar as nossas maluqueiras. Atravessar o rio a nado tinha o seu quinhão de ciência e de loucura. Ainda mais quando as razões para o fazer não seriam as mais louváveis. Eu encontrava sempre razões lógicas para, pelo menos, tentar desencoraja-los, mas nunca tinha sucesso nas minhas intenções. Para eles a corrente do rio nunca estava forte, a água nunca estava fria, os cães na outra banda nunca estavam soltos e o lavrador nunca estava vigilante. Mas não era eu que ia dar a parte de fraco. Ir pescar para o rio era quase sempre a desculpa para a malta dar umas braçadas até à outra banda, ir comer das cerejas de Resende! Depois era tentar não sermos apanhados pelo velhote, tentar chegar ao rio sem levar uma dentada dos cães, nadar sem que que nos faltasse as forças.

O olhar retrospectivo oferece uma percepção dos reais perigos onde nos metíamos. A distância com o passado faz com que mesmo os momentos menos bons sejam celebrados. Claro que em toda a vida há ocasiões mais difíceis e outras mais agradáveis. Os bons velhos tempos, por melhores que tenham sido não constituem um paraíso perdido. O paraíso e as memórias continuam lá e sempre me recebem de braços abertos. Só não me atrevo voltar a atravessar o rio a nado para ir “gamar” cerejas. Agora, se as quero provar, as apanhar das cerejeiras com a permissão, ou não, do dono, pego na bicicleta e pedalo Douro afora com um grupo de amigos, para depois voltar a casa no comboio MiraDouro.

Ir às cerejas já não significa só pendurá-las nas orelhas a fazer de brincos.

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fotocycle [264] exemplificando…

paulofski @ na bicicleta

Publicado em 20/05/2022 às 13:26

Temas: fotocycle 1 carro a menos até à Madalena bicicleta carrocultura ciclismo ciclismo urbano ciclovia dar o exemplo espalhando os bons exemplos fotografia metro e meio mobilidade motivação outras coisas segurança rodoviária Sua Alteza

Aqui vou eu a ultrapassar o utilizador vulnerável da via que circula à minha frente. Para a realização da manobra ocupei o lado da faixa de rodagem destinado à circulação em sentido contrário, abrandando a velocidade e guardando a distância lateral mínima de 1,5 metros…

Simples, não é?

 

Flèche Norte, a equipa mais forte (e um joelho entorte)

paulofski @ na bicicleta

Publicado em 19/04/2022 às 14:59

Temas: marcas do selim ciclismo Coimbra dos malucos das biclas voadoras Douro Figueira da Foz Flèche fotografia fotopedaladas Gaia longas pedaladas Mós do Douro motivação N108 N109 N111 N222 outras coisas Porto quem pedala assim... randonneur roda de amigos

Decorria o mês de novembro do ano pandémico de 2021 e um “plim” sonoro fez tremer o telemóvel:

Bom dia. Estarás interessado /disponível para fazer a Flèche?”, pergunta-me o Zé Ferreira! O convite ficou pendurado pois até abril muito covid ainda iria passar por debaixo das máscaras.

Chegamos a março e o convite ressurge: “Alinhavam-se as Flèches… interessado?”
Ora bem, continuando eu imune ao bicho e sem compromissos para o fim-de-semana de 9 e 10 de abril… “Olá Zé… sim, porque não!”.

Quando percebi que este ano o meu primeiro evento randonneur seria uma “Flèche”, anotei que seria um passeio mais exigente para mim. O facto de metade do percurso desenhado pelo Zé Ferreira ir “descer” o Douro desde a foz do Côa até à Foz do Porto, atenuou as minhas hesitações… “Ah, é canja”… O caraças, menino Paulo! Tens de te pôr ao caminho e até lá convém que faças um treininho em condições. Meu dito e meu feito.

“Flèche” é um evento de equipa que vai de um ponto a outro numa direção sem retrocesso. Há uma tonelada de regras – mais do que em outros brevets – mas na essência é pedalar de forma constante por um dia. Não é preciso ir muito rápido (os 25 km finais devem ser percorridos nas últimas duas horas de passeio) ou muito lento (sem adormecer nas paragens por mais de 2 horas). O importante é manter a equipa unida do início ao fim e 24 horas depois todos se encontrarem no mesmo local de destino, enchendo a pança e trocando brevets… histórias.

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foto do Miranda

A rota delineada, toda ela, atravessa território bastante familiar, sem muitas surpresas. Em relação às anteriores edições, embora não tivesse subidas terrivelmente íngremes e montanhosas, o desenho desta edição tinha várias colinas adicionadas à rota, em especial na primeira metade do percurso pela N324, N222 e N108. Depois do jantar, na metade nocturna iríamos descansar as pernas pela sonolenta e sensaborona N109.

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foto do Ferreira

Durante os vários dias que antecederam a nossa Flèche seguiu-se a preocupação com os preparativos, especialmente estando atento aos avisos meteorológicos. Quanto à logística do transporte e dormida na véspera do depart estava garantida. Com a facilidade do transporte de bicicletas no comboio Miradouro, foi só escolher o melhor horário. No plano prévio a dormida e depart seria em Vila Nova de Fozcôa, mas eu contrapus com o convite de uma boa noite de sono numa pequenina casinha em Mós, a aldeia dos meus avós, e dali sair à hora certa, garantido que estava o primeiro carimbo no cartão brevet.

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foto do Ferreira

Na verdade, a Flèche começa de véspera. Desta vez, a mesma bicicleta que me tem aturado nos últimos doze anos, a fiel Gorka, foi chamada ao serviço. Besuntei-lhe as engrenagens, montei-lhe o saco Carradice na traseira, luzes e mais luzes de reserva, mas nada high-tech, nada de gêpêésses. Estava confiante de que não haveriam surpresas com o meu equipamento.

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foto e bicicleta do Miranda

O comboio chega à estação de Freixo de Numão – Mós do Douro à tabela e bem lavado pela chuva persistente desde o Porto. Felizmente o restaurante Bago D’Ouro fica mesmo ao lado da estação. Eu e o Mário já tínhamos praticamente acabado com as entradas quando entram os encharcados Zé Ferreira e Manuel Miranda, que viajando no comboio prévio arriscaram umas pedaladas pelas cercanias. A chuva não dava tréguas e piorou a valer assim que saímos do restaurante na ligação nocturna até à casa da aldeia. Por debaixo do gorro impermeável, na minha cabeça não me saía a ideia que iríamos ter uma Flèche bem molhada. Chegados, assim que meto as chaves na fechadura a chuva pára!

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Choveu copiosamente toda a noite mas o sábado amanheceu claro. Estava um dia fantástico, maravilhosamente ensolarado. O Ferreira entregou-nos os cartões e fomos para o café da aldeia, O Lagar, matar algum tempo antes do início oficial da coisa. Com o pequeno-almoço tomado, cartão carimbado, o relógio da igreja batia as dez horas em ponto quando nos fizemos ao caminho. Deu-se finalmente início às hostilidades mas, a bem da verdade, o começo da jornada seria uma coisa linda de se ver. Pedalar numa manhã perfeita pelas velhas estradas que serpenteiam um vale encantado. Que mais podíamos desejar.

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Após uma curta descida pisamos o asfalto desgastado da cénica N324 e, lentamente, fomos subindo por uma boa dezena de quilómetros. O cérebro comandava as pernas, e as minhas pernas pareciam bastante vigorosas. Na subida ia ouvindo os protestos dos restantes, que eu estava a impor um ritmo demasiado forte! Afinal, uma Flèche deve ser relaxada, certo? Depois de cruzarmos Freixo de Numão, na Touça viramos a oeste e entramos na mítica N222.

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foto do Ferreira

Felizmente, a maior parte do acumulado do nosso passeio estava reservado para a primeira metade. As subidas longas e as pernas frescas mantinham o ânimo. Havíamos entrado na porta de entrada para outro reino, um planalto tranquilo, pontilhado com uma sucessão encantadora de aldeias de xisto, castelos e texturas rurais. Parando casualmente e tirando fotos uns dos outros, mentalmente foi revigorante estar serpenteando o sobe e desce de uma estrada que tanto aprecio. Era pacífico e sereno, sem quase nenhum tráfego naquela hora da manhã, onde a certa altura fomos surpreendidos por uma raposa que atravessou a estrada mesmo à nossa frente.

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O sinal de STOP nem seria necessário pois a tabuleta anunciando o prato do dia fez logo apertar os travões e fazer crescer água na boca ao pessoal. Ervedosa do Douro marca a primeira cinquentena de quilómetros e o local ideal para um substancial almoço. Dali em diante seria sempre a descer, e a descida suave e sinuosa até ao rio Douro seria um bom tónico.

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Enquanto pedalávamos a bom ritmo pela chamada “melhor estrada do mundo”, confesso que estava um pouco apreensivo quanto ao comportamento de alguns automobilistas mais agressivos, como vivemos há tempos num brevet por esse trecho da região vinícola. O movimentado tráfego de fim-de-semana era o normal e os carros mantiveram uma distância respeitosa. Depois de uma horinha rolante e divertida, ideal para a digestão do almoço, estávamos a pisar e a parar nas travessas de madeira da ponte pedonal da Régua, para mais uns registos fotográficos.

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Durante toda a manhã não sentimos algum vento digno desse nome, mas, quando ao longo da N108 e assim que começamos a subir de cota, tivemos a certeza que o vento estava a soprar de oeste. Ora bem, não é grande coisa, pensamos, mas nas subidas mais expostas ele fazia-nos sentir bem a sua presença. Para além disso o meu joelho esquerdo começava a atrapalhar a minha progressão. Nos pontos da estrada que mais empinava eu não estava a conseguir acompanhar o ritmo deles. Estava com sérias dificuldades, principalmente em pedalar de pé. Vai daí fui para a frente impor o meu nosso ritmo.

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O conta-quilómetros chegava aos cem, entravamos no Distrito do Porto e na vila de Frende, terra natal da minha mãe onde inevitavelmente uma lágrima rebelde de emoção verteu. Um pouco mais à frente junto-me à equipa numa paragem técnica prevista para um lanchinho rápido. A ondulante estrada não mata mas mói. Por esta altura, em termos de resistência física sentia-me bem, já o joelho não era da mesma opinião. Mas, talvez fosse o resultado da minha excitação por estar novamente neste troço da estrada! Talvez o entusiasmo pelo clima agradável!… O que é certo é que me ia abstraindo da dor com as paisagens e a conversa, e isso resultava.

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Antes da estrada se desviar rapidamente e descer para Ribadouro, convido a malta a soltar o rabo do selim na mercearia de Dona Mariazinha. Este ponto é para mim paragem obrigatória. É sabido que a babaninha é um valioso aliado para todos os ciclistas. Tiro uma de um cacho de babanas amarelinhas e pergunto o preço enquanto a vou descascando. Nisto o foco dos restantes esfomeados vira-se para um canto onde um cesto de bananas de casca escura, pretas de tão maduras que estavam, e não se fazem rogados. “Olhe, essas estão aí de lado para levar para casa, mas podem comer à vontade que não lhes cobro nada”.  É D. Mariazinha, diz-que a fome é negra! As bananas estavam no ponto e não sobraram muitas.

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foto do Miranda

Descidos novamente à cota do rio, a corrente do Douro conduziria a malta de pernas doridas por ondulantes e fascinantes quilómetros com os estômagos renovados. Quer dizer, renovados mas por pouco tempo. Chegamos à Senhora do Monte em Sebolido um pouco atrasados quanto à nossa previsão. A 30 quilómetros do Porto esta pastelaria é um local de paragem popular para os ciclistas que frequentam esta estrada e, aquela hora, a pastelaria estava por nossa conta.

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foto do Ferreira

Com o sol e o vento de frente, fomos sentindo a pressão rodoviária à medida que nos íamos aproximando de Gaia para a segunda carimbadela do dia. Atravessado a pé o tabuleiro inferior da Ponte Luiz I, fez-se depois um pequeno desvio a fugir da turistada só para visitar o belo espaço gastronómico Cozinha da Ci, da minha amiga Cidália, e espetar um mega carimbo no cartão. Lá ficou a vontade de jantar algumas das suas iguarias mas estávamos apenas de passagem, pois o repasto estava a ser confecionado na cozinha do meu pai na Praia da Madalena.

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Em muitas ocasiões sou inundado de perguntas, requerendo uma explicação lógica porque diabos participo nestas maluqueiras por longas distâncias! Entendo que isso lhes cause alguma apreciação de sofrimento, mas não entendem o ponto de vista do randonneur, que há sempre um verso da medalha, um dos mais intensos mas simples confortos da vida. Depois de pedalar centenas de quilómetros, do amanhecer ao anoitecer, poder devorar aquele saboroso prato de arroz com feijão. A fome alarve transformará qualquer tigela de sopa aguada num prato gourmet preparado por um chef com estrela Michelin. O nosso muito obrigado à Dona Cândida pelo maravilhoso jantar que nos serviu e que foi o combustível ideal para nos garantir que ainda estávamos no caminho certo. Depois de tomado o cafezinho e reforçadas as armaduras, também não é preciso ser um meteorologista para vos dizer de que lado o vento soprava!

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foto do Ferreira

De norte para sul o percurso seria igual a outras flèches e pedaladas, sem grande interesse a não ser as conversas. Tendo o privilégio de estar a pedalar ao lado de três finishers do Paris-Brest-Paris, a minha curiosidade foi aguçando à medida que ia ouvindo in loco as histórias dos meus amigos. Já havia lido os relatos inspiradores das suas aventuras no PBP 2019 mas agora eu era todo ouvidos. Iam-me pintando um retrato romântico do evento, com multidões à beira da estrada a aplaudir os aventureiros, das bancas com deliciosos banquetes que lhes eram oferecidos, as diversas nacionalidades e diferenças culturais, a variedade de máquinas em desfile, o convívio e amizades com quem atravessaram o interior de França, de leste a oeste. Tenho a certeza que me seduziu ainda mais ouvir o seu entusiasmo, o fascínio que é participar num histórico e prestigiado evento. Estou certo que um pequeno lampejo de interesse se incendiou em mim naquela noite, porém o meu joelho trazia-me de volta à terra e fazia-me lembrar que não tenho perfil de super randonneur. Eu estava ali mais uma vez a tentar sobreviver a uma Flèche, a tentar completar nem um terço do que eles pedalaram!

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Então lá chega o momento em que qualquer ciclista, mesmo um Mathieu van der Poel (MVP), não está imune: Um furo. No bréu da noite o Mário não tem hipótese em evitar uma cratera no asfalto e faz um buraco na câmara-de-ar. Entre retirar da roda um pneu borrado de líquido selante, recolocar uma câmara nova, enfiar o pneu no aro e bombeá-lo com a bomba xpto do Ferreira, um processo simples e rápido para qualquer um de nós amadores, menos para o MVP que tem quem o faça por ele, seria coisa para uns cinco minutos. Mas não! Entre nós, com tantos anos a virar frangos… e a trocar pneus, todos concordamos numa coisa: A bomba-de-ar não teve culpa. Os experts é que não estavam a dar com o gato. Por esta altura já se ouvia o despertar de um galo.

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Em Aveiro, como o Mário estava nas suas sete quintas deixamos que ele tomasse conta das rédeas. Depois de deglutida uma tripa doce, a senhora do estaminé recusou-se a preparar-me um cachorro quente, tivemos de preencher uma procuração e esperar a burocracia necessária para que nos tirasse quatro cafés. Energias reforçadas, ciclamos por ruas, vias ciclopedonais e pontes da ria de Aveiro até à Costa Nova. Contornamos as Gafanhas até à Praia de Mira. Foi fixe, pois eu pude relaxar e apenas apreciar as estrelas e as luzes vermelhas das eólicas que brilhavam no horizonte.

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foto do Ferreira

À medida que pedalávamos mais perto do mar, na neblina, as temperaturas caíram e o vento contrário endureceu. De olhos semicerrados perscrutava a escuridão para além das luzes. A nossa minha velocidade média cai como uma pedra. Não há cafés ou restaurantes abertos às quatro da madrugada a não ser o pestilento tasco do costume de portas abertas no início da longa recta da Tocha. Lá consegui deglutir um mega cachorro hiper quente, que quando voltei à bicicleta ainda esperneava no bucho ao som do reggaeton.

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Neste momento eu estava definitivamente a vestir o meu colete do mau humor, tendo aqueles pensamentos existenciais de menino birrento: “Já temos de ir e nem uma meihorinha para descansar o joelho, cara…? Hummm… alguém vai ficar mal-humorado” Fui eu. Esvaziada a garrafa de Sagres preta (por estranho que pareça sabia-me a Super Bock) de pernas e pálpebras pesadas, retomamos a estrada. Sob um céu enluarado, a noite tornou-se silenciosa e pacata, com as conversas ao mínimo indispensável. Retinha no pensamento o zumbido suave de correntes e rodas. O vento contrário não impedia o nosso progresso e o meu joelho parecia ter apreciado a paragem. Estava menos resmungão, mas estava lá.

[Não tenho registo para este espaço pois àquela hora não houve pachorra para motivo fotográfico]

A Serra da Boa Viagem acordou-nos da dormência e mandam-me para a frente impor o meu ritmo. Na subida, pedalando em modo perna-coxinha, onde a perna direita fazia as vezes da perna esquerda, chegamos ao topo com a certeza que depois da descida teríamos de ir algures pedinchar um carimbo. O hotel em Buarcos, onde em sessões anteriores se carimbou o cartão brevet, baldou-se! Por sorte, a farmácia de serviço naquela noite ficava a caminho e, mesmo acordando a farmacêutica do seu merecido descanso, a simpática senhora fez o favor de atender a nossa falsa emergência.

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A noite deu lugar a uma manhã cinzenta e enevoada enquanto contornávamos a Figueira da Foz. Um pouco preocupado com meu progresso deficiente e impossibilitado de pedalar em pé quando era necessário ultrapassar alguns topos, deixei os meus companheiros de route liderarem o caminho. A suave neblina da manhã inundava a planície aluvial do Mondego. O sol gradualmente abria as nuvens, espelhando-se no asfalto húmido da N111, e quando chegamos ao último posto de controlo o tempo estava lindo. Já se sentia fome, a meta e um confortável calor.

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O nosso controle das 22 horas costuma ser em Montemor-o-Velho, onde abancamos na habitual pastelaria com tempo para um pequeno-almoço reforçado, relaxar até a hora de abalar para cumprir calmamente os derradeiros quilómetros. Pois foi isso que aconteceu nas Flèches anteriores, onde a janela de tempo dava até para tirar uma soneca. Desta vez estávamos mesmo no limite do relógio. Engolido o pastel e carimbado o cartão, lá fui eu meio empenado a lutar contra o sono e a resmungar dos trinta quilómetros que ainda tínhamos pela frente.

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De volta à bicicleta, em vez da estrada lunar do costume ao longo do Mondego, desenhou-se uma alternativa menos danosa para os pneus mas mais penosa para as pernas. O cenário era bucólico: campos abertos, cegonhas no ar, ventania nas fuças… e o cheiro pungente de estrume fresco. Talvez tenha sido o efeito psicológico da eminente chegada, sentia-me forte e alerta. Enquanto pedalava no piloto automático, devagar, muito devagar, a moedeira que sentia no joelho abstraiu-me da falta de sono.

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Coimbra tem mais enquanto na hora da Flèche concluída. Dez horas em ponto e cruzávamos o Mondego pela ponte de Santa Clara. O quiosque habitual da carimbadela final encontrava-se fechado. Parecia estar há muito fechado, pelo que deu para ver, porventura fruto da crise pandémica. Reunimos com a Equipa Sul na esplanada do restaurante e juntos cumprimos um par de horas a contar as peripécias vividas na jornada, até me servirem o meu muito apetecido, e merecido, prato de tagliatelle com salmão.

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foto do Mário

“O importante na vida é ter aventuras.” Alguém disse isto e eu acredito firmemente. A viagem somou 399 quilómetros… mais um e qualquer coisa depois até à estação de comboios. Foi uma jornada exigente mas saborosa. Percorri, montanhas, rios, curvas e rectas de estradas bem conhecidas num dia inteiro. A bem da verdade foram dois dias passados em excelente companhia, pedalando em equipa num verdadeiro espírito randonneiro. O joelho manda dizer que está bem. Mal parou de pedalar e ficou dormente. Eu? Eu estou a recuperar lentamente a função cognitiva superior.

A equipa:

O capitão Ferreira

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O Xôr Miranda

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O Super Mário

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E o empenado

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mais uma rodada

paulofski @ na bicicleta

Publicado em 17/03/2022 às 19:18

Temas: o ciclo perfeiro aniversário bicicleta carrocultura clássicos coisas d'homem fotografia motivação outras coisas pasteleiras e vintageiras Porto projecto singlespeed singlespeed Sua Alteza Velo Invicta

A certa altura na vida de um gajo, quando um gajo atinge uma certa maturidade, ele tem um modo curioso de lidar com essa realidade. Diz que é o tédio da meia-idade.

Aí, uma melancolia extravagante se instala. É um fenómeno evolutivo. Aos poucos ele começa a perceber uma mudança no metabolismo e com os cabelos brancos desponta uma espécie de cobiça: Reavivar a juventude.

Ele acha que merece um pouco mais de diversão na sua viagem diária. Quer voltar a apaixonar-se. Quer afirmar-se. Intensificar a adrenalina. Ambiciona a exuberância e aparência exclusivas que um topo de gama proporciona.

Ferdinand Porsche não conseguia encontrar o carro dos seus sonhos, vai daí, decidiu construí-lo com as próprias mãos.

Eu não conseguia encontrar a bicla dos meus sonhos, vai daí, depois de juntar as peças, muitas delas em segunda mão, na Velo Invicta “construi” Sua Alteza.

Foi numa bela noite de copos, faz hoje 10 aninhos.

https://nabicicleta.com/2012/03/19/a-debutante/

https://nabicicleta.com/2017/03/17/prazeres-simples/

 

fotocycle [263] algo mágico

paulofski @ na bicicleta

Publicado em 13/01/2022 às 15:48

Temas: fotocycle 1 carro a menos as biclas sabem nadar ciclismo ciclismo urbano commutescount Douro fotografia fotopedaladas mobilidade motivação o sol outras coisas ponte Luiz I Porto Sua Alteza

Na bicicleta cada tarde é diferente. O caminho é diferente, o tempo é diferente, e diferente é o meu estado de espírito quando pico o ponto à saída do trabalho. Pedalar ao longo da cidade é uma das alegrias que tenho. É meio caminho andado pedalado para voltar a boa disposição.

Num ritual de mobilidade, numa rota aleatória, a cada retorno a casa, todas as tardes encontro sempre algo diferente que me detém a pedalada: um velho amigo para saudar, boas e más atitudes que me fazem pensar, um fugaz momento que de novo me liberta a mente e me faz fantasiar.

Aproveito cada momento

 

às vezes, só é preciso fazer um longo passeio de bicicleta com amigos

paulofski @ na bicicleta

Publicado em 6/01/2022 às 12:23

Temas: marcas do selim amigo Couto amigo Jacinto benefícios das pedaladas bicicleta bom ano ciclismo ciclovia covid-19 desconfimanentos dos malucos das biclas voadoras Ecopista de Famalicão estrada fotografia fotopedaladas longas pedaladas motivação pedaladas no inverno roda de amigos Rui

Escolher um título assim parece banal para quem não alterou muito as suas rotinas em cima de um selim. Simplificando, o tema tem tudo a ver com esta pandemia prolongada em que definhamos, com confinamentos, cercos, testes e o diabo a quatro… sete ou oito variantes, já nem sei!

Na realidade, nenhum de nós está realmente bem no que está relacionado com a saúde mental. Uma definição de definhar é uma sensação de estagnação e vazio. Certamente, nesta comunidade incrível de aficionados do ciclismo muitos de nós deverá estar a sentir o mesmo, mesmo não parando de dar ao pedal.

O que sinto nas pessoas não é depressão, é a sensação de que as coisas estão um tanto ou quanto sem alegria e sem objetivo. Negligenciar a saúde mental pode entorpecer a motivação e o foco, passando o tempo parado, olhando para sua vida através de um ecrã ou de um pára-brisas enevoado.

Em vez de mergulhar a cabeça na areia e de nos auto-clausurarmos, a actividade de pedalar, especialmente para quem utiliza a bicicleta diariamente, para e do trabalho, tem esta coisa boa de dar uma boa razão para cuidar da mente, permitir o escape ao teletrabalho e ao sedentarismo. O que não fazia há tempos era um dia assim, a livre convivência de pedalar com amigos.

Queria voltar com eles para as estradas abertas, para as mesmas estradas que ultimamente tenho pedalado sozinho. Queria reviver um qualquer passeio que com eles fiz no passado. Queria lembrar um dos melhores dias que já tive numa bicicleta. Queria recordar o nosso grande amigo Jacinto, que quis o destino nos levar sem pré-aviso, o corpo mas não a sua alma que sempre estará, e esteve, ao nosso lado.

Ao nascer do sol do último dia do ano, eu, o Rui e o Couto, nos juntamos e pedalamos para norte, conversando e almejando dias melhores. Os raios da manhã fluíram livres através da brisa fresca, sob um sol luminoso. A minha mente estava serena, o ritmo pausado e adequado para, em harmonia, continuar a viagem em boa companhia.

Horas se passaram e as pernas continuaram, rodando os pedais em consonância com o ritmo das conversas e dos reencontros. Na tranquilidade da ecopista, em transe com tudo o que via e ouvia… Um melro perfurou o silêncio quando abandonou o seu poleiro, sobrevoou a minha cabeça, e na minha frente ficou a flutuar por alguns metros, como que para me dizer que eu estava no caminho certo.

Sabendo de antemão o que vinha depois de cada curva, eu estava ali desconhecendo tudo, como se fosse a primeira vez que pedalasse por esses caminhos. Maravilhado com cada paisagem, a querer tirar fotos a tudo, a cada cenário, sabendo que seria suficiente tirar fotografias com os próprios olhos.

Um dia de sol perfeitamente claro e quente demais para a época do ano. Ao longo da manhã nos deparávamos com um horizonte cada vez mais nítido, entre um verde brilhante contra o céu azul ofuscante. A natureza estava oferecendo a chance para a nossa mente relaxar. A bicicleta estava proporcionando o impulso para nos livrarmos das preocupações, dúvidas ou tristezas.

Enquanto rodávamos lentamente para sul, antes de irmos ao encontro com o oceano, o estômago reclamou. O almoço nos brindou mais uma vez com o valor da amizade, da vontade de estar junto. Nenhuma grande decisão na vida foi tomada naquele dia, mas uma tranquilidade no pensamento surgiu, por estar a disfrutar da boa companhia, a ouvir, a sorrir, a celebrar.

E para acabar uma pequena confraternização, afinal de contas é para isso que estamos aqui. A pedalada é só uma desculpa.

Depois de um longo e completo dia, o regresso a casa trouxe novos objectivos, embora pareça menos importante agora do que é a minha perspectiva, do que um longo dia de bicicleta realmente significa. Eu me senti revigorado, não pela distância, mas pelo tempo que passei com velhos amigos. BOM ANO.

 

de que me adianta ter asas se não puder sentir o vento!

paulofski @ na bicicleta

Publicado em 22/12/2021 às 15:44

Temas: motivação benefícios das pedaladas bicicleta boas pedaladas ciclismo ciclismo urbano commutescount devaneios a pedais dos malucos das biclas voadoras fotografia fotopedaladas mobilidade no meu percurso rotineiro pr'o trabalho outras coisas pedaladas no inverno penso eu de que... vento

Sai para a rua, alça a perna esquerda e sobe para o tubo superior da bicicleta. O primeiro ataque de rajada causa-lhe um certo desequilíbrio e a posição desajeitada a tentar encaixar o sapato no pedal.

Chicotadas de vento no rosto, os olhos semicerrados, o ciclista fecha o casaco até ao pescoço. Imóvel, com o peso do corpo sobre o outro pé, o cérebro é chamado para ajudar. 

Assentando levemente o rabo na ponta do selim, o pedal é puxado para cima, meia volta. Empurrada horizontalmente com um golpe de força, a bicicleta sai da sua dormência. O pé direito eleva-se do chão e, com dificuldade, calca o pedal oponente para ganhar algum impulso.

Por fim o ciclista começa a rolar para a frente, lentamente, vacilante, à procura de um caminho recto.

O arranque é vagaroso, o corpo estremece com uma outra rajada de vento lateral, do lado esquerdo, quase derrubando o ciclista da bicicleta, para a direita.

Perseverante, segurando o guiador, o ciclista vira para o vento, contrário, desafiando-o para uma competição de força. De pé, com firmeza sobre os pedais, corpo erecto, músculos activados, o ciclista se esforça para manter o progresso em resposta à mão pesada da natureza.

No ar livre, algo parece agitado. Folhas secas, pedaços de matéria descartada e objectos não identificáveis, tudo se move num poderoso redemoinho. Uma desprezada folha de jornal cola-se à canela, recusando-se a ceder, debatendo-se para evitar esvoaçar livremente.

Coxas que tremem de fadiga na competição contra uma parede invisível. Submissa, a bicicleta rola pela rua, em sincronia com a respiração ofegante do ciclista, dobrado pelo esforço e pelo atrito dinâmico.

Ora soprando da esquerda, ora ventando da direita, a corrente de ar pressiona-o, impedindo o movimento perfeito. Acelera para que mantenha o equilíbrio. É um turbilhão de velocidade, uma atmosfera sem limites.

Quase vertical agora, a mudança de direcção dá ao ciclista uma benesse. Sem aviso, a força do vento suaviza. A inércia tem o seu princípio. Um pedaço de espaço vazio, um vácuo inesperado, sem resistência ao andamento.

O vento empurra-o mais e mais rápido, impondo uma corrida favorável em confronto com a estrada. Rapidamente, as pernas ficam leves. Impelem a corrente sem esforço, consomem a energia do vento, como uma vela inflada nas suas costas. 

Planar, pedalando, rolando, desviando, a velocidade aumenta sem esforço. Ao sabor do vento.

Soltando o corpo, desprotegido através da dança da bicicleta, o ciclista chega ao seu destino, desmonta e equilibra as pernas, feliz por estar em terra firme.

 

Triban RC520 Gravel - Uma Review

@ Lisboa Bike

Publicado em 18/10/2021 às 23:22

Temas: bikepacking review

A Triban no Gerês 

Comprei a minha Triban quase por impulso, em Novembro de 2019, quando em casa moravam já outras duas bicicletas de estrada. Estes modelos eram algo peculiares: uma Surly Long Haul Trucker, a bicicleta mais confortável em que já rolei, e uma velhinha Raleigh inglesa dos anos oitenta, que eu usava sobretudo para fins utilitários.


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A minha antiga Surly 


O que eu procurava, já há algum tempo, era um modelo que permitisse substituir todas as outras bicicletas (as duas já citadas e uma BTT). A elusiva bicicleta única, que fosse capaz de fazer estrada a sério, viagens de longa distância, com carga, BTT em eventos e passeios, uso utilitário, e tudo o mais que se me ocorresse. E que fizesse tudo isto com alguma competitividade, que me permitisse participar ocasionalmente em eventos. Bem sei que não é pedir pouco, para mais de um modelo "económico". 


A Triban com todos os componentes de origem


A escolha da Triban foi motivada, se for sincero, sobretudo pelo preço aliciante, tendo em conta tudo o que oferecia. Mas pareceu-me na altura uma solução de compromisso, já que eu considerava que a Decathlon tinha sido um pouco preguiçosa e simplesmente mudado o nome e a pintura a um dos seus quadros de estrada. Era apenas uma estratégia para a marca ter um producto que lhe permitisse concorrer no mercado na área então muito na moda, o "Gravel".

Bom, isso não deixa de ser um facto: trata-se de uma bicicleta de estrada, com algumas alterações, mas eu estava enganado. Para mim esta escolha veio a revelar-se extremamente acertada, e embora a bicicleta tenha certamente limitações, é difícil para mim ver alternativas viáveis neste momento. Vamos ver o que está em causa. (Nota: não tenho nenhuma ligação com a Decathlon e estas opiniões são minhas apenas).

Quadro: Para mim carbono estava fora de questão, por causa do uso para viagens longas em autonomia e o uso de bolsas de bikepacking. Os danos por atrito dos sacos ou numa queda são um risco demasiado grande. Aço e Titânio são materiais interessantes e esteticamente mais apelativos, mas mais caros e também pesados. Por isso alumínio acaba por ser uma boa escolha. O peso neste caso é apenas aceitável (os números estão no site). A surpresa veio da geometria. Eu tinha estudado a tabela e sabia que o quadro é exactamente o mesmo da gama de estrada. Portanto trata-se de um quadro "barato" de Endurance, com uma testa alta e uma posição pouco agressiva. Isso é ideal para longas distâncias e muitas horas no selim, e a geometria veio a revelar-se muito adequada para a minha fisionomia, depois de alguns ajustes. Eu não tenho muita flexibilidade natural e a minha postura não é muito agressiva. A bicicleta é muito estável em qualquer circunstância, mas mantém a capacidade de reacção e aceleração de uma bicicleta de estrada, que uma bicicleta de viagem (touring) não tem. E fora de estrada só em BTT mais sério perde a compostura, como seria inevitável. 


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Cassete, corrente e pedaleiro alterados


Grupo: A Triban vinha com um grupo Shimano 105 R7000 quase completo. Apenas a pedaleira era uma Shimano compacta de 11 velocidades, mas sem grupo, um pouco mais pesada que a 105 equivalente. Aqui eu achava que era mais uma das situações em que a Decathlon tinha feito a coisa mal, a cassete 11-32 (não Shimano) era demasiado pequena, e pensava na altura que a bicicleta deveria vir com um pedaleiro sub-compacto e talvez com um grupo GRX. A verdade é que esta mania da super-especialização dos componentes é muitas vezes exagerada. A transmissão não se desfaz se apanhar poeira por ser um grupo de estrada. O desviador Shimano 105 não é muito diferente de um Deore, as correntes e cassetes são aliás idênticas em vários grupos de estrada e BTT da Shimano, pelo que o desempenho fora de estrada não compromete. Já as relações de transmissão são claramente mais pensadas para o asfalto. Para rolar com peso extra e/ou fora de estrada (como sucede em bikepacking), optei por colocar uma pedaleira Miche 46-30 e uma cassete Shimano 105 maior, 11-34. Mesmo assim, eu agora reconheço que para um uso maioritariamente de estrada, a bicicleta vinha com um bom mix de peças. De tal forma que recentemente voltei a usar a cassete de 32 dentes original, para beneficiar de relações mais próximas entre si.    

 

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Os travões facilmente se ressentem com o pó


Travões: Os travões TRP mecânico-hidráulicos permitem casar um grupo totalmente mecânico, mais barato, nestes caso os shifters Shimano 105 R7000, com o modulação e sensações de um travão hidráulico. E a verdade é que funciona. Esteticamente é uma desgraça, mas funciona. Eu travo só com um dedo a maior parte das vezes. E a sensação de controlo é sempre boa. Há que notar contudo que estes travões estão mais à vontade em estrada, basta um pouco de pó para começar a haver vibrações e perdas de potência na travagem, quando em uso em gravilha ou terra. E só depois de uma limpeza cuidadosa é possível voltar a ter uma boa performance. 


Guiador 44, mais estreito


Periféricos: Não posso falar muito destas coisas, porque foi quase tudo substituído rapidamente. O guiador era demasiado largo, o meu quadro XL vinha com guiador de 46cm, com um desenho de drops com que eu não me identifiquei. Troquei por um simples FSA de gravel, abertura a 12º, de tamanho 44. Apesar de mais pequeno ainda permitia o uso de sacos de bikepaking. O avanço de 120cm foi trocado por um de 80, para afinar a posição na bicicleta. Muitas bicicletas de gravel modernas são desenhadas para avanços curtos, e neste caso a adaptação foi natural. Sim, ao princípio eu também achei que era muito curto, mas fez maravilhas pela postura e pelo controlo da bicicleta. Mudei também o selim, por outro muito semelhante, e o espigão do selim, por estética e peso. 


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No Porto!


Rodas & Pneus: Usei pouco as rodas. Eram robustas e não deram problemas, lembro-me que os cubos pareciam bastante bons para esta gama de preços. Foram trocadas por umas DT Swiss, para perder umas gramas. Os pneus Hutchinson Overide de 35mm são excelentes. Têm uma aderência teimosa e salvaram-me o pelo em mais de uma ocasião. Permitem aventuras fora de estrada que a sua diminuta largura não deixa prever. E em estrada rolam muito bem. Há melhor e mais leve (e mais caro), mas não muito. Quando comprei a bicicleta achei que os pneus eram mais um compromisso, agora acho que são um excelente compromisso! Actualmente monto pneus de 38mm, a marca só recomenda até 36, mas a verdade é que cabem 40mm se fizer falta. Mas penso voltar aos 35mm quando surgir a oportunidade, julgo que é o melhor equilíbrio estrada-gravel e a marca voltou a acertar neste aspecto.   

Dois anos depois, dois Tróia-Sagres, uma volta a Portugal de várias semanas em autonomia, uma viagem a Madrid, o caminho de Fátima, uma subida à serra da Estrela, e muitas aventuras mais pequenas pelo meio depois, a Triban provou que não é só um modelo barato feito à pressa para seduzir os adeptos da "moda" do gravel. Não se deixem enganar pelas soldaduras mais abrutalhadas, nem pela palavra "Decathlon" na testa do quadro, a bicicleta foi bem pensada, o desempenho nunca compromete e tem alma para tudo o que se propuserem fazer com ela. 


Set-up recente, na Serra da Estrela


O facto de custar menos um terço ou metade dos modelos da concorrência também não é propriamente mau. Actualmente há vários modelos e cores disponíveis, baseados no mesmo quadro, que, consta, é fabricado em Portugal (o meu, especificamente, diz "made in France"). É possível também comprar um dos modelos de estrada da gama 520 e depois adaptar a um uso mais polivalente, já que o quadro é idêntico, mudando a pintura e a selecção de componentes.   

Não tenho actualmente nenhuma outra bicicleta, nem sinto falta de nada. Sei que não é solução para toda a gente, o meu uso tem sido muito lúdico e mais estradista, ultimamente. Mas é inegável que esta proposta low-cost permite acceder a um inesgotável mundo de aventuras, cujos limites não serão impostos pela bicicleta.

 

Projecto Caramelos: Dia 4 - Na Autoestrada, a Fugir à Polícia, com um Pneu Furado

@ Lisboa Bike

Publicado em 23/07/2021 às 0:20

Temas: bikepacking viagem

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Caramelos?


Decidido a evitar mais apertões de calor e surpresas tardias na jornada, na manhã do quarto dia levantei o rabo da cama o mais cedo que consegui. Tomei o pequeno almoço, incluído na estadia, tão cedo quanto era permitido e fiz-me à estrada. Desta vez tinha alojamento reservado, e estava decidido a ter um dia diferente. Para minha surpresa consegui mesmo fazer a navegação para fora da zona urbana de Trujillo sem percalços. Normalmente o meu GPS não permite esses luxos, mas naquela manhã tudo corria sobre rodas.


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Rumo a Este, como sempre


É claro que esta bonanza não poderia ser duradoura. Depressa percebi que a altimetria para a jornada era mais desafiante que nos dias anteriores. E o que não mudava contudo, era a temperatura elevada, e as grandes distâncias entre terras, amplos espaços onde não havia nenhuma possibilidade de descanso, refugio do Sol ou reabastecimento. O Deserto Espanhol, como lhe chamam alguns Portugueses de passagem, a caminho de destinos mais populares na Península Ibérica, faz jus ao seu nome.


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Olha, montanhas!


A manhã foi gasta a deambular por estradas de montanha, a ritmos muito lentos, enquanto a temperatura ia aumentado, até ficar intolerável. Continuava a não haver sombras para parar, nem lugares onde obter água ou comida. O desgaste era grande e o moral da expedição ia descendo ao ritmo que desciam também as reservas de líquidos disponíveis a bordo. Começava a ficar claro que, mais uma vez, não ia conseguir arrumar a etapa a tempo de evitar o calor infernal da tarde, no Deserto Espanhol.


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As coisas não são fáceis no deserto


Umas bombas de gasolina foram a minha salvação. Estava a ficar viciado em Aquarius, a coisa mais parecida a uma bebida energética que era possível encontrar em quase todos os postos de abastecimento de combustíveis. Eventualmente a estrada "alisou", depois de uma longa descida, onde cheguei a passar dos 75km/h. Tinha voltado a ficar sem almoço pois não encontrei nada pelo caminho na hora apropriada, estava a ficar frito pelo Sol, mas sabia que já estava perto do destino.


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Sombra! Para a bicicleta...


Eu claramente já estava acusar o desgaste do calor, do esforço e da falta de comida. Foi neste estado que rolei até um cruzamento onde a estrada em que eu estava continuava para Oeste, coisa que não me interessava nada. Eu tinha que virar para Este, no sentido de Talavera de la Reina e Madrid. A minha dormida para a noite era em Oropesa, uma cidade a meio caminho. Rolar no sentido contrário era andar para trás,

Para Este, na direcção certa, a única estrada era a Autovía para Madrid, a A-5. Autovía é o nome dado à rede de autoestradas gratuitas, que ligam Madrid com o resto do país. Eles também têm estradas a que chamam mesmo "autoestradas", mas tecnicamente são a mesma coisa. Logo, não é permitida a circulação de bicicletas em nenhuma destas vias. Mas era para aqui que o GPS insistia que eu deveria ir, e francamente, eu não estava a ver alternativas.


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O dilema



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O percurso que eu fiz


Consultei o Google Maps, que me indicou que eu, de facto, deveria mesmo virar à direita, para Este, para a autoestrada! Não podia ser. E no entanto, fazia sentido e não parecia existir alternativa. De notar que o processo de tomada de decisão decorria junto ao cruzamento, à torreira do Sol, já que como era costume, não havia nem um palmo de sombra em lado nenhum. 

Era tarde. Apesar de eu ter começado cedo, o dia já ia longo. Pressionado pelo calor, tive um momento "fuck it", e abalei a toda a velocidade para a Autovía. Tudo o que eu sabia era que sombra, água e descanso ficavam mais perto naquela direcção. Mesmo que esses luxos fossem obtidos numa esquadra da polícia, sempre era uma melhoria em relação à minha situação actual. A minha análise risco-benefício não era assim tão má.

Na autoestrada fui recebido por um ensurdecedor coro de buzinadelas. Ninguém abrandou nem nada do género, mas imensos automobilistas buzinaram para me avisar do meu "erro". Eu ignorei tudo e todos e rolava na berma a velocidades próximas dos 40km/h. Àquela velocidade depressa estaria debaixo de um belo duche gelado no hotel que tinha reservado e poderia esquecer aquele incidente. 


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A Autovía à esquerda


Mas claro, não poderia ser tão fácil. Estava a ensaiar mentalmente o que diria aos policias quando chegassem, coisas como "custava assim tanto plantarem umas árvores para dar sombra?" ou "quem é que foi o palhaço que desenhou a vossa rede de estradas?" quando o som inconfundível de um furo me chegou aos ouvidos. A rolar a toda a velocidade na berma, tinha passado por cima de alguma porcaria e o pneu traseiro começou a perder ar de forma audível. O líquido anti-furos não estava a funcionar e em pouco tempo estava a rodar encima do aro.

Abrandei o suficiente para não dar cabo da roda traseira, mas não parei. Não me pareceu boa ideia parar na AE... Depois reparei que havia uma área de serviço não muito longe e arrastei a bicicleta ferida até lá, instalando-me rapidamente num cantinho onde não estorvava ninguém. Debaixo do olhar curioso de camionistas, desmontei o que pude da bicicleta carregada e removi a roda traseira. 

Não tinha ar. O tubeless estava frito e ia ter que colocar uma câmera de ar, mas resolvi tentar pelo menos voltar a encher de ar e ver se a coisa aguentava. Mas por mais que tentasse, parecia que a minha bomba de ar também não estava operacional. E agora eu sentia que estava a perder rapidamente o controlo da situação. Olhei para cima e questionei "Não tens mais nada para mim agora?" 

E nesse momento, um carro patrulha da Guardia Civil entrou na área de serviço.


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O caminho para "casa"


Os agentes olharam para mim, e foram à sua vida. E isso deixou-me a pensar. Normalmente em Espanha não há a balda que se vive em terras lusas, se eles me ignoraram era porque deveria haver uma forma legítima de chegar ali, que justificasse a minha presença na área de serviço. Coloquei a câmera de ar no pneu de trás, montei tudo de volta o melhor que pude e fui dar mais uma olhada no Google Maps.
 
Só nessa altura é que eu percebi. Paralela à Autovía, ao longo de vários quilómetros, seguia uma pista de gravilha, onde era permitida a circulação de veículos. Tinha sinais de trânsito e tudo. Essa pista passava por trás da área de serviço e justificava a minha presença no local. E a de eventuais tractores e maquinaria agrícola. O piso de gravilha era mauzito, um bocado no limite para os meus pneus finos, já para não falar para o meu nível de desgaste naquele momento. Mas era uma alternativa à AE!


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Vista à chegada a Oropesa


E foi assim que, depois de reparar a minha mini-bomba e enchido por fim o pneu traseiro, fiz os últimos 30km a rolar em verdadeiro gravel. De vez em quando tinha umas atrevessadelas mais cabeludas, já que a tracção com pneus estreitos e lisos não era a melhor. Mas era suficiente. E por aquelas alturas, suficiente ia ter que chegar.

 
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Já fiquei em sítios piores



Dia 4. Trujillo-Oropesa. 128km. (Estrada/AE) 
 
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