O vento que dá nas canas do canavial

@ Eu e as minhas bicicletas

Publicado em 22/10/2018 às 17:09

Temas:

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Romana* saiu à rua num dia assim 
Naquele lugar sem nome para qualquer fim
Uma gota de suor pela face cai 
E um rio de adrenalina do peito aberto sai

O vento que dá nas canas do canavial
E a força dum ciclista de Portugal
E o som da pedaleira como um clarim do céu
Vão dizendo em toda a parte que esta bicicleta rendeu

Teu sangue, ciclista, reclama outra estrada igual
Só olho por olho e dente por dente vale
A lei mudou as regras de quem circulou
Teu corpo pertence à terra que te abraçou

Aqui te afirmamos dente por dente assim
Que um dia rirá melhor quem rirá por fim
Na curva da estrada há carros parados no chão
E por todos passam bicicletas duma nação...


* Romana é o nome da minha bicicleta :) 
 

Pedalar é saudável!

Arnaldo Pires @ Braga Ciclável

Publicado em 20/10/2018 às 12:00

Temas: Opinião Arnaldo Pires benefícios Bicicleta Braga deslocações médico Pedalar é saudável Saúde

As cidades modernas têm evoluído para esquemas de limitação do tráfego automóvel, em prol da melhoria das acessibilidades, para peões e ciclistas, conhecido como estímulo ao transporte ativo (TA).

O TA apresenta francos benefícios para a saúde das populações, sendo que a limitação do tráfego automóvel promove a redução da poluição urbana. A poluição, tal como o sedentarismo, é, por si
só, uma causa de morte.

O ganho, em bem estar e saúde, para as populações, com esta tipologia de TA, pode ser calculado e os resultados são surpreendentes.

Existem vários estudos relacionados com o TA. Um deles aponta que Varsóvia e Praga teriam uma redução de 113 e 61 mortes, respetivamente, com um aumento para 35% de utilização de bicicleta, em todas as deslocações efetuadas pela população, como já acontece em Copenhaga. Copenhaga e Paris são consideradas cidades modelo em questão de TA. Copenhaga apresenta taxas de 35% de ciclismo, e Paris 50% de caminhada.

Em Barcelona, foi feita a comparação entre utilização combinada de carro e transportes públicos vs a utilização de transportes públicos e bicicleta, em 40% das deslocações. Encontraram-se resultados interessantes: a 2° opção pode apresentar uma redução de 98 mortes/ano, e a 1° opção, uma redução de 40.

Os benefícios em saúde, para quem se transporta de bicicleta, tem relação direta com o incremento da sua atividade física, reduzindo o risco cardiovascular, permitindo um melhor controlo do peso, do metabolismo do açúcar e das gorduras, para além da melhoria da coordenação motora.

A utilização de bicicleta tem benefícios, não só para o próprio, como também para a comunidade, dado que reduz: as emissões de CO2, melhorando a qualidade do ar; a poluição sonora; o congestionamento de tráfego, melhorando a conectividade dos transportes.

Para a implementação de políticas de TA, é importante conhecer as singularidades de cada cidade. Assim como, para incentivar a deslocação de bicicleta é importante criar condições, definir rotas, ciclovias, para deslocações seguras.

Braga é uma cidade com excelentes condições de relevo, para a utilização da bicicleta. Urge criar mais vias cicláveis, seguras, garantindo a ligação dos principais pólos da cidade; e estimular a população a utilizar a bicicleta em, pelo menos, 35% dos seus trajetos. Uma boa solução parece ser a co-utilização da bicicleta e transportes públicos, sobretudo para os locais de relevo geográfico mais elevado, como é o caso do Hospital de Braga.

 

can’t miss [192] publico.pt

paulofski @ na bicicleta

Publicado em 17/10/2018 às 11:49

Temas: can't miss it bons exemplos ciclismo urbano cidades coisas que leio crianças e bicicletas espalhando os bons exemplos Lisboa mobilidade motivação noticia outras coisas partilha

Crianças pedalam de casa até à escola num “comboio” conduzido por alguns pais

Projecto nascido em Lisboa, na zona do Parque das Nações, está a ser replicado, com grande sucesso, em Aveiro. E a ideia passa por fazê-lo chegar a outros pontos do país.

“O ritual tem vindo a repetir-se todas as manhãs, desde o início do ano lectivo. Às 8h35, César Rodrigues e o seu filho Sebastião saem para a rua, cada um na sua bicicleta. Fazem a primeira paragem um minuto depois, escassos metros à frente, para apanhar Martinho e os seus três filhos: Mafalda, Gaspar e Baltazar. Ao longo do caminho que os conduz até à Escola Básica das Barrocas, em Aveiro, ainda efectuam mais duas paragens. Inês Domingues e Inês Brito, com os respectivos filhos, Tomás e Rodrigo, juntam-se ao grupo no segundo ponto de encontro. Mais à frente, é a vez de Ricardo Nunes, e os filhos Bárbara e João, engrossarem a caravana. Na verdade, é um “comboio” de bicicletas e até já tem nome próprio: Ciclo Expresso das Barrocas.” […]

Podes saber mais sobre este interessante projecto em: https://www.publico.pt/2018/10/16/local/noticia/criancas-pedalam-de-casa-ate-a-escola-num-comboio-conduzido-por-alguns-pais-1847576

 

 

fotocycle [234] aproveito cada momento

paulofski @ na bicicleta

Publicado em 11/10/2018 às 11:20

Temas: fotocycle 1 carro a menos bicicleta bicicletas bué de fixes ciclistas urbanos do Porto cicloturismo cidades devaneios a pedais fotografia fotopedaladas mobilidade motivação opinião outras coisas penso eu de que... Porto Sua Alteza

A bicicleta é uma extensão do corpo e segue comigo, sempre junto, quaisquer sejam as minhas escolhas. É muito mais que um veículo. É a ferramenta disponível no dia-a-dia e que  apenas necessita de mim para funcionar. Com ela não estou dependente de horários, de outros meios de transporte que me levem onde quero ir. Como alternativa viável, a bicicleta reaparece com destaque na actividade desportiva e no lazer. No usufruto útil do meu tempo livre promove a qualidade de vida, na percepção de melhor me relacionar com a cidade, com a estrada e com tudo o que me rodeia. Sem motor, sem gasolina, nas suas múltiplas possibilidades de uso no espaço público. Nas minhas bicicletas aproveito cada momento.

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can’t miss [191] veloculture.pt

paulofski @ na bicicleta

Publicado em 8/10/2018 às 11:57

Temas: can't miss it 1 carro a menos ciclismo ciclismo urbano ciclistas urbanos do Porto ciclovia coisas que leio com mobilidade outras coisas partilha penso eu de que... Porto segurança rodoviária testemunho Velho Lau Velo culture

Neste postal multi-ilustrado da Marginal tripeira, a via mais ciclo-concorrida da Ribeira até à Foz, Velho Lau faz uma análise bem documentada e testemunhada das cíclicas dificuldades vividas pelos ciclistas: urbanos, licrados e turistas; equívocos e incoerências “num dos percursos mais planos e mais bonitos do Porto”.

COMBOIOS DE BICICLETAS NA MARGINAL (GALERIA E TESTEMUNHOS)

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Quem pedala somos nós, os portuenses que andam de bicicleta para cá e para lá nos afazeres diários, nas idas para o trabalho ou para a escola, a treinar ou a passear. E também os turistas, que andam muitas vezes aos pares, ou em bandos, não raramente com um guia acelerado e sorridente à frente. Há ainda um grupo cada vez maior, que são os peregrinos que fazem o Caminho da Costa, muitos de bicicleta, ainda mais a pé.

[…]

Foi por assistir todos os dias aos pequenos conflitos e à organização do espaço improvisada por todos estes ciclistas e pelos peões, que ainda são maioria, seja em passeio, nos seus afazeres, à pesca, em passo de corrida, a beber uma mini num dos bares ao lado do Rio ou em peregrinação, que decidi ir para a Marginal tirar fotografias e escrever este postal. Depois, no Instagram (no meu e no da Velo Culture), pedi a opinião a algum pessoal amigo que também faz este percurso e cujos testemunhos podem ir lendo nos destaques destaque no postal.

[…]

(para ler clicar em: https://veloculture.pt/2018/10/04/marginal/)

Aproveito a ocasião para depositar o meu testemunho, de quem pedala pela Marginal, a do Porto e a de Gaia, seja no modo licrado, sport racing commute, seja no modo casual, relaxado pós-laboral.

Pedalar pela cidade é, para mim, uma experiência agradável. Especialmente depois de picar o ponto, o commute no regresso a casa pela Marginal é três vezes mais saboroso. Sendo o triplo da distância que faço de manhã, o “passeio” junto ao rio, à beira-mar e pelo Parque da Cidade oferece-me vários benefícios. Num simples e demorado percurso a pedais, a nossa vida pode melhorar consideravelmente, pois enquanto o fazemos abstraímo-nos do dia-a-dia e as preocupações passam para segundo plano, ou tendem a não parecer tão relevantes. E se assim não for, há que fazer um esforço para que os obstáculos não perturbem este momento íntimo que é o regresso tranquilo a casa.

Já escrevinhei algures por aqui que diariamente pratico aquilo a que gosto de chamar pedalar no cardume, “car doom” em estrangeiro. Quase sempre prefiro praticar um ciclismo veicular do que pedalar nos passeios, pseudo ciclovias, ciclocoisas, o que o valha. A meu ver, para que a bicicleta seja eficiente na mobilidade urbana é necessário que a mesma seja considerada um veículo, com o ciclista na rodovia exigindo os seus direitos e cumprindo as suas obrigações, conforme prevê o Código de Estrada.

Eu próprio já tive ali alguns conflitos, quando o automobilista não tolera um ciclista ao seu lado, na rua, achando que o meu lugar seria no passeio, ou na tal ciclovia! Temos pena…

Uma vez exigidas as ciclovias, tornou-se muito fácil, e até cómodo, para quem administra as vias urbanas, tirar a bicicleta do seu espaço conquistado no trânsito como um veículo e colocá-la em cima de passeios, calçadas, trajectos quase sempre partilhados, nivelando a bicicleta nas mesmas condições de mobilidade dos peões e deixando as vias públicas exclusivamente para os veículos motorizados. Valha-nos que o legislador corrigiu o Código da Estrada, transformando, e bem, uma obrigação numa opção.

A bicicleta no passeio na ciclovia partilhada perde o respeito, a agilidade e a sua importância como um veículo eficiente na mobilidade urbana, transformando-se apenas numa opção de lazer, sujeitando-se ao direito dos peões em utilizar o seu espaço. Um exemplo típico acontece quando as ciclovias são tomadas por pessoas a caminhar, jovens de patins e até em bicicleta a ziguezaguear, animais de companhia, veículos estacionados. A ciclovia partilhada é um jeito elegante de expulsar o ciclista urbano da rua. Quem utiliza a bicicleta diariamente sabe que a ciclovia partilhada não é a melhor solução. Então o espeço entre os trilhos do electrico é que não é mesmo. Se alguma vez tiveram a experiência que é entalar um pneu num carril, então sabe do que estou a falar!

Claro que existem ciclovias onde há mais vantagens do que desvantagens, mas a meu ver, nas raras que existem não é justificação suficiente para a segregação das bicicletas. A demarcação de ciclo faixas, com uma largura mínima nos dois sentidos da pista, é um investimento de baixo custo e que permite a inserção da bicicleta no seu espaço natural, no trânsito, resultando daí um deslocamento mais rápido e com maior nível de segurança. Falar da segurança dos ciclistas, justificando a sua criação, a segregação dos ciclistas com a justificação para evitar que sejam atingidos por um automóvel, a mim não pega.

Começando então por falar da segurança dos ciclistas, visto ser esta a justificação que é mais apontada para a criação de via cicláveis, torna-se premente circular com cuidados mais que redobrados. Na maioria das vezes as ciclovias são usadas por pessoas que nem sequer andam de bicicleta. É fundamental que todos saibam compartilhar o espaço com precaução, velocidade moderada, e acima de tudo com uma atitude defensiva. Os acidentes com ciclistas que ocorrem com maior frequência acontecem nas ciclovias, nos passeios e vias compartilhadas, onde, à partida, os automóveis não entram.

Quando eu opto por aproveitar o caminho tranquilo e livre de uma via ciclável, no passeio ou no parque, eu sei que estou a entrar num espaço comum. Se modelo o meu comportamento, espero de todos o mesmo modo de atenção e cuidado. Dependendo quase sempre do momento, e claro que também da bicicleta que esteja a usar, eu gosto de ser livre de poder escolher onde circular, até pela minha segurança, e não é por acaso que às vezes me sinta melhor pedalar na rua, no meio do car doom. Nem que seja para chatear os carrodependentes!

 

De Praga a Budapeste

Ana Paula Rodrigues Matos @ Braga Ciclável

Publicado em 6/10/2018 às 12:00

Temas: Opinião Ana Paula Rodrigues Matos Bicicleta Budapeste Danúbio Eurovelo férias Férias com Pedal Praga Viagem

De Praga a Budapeste por estrada são 528 Km. Por ciclovias e estradas secundárias programamos 518 km de bicicleta em autonomia, a fazer em nove etapas de 75 km cada.

O caminho foi-se fazendo, umas vezes rápido outras mais lento, não estávamos a contar com o calor abrasador, talvez inusual para esta época do ano naquelas paragens, obrigando-nos a saltar duas etapas, já que, as anteriores de montanha, com um desnível acentuado, nos tinham literalmente quebrado. A paisagem compensava o desnível, assim como a simpatia das pessoas. No total fizemos 450 km. As odisseias pelo caminho foram muitas, aventuras e desventuras que ficam por contar.

Na República Checa, até Brno, seguimos por estradas nacionais, vias partilhadas, nomeadamente a via 19, 24 e via 1. Estas, fazem-se em terreno montanhoso sempre acompanhados pela floresta centro-europeia onde nos refrescamos à sombra de ciprestes, faias, carvalhos e nogueiras. Nas áreas mais cultivadas, o lúpulo e o milho eram as culturas mais presentes, as estradas eram circundadas por árvores de fruto como macieiras, pereiras, abrunheiros e cerejeiras.
Depois de Brno e já na Eslováquia, apanhamos fragmentos da EuroVelo 9 (rota do âmbar). A rota é plana com vinhas circundantes, antes de chegar à área de paisagem protegida, a cidade cultural de Lednice-Valtice da UNESCO. Passamos também pela EuroVelo 13, apelidada de Cortina de Ferro, esta passa por todos os países que pertenceram ao pacto de Varsóvia. Aproximou-nos da época histórica que estes países viveram durante a guerra fria. No ponto em que a Áustria, a Eslováquia e a Hungria se encontram, há numerosos memoriais e marcas assinalando esse conturbado período da história europeia. Este fragmento da Hungria, faz parte da Grande Planície Húngara e a rota passa por uma paisagem encantadora com inúmeras pequenas povoações.

A EuroVelo 6 tão ansiada por nós, segue ao longo do Danúbio, era já um sinal de aproximação a Budapeste. Este segmento da Eurovelo húngara está protegido como um sítio Natura 2000, que fornece às espécies ameaçadas habitats naturais.

A Europa é anfitriã de uma extensa rede de ciclovias, num total de 15 trilhos de longa distância, chamados de rotas EuroVelo que percorrem 43 países.

Já em Budapeste e a relaxar nas termas, depois do longo percurso, tivemos duas contrariedades antes da partida, embalar as bicicletas, as companhias aéreas são rigorosas relativamente ao transporte de velocípedes e a necessidade de transportar as bicicletas para o aeroporto de Budapeste que fica a 20kms do centro da cidade. Os autocarros não permitem o transporte de bicicletas. Fomos de comboio até cerca de 15kms do aeroporto, pedalámos 5kms até ao mesmo. Depois de todas as aventuras, o trajeto foi duro o calor apertou, mas olhando para trás, surge a questão “vale a pena?” sim, se querem experimentar um turismo diferente, em permanente contacto com a natureza, conhecer gentes, degustar gastronomia, ver paisagens magnificas, esta é uma excelente forma de fugir às grandes confusões das cidades europeias que em agosto são caóticas.

 

As cicloficinas regressam sábado ao centro

Braga Ciclável @ Braga Ciclável

Publicado em 5/10/2018 às 12:16

Temas: Eventos Bicicleta Bicicleta em Braga Braga bragaciclavel cicloficina encontro informal

Depois do recente sucesso da primeira Cicloficina na Rodovia, haverá uma nova edição na Rua do Castelo já este sábado, dia 6 de outubro, às 17h00. Nestes encontros informais, as pessoas aparecem e efetuam a própria manutenção da bicicleta ou ajudam a arranjar a bicicleta de outros.

As cicloficinas de Braga acontecem duas vezes em cada mês, e em dois locais distintos: no primeiro sábado de cada mês na Rua do Castelo, e na terceira terça-feira de cada mês nos Campos da Rodovia.

Uma cicloficina baseia-se na simplicidade do funcionamento mecânico das bicicletas e caracteriza-se por oferecer acesso a ferramentas, peças usadas e sobretudo a um momento de conhecimento partilhado. Em cada sessão as pessoas são motivadas a familiarizarem-se com a sua própria bicicleta, apercebendo-se de como se podem tornar responsáveis pelas suas pequenas manutenções e reparações. É uma oportunidade de aprender e conversar e com os outros ciclistas sobre estas reparações e sobre outros assuntos relacionados com a utilização regular da bicicleta, que surgem naturalmente.

Não se deve confundir uma cicloficina com uma loja, pois além de não ter fins lucrativos, na cicloficina não se pretende prestar serviços a clientes, mas sim partilhar conhecimentos. A cicloficina, com o seu papel de divulgação e promoção da bicicleta, beneficia as empresas do ramo ao expandir a sua base de potenciais clientes. Daí que em Braga a cicloficina conte não só com o apoio da Associação Braga Ciclável, mas também de três lojas da cidade. Esperamos que mais se juntem a estes encontros informais.

Há várias cicloficinas a acontecerem regularmente pelo país, mas o seu início ocorreu fora de Portugal. Espanha e Itália, por exemplo, têm já uma forte tradição nesta área. Muitas vezes as cicloficinas têm como intuito arranjar bicicletas para pessoas sem posses e oferecer essas mesmas bicicletas.

Todos são convidados a aparecer, trazer peças e bicicletas para reparar ou afinar, ou simplesmente conversar sobre o uso da bicicleta.

 

dois mecos à conquista da velha estrada N2, ou a minha melhor aventura a pedais

paulofski @ na bicicleta

Publicado em 1/10/2018 às 14:25

Temas: marcas do selim amigo Jacinto ciclismo cicloturismo cidades devaneios a pedais dos malucos das biclas voadoras Estrada Nacional 2 fotografia fotopedaladas Gorka longas pedaladas motivação passeio pelos caminhos de Portugal randonneur roda de amigos testemunho

“Estou pensando seriamente fazer a Nacional 2 numa de recreativa (Chaves/Faro) lá para Setembro, estou disposto a fazê-la sozinho, mas com uma companhia de + um, dois ou três, mais agradável seria. Vamos lá”

 O jovem Jacinto lançava assim o desafio e eu vacilei, mas não foi logo ao primeiro toque. “Anda mas é comigo à N 2…”. Ora, estando eu de férias, a minha participação na aventura exigia que outros astros se alinhassem. Fui matutando a ideia e depois de assegurar alguns aspectos importantes para o êxito da coisa lá me deixei levar pelo desvario de pedalar os 738 quilómetros de extensão da Estrada Nacional 2 em quatro dias, a uma média superior a 180 km pedalados por dia. Foi mais ou menos isso que contrapus aos planos iniciais do Jacinto, a de ir “numa de recreativa”, mas sei que exagerei.

Desde que li a primeira crónica das muitas proezas pedaladas por outros da mesma espécie ao longo da estrada mais extensa do país, a terceira mais longa do mundo depois da americana Route 666 e da argentina Ruta 40, que este vosso cicloturista fervilhava na vontade de ir somar os 739 mecos da velha estrada, começando no zero. Sair à descoberta do país, pedalar pelos alcatrões, buracos e paralelipípedos da mítica EN2.

Esta é a crónica da minha maior melhor aventura a pedais, descrevendo as motivações, estímulos e sensações vividos numa estrada cheia de singularidades.

Preparações e demais questões

Não tive de fazer uma preparação física específica porque uso diariamente a bicicleta, como meio de transporte e como a melhor forma de me manter em forma. A exigência seria rigorosa, sabia-o à partida, mas a minha expectativa superava qualquer acumulado montanhoso. O móbil seria encontrar o melhor ritmo e desfrutar o momento. Percebi o Jacinto algo receoso dos muitos quilómetros programados para tão poucas etapas. Nos dias antecedentes à partida eu lá o ia descansando, recorrendo aos argumentos económicos: “Quanto menos pernoitamos, mais poupamos”. Mais à frente, após os primeiros prémios de montanha, ia-o animando: “Seguimos ao teu ritmo e quando lá chegarmos, chegamos!”. Mas isso não o descansava e não o poupava, nem as pernas nem o seu joelho direito.

Para chegar ao ponto de partida, em Chaves, foi inevitável o recurso ao automóvel – Carla, mais uma vez o teu maridinho te agradece toda a abnegação e afeição que dedicas à modalidade que tanto adoras, o ciclismo. No momento da primeira volta ao pedal, do quilómetro zero em diante, a viagem seguiria em autonomia, sem peneiras nem geringonças. A malinha Carradice carregava a roupa necessária e o kit de sobrevivência mecânica. Com as cábulas “à mão” e os olhos nos mecos da estrada, parar-se-ia onde nos desse a fome, tivessemos sede, houvesse um motivo fotográfico ou uma pane qualquer.

O dia para pedalar, a noite para dormir. As pernoitas foram previamente marcadas. A primeira e segunda noite seriam em Viseu e Abrantes, escolhas motivadas pela disponibilidade mais económica que as Pousadas da Juventude oferecem, a uns módicos 14€ por beliche, com direito a pequeno-almoço. Para a terceira noite previ um pequeno luxo, iriamos descansar as pernas numa pequenina casa, tipicamente alentejana, na vila do Torrão. Para o último dia, e uma vez chegados a Faro, previa a chegada para as 17h, compraríamos os bilhetes para o comboio IC das 17h56 e regressaríamos ao Porto. Não pré-comprei os bilhetes por mera incerteza da hora de chegada.

Assim, no dia seis de Setembro lá fomos nós os dois “descer” a N2, estrada património que rasga o país real, de alto a baixo, e se cruza sinuosa com os caudais de onze rios, ondula ao sabor de quatro serras, se estende por onze distritos e atravessa trinta e dois concelhos. Um tesouro esquecido que liga Chaves a Faro, uma estrada inteira, nacional, elevada, preservada, desclassificada, presente, e em alguns locais escondida de toda a gente.

Dia 1: Chaves – Viseu (174 mecos à beira da estrada)

Começa-se numa singela rotunda algures na cidade flaviense. No seu centro, o original marco quilométrico branco com os dizeres N2, vários autocolantes motards e um rotundo zero, marca o arranque desta nossa viagem etnográfica. Um meco tão famoso, tão simbólico, tão certo como o seu irmão que aspirávamos alcançar, 738 quilómetros depois.

Chegamos lá pelas 10 horas, mas antes da foto da praxe e do sapato no pedal fomos forrar os estômagos. Despedimo-nos da nossa motorista e fotógrafa de ocasião, espetei um autocolante evocativo no meco 0, dei inicio ao registo stravico e saímos logo de seguida. Seguimos para sul, devagar e a divagar.

Dali até Vila Real, passando Vidago, Pedras Salgadas e Vila Pouca de Aguiar, a antiga linha ferroviária do Corgo, adaptada a ciclovia, segue, amiúde, em paralelo com a estrada. Aproveitando o bom tempo, experimentávamos as pernas pela região do Alto Tâmega, entre as Serras do Alvão e de Paradela. Em Vila Pouca fui traído pela sinalização, errando assim o trajecto original da N2 que pretendia seguir e que passa pelo centro da vila. O mesmo se passa em muitas das cidades e vilas que a estrada atravessa. Primeira paragem em Vila Real para atestar.

Até passarmos Cumieira, a estrada volta a elevar-se. Chego ao meco 69 e resolvo parar para esperar pelo Jacinto, ciclista e poeta a caminho do marco dos 70. Estamos a poucos dias do nosso amigo “septuagenar” e quis tirar-lhe o boneco para o lembrar disso. Então, encosto a bicla ao famoso meco quilométrico, preparo a tele-objectiva, registo a passagem do nosso jovem, dou dois passos atrás e… zás! Dou por mim a cair no vazio. Enfiei-me num boeiro aberto na berma e escondido pela erva seca. Ainda meio atarantado saio dali com uma perna esfolada e escoriações nos braços. Das cenas trágico-comédias da nossa viagem, esta foi a comédia.

Santa Marta de Penaguião e a entrada no Alto Douro Vinhateiro é sempre um momento alto de qualquer roteiro. A sinuosa N2 flutua agora acima dos socalcos até mergulhar em direcção ao rio. O Douro passa a dominar as vistas e a estrada desenha-se por entre a paisagem única, modelada pelo homem ao longo dos anos. São quilómetros de um desfile panorâmico, de vinhas encrespadas nos sucalcos, tons esverdeados do vinhateiro, de muitas quintas que se explanam pelas encostas, o que valeu à região a nobre distinção de Património Mundial da UNESCO. Sob a velha ponte metálica, que no presente é ponte pedonal, o Douro segue o seu curso até ao Porto e nós seguimos para sul, rumo ao Algarve.

Do Peso da Régua ao alto de Bigorne, por longos 33 quilómetros, a velha estrada apruma-se, e bem, e foi no primeiro lanço até Lamego que o dueto cicloturista já havia outrora pedalado junto, no breu da noite de uma famigerada Flèche dos Randonneur de Portugal. Desta vez o sol cobrava-nos o privilégio das panorâmicas e espremia-nos em suor. Dos sete blocos cúbicos múltiplos de cem plantados pela N2, o primeiro desses míticos marcos surge em Sande, às portas de Lamego. Feito o registo, saí dali enfartado com a deslumbrante vista do que ficou para trás.

Estava na hora de reabastecer e o Jacinto não escapou à famosa e saborosa bola de Lamego, nem à paralelepipédica subida do monte de Santo Estêvão que contorna o Santuário da Senhora dos Remédios. “Eu sei Jacinto, é sempre a subir, que remédio!”

Ali, ao quilómetro 114 da N2, é a freguesia da Magueija, concelho de Lamego. Há muitos anos, dali emigraram Dimas e Graziela para Vila Nova de Gaia, onde criaram uma numerosa e linda família, a qual, anos mais tarde, me acolheu no seu seio por via do matrimónio.

Após o topo, nos 971m de altitude da serra de Bigorne, a maior elevação por onde a N2 passa, usufruímos da contemplação da Serra de Montemuro, Rota do Românico, e do planalto beirão. Planámos numa descida rápida e saborosa para Castro Daire, terra do Bolo Podre. Transposto o Rio Paiva estão de volta as subidinhas. “Ufa… isto é só subir”, reclamava o Jacinto!

“Indo eu, indo eu a caminho de Viseu”… entretanto caía a chuva e trovejava do céu! Foi com o inconfundível odor do asfalto quente molhado que iniciamos a ultima inclinação do dia, de Calde a Bigas, com a A24 a roncar por perto. O suor escorria da testa e atraía as moscas que pairavam defronte dos óculos. Dava para perceber a monotonia da  cadência, e foi já às portas da cidade de Viriato, com o relógio a bater as 20h, que nos detivemos no primeiro restaurante que surgiu para atacar um bom bacalhau com natas.

Nova chuvada atrasou-nos a saída para cumprir os poucos quilómetros que nos separavam do merecido descanso, e antes mesmo do check-in na Pousada da Juventude de Viseu, andámos à nora pelo centro da cidade à custa da barafunda provocada pela Feira de São Mateus. Talvez pelo estímulo da cafeína, pela janela entreaberta do quarto, pelo ronco do vizinho de beliche, tudo junto, quase não preguei olho a noite inteira.

Dia 2: Viseu – Abrantes (uns loooongos 230 km’s)

Nove da matina, pequeno-almoço reforçado e estávamos de novo no selim como meros ciclistas urbanos no frenesim rodoviário da hora de ponta viseense. Este seria teoricamente o dia mais complicado, não apenas pela distância, mas sobretudo pela difícil navegação que teríamos de superar.

A rota passa pela freguesia de Fail, e eu na brincadeira dizia-lhe: “É sempre em frente Jacinto, não há que falhar”. Pois… A bucólica mata que se atravessa no nosso caminho trouxe de volta os mecos na berma da estrada e a paz necessária para colocarmos a conversa em dia. O IP3 e a ciclovia do Dão farão agora parte contrastante do panorama. À passagem por Tondela, a paragem técnica na Pastelaria Rosicar foi bem adocicada pela simpatia das funcionárias.

Na ausência do defunto marco quilométrico dos 200 km’s, sacrificado ao traçado do IP3, registo o primeiro sobrevivente em combate que me apare. Nada mais a assinalar até Santa Comba, a não ser a visão desoladora das vastas plantações de eucaliptos, aqui e ali devastados pelos incêndios que fustigaram a região centro no ano passado.

Depois de Santa Comba Dão a N2 vendeu a alma ao criador. A ponte com o nome do ditador, por onde passava a N2, ficara submersa pelas águas do Mondego há mais de três décadas, na sequência da construção da Barragem da Aguieira. Não nos restando alternativa, para continuar tivemos de nos amanhar pela sensaborona EN234, para antes de Mortágua tomar a EN228 em direcção à Barragem da Aguieira, onde o seu pontão nos permite a travessia.

Até Penacova a N2 transforma-se em IP3 e mais à frente, perto de Oliveira do Mondego, o Itinerário Principal corta-nos o caminho. A solução para o evitar é percorrer por poucos metros um estradão de terra, tomar um atalho por uma ladeira, subir para depois descer à margem do Mondego. Mais à frente vamos retomar a N2.

É neste ponto do atalho que vem a parte “trágica” da comédia. Talvez resultado da falta do almoço, mesmo com o roteiro bem estudado, a desorientação foi completa. Não li bem a cábula e cometi um grave erro de navegação, virando onde não devia. Com esse equívoco perdemos uma boa hora às voltas, a subir e a descer, até perceber que havíamos voltado para trás. Pronto, dei cabo do Jacinto!

Após passar pela aldeia de Raivas, às portas de Penacova, e, sem avisar, recomeça a N2. Despedimo-nos do Mondego e começa a ascenção para Vila Nova de Poiares. Com a paragem para comer alguma coisa à sombra de um belo fontanário, percebi que estava a ser cada vez mais penosa a progressão do meu companheiro. Ainda com centena e meia de quilómetros para o final da jornada, veio a constatação e uma difícil decisão. O joelho lesionado do meu companheiro de route não lhe dava tréguas. Resignado, o Jacinto teve de abdicar do resto da aventura. Depois de Poiares, na rotunda com a EN17, o último ponto de fuga, despedi-me do Jacinto que rumou em direcção a Coimbra-B para apanhar o comboio de volta a casa. Desse ponto em diante, foi uma longa pedalada a solo, nada a que não esteja habituado.

A N2 segue sinuosa e empinada pela Serra da Lousã. Depois do lanche em Góis, conquisto-a numa diferente vertente. Na descida, registo a passagem pelo marco dos 300 km’s, em Alvares, terra queimada agora tingida pelo verde-água do eucaliptal que rebenta por geração espontânea. Entro depois numa zona menos nobre da N2, mais descaracterizada, valendo nesta fase a passagem por lugares com nomes indecorosos curiosos: a Picha e, logo a seguir, a Venda da Gaita!

É neste troço da N2 que encontro quatro bidons de água, novos e com resquícios frescos do líquido precioso. Ao que tudo indica foram atirados para a valeta por profissionais do ciclismo que participaram na recente prova Grande Prémio em Ciclismo da EN2! Para mim o ciclismo não deveria ter qualquer impacto na natureza, não só porque não há emissão de dióxido de carbono, mas porque um dos propósitos dos ciclistas amadores é proteger e sensibilizar a preservação da natureza, não deitando lixo fora. Fruto da competição, os ciclistas em prova têm esse mau hábito de ir deitando lixo para a estrada, restos das embalagens e bidons de plástico. Sabemos que alguns desses bidons são depois recolhidos como lembranças por espectadores de ocasião, mas nem todos são encontrados e ficam por ali esquecidos em alguns pontos da estrada. Recolhi-os, amarrei-os à malinha Carradice e continuei até Pedrógão Grande.

Cruzo o Rio Zêzere pela imponente Barragem do Cabril, voltam as montanhas, as encostas abruptas e a terra incendiada. Antes de chegar à Sertã, um episódio curioso. Após uma das curvas surge um duo a pedalar, uma senhora com uma saca de laranjas na mão e mais à frente um rapazito na sua bicla roda 16. Não resisto e tiro uma foto à paparazzi. Passo por eles e o rapazito segue a minha roda. Abrando e olho para ele, todo contente a admirar os bidons que trazia presos à mala: “Olha lá, queres ficar com um?” A cara do miúdo iluminou-se, acenou afirmativamente com a cabeça, e então… “Dás-me uma laranja e eu dou-te um. Pode ser?” Negócio feito.

Chego à Sertã mas não vou em frituras. Reconfortado com uma boa sopinha de ervilhas retomo a pedalada. Como havia referido antes, era minha intenção cumprir ao máximo o traçado original da velha estrada. Nas pesquisas preparatórias, os mapas do Tio Google podem dar origem a alguma confusão e equívocos. Na aplicação Strava o traçado original da N2 está descrito como “Antiga Estrada Nacional 2”, enquanto na aplicação googleana do Street View está erradamente identificada como EN244!!! Assim, logo após a travessia sob a Ribeira da Sertã, na rotunda, saí na primeira saída para o Novo Parque da Sertã e continuei. Não tem de enganar.

Trovões no horizonte e alguns pingos de chuva no lombo. Põe-se a noite. Vila de Rei marca o centro de Portugal. À passagem, tinha a intenção de fazer um pequeno desvio e visitar a pirâmide branca geodésica no Cume da Melriça, mas esta ficou lá, sem fotografia.

[para memória futura, fica reservado este espaço para a tal foto que falta da conquista do Centro Geodésico de Portugal!]

A estrada fica escura, e na rotunda à saída de Vila de Rei volto a falhar na intenção inicial de cumprir rigorosamente o traçado original por uma das mais belas vistas da N2. Quando dei por mim estava a rolar na sua variante para Abrantes. “Volto para trás?… Oh, que se lixe, não dá pra ver nada!”. A pressão do relógio, a fadiga e a vontade de chegar falaram mais alto.

Mergulhado no breu, no limite do fôlego, todos os possíveis estímulos começaram a actuar de uma forma inapelável. Adrenalina correndo nas veias, incertos contornos das curvas, a descida que abre o apetite de acelerar. A estrada torna-se mais agitada, torna-me vulnerável mas também muito mais rápido. Às 22h chegava à Pousada de Abrantes. Minutos depois, de banho tomado e pizza deglutida, pude finalmente descansar.

Dia 3: Abrantes – Torrão (167 km)

Terceiro dia, o mais curto em distância. O céu cinzento espelha-se no Tejo. À porta da Pousada os carros de apoio da União Ciclista da Maia aguardam a equipa para mais uma etapa na Volta a Portugal ao Futuro. Puxo conversa com o staff, gabam-me a velha gOrka, “destas já não se fazem”, e cravo uns pingos de óleo na corrente. Depois de um mútuo “boa sorte” retomo a N2 junto ao meco 404, o mais próximo do marco das quatro centenas que me escapou. Depois do Tejo, depois de Abrantes, já nada será como dantes.

Sopra um vento fresco de frente e cruzo-me com pequenos pelotões de ciclistas amadores em treino matinal. Tomada a dose de cafeína, os neurónios e as pernas acordam finalmente. O sol começa a dar alguns sinais da sua graça. Rodei, rolei, subi, desci, sempre na maior das calmas. A paisagem muda muito outra vez. Sucedem-se as herdades, as ondulantes rectas e as tímidas curvas. Atravesso os primeiros montados com pequenas florestas de sobreiros e carvalhos. O panorama é soberbo e emocionante. Bemposta e Ponte de Sor para trás, à sombra de um sobreiro, em Água de Todo o Ano, uma paragem técnica, o local ideal para verter águas.

Em alguns momentos,  para além da passarada e do tic-tac da corrente nos desviadores, não se ouve nada. Entro na parte do roteiro onde a tranquilidade da paisagem nos oferece o melhor da região: a calmaria. A N2 guia-me agora ao longo da Albufeira de Montargil até à barragem que captura as águas que fluem do rio Sôr. Para quem viaja em modo “mochileiro”, o Parque de Campismo de Montargil é uma boa proposta, o local ideal para repousar e desfrutar das praias fluviais.

Em Mora, mora o Afonso, a dica onde seria a paragem para almoçar. Saindo na rotunda, à entrada da povoação, surge o restaurante onde me vou deliciar com uma das suas afamadas bifanas. Atenção, nesta parte do país as bifanas nada tem a ver com as nossas bifanas, as da Invicta, sandes de finas fatias de porco, ensopadas em molhanga picante. A bifana alentejana é uma fatia grossa e tenra de carne magnificamente temperada dentro de um pão. Uma dessas sandes, acompanhada da indispensável sopa, e a visão de uma foto num calendário preso à parede, tiveram o condão de me atirar de cabeça para o que ainda faltava vir.

Mal rodei as pernas e estou agora sentado no marco que assinala os 480 km. Desta rotunda e durante uns bons 40 quilómetros, a velha estrada preserva muito da sua originalidade. Este troço da nacional foi desclassificada para regional (R2) e assim permanecerá designada até entrar em Montemor o Novo. As pequenas aldeias caiadas de branco dão vida à região pelas tonalidades com que dão cor aos contornos das portas e janelas. Na mui antiga aldeia de Brotas paro junto a um mui antigo fontanário, datado de 1659, e encho os bidons com a fresca água que dele brota.

O panorama alentejano luzente, os planaltos dourados a aparecer de frente, a mesura sombreada dos pinheiros e sobreiros, a estrada estica e endireita. Acontece que a estrada porfia, é contagiante demais, e num tirinho chego ao Ciborro. Detenho-me defronte ao mítico marco quilomético 500, colocado em plano de destaque no topo de um muro. Do outro lado, no café de Ermelinda Miguel, o café “oficial” da N2, dizem, um grupo de motards ocupa toda a esplanada. Com a divulgação dos últimos anos, percebe-se que a antiga nacional se tornou num pólo atractivo por estas bandas e agora muitos turistas e aventureiros param aqui, vindos em motos, vespas, carros clássicos e até bicicletas a pedal, imagine-se!

Em Montemor o Novo, a confluência de várias estradas dá-lhe algum bulício. Após paragem para uma bucha, continuo o meu caminho, só e tranquilo. De novo na estrada pelo coração do Alentejo, a paisagem muda gradualmente, de pequenos aglomerados de florestas e olivais para extensos campos de cereais, que se perdem nas colinas. Por aqui as bermas da N2 estão mal roçadas e o capim trigueiro tapa os mecos quilométricos. Perto de Santiago do Escoural uma visão funesta, uma plantação de eucaliptos!

Nas vastas herdades alentejanas muitos dos sobreiros foram recentemente descortiçados. Depois de arrancada a cortiça do tronco, o sobreiro apresenta uma cor avermelhada, que passa a castanho escuro à medida que as árvores vão regenerando a casca. Para se saber o ano em que tiraram a cortiça, os trabalhadores marcam na árvore a tinta branca o ano. Vacas, várias delas prenhas, e bezerros vagueiam pelos campos cercados, com pasto à disposição, sem receio de se aproximarem para “conhecer” o estranho visitante. Bem tentei mas não me responderam à pergunta pela Vaca Que Ri. É que um queijinho vinha mesmo a calhar.

Ao longo da estrada surgem várias indicações para monumentos de interesse histórico, e que mereciam um pequeno desvio para os contemplar, mas a pedalada prossegue a sua rota e a cabeça roda perscrutando tudo que o olhar alcança. A N2 atravessa o coração histórico da pequena aldeia de Alcáçovas. A rua de calçada portuguesa por entre o casario branco rodeado de cores vivas, guia-me ligeiro até à saída da aldeia.

Meia hora depois calco um piso empedrado e entro no centro da vila do Torrão, freguesia situada praticamente na união dos distritos de Setúbal, Évora e Beja. É lá que vou passar a noite, numa confortável casinha tipicamente alentejana. Muito bem recebido por Dona Antónia, experimentei a gastronomia da região e fui depois esticar as pernas por ali, de chinelos nos pés. Ficou a promessa de lá voltar.

Dia 4: Torrão – Faro (173.5 km mais um extra)

Domingo, sete da matina e nem vivalma. A estrada deserta, a moleza, as rectas e o típico nevoeiro alentejano! Um espesso manto de nevoeiro e alguma morrinha acompanharam-me boa parte da manhã pelo troço da N2 que nos finais do sec. XIX foi Estrada Real e em 1884 passou a Estrada Nacional nº 128.

Em Ferreira do Alentejo paro no Intermarché mas ainda estava fechado. Abria às 9 e como faltavam uns quinze minutos dou uma voltinha pela vila. Passados nem dez minutos volto lá e está agora apinhado de gente à porta, dando palpites e a refilar com as funcionárias. Aquilo estava pior que a Segurança Social em dia de pagamento.

E é já com o pequeno-almoço digerido que o sol volta a dourar a planície. O Alentejo volta a transluzir e a carcaça começa a aquecer. A estrada ladeada de arvoredo oferece-me a possibilidade de parquear num dos raros e belos parques de merendas que resistem à passagem do tempo. Resquício dos tempos em que a N2 era a principal via que conduzia os veraneantes, e não só, para e do reino dos Algarves.

Às portas de Aljustrel, uma locomotiva e parte do Ramal de Aljustrel recorda aos passantes que ali outrora passou o caminho-de-ferro do sul, entre Beja e o Algarve. Voltam as rectas, os mecos e chego a Castro Verde. Na esplanada do bar dos Bombeiros, enquanto me vou refrescando, vou testemunhando algumas das rotinas da terra. Antes de retomar a estrada vou ao encontro de alguns dos ex-libris da região como eram os característicos moinhos de vento.

A N2 segue rectilínea até Almodôvar. Hora do almoço, mas, no que à gastronomia diz respeito, faltou-me uma das tradições locais.  Há muitos restaurantes na vila mas quase todos fechados e os que estão a servir não tinham sopa! Lá consigo trincar qualquer coisa que me garante energia para enfrentar a rota da N2 classificada como Estrada Património.

Vejo o marco do quilómetro 666, o bestial número apocalíptico da besta. Paro, espero que um jovem casal termine as suas selfies, e faço o registo diabólico.

Lentamente a paisagem vai mudando, o traçado ondeia e de repente já estou no Algarve. À passagem pela ponte sobre o Rio Vascão entro no Distrito de Faro e, definitivamente, sinto-me a fervilhar no Caldeirão. “Estou a chegar, carago!”. O asfalto “alevanta-se”, voltam as curvas, os ganchos, as ganchetas, a belíssima e diversa densidade florestal.

Ao atravessar a Serra do Caldeirão e o Barrocal algarvio, o roteiro desenrola-se por uma estrada inclinada e desafiante. Um corrupio de curvas e contra curvas, que se insere no mesmo patamar de diversão do percurso feito no Douro Vinhateiro. É um traçado alucinante pelo coração de uma das remotas montanhas algarvias, por onde pedalar é um misto de prazer sobre duas rodas e um desafio aos sentidos.

Escondido pelo separador da estrada surge o marco quilométrico dos 700. Daqui até ao final serão uns meros 38,5km. Esta é a derradeira despedida da Estrada N2, um belo local para terminar um roteiro a pedal. Pedalar por aqui é um encanto, é um local de encher a alma, inserido num belo quintal que faz as delícias do Velopata e de muitos amigos ciclistas. Aproveito todas as curvas alucinantes. Não perder nenhum quilómetro é essencial.

Com Barranco o Velho a ficar para trás, a costa algarvia é-me apresentada. A estrada desce abrupta e a todo o gás faço a minha chegada triunfal a Faro, de olhos postos no penúltimo meco. Da cidade, da Ria Formosa e das praias guardo as memórias de infância, de verões passados na Ilha de Faro a acampar em família. Já não reconheço nada e chego.

O marco final está plantado no meio de uma avenida para o interior da cidade. Ali está ele, o quilómetro 738, no passeio calcetado, branco, coberto de autocolantes, triste e só, sem púlpito, sem pódio, e eu corto a meta, sem champanhe, sem beijinhos nem meninas. Feitas as fotos, confortamo-nos mutuamente, por alguns minutos. Na hora da chegada não esqueci o Jacinto e o quanto teria prezado terminar esta viajem na sua companhia. Sem um autocolante para assinalar “a nossa chegada”, vandalizei o meco com os nossos nomes e a data.

Batiam as 17 horas e ainda tinha um comboio à minha espera, ou não! Fui à procura da estação de comboios. Consegui seguir os pequenos mecos das dezenas até ao 4. Escapou-me o derradeiro 5. Dou com o edifício da estação, vou directo à bilheteira para comprar bilhete para o IC das 17h56. Surpresa das surpresas. “Está esgotado!”… “Mas… como?!”. “Para o Porto só amanhã, ás…” Já não ouvi mais nada! Com as incertezas da hora de chegada a Faro não havia pré-comprado os bilhetes e agora teria de me desenvencilhar, de alguma maneira… “Olhe que pr’amanhã também pode esgotar!”. Resignado, lá comprei o bilhete para o dia seguinte e fui para uma esplanada de café apanhar uma carraspana.

Rebobinando a cassete

Pedalava eu no cucuruto do Caldeirão, perto do meco 700, quando me liga o meu velho amigo Rui. Deu-me os parabéns pela conquista e convidou-me para ir beber um copo com ele. O Rui estava de férias com a família na praia da Quarteira e de facto seria um bom programa. Agradeci-lhe no momento mas tive de declinar o convite, pois tinha intenções de estar de volta ao Porto nessa mesma noite!… Acho que não será preciso contar que lhe liguei e fiz-me convidar de novo.

Extra: uma visita imprevista à Quarteira

Botei o telemóvel a calcular roteiros e eis que dou com os queixos num inferno chamado IC4. “Mas onde está a famigerada N125!?”. Volto a recalcular o GPS da geringonça e acabo junto ao Estádio do Algarve… “Raios”. O IC4 mais não é que a versão farense da minha vizinha, a Via de Cintura Interna, mas sem sinalética proibitiva de circulação de biclas! Prontes, lá tive de me amanhar pelas sujas bermas e de gramar com o trânsito infernal daquilo. De repente aparece a placa N125 e passa a dois sentidos, mas o demónio rodoviário não acalmou. Ao fim de hora e meia, um extra de  trinta mil metros, chego finalmente à praia da Quarteira e dou por concluída a epopeia do dia.

Amigo Rui, agradeço imenso a vossa hospitalidade, a simpatia com que me receberam e aturaram. O jantar e o geladinho estavam soberbos. Obrigado.

Depois de uma noite bem dormida, na manhã seguinte seguiu-se um extra bónus, o commute necessário desde a casa de acolhimento até ao comboio, parte dele feito pelo IC4 / N125 a rezar pelas alminhas em plena hora de ponta. Depois a viagem de comboio também teve as suas histórias recambulescas, mas acho que já chega de tanto vos chatear sobre a falta de qualidade dos comboios portugueses. O melhor do dia foi o encontro insólito com a Marisa, o Mário, o Carlos e a cadelita Nina no comboio desde a Gare do Oriente.

Epílogo, ou uma espécie disso.

Esta experiência permitiu-me sentir o país. Usufruir Portugal à média de 20 quilómetros por hora. Como a paisagem, as gentes e as culturas mudam de norte para sul. Percorrer a N2 de bicicleta merece todo o tempo que lhe possamos dedicar. Considero que repartir a viagem por quatro dias é o tempo mínimo para a percorrer, e assim aproveitar todos os quilómetros por alguns dos melhores locais de Portugal. Numa outra vertente, mais cicloturística, poderia ter conhecido melhor todos os locais por onde passa a velha estrada e descobrir muito mais ao longo de toda a sua extensão. Poderia optar por um percurso com mais dias de viagem e aproveitar mais os espectáculos de cores que a natureza nos oferece. Poderia visitar as termas no Norte, provar os vinhos do Douro e do Dão, explorar as Aldeias de Xisto, refrescar-me nas praias fluviais do Alentejo e voltar à infância na Ilha de Faro. De certo que num roteiro de dez ou mais dias, em modo mochileiro, terei nova oportunidade em conciliar um passeio ao sul, pela Rota da Estrada Nacional 2, na companhia do meu grande amigo Jacinto.

Boas pedaladas.

 

Câmara Municipal de Braga exclui ciclovias do Orçamento Participativo

Braga Ciclável @ Braga Ciclável

Publicado em 26/09/2018 às 0:43

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A Câmara Municipal de Braga publicou há dias o resultado da avaliação das propostas apresentadas à edição deste ano do Orçamento Participativo. Das 73 propostas submetidas pelos cidadãos, apenas 34 foram aceites. Surpreendentemente, este ano foram excluídas pela equipa técnica da Câmara todas as propostas que iam no sentido de criação de ciclovias ou outras infraestruturas com vista à melhoria das condições de segurança para quem queira usar a bicicleta como meio de transporte.

A Associação Braga Ciclável tem conhecimento de que houve, este ano, pelo menos 4 cidadãos que submeteram propostas com vista à melhoria das condições de segurança para quem se desloque de bicicleta nesta cidade:

OP19/PROP0007 – Adaptação de Ponte Pedonal

Esta proposta visa a adaptação da ponte pedonal que liga a Rua Dom Pedro V à Rua Nova de Santa Cruz. No panorama actual desta via de ligação importantíssima para a circulação de milhares de pessoas todos os dias já não corresponde de forma eficaz a todos os seus utilizadores quer sejam eles jovens universitários, trabalhadores ou idosos e pessoas com mobilidade reduzida.

A proposta em si seria adaptar os acessos ao viaduto de forma a reduzir o desnível (inclinação) como também as curvas apertadas entre patamares de acesso ao mesmo. Este acesso feito em linha recta seria uma melhor opção quer para peões como tornaria o acesso ao viaduto ciclável unindo assim as duas vias cicláveis actualmente  bloqueadas pela maior “cicatriz” que a cidade de Braga atravessando uma das artérias de maior tráfego. Esta alteração facilitaria ainda o acesso ao equipamento por idosos e pessoas com mobilidade reduzida e invisuais unindo duas margens densamente povoadas e aproximando escolas e serviços evitando deslocações de automóvel. Um desafio da maior importância para a qualidade de vida na cidade pois grande parte dos riscos de saúde podem ser diminuídos pela alteração dos hábitos.

Depois das cidades terem levado cinquenta anos a adaptar-se ao automóvel, o novo desafio é que se readaptem e consigam viver sem ele. O novo paradigma da mobilidade deve assentar na sustentabilidade.

OP19/PROP0025 – Via urbana ciclável

A proposta visa a criação de dois trajectos cicláveis, na mancha urbana da cidade. A intenção é a promoção da mobilidade e acessibilidade dentro da cidade, com a interligação do centro histórico à central de camionagem, estação de comboios e Universidade do Minho.

Este projecto visa apenas a criação de trajectos, sob marcação do pavimento atual, não necessitando de obras de requalificação ou instalação de equipamentos.

Seria definido uma via que ligava a estação de comboios à Universidade do Minho, uma segunda linha que unia a central de camionagem à ciclovia já existente, na zona da ponte de São João. A união da zona histórica a três grandes pólos da cidade, permitem a redução do transito automóvel, promove a saúde física dos seus utilizadores, melhora a qualidade do ar na cidade e permite uma circulação em 2 rodas segura e de baixo custo.

OP19/PROP0027 – Pistas cicláveis nas Avenidas 31 de Janeiro e Porfírio da Silva

A cidade de Braga apresenta-se como muito adequada para promover a bicicleta como modo de transporte, mas, para tal acontecer, é necessário criar condições de segurança para todas as pessoas que queiram usar a bicicleta. As questões de segurança são especialmente sensíveis para que as pessoas possam circular de bicicleta na cidade com todo o conforto e segurança. A resolução dos pontos críticos, como cruzamentos e rotundas, é também fundamental para a promoção do uso da bicicleta como meio de transporte.

As avenidas 31 de janeiro e Porfírio da Silva constituem um eixo estrutural da cidade com ligações a diversos equipamentos (centros de saúde, ciclovia do rio Este, escolas, tribunal, centro da cidade, Segurança Social, mercados, talhos, entre outros). Este projeto sugere a criação de pistas cicláveis nesse eixo (com pavimentação e criação de via adequada) e nas ligações dessas avenidas às escolas instaladas na zona (Alberto Sampaio, Carandá, Companhia da Música, André Soares, D.ª Maria II, São Lázaro, Carlos Amarante, São Vítor, Calouste Gulbenkian) na faixa de rodagem, sem prejuízo do espaço do peão.

OP19/PROP0028 – Ciclovias na Avenida da Liberdade

A Avenida da Liberdade é um dos eixos estruturantes da cidade de Braga. Outrora fundamental para a expansão da cidade, é agora um dos principais eixos do comércio de rua da cidade e das movimentações na cidade. Esta Avenida, desenhada com passeios amplos, tem uma oferta excessiva de vias dedicadas aos automóveis. Entre a Rua 25 de Abril e até à Rotunda da Ponte de São João a avenida deve passar a ter o mesmo perfil rodoviário recorrendo a pouca intervenção física. Pintar duas ciclovias unidirecionais (uma de cada lado e na faixa da rodagem), segregando a mesma com recurso a balizadores ou armadillos é fundamental, ligando a zona central à Ponte num dos eixos estruturantes para promover a mobilidade em bicicleta em Braga.

Pode ser equacionada ainda a pintura de duas vias BUS (uma em cada sentido). A existência de veículos estacionados em 2ª e 3ª fila, reduzindo as vias de trânsito de circulação para duas, demonstram que há uma oferta demasiado grande de corredores de circulação automóvel. Os estacionamentos de automóveis existentes devem ser substituídos por parklets onde são introduzidas as esplanadas e/ou lugares de estacionamento para bicicletas.

Nenhuma destas propostas foi aceite pelos serviços da Câmara Municipal de Braga.

A proposta OP19/PROP0007 – Adaptação de Ponte Pedonal não foi aceite porque, de acordo com o Município, “a proposta não é exequível dado que não se enquadra na lei das acessibilidades”.

As propostas OP19/PROP0025 – Via urbana ciclável, OP19/PROP0027 – Pistas cicláveis nas Avenidas 31 de Janeiro e Porfírio da Silva e OP19/PROP0028 – Ciclovias na Avenida da Liberdade foram todas elas recusadas com os mesmos argumentos: ultrapassam o montante máximo de 85 mil euros e já estão previstas para execução pelo Município.

Seriam excelentes notícias, se as obras estivessem efetivamente em fase de execução ou de concurso público, o que, infelizmente, parece não ser o caso.

A Braga Ciclável sabe que os cidadãos que submeteram estas quatro propostas já apresentaram as suas reclamações, conforme previsto no regulamento, para que as mesmas sejam sujeitas a reapreciação. Assim que for tornada pública a lista definitiva das propostas que vão a votação, tencionamos como habitualmente apresentar e analisar no nosso blog aquelas que incidem sobre a melhoria de condições para o uso da bicicleta como meio de transporte.

Projetos não saem do papel, mas impedem propostas de ir a votos

Em relação à proposta OP19/PROP0027 – Pistas cicláveis nas Avenidas 31 de Janeiro e Porfírio da Silva, que já conhecemos de anos anteriores, os serviços do OP da CMB indicam este ano, como acima explicamos, que não pode ser aceite, por supostamente exceder o valor de 85 mil euros (o limite máximo aceite para cada proposta vencedora do OP, ou seja, um montante igual ao disponibilizado nos anos anteriores) e, adicionalmente, por essa proposta já estar prevista para execução pelo município. É uma decisão surpreendente, tendo em conta que não é a primeira vez que esta proposta concorre ao Orçamento Participativo.

Ciclovias ou Pistas cicláveis na Avenida 31 de Janeiro (proposta ao Orçamento Participativo de Braga)

Recordamos, a este propósito, que o tema das ciclovias na Avenida 31 de janeiro concorre este ano pela 4ª vez consecutiva. A primeira delas foi há 3 anos, em que a proposta em questão passou à segunda fase, na qual foi a mais votada na área de trânsito, mobilidade e segurança rodoviária. No ano seguinte, a ciclovia da 31 de janeiro conseguiu novamente ir à 2ª fase de votação, sendo não apenas a proposta mais votada nessa área de intervenção, mas superando em mais 30% o número de votos alcançado no ano anterior.

No ano passado, quando já se esperava que o projeto começasse a conquistar ainda mais adeptos, os serviços da Câmara rejeitaram duas propostas de ciclovia para a 31 de janeiro, afirmando que já se encontrava previsto para execução pelo município. De facto, no ano passado a Câmara Municipal de Braga impediu que fossem a votação todas as propostas cujo sumário mencionava a criação ou extensão de vias cicláveis, com a justificação de que tais projetos já estariam em curso. Para além da Av. 31 de Janeiro e Av. Porfírio da Silva, segundo o relatório da análise das propostas, também já estaria em curso uma extensão da ciclovia do Rio Este até Ferreiros. Os participantes no Orçamento Participativo não puderam, portanto, votar em nenhuma dessas propostas.

Mas era por um bom motivo, porque isso significava que em 2018 teríamos finalmente a tão esperada via ciclável numa das avenidas mais procuradas por quem se desloca de bicicleta cá em Braga, e ainda uma nova extensão da ciclovia do Rio Este até Ferreiros. Até ao momento, contudo, ao fim de mais de um ano, as obras ainda não começaram, os tais projetos nunca foram a concurso público e nunca foram apresentados publicamente aos cidadãos em geral e, em particular, aos milhares de participantes no orçamento Participativo. E, uma vez que o horizonte temporal para cabimentação orçamental e execução dos projetos do Orçamento Participativo é de um ano, que sentido fará bloquear sucessivamente a participação dos cidadãos por causa de projetos camarários que, mesmo que já existam, ainda não são do conhecimento público e que, quem sabe, podem até vir a passar mais alguns anos na gaveta?

Não havendo obra realizada nos locais em questão, nem qualquer informação concreta publicada pela CMB relativamente aos tais projetos, isto levanta portanto sérias dúvidas sobre a transparência e seriedade do próprio Orçamento Participativo. É que este ano, as vias cicláveis na 31 de janeiro foram novamente excluídas antes de poderem ir sequer a votação, mas desta vez com um reforço da argumentação. Se nos três anos anteriores o montante máximo não era um problema, este ano, por algum motivo que aparentemente nada tem que ver com alterações à proposta, parece que o montante é excedido. O relatório publicado no site do Orçamento Participativo não explica de que forma é feito o cálculo, nem em que medida este ano os custos para a execução da mesma são considerados significativamente superiores, nem até que ponto a opção por diversos materiais ou técnicas de construção poderia permitir ou não a concretização desta proposta sem ultrapassar o plafond proposto.

De referir, contudo, que ainda é uma decisão provisória e sujeita a nova apreciação antes da apresentação da lista final, que deverá ser publicada até dia 1 de outubro, data em que começa a 1ª fase de votação. Pode ser que, no final de contas, tenhamos uma surpresa positiva e possamos votar nalguma(s) destas propostas.

 

de bolta, a laborar…

paulofski @ na bicicleta

Publicado em 24/09/2018 às 13:24

Temas: motivação 1 carro a menos bicicleta bike to work ciclismo urbano ciclistas urbanos do Porto fotografia no meu percurso rotineiro pr'o trabalho Porto Prelada singlespeed Sua Alteza Velo Invicta

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… e com muito por contar 🙂

 
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