paulofski @ na bicicleta
Publicado em 1/10/2026 às 14:26
Temas: marcas do selim bamBina bicicleta boas pedaladas ciclismo cicloturismo fotografia fotopedaladas montanhas de quilómetros Montanhas Mágicas outras coisas pasteleiras e vintageiras Pinarello quem pedala assim... Subida mais longa
Se havia coisa que me picava fazia tempo era não ter tido ainda a possibilidade audácia de pedalar até ao ponto mais elevado de Portugal Continental, até à Torre na Serra da Estrela.
Aconteceu que por estes dias o meu amigo Jorge lançou-me o isco. Empurrou-me para fora da minha zona para, numa manhã confortável de domingo, sair em grupo e enfrentar a épica subida que só conhecia das transmissões televisivas da Volta a Portugal e das viagens de carro com a família à neve.
Este domingo, integrado num evento da Cycling District, escalei finalmente a Serra da Estrela até ao topo, desde Seia até à Torre, e posso dizer que foi das mais agradáveis sensações que tive num selim, mesmo estando ainda em recuperação de uma dor na lombar, que nem vos digo!
Após duas horas de viagem com o Juan, CEO da Bike Nomad, o Jorge e o Luis, amigo colombiano que fiquei a conhecer, chegamos bem cedo a Seia, muito antes da hora combinada. Com o grupo reunido, estavam alinhados à partida vinte corajosos trepadores, sendo que a maior parte dos intervenientes montava máquinas carbónicas, algumas do último modelo com tecnologias xpto e andamentos super-leves.
“É a 1ª vez que vou subir á Torre”
Eles não me conheciam, e logo de início tive aquela sensação que fitavam a minha bicicleta com um certo olhar desconfiado, se eu iria realmente chegar “naquilo” lá acima. Ok, se poderia ter trazido uma bicla bem mais apropriada para o frete, podia, mas, é claro que não seria a mesma coisa. Meti na cabeça que, para dar o real valor ao meu esforço, a subida teria de ser feita à moda antiga, a bordo da clássica bamBina Pinarello.
Antes ainda do inicio das hostilidades, e após um curto aquecimento, o Juan confesava que estava com a convicta convicção que, em algum momento da subida, iria dar meia volta e esperar por nós na carrinha.
Das múltiplas variantes que ligam a base da serra ao “tecto” de Portugal Continental, há pelo menos uma dezena delas à escolha. A cénica EN339 que liga Seia quase até à Torre é das subidas mais longas e duras, fazendo a sua seleção natural logo nas primeiras rampas. Meti um ritmo certinho e fui sem problemas de maior. na roda do primeiro grupo que se formou,
Logo à saída de Seia temos um belo rebuçado. Ao longo dos primeiros 10 quilómetros a elevação vai variando, e nem se nota muito pois as pernas estão frescas e a paisagem que se abre ao nosso lado vai nos distraindo. Ao longo da ascensão beneficiamos de curtas zonas de descanso, sendo a maior delas algo como dois quilómetros de descida para o Sabugueiro. Depois de atravessar a aldeia e até passar a Lagoa Pequena a estrada empina e bem. São à volta dos 5 quilómetros com uma constante e respeitável pendente, variando entre os 9 e os 14%.
“Essa é a verdadeira” ouvi alguém comentar à minha passagem. Autêntica pelo peso do aço, do alumínio, e autenticada pelas minhas pernas, lá encaramos de espírito leve os 30 quilómetros de ascensão quase contínua com os seus enganadores 5.6% de média de elevação. Para quem tem uma desmultiplicação mais leve não tem de penar tanto como eu com a relação mínima disponível de 39-28, que, em comparação ao compacto 34-34 que alguns tinham de proveito, já diz alguma coisa!
Relevante nesta fase foi ter notado que durante boa parte da subida não passou um carro por mim, nem para cima nem para baixo, o que permitiu realmente desfrutar do momento e da paisagem única das encostas envolventes.
A certa altura fui, como diz o pobo: “devagar, devagarinho e andando”. Reduzi o meu ritmo, distraindo-me para não pensar e não sofrer muito, captando fotografias em andamento e fazendo a contabilidade aos quilómetros dos mecos na berma da estrada. Entretanto alguns dos “jovens” nas suas biclas modernas que comigo se meteram nisto, foram por mim passando e gradualmente se afastando.
“Vocé está a andar bem! Foi difícil de o alcançar!”
Era já evidente que não estava com a mesma energia inicial. Alimentei-me e reforcei a luta, tanto de força de pernas como psicológica. Da Lagoa Comprida em diante é uma subida constante, com pendentes mais simpáticas e alguns falsos planos, mas sem grande margem para descanso. À passagem do cruzamento para Vide e Loriga entra-se na EN338 e uma placa informa-me que estou nos 1.700 metros de altitude, tenho ainda 8 difíceis quilómetros pela frente.
Numa curva à esquerda, na linha do horizonte, tenho pela primeira vez o vislumbre dos antigos radares da Força Aérea e que me dá aquela sensação do “está quase”. Concentro-me agora na estrada, pois o trânsito rodoviário aumentou consideravelmente, sobretudo dos motards que descem a serra em sentido contrário. A cada curva da estrada os radares vão crescendo, só que ainda estão lá, bem longe.
Depois de apontar a teleobjectiva ao teátrico Vale Glaciário de Loriga, espreito o relógio e, para espanto meu, verifico que levo quase um par de horas a dar ao pedal. E porquê o espanto? Pois, se a princípio ficava todo contente se concluísse a escalada nas 3 horas de empreitada, estava desta forma a superar largamente as minhas espectativas.
Passo pela estância de esqui, depois pelo cruzamento para Manteigas e para a Covilhã, baixo a cabeça ao vento e finco as pernas nos pedais para um último esforço, quando, de repente…. cheguei!
2h e 11 minutos! Fiz de estalo, sem paragens, toda a subida até ao ponto mais alto de Portugal Continental. Mesmo sendo constantemente estimulado a dar uma folga às pernas para enquadrar a bamBina com as vistas fantásticas que ia admirando, todas as fotos foram captadas sem tirar pousar os pés no chão. Cheguei lá acima dentro do “top tem”. Não devo fazer muito melhor com esta bicla.
A Meteorologia também ajudou. Não estava calor. Não estava frio. Um manto de nuvens altas e algum vento que apenas se sentiu mais intenso nos 1993 metros de altitude. Uma mega sandes de presunto com queijo da serra e uma coca-cola foram redentores para repor os níveis, mas a sandes era tão grande que metade foi para o bornal. Entretanto chegou o Jorge e esperamos mais um pouco pelo Luis para registar o momento da conquista em fotografia de conjunto. Ei-nos.
Por falar em estreias, esta é para mim a mais reveladora e marcante de todas. A Serra da Estrela é a mais espectacular das montanhas, psicologicamente a mais desafiante de encarar e fisicamente das mais exigentes de superar. Das subidas míticas do ciclismo nacional, e porque não dizer mundial, foi e continua a ser palco de grandes momentos de ciclismo. Só faltou estar coberta de neve e, se não estivesse levantado um vento frio, teríamos ficado por ali a apreciar tudo por mais tempo. Fecho o zip do corta-vento, volto a montar na bamBina e iniciamos a descida.
A descida foi longa e das mais tranquilas, sempre com cautela redrobada devido à inclinação e às curvas apertadas, escutando o chiar dos calços nos aros das rodas. Descer numa bicicleta com travões convencionais convém ter algum cuidado e antecedência nas decisões. Mas não se pense que fui sempre a travar. Se na subida tivemos pontos que foram de descanso, quando a estrada se aprumava os dois quilómetros a 4% do Sabugueiro tiveram a audácia de fazer acordar os letárgicos músculos das pernas.
De novo em Seia e pronto! Esta está feita e outras vertentes da Estrela estão na forja. Realizar isto aos sessenta, numa bicicleta à maneira, posso dizer que foi um feito na minha “carreira”, desportiva e amadora.
Ana Paula Rodrigues Matos @ Braga Ciclável
Publicado em 26/09/2026 às 7:00
Temas: Opinião Ana Paula Rodrigues Matos Eurovelo Galiza paula matos praia Santiago de Compostela Tui

Euro velo 1, no seu segmento da costa da Galiza, possui um total de 537 km, começando em Tui termina em Finisterra.
A nossa aventura de bicicleta começou em Tui, mas acabou em Santiago de Compostela em 14 dias, num total de 587km. Tudo começou com a vontade de fazer o Vale do Loire em França, na rota “ La Loire à Veló” mas devido a convulsões políticas, ficamos pela costa do Atlântico e foi uma boa, muito boa opção. Foram dias de resistência e descoberta. Resistência porque a costa galega tem um declive acentuado, numa altitude máxima de 197 metros onde por um lado, temos o oceano Atlântico e, do outro lado, aldeias piscatórias, caminhos rurais, zonas verdes e património histórico. É uma costa que exige esforço físico devido ao relevo, mas que proporciona uma experiência muito rica. O facto de irmos em autonomia também aumenta a dificuldade, os alforges tornam-se companheiros inseparáveis ao longo do percurso. A bicicleta fica mais pesada e exige um maior esforço, sobretudo nas subidas, mas também proporciona uma sensação especial de liberdade. Aprende-se a gerir o peso, a organizar a bagagem, mas como colocamos sempre mais qualquer coisa, pagamos por esse excesso.

A descoberta foi extraordinária. Conhecemos a Galiza de uma forma diferente, passando por localidades, praias lindas, deixo aqui algumas (Panxón, Vila Nova de Arousa, Boiro, Combarro, Noia, Muros, entre outras), zonas rurais e cidades históricas. As pessoas são muito acolhedoras e próximas, o contacto com as comunidades locais é uma parte marcante da experiência, especialmente nas pequenas localidades costeiras. Os galegos são muito orgulhosos da sua cultura, a Galiza tem uma identidade cultural própria, com tradições, música, gastronomia e a língua galega. Nas aldeias e pequenas vilas, ainda se sente uma relação forte entre os habitantes e uma vida social ligada às festas, mercados e espaços de convívio.

Catorze dias não significam apenas catorze dias a pedalar: significam catorze dias de superação, descoberta, autonomia, contacto com a natureza e com as comunidades locais. Ficam não só muitos quilómetros nas pernas, mas sobretudo a memória de uma viagem vivida de forma lenta, livre e próxima da terra. Percorrer a Galiza de bicicleta ao longo da EuroVelo 1, é uma forma única de conhecer uma das regiões mais fascinantes do noroeste da Península Ibérica.

Rita Rodrigues @ Braga Ciclável
Publicado em 12/09/2026 às 7:00
Temas: Opinião Avenida do Fojo cicloexpresso Ciclovias crianças escolas família Fojo Largo da Estação Nó de Infias pedibus regresso às aulas School Bus Braga

O regresso às aulas traz o habitual caos no trânsito à porta das escolas e, este ano, o cenário promete ser ainda mais desafiante em Braga, com empreitadas de grande envergadura em vias importantes, como as intervenções no Largo da Estação, na Reta do Fojo e no Nó de Infias.
Quem me vê a ziguezaguear pelas ruas de bicicleta, com três crianças rumo à escola, sabe bem do que falo. O trânsito está caótico, mas a boa notícia é que as alternativas existem, e são bem mais divertida do que ficarmos presos numa fila de carros interminável.
Apesar dos constrangimentos nas estradas bracarenses, há iniciativas fantásticas a nascer para nos facilitar a vida e transformar a nossa rotina matinal. Temos o CicloExpresso, um verdadeiro “comboio de bicicletas” com rotas predefinidas para pedalarmos em total segurança, sempre acompanhados de monitores; o Pedibus, um autêntico comboio a pé, guiado por adultos, ideal para as caminhadas em grupo; e o School Bus, soluções de transporte coletivo para retirar o mar de carros particulares de junto dos portões escolares.
Como mãe e ciclista diária, sei que o exemplo começa em nós. Nós, pais e encarregados de educação, temos o papel principal e insubstituível nesta mudança de mentalidade coletiva. Acompanhar os miúdos no dia a dia é a forma perfeita de começar a manhã com outra energia e boa disposição. É a oportunidade de ouro para eliminar receios, ensinar as regras de trânsito na prática, rir com eles e plantar a semente de um estilo de vida ativo e saudável desde o berço.
Optar por ir a pé ou de bicicleta traz vantagens óbvias para toda a família: fugimos ao trânsito enervante, damos azo a uma mente e corpo a cem por cento graças à atividade física logo de manhã — o que aumenta comprovadamente a concentração e o bem-estar dos miúdos —, reduzimos drasticamente a pegada carbónica e estimulamos a autonomia e o espírito comunitário que tanto faz falta nos nossos bairros. Ah, e chegamos bem mais bem dispostos e felizes ao destino! O trânsito tem deixado as pessoas carrancudas e de mal com a vida.

Para que tudo corra pelo melhor, convém escolher rotas seguras, preferir vias largas e não dispensar o uso do capacete. Mas é preciso também sonhar alto e exigir que o município crie mais ciclovias, e que estas estejam verdadeiramente ligadas entre si, pois só assim se alcança a segurança que todos desejamos.
Diante do caos na estrada, está na hora de mudar de velocidade e experimentar algo novo. Deixa o carro na garagem, desafia os vizinhos, agarra numa bicicleta, junta-te ao Pedibus ou ao CicloExpresso, e descobre uma forma infinitamente mais livre, saudável e feliz de chegar à escola.
Acredita: a verdadeira mudança começa em cada pedalada e em cada passo que damos juntos. Vemo-nos na ciclovia?
Vítor Castro @ Braga Ciclável
Publicado em 29/08/2026 às 7:00
Temas: Opinião Avenida Central Avenida da Liberdade Avenida General Norton de Matos Ciclovias Experimentar Infias Nó de Infias Paris semáforos Transportes públicos Vítor Castro

A obra de requalificação do Nó de Infias está prestes a iniciar-se e vai prolongar-se por 660 dias – “a intervenção rodoviária mais importante realizada em Braga nas últimas décadas”, nas palavras do próprio presidente da Câmara. Não precisa, no entanto, de se limitar a isso.
Durante quase dois anos, milhares de bracarenses vão ser forçados a mudar rotinas de deslocação. Essa disrupção, hoje vista como transtorno, é também uma janela para mudar hábitos de mobilidade e testar soluções de mobilidade um pouco por toda a cidade.
Podemos inspirar-nos em Paris, em que dezenas de quilómetros de ciclovias temporárias foram pintadas em dias, testadas, e só depois tornadas permanentes com base em dados reais de utilização. E podemos, claro, optar por outras soluções a testar: fechar ruas ao trânsito, dedicar ruas apenas a transportes públicos, inverter sentidos de circulação, criar zonas de convívio, entre outros quaisquer usos que possam ser úteis à população. O ponto não é tanto o que fazer em concreto, mas sim a liberdade de poder experimentar: colocar em prática aquilo que são os estudos e as soluções que, à partida, seriam óbvias, mas que por risco político não se promovem.
Braga já deu os primeiros passos para seguir este caminho de experimentação com a criação de uma interface dos Transportes Urbanos de Braga junto ao Estádio Municipal. Mas há outras experiências também elas bastante óbvias, algumas até propostas em momentos passados pela própria Câmara em projetos e discussões públicas. Algumas seriam:
Entre outras soluções que, sendo de baixo custo e totalmente reversíveis ou reaproveitáveis, fazem sentido testar.
As obras no Nó de Infias pretendem resolver um problema de congestão rodoviária que se sente há largos anos. No entanto, seria um desperdício se, terminados os 660 dias, apenas tivéssemos mais um reforço rodoviário e não uma cidade genuinamente mais testada e preparada para se mover de outra forma. Temos coragem e liberdade para testar, validar, e colocar em prática? Então vamos a isso, este é o tempo!
Imagem: Av. General Norton de Matos redesenhada como mini-hub de autocarros (gerada por IA).
paulofski @ na bicicleta
Publicado em 21/08/2026 às 11:42
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Volto a pedalar pelas curvas da velha estrada mas desta vez tenho o privilégio das vistas desafogadas. Com o recente desbaste da mancha de eucaliptos que me escondia o vale do Douro e as serras, retive a promessa de um horizonte livre por algum tempo. Infelizmente sei que será paisagem de pouca dura, pois os longos troncos de casca desgrenhada e folhagem inflamável rapidamente crescerão e voltará a ser um perigo real. Contra a monocultura do eucalipto que consome a terra e atrai as chamas, urge recuperar a floresta autóctone e proteger este património natural.
Luís Tarroso Gomes @ Braga Ciclável
Publicado em 18/08/2026 às 10:23
Temas: Opinião Área Metropolitana Barcelos Braga BRT BRT Braga Comboios Famalicão Guimarães Luís Tarroso Gomes Minho Tarroso

A parceria entre Guimarães e Braga para a criação de uma área metropolitana seria uma boa notícia se estivesse associada a um plano ambicioso para a nossa região. Todavia os sinais políticos que vêm das duas câmaras minhotas, sobretudo na área da mobilidade, não se coadunam com a ambição de se baterem por uma população, que só nos municípios do distrito ultrapassa os 850.000 habitantes. Braga e Guimarães parecem estar satisfeitas com a pechincha que o governo quer à pressa dar à região para a entreter – a ligação BRT entre as duas cidades, enganosamente chamada de metrobus.
Em primeiro lugar, importa clarificar que um sistema BRT é com autocarros. Esta solução nasceu em 1974 em Curitiba (Brasil) precisamente porque a cidade não dispunha de verba para construir um metro. A opção inteligente foi a de, utilizando os autocarros de que a cidade dispunha, melhorar a eficiência da rede com alterações tais como vias exclusivas, controlo de bilhetes nas paragens, etc. Bem se vê por aqui o quanto os TUB e os TUG têm a melhorar.
O que o Minho precisa, porém, não é de autocarros a circular nas estradas nacionais. Aliás, já os tem há dezenas de anos e com um serviço rápido entre as várias cidades. Nesta região faz-nos falta um pequeno acrescento às linhas ferroviárias existentes que corrija um erro com 140 anos. Na verdade, apesar de atualmente existirem três linhas no Minho (Valença/Viana, Braga, Guimarães) todo o serviço é pensado em função do Porto. Por isso, a mobilidade ferroviária minhota é reduzida. Não é possível existirem, por exemplo, comboios Braga-Guimarães, Guimarães-Braga-Barcelos, Famalicão-Braga-Vizela, ou até, Guimarães-Braga-Barcelos-Viana. A linha prevista de alta velocidade entre Braga e Valença (tracejado verde) não vai trazer alterações significativas deste ponto de vista.
Para ter este sistema minhoto em rede é necessário construir muitos quilómetros de linhas novas? Não, seria suficiente acrescentar cerca de 35km de linha, ligando a estação de Braga à de Guimarães e à de Barcelos (tracejado azul). Comparando com a dimensão das linhas novas, estações, túneis e viadutos que se constroem aqui ao lado em Espanha, a nossa seria uma intervenção insignificante.
Mas isso não é o mesmo do que ter um BRT? É totalmente diferente. Em primeiro lugar, as ligações ferroviárias deviam ser uma exigência de Guimarães e de Barcelos para não ficarem desligadas da linha de alta velocidade prevista entre o Porto, Braga e Valença. Uma outra diferença substancial, é que um sistema de BRT exige a duplicação da rede (veículos, oficinas, motoristas, etc), ao passo que o aumento do serviço ferroviário se faz com os mesmos comboios. Uma ligação ferroviária direta entre as três estações permite que o serviço de comboios de longo curso sirva várias cidades minhotas de uma só vez. Assim, o atual alfa que termina em Braga poderia seguir para Guimarães ou Barcelos/Viana, sem necessidade de serviços diferentes para cada cidade. Do ponto de vista ciclável, a criação desta rede permitiria, com o conforto com que hoje é possível transportar a bicicleta de Braga para o Porto, fazê-lo entre localidades minhotas, o que permitiria múltiplas combinações first e last mile. O que não faz falta é a terceira área metropolitana do País sem ambição e a contentar-se com a esmola do BRT.
Imagem: adaptação (sem escala) de um mapa da CP
Rafael Remondes @ Braga Ciclável
Publicado em 20/07/2026 às 20:31
Temas: Opinião alternativa atropelamentos Carro versus bicicleta congestionamento Donostia Rafael Remondes San Sebastian Trânsito

Há sempre um condutor furioso a tentar ultrapassar uma bicicleta, alguém que não pode parar numa passadeira porque tem de ir trabalhar, e alguém que estacionou em cima do passeio só para ir buscar uma encomenda. Diz-se que em Braga as pessoas precisam demasiado dos seus carros para lhes retirar espaço. O pouco que sobra é para os outros todos: bicicletas, peões, trotinetes. Os conflitos entre peões e bicicletas são, no fundo, lutas por migalhas. Os condutores comeram o pão todo.
Mas não é como se estivessem a aproveitar bem esse espaço. Em Braga, segundo o TomTom, os condutores passam em média 71 horas por ano parados no trânsito em hora de ponta, dentro de um carro que ocupa sozinho 12 m² de espaço público. Quase 3 dias por ano que dava pelo menos um bom fim de semana com família e amigos. Entre as cidades europeias com menos de 800 mil habitantes, Braga anda a meio da tabela, longe das 29 horas de Groningen ou das 35 de San Sebastián. E o número só tem aumentado.
Há um argumento que pesa mais do que o tempo perdido: a segurança. Em 2025, os atropelamentos aumentaram em Portugal, quase dez por dia segundo a PSP, sobretudo em meio urbano. Braga foi, no primeiro semestre, o quarto distrito do país com mais acidentes rodoviários. Cada rua pensada só para o carro é mais um ponto de conflito entre quem conduz, caminha e pedala.
Braga tem carros a mais e espaço a menos. Estradas mais largas resolvem até chegarem os próximos carros e voltarmos ao mesmo sistema. O que fazer? Um estudo do Quadrilátero Urbano mostra que 79% das deslocações em Braga são dentro do concelho, e 53% destas são de carro em distâncias até 3 km, percursos que uma bicicleta faz com facilidade, ou que a pé demoram 20 minutos. A Braga Ciclável tem apontado caminhos: melhor infraestrutura para bicicleta, mais segurança para peões, melhor frequência de autocarros. No fundo, pedir ao carro que divida o espaço onde hoje é rei e senhor.
Significa que toda a gente vai deixar o carro? Não. Mas imaginemos Braga com menos 30% dos carros diariamente. Ao diminuir o espaço dedicado ao carro, convidamos mais pessoas a abdicar dele, porque a cidade passa a oferecer alternativa. A ideia de que tirar espaço ao carro gera filas intermináveis pode ser verdade por algum tempo, mas tende a desaparecer com a adoção de outros meios de transporte. Paradoxalmente, ao tirar condições ao carro, damos mais condições a quem vem de fora do concelho e não tem, ainda, melhor alternativa ao seu automóvel pessoal.
Braga não precisa de ficar sem carros para ficar melhor. Precisa parar de oferecer apenas uma forma de se mover por ela. Dividir o pão não é tirá-lo a ninguém, é finalmente pôr mais gente à mesa. A cidade que sobra é mais livre para todos: para quem pedala, para quem caminha, e também para quem, de facto, não tem alternativa ao carro.
paulofski @ na bicicleta
Publicado em 17/07/2026 às 15:05
Temas: marcas do selim Alto Minho amigo Pawel bai e bolta bicicleta Cevide cicloturismo combóio devaneios apeados dos malucos das biclas voadoras Espanha fotografia fotopedaladas Galiza Gorka Linha do Minho longas pedaladas Minho Miranda motivação nuestros hermanos outras coisas pelos caminhos de Portugal Rio Miño roda de amigos turismo vamos lá Verão
O dia começou bem cedo, pelas 5 e meia da manhã, na tentativa de fugir ao calor, que já era esperado para o resto do dia, mas sobretudo porque o Inter-Regional para Valença saía às 6 em ponto de Campanhã. Durante a pedalada para Campanhã já estavam 25 graus e a temperatura iria subir gradualmente ao longo das horas seguintes, quase até ao dobro no pico da tarde.
Normalmente aceito um bom convite para um dia repleto de pedalada, ainda para mais quando o Pawel me apresenta um roteiro em grande parte desconhecido e deveras interessante: pedalar em boa companhia por terras galegas, pela margem direita do rio Miño e regressar por estradas já conhecidas, ao longo da margem esquerda do rio Minho.
Para as duas horas seguintes o plano estava traçado: encontrar-me com o Pawel a bordo da carruajem Arco, preparada para o transporte de bicicletas, que as locomotivas 2600 puxam ao longo da linha do Minho, receber o Miranda e o Mário na estação de Barcelos, que nos iriam fazer companhia durante todo o dia. Uma vez chegados a Valença, reforçaríamos o pequeno almoço para enfrentarmos as estradas que o Komoot havia sugerido.
Estava uma manhã bastante ventosa. Principalmente sentidas nas cotas mais altas, as rajadas de vento que soprava de leste, frontal a maior parte do tempo, fizeram-se sentir com bastante intensidade, dificultando a nossa progressão até nas descidas. A temperatura, embora elevada, estava bastante agradável devido ao vento. A situação só se tornou mais agreste depois do almoço, no período da tarde, sobretudo pelo calor extremo que se fez sentir. Quando não tínhamos o benefício da sombra a sensação térmica passava os 45 graus.
Depois de Tui, o passeio de bicicleta foi de primeira classe, por estradas pouco concorridas pela região vinícola do Alvarinho, que se estende por ambos os lados da fronteira natural fluvial. A envolvente é de facto muito interessante, com as vistas mais amplas e o vislumbre magnífico do vale ribeirinho, bem como dos relevos lusos mais montanhosos. O serpentear ondulante da estrada tornou o percurso mais saboroso à medida que cruzava pequenos povoados e, aqui e ali, algumas placas indicadoras de Portugal.
A companhia esporádica de automobilistas nas estradas secundárias, a generalidade do seu distintivo comportamento, responsável e assertivo perante a presença de ciclistas, fez com que as nossas trocas de conversa destacassem isso mesmo, em contraste ao que infelizmente presenciamos nas estradas lusas. De facto, a cultura rodoviária de “nuestros hermanos” é exemplar e deve sempre ser evidenciada pela positiva.
Por vezes a solo, sem me aperceber do avanço que ia ganhando em relação aos restantes companheiros, pedalava perdido nos meus pensamentos, absorto a olhar a paisagem, abusando da cadência investida nas subidas. Ia com o cruise control ligado no meu ritmo habitual atento a qualquer som de água. Nesta parte do percurso as fontes são escassas e da torneira que apareceu num parque de autocaravanas, o precioso líquido saía tépido e com um gosto desagradável a “água del cano”. Mais à frente tivemos sorte pois à custa da minha insistência descobri uma fonte abundante que nos salvou e refrescou.
A estrada é um constante sobe e desce, é o chamado “rompe pernas”, com descidas curtas interrompidas aqui e ali por pequenos topos, o que, aliado à distância, pedia uma abordagem mais tranquila. O som de um comboio de mercadorias, o vislumbre das pontes na outra margem, a aparição definitiva do leito do rio, a margem do mapa revelado pela geringonça, fazia-nos crer que não estaríamos longe do destino programado.
Ribadavia, antiga sede do Reino da Galícia, pertencente à província de Ourense, reúne todas as essências de um povoamento medieval. À nossa chegada, meio-dia na hora portuguesa, estávamos a precisar urgentemente de um reforço hídrico e alimentar, nomeadamente de uma tijela com o famoso caldo galego. Mas nem tudo é como sonhamos. Com um tom de voz irritante e um cínico revirar d’olhos, disse-nos o “camareiro” que por causa do calor não fazem o caldo. O recurso foi então negociado e veio para a mesa o menu do dia capaz de nos saciar a fome e a sede.
Uma hora depois, sob um sol escaldante, muito devagarinho para não entornar o… menu, retomamos a estrada e fomos “descendo” e admirando a beleza da albufeira de Castrelo de Miño. Entretanto retomamos algum ritmo e seguimos, sem ponta de vento a favor, que pensava de menhã virmos a usufruir na volta da parte da tarde. Mais perto do rio, podíamos espreitar na margem oposta do Miño alguns locais por onde havíamos passado de manhã. Nas estradas príncipais as referências rodoviárias a Portugal iam surgindo com maior frequência.
Já aqui o referi, mas volto a repetir, já estava a contar que os automobilistas espanhóis fossem mais cuidadosos na partilha da estrada com os ciclistas, mas tanto assim até me deixou com vontade de viver em Espanha. Não houve um só que não nos desse pelo menos 2 metros de distância quando nos ultrapassou, e se não conseguiam passar em segurança esperavam até o poder fazer. Os poucos que não foram tão cuidadosos e assertivos tinham matrícula portuguesa ou francesa. Não admira também a sinalização existente que encontrávamos nas bermas. Chapéu para os espanhóis no que respeita a comportamento e educação rodoviária.
Claro que podíamos ter simplesmente seguido a OU-801 para Pontebarxas e sem muito esforço voltar a pisar estradas lusas, mas o plano inicial determinava desde logo que o regresso fosse feito pela mítica fronteira de Cevide. Este ponto de união entre os dois países ibéricos é conhecido, não só por ser o lugar mais setentrional de Portugal. mas sobretudo por ter sido um tradicional ponto de passagem de bens contrabandeados entre os dois lados do rio Trancoso. Intitulada como a aldeia onde começa Portugal, é também conhecida na comunidade ultra-ciclista como o ponto de partida para o desafio Portugal Divide. Para quem não conhece é simplesmente um desafio que visa atravessar Portugal de bicicleta, começando no ponto mais a norte, ligando os restantes extremos, passando pelo ponto mais elevado e pelo centro geodésico.
Há quem argumente que não devemos voltar aos sítios onde fomos felizes, e aquela subidinha à qual que não pudemos escapar quase fazia valer a premissa. Para chegar a São Gregório, o mítico local de arranque da equipa Flèche Minho para a Flèche Randonneur, não me fiz rogado à companhia do Homem da Marreta. A inclinação extrema daquele curto e estreito caminho, desgastados e desidratados, desmontei e empurrei a bicicleta ladeira acima, somente voltando a dar aos pedais no cruzamento para o bem conhecido café Coelho.
Só vos digo, ao preço a que a água está a pedalada não ficou nada barata. Valeram as paragens para hidratação, à beira da estrada, e no que respeita a fontes e fontanários, Portugal ganha de golada… de goleada aos espanhóis! Não escapou nenhum, parámos em todos os que nos apareciam e era água pela cabeça abaixo.
Afinal perdemos! Perdemos também o Inter-Regional das 18h20 em Valença, mas ganhamos um par de horas extra de convívio. Apesar de ter ingerido pr’aí uns 4 litros de água e outros líquidos, cheguei a casa com menos quilos do que havia saído, estou certo disso.
Voltinha e mais fotos aqui, na actividade do Strava.
Sandra Ferreira @ Braga Ciclável
Publicado em 4/07/2026 às 7:00
Temas: Opinião Acalmia de trânsito Braga Câmara Municipal de Braga Estacionamento juventude Mobilidade Mobilidade Sustentável Sandra Ferreira Segurança Rodoviária Trânsito trotinetes partilhadas

«Criança de 12 anos com ferimentos graves após ser atropelada numa passadeira em Braga.» «Trabalhador gravemente ferido em atropelamento na Variante Sul.» «Mulher atropelada na passadeira junto ao Braga Parque.» «Menino de 10 anos atropelado na passadeira na Avenida João XXI.» «Mulher de 85 anos atropelada numa passadeira em Braga.»
Não são frases soltas: são títulos de notícias recentes, e a eles poderiam juntar-se muitos outros. O retrato é o de uma cidade marcada pela insegurança rodoviária, onde circular a pé, de bicicleta, de trotinete ou de carro é cada vez menos seguro.
Para contrariar este cenário, está para breve a apresentação de um plano municipal de segurança rodoviária. Medidas sérias exigem estudo, análise de dados e decisões fundamentadas, pensadas para o longo prazo.
É precisamente essa exigência que torna incoerente a decisão tomada para as trotinetes: a suspensão do sistema de partilha. Existem números, estudos ou um plano que sustentem medida tão radical, ou a decisão assenta apenas numa petição com pouco mais de mil assinaturas?
Não ignoro os usos negligentes de alguns utilizadores, nem a necessidade de reforçar regras, fiscalização e controlo. Mas o uso negligente combate-se com regulação eficaz, não com proibições apressadas. Sobretudo quando estas dificilmente resolvem o problema.
Aliás, a medida incide apenas sobre as trotinetes partilhadas, precisamente as mais fáceis de regular: permitem impor limites de velocidade, definir zonas de circulação e controlar o estacionamento. As privadas, muito mais difíceis de fiscalizar, continuam exatamente onde estavam. Retira-se o que era regulável e mantém-se o que escapa ao controlo.
Fica também por explicar a diferença de critério face ao verdadeiro protagonista da sinistralidade: o automóvel. Para o carro fala-se em fiscalização, redução de velocidade, acalmia de trânsito e desincentivo ao uso excessivo, medidas com as quais concordo. Nunca se fala em proibição, porque se reconhece que o problema não está no meio em si, mas na forma como o espaço público está organizado e como esse meio é utilizado. Porque não se aplica o mesmo raciocínio às trotinetes?
Há ainda um custo que as estatísticas não captam. As trotinetes são usadas sobretudo pelos mais jovens: a geração mais disponível para adotar formas de mobilidade alternativas e sustentáveis. Cada jovem que escolhe uma trotinete é, muitas vezes, menos um carro na estrada: menos espaço ocupado, menos custo e menos risco para o peão.
Por isso, o caminho parece-me evidente: publicar os dados que fundamentam a suspensão e integrar as trotinetes no plano municipal de segurança rodoviária com regras, fiscalização e limites, não com proibições.
Parafraseando o presidente da Câmara, é preciso «agir quando a utilização destes meios gera prejuízos para a população». Concordo por inteiro. Resta perguntar: estamos a agir sobre o meio que mais prejudica a população, ou apenas sobre o mais fácil de sacrificar?
paulofski @ na bicicleta
Publicado em 29/06/2026 às 11:55
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… pois poderia, mas seria sempre a mesma coisa. Vai daí, resolvi revisitar o Montemuro…
Mesmo tendo pela frente um vento persistente desde o Freixo, a manhã estava uma delicia. Pedale as vezes que pedalar os trinta quilómetros iniciais, nunca me canso da estrada Marginal. Foz do Sousa, Melres, Rio Mau… a bicicleta tem asas, mas na pastelaria da Senhora do Monte a paragem para reabastecer é fundamental e imprescindível.
Pedalar pelas curvas do Douro é pura adrenalina. A estrada empina e desempina, tão depressa se levanta o rabo do selim como se baixa o queixo e se fincam as mãos nos drops. Em alta velocidade chego à rotunda de Entre-os-Rios. O percurso é um dejá-vù, como tal, cruzado o Tâmega pela ponte do Torrão virei à esquerda e decidi ir pela alternativa entrada em Alpendorada. Fez-me recordar certas viagens em família, onde o meu pai preferia “cortar caminho”. Pronto, passei por ali, mas de bicicleta realmente não compensa.
Mais à frente volto a ter magia com a contemplação panorâmica do Douro. A antiga N108 e o rio são sempre a melhor das companhias quando sigo para o aguardado reencontro no Lugar que tem lugar cativo no meu coração, não me canso de o dizer. O Lugar do Castelo, em Frende. Só que desta vez haveria uma subtileza em relação a pedaladas anteriores. Decidi que desceria ao rio e iria cruzá-lo na Barragem do Carrapatelo. Reservei para esse dia uma viagem mais demorada e bem mais transpirada, onde o condimento especial viria depois da sobremesa.
Primeiros quilómetros a subir ainda com a companhia do curso de água, que rapidamente se vai escondendo à medida que a estrada sobe. Reencontro a N222 e, em Cinfães, paro para o essencial e merecido prato de sopa. Escalar o monte requer hidratar e reabastecer o corpinho de nutrientes e calorias. Como leitor de crónicas “cicloturísticas” e “seguidor” de gente que também gosta disto, a ascensão em bicicleta às Portas de Montemuro pela estrada N321 estava há muito guardada no role de subidas a fazer. Rumar à aldeia da minha mãe por um caminho diferente era um objectivo no qual matutava fazia algum tempo.
A minha relação com o Montemuro já vem de longa data. Abrindo as portadas da casinha que foi dos meus avós, o monte cresce na outra banda, fazendo sentir a sua presença e o desafio. Cruzado o Douro pela Ponte da Ermida, só há uma coisa a fazer. Ascender os 8% até ao cruzamento com a N222, onde várias hipóteses se apresentam. Uma delas é escalar o muro mais a prumo, onde as estradas convergem para um dos topos míticos da serra, o miradouro de São Cristovão. Desta vez iria acordar o monstro mas por outros caminhos.
A N321, estrada nacional que em alguns troços se designa de “regional”, liga Baião a Castro d’Aire. É uma das rotas de eleição para os amantes de ciclismo que pretendem acumular quilómetros de respeito para figurar nos lembretes do Strava. O Montemuro é um bom desafio para escaladas de média montanha, especialmente pela sua vertente virada a Norte. Outras possibilidades de escolha de estradas desertas e bem mais agrestes felizmente não faltam, mas terão de ficar para outras oportunidades.
O gêpêesse diz-me que tenho mais de vinte quilómetros de ascensão pela frente. Por estar a pedalar numa estrada de montanha, o declive não era suave, mas também não amedrontava. O sol da tarde é que não tinha pena de mim e, como tal, ia aproveitando cada sombrinha que me surgia. Os contornos da estrada também davam para algum descanso do vento, no entanto quando não sentia a sua força também não podia usufruir da brisa para arrefecer o motor. Já não sabia bem o que queria, mas sabia que precisava de mais água, e foi no Parque de Laser de Barrondes que encostei por uns minutos a admirar velhos moinhos d’água.
Serpenteando pelos recantos da serra, ia observando Bustelo e Alhões, aldeias encaixadas na zona dos 1000m de altitude, lá na outra banda do rio Bestança. Depois de muito desafiar o alcatrão inclinado, já perto do cume sou brindado com a espectacular visão panorâmica do maciço do Montemuro, o que impõe desde logo muito respeito. Lá em cima não ventava e felizmente a temperatura estava bem mais fresca. Estacionei no miradouro e pude me espreguiçar ao sol, tendo o privilégio de apreciar a incrível paisagem virada a sul, até onde a vista alcança.
Dei-me conta que já havia ultrapassado a centena de quilómetros, o que significava, caso tivesse feito o percurso tradicional, que eu já teria chegado ao Lugar do Castelo. Só que muito ainda haveria para prevaricar, inclusive a crueldade de obrigar uma bicicleta de estrada a carregar-me por uma espécie de carreiro lunar até ao cume da serra, aos 1382m de altitude. Juro que tentei lá ir. Ainda pedalei uns mil metros por aquele piso crocante, subindo aos 1260m de altitude, mas para bem da saúde dos pneus da gOrka, após os registos fotográficos obrigatórios tive o bom senso de voltar para o conforto do alcatrão.
Recompensado com um gelado, fui descendo lentamente, absorvendo todo o panorama à minha volta, até surgir o desvio para a Gralheira. Aí a estrada empina de novo, praticamente não há carros, apenas silêncio e vestígios da presença de alguns animais. Entro na Grande Rota da Transumância (GR52), onde começa o sobe e desce. O Montemuro tem a particularidade de conter verdadeiras montanhas, dentro da montanha. Agora iria planar pelo cocuruto da serra e passo ao largo da aldeia da Gralheira. Não vou lá pois tinha na mente ir conhecer a famosa Ponte da Panchorra. Uma vez na aldeia da dita, na dúvida pergunto a um habitante local se teria de descer muito para lá chegar. Como a resposta veio com um “Uiiii… e depois você vai ter de voltar a subir aquilo tudo!”, então achei melhor lá não ir!
O perfil é agora mais descendente. Por quilómetros não atravesso nenhuma localidade, mas a estrada é de boa qualidade. Na aldeia de Talhada avisto uma pequena capela que não me é estranha, mas estranho quando a geringonça me indica um itinerário diferente do que estava indicado na placa. Confio no desenho do percurso pré-estabelecido, elaborado com uma ideia em mente. Sigo por ali, numa via estreita que mergulha no recorte da montanha. Curvas e contracurvas, num declive alucinante, onde tento ter a devida cautela, apertando constantemente os travões para não ser apanhado desprevenido. Com um piso bastante irregular e inclinado, mais de 17%, todo o cuidado é pouco.
Nunca menosprezando a magnífica paisagem que me é apresentada do vale do Douro, teria ainda o interesse adicional de ir visitar locais míticos das encostas voltadas para Resende. Mais um pequeno engano, mais uma pequena subida, coroada por uma diferente panorâmica do vale. Fui atravessando pequenas aldeias desertas até avistar o desvio para o Mosteiro de Cárquere. Como dizia, decidi passar por lá com o intuito de revisitar o histórico monumento românico, desta vez, e pela primeira vez, de bicicleta. Após um par de fotografias rapidamente voltei ao percurso descendente, que se iria prolonfgar até aos arredores da cidade, onde decidi fazer alterar a abordagem à N222 para ir fazer umas compritas no hipermercado mais à mão.
Com o pequeno alforge e os bolsos do jersey cheios de víveres, não esquecendo o saco de plástico que levava amarrado ao guiador e me destabilizava a direcção, os soldados da GêeNeéRre devem ter estranhado um tipo de bicicleta em posição aerodinâmica quando passou pela operação stop em excesso de velocidade. Atravessada a Ponte da Ermida, virando à esquerda e ultrapassada a curta rampa sempre feita a pé com a corrente na avozinha, por entre pequenas casas de pedra eis-me a entrar num pequeno paraíso recebido por beijos e sorrisos.
Foi um dia em cheio. O tempo esteve bastante agradável e não podia ter escolhido melhor dia para desvendar alguns dos segredos de uma das mais exigentes montanhas do nosso país tem para nos oferecer. Pronto, costumo dizer que Douro não desilude, e mesmo que me afaste da sua presença para subir, e subir, e subir… vem o desejo de descer tudo aquilo e torná-lolo mais desejado e gratificante,
Nos dias seguintes, depois de uma voltinha circular e habitual quando lá estou, depois de bons mergulhos no rio, de receber os mimos dos meus tios, de sentir o inconfundível “cheiro a Castelo”, dois dias depois estava de volta ao Porto, desta vez sem variações de percurso.