Entre o medo e a culpa: pedalar numa cidade que não foi feita para bicicletas.

Marina Cerqueira @ Braga Ciclável

Publicado em 6/06/2026 às 7:00

Temas: Opinião andar de bicicleta nos passeios Bicicleta crianças Escola Filhos Marina Cerqueira Medo Passeios Segurança velocidade


Escrevo este artigo no dia em que se assinala o Dia Mundial da Bicicleta, e por isso decidi fazer uma reflexão e um mea culpa.

Uso o passeio, e sei que não devia. Sempre que passo por um peão num passeio mais apertado, ou o assusto porque não estava a contar; sempre que abrando para contornar um carrinho de bebé ou um idoso, sinto aquele desconforto moral de quem sabe que está a ocupar um espaço que não lhe pertence. O passeio é para quem anda a pé, eu sei. Mas depois olho para a estrada. Carros estacionados em segunda fila, carros a rasar, condutores distraídos no telemóvel, velocidades assustadoras e rotundas onde a prioridade da bicicleta existe apenas no código, nunca na prática. E então, lembro-me da razão pela qual subi para o passeio: medo.

Não o medo abstrato de quem nunca experimentou. O medo concreto de quem já sentiu o espelho de um carro passar a centímetros do guiador. O medo de quem leva filhos na bicicleta e ao lado e percebe que um erro pode transformar um trajeto banal numa tragédia. Há uma espécie de hipocrisia confortável nas cidades que gostam de anunciar mobilidade sustentável enquanto deixam os ciclistas entregues à sorte. Fazem campanhas pela redução das emissões, incentivam hábitos saudáveis, celebram “cidades verdes”, mas, na prática, obrigam quem pedala a escolher entre a ilegalidade do passeio e o perigo da estrada. E muitos de nós escolhemos o passeio. Não por arrogância, nem por desprezo pelos peões. Mas porque o instinto de sobrevivência fala mais alto. Quem nunca transportou crianças numa bicicleta talvez não perceba totalmente este medo. Quando vamos sozinhos, ainda aceitamos algum risco, mas com filhos, tudo muda. Cada cruzamento parece mais agressivo e cada ultrapassagem demasiado próxima parece uma roleta-russa assustadora. O corpo entra automaticamente em modo de proteção.

E é aqui que começa o verdadeiro mea culpa. Porque eu sei que também assusto peões. Sei que uma bicicleta no passeio pode ser incómoda, intimidante ou até perigosa. Sei que não basta dizer “tenho medo” para transformar uma escolha errada em escolha certa. Mas também sei que culpar exclusivamente os ciclistas é ignorar o problema principal: cidades desenhadas durante décadas para servir apenas os automóveis. Quando não existem ciclovias seguras e contínuas, quando as poucas que existem acabam subitamente no meio do nada, quando estacionar em cima da infraestrutura ciclável raramente tem consequências, cria-se um sistema onde o conflito é inevitável. O peão irrita-se com o ciclista e o automobilista, nem se fala. Enquanto isto, o poder político observa tudo como se fosse apenas uma questão de civismo individual e não é.

É uma questão de planeamento urbano, prioridade política e coragem para redistribuir espaço público. As cidades que conseguiram aumentar o uso da bicicleta não o fizeram através de campanhas moralistas, mas sim criando condições reais de segurança, quer para ciclistas como para peões. Separaram fluxos, reduziram velocidades e retiraram espaço ao automóvel. Tornaram a bicicleta uma escolha racional, e não um ato de bravura. Enquanto isso não acontece, continuaremos presos neste conflito absurdo: ciclistas com medo da estrada, peões incomodados nos passeios e condutores convencidos de que a bicicleta é um intruso. Eu continuarei a tentar fazer o melhor possível: andar devagar no passeio, dar prioridade total aos peões, desmontar da bicicleta sempre que necessário. Mas também continuarei a defender uma ideia simples: ninguém devia ter de escolher entre cumprir a lei e proteger os filhos. Uma cidade verdadeiramente moderna e segura não é a que pinta meia dúzia de linhas no chão. É a que permite que uma criança vá de bicicleta para a escola sem os pais sentirem terror. No dia em que isso acontecer, prometo descer do passeio.

 

Não sou vosso refém.

João Forte @ Braga Ciclável

Publicado em 23/05/2026 às 7:00

Temas: Opinião Avenida da Liberdade ciclovia Comércio Estacionamento João Forte Segurança


Sempre que se fala das obras que ocorreram na Avenida da Liberdade, surgem críticas várias, o estacionamento e uma ciclovia que alguns dizem que está sempre vazia. Sobre o estacionamento, acho sempre curioso o argumento, pois não vejo qualquer vantagem de ter carros parados no mesmo local das 9 às 17, senão mais. Não dinamizam o comércio local e, diga-se, ocupam espaço público escasso e precioso, o qual pode e deve ser aproveitado de formas mais sustentáveis e racionais. Mas nem é disto que quero falar, pois se fosse por aí poderia sim falar do facto de existirem poucos lugares para cargas e descargas. Esses são escassos e estão frequentemente ocupados indevidamente com carros estacionados.

O que quero focar é mesmo a ciclovia, a qual é uma artéria fundamental de mobilidade suave do centro da cidade. É apenas na ciclovia que nós, utilizadores da bicicleta como modo de transporte, diário ou não, estamos seguros dos carros. Ou pelo menos quase sempre seguros, pois há sempre alguém que se acha especial e usa a ciclovia como estacionamento do tipo 5 minutos. Ou então alguém que entra pela ciclovia dentro rumo ao passeio, quase que atropelando utilizadores da bicicleta, tal como me ia acontecendo outro dia quando descia a Avenida.

É esta mesma ciclovia, a qual naturalmente tem alguns erros de pormenor, que possibilita a todos os que utilizam a bicicleta, tenham segurança e confiança nos trajectos. Segurança esta que é ainda mais importante quando vamos com crianças na cadeirinha ou no atrelado puxado pela bicicleta. É precisamente a insegurança que leva tantas pessoas a afirmar que não se atreve a andar de bicicleta em Braga e muito menos deixar os filhos andar de bicicleta.

Mesmo assim há quem, por mero preconceito, ache que a ciclovia foi um disparate e um desperdício de dinheiro, quando afinal é um trunfo na mobilidade de Braga. Afirmam teimosamente que não passam ali bicicletas quando basta abrir os olhos e vê-las passar. Se poderiam ser mais? Sim, poderiam, mas o caminho faz-se caminhando e o número de utilizadores de bicicletas tem aumentado bastante na última década.

Na óptica de algumas pessoas nós, utilizadores de bicicleta, temos de ser reféns da (i)lógica deles, do carro, posso e mando, da mentalidade de que a bicicleta é para os pobres e para os maluquinhos. Mas a realidade é que vemos todo o tipo de pessoas, homens e mulheres, a utilizar a bicicleta em Braga, também na ciclovia da Avenida da Liberdade. Seja quem, de facto, não tem outra alternativa, a médicos, arqueólogos, enfermeiros, advogados, professores universitários, investigadores, engenheiros e outros mais. Várias gerações de ciclistas usam esta ciclovia, aproveitando ser uma via segura e que dá confiança. Isto seja em lazer ou para ir ao comércio de proximidade. Só vantagens, nenhuma desvantagem, todos ficam a ganhar e ninguém perde. Agora imaginem o que aconteceria se fosse seguro andar de bicicleta por toda a cidade. Lá chegaremos!

 

Citânia de Briteiros

paulofski @ na bicicleta

Publicado em 15/05/2026 às 20:39

Temas: marcas do selim amigo Luis amigo Pawel arte urbana bêtêtê bicicleta Braga Briteiros Canyon cicloturismo fotografia fotopedaladas gravel Maneirinha motivação outras coisas pelos caminhos de Portugal planeamento rotas de bicicleta roda de amigos

A expressão “não há almoços grátis” significa que nada na vida é verdadeiramente gratuito; tudo tem um custo, explícito ou implícito. Mesmo, quando ao domingo de manhã a visita à Citânia de Briteiros é de graça, mas para lá chegarmos dando aos pedais pagamos o preço através de tempo e esforço.

Já lá tinha ido a pedais com o Jorge, mas como aconteceu a um sábado e já estávamos com o tempo contado para o resto da voltinha, não se justificava termos de despender 5€ cada bilhete para tão pouco. Assim, ali mesmo ficou combinado que voltaríamos lá a um domingo, e levaríamos o nosso amigo Pawel que aprecia bastante conhecer as belezas da nossa terra. Com o commute a Porto – S. Bento, seguiu-se uma hora de comboio até Braga onde seria o inicio do nosso itinerário poupando-nos as pernas para quilómetros mais interessantes. Só que até Briteiros ainda teríamos de partir alguma brita. Na senda de colecionar mais alguns quadradinhos para a sua caderneta, o Pawel desenhou um percurso alternativo, mas repleto de surpresas.

Embrenhados no mapa urbano bracarense, evitamos as avenidas circulando calmamente pela concorrida Ecovia do Rio Este. Depois, à saída da cidade, não evitamos alguns enganos de percurso mas lá demos com a loja de bicicletas Firstbike que o Jorge fazia questão em conhecer. Não conheceu pois ainda estava fechada, mas já valeu a pena passar por lá só para admirar e fotografar o magnífico mural velocipédico, obra de odra trip.

Enquanto as ruas mantinham o tapete de paralelepípedos mais ou menos alinhados a coisa até que ia correndo bem, mas quando subitamente o pavimento muda de figura, para terra com sulcos e gravilha, adaptamos os carretos às dificuldades. Nisto, o declive do terreno empina-se para além das duas dezenas de graduação positiva e aí, o desenrascado betêtê passa para um embaraçado pétêtê. A primeira a queixar-se foi a corrente da Maneirinha que saltou e encravou quase me fazendo estatelar no soalho. Depois a lentidão na progressão, aliada ao calor que já se sentia, fez-nos perder algum tempo precioso.

A cerca de 20 kms de Braga, na sinuosa descido da N309 em direção a Guimarães, surge a indicação da Citânia de Briteiros convidando a parar e fazer uma visita. Fomos recebidos pelo simpático barman/recepcionista que, enquanto nos servia um cafezinho, nos forneceu num folheto um mapa bem ilucidativo com informações úteis. Deixamos as biclas a descansar no hall da recepção e, autoguiados pelo mapa, entramos numa espécie de portal temporal, para a civilização da Idade do Ferro.

Este espaço é um verdadeiro museu a céu aberto A rota bem identificada cobre todas as principais descobertas e estimula o visitante a explorar por conta própria esta cidade neolítica. Trata-se de um grande Castro (um tipo de povoação da Idade do Ferro, característico das montanhas do noroeste da Península Ibérica – Galiza, Minho e Douro) com traços culturais celtíberos. A “cidade” fortificada apresenta três muralhas de proteção, tendo sido construída no alto do Monte de São Romão, em torno de uma nascente.

Os caminhos rochosos são ingremes e ladeiam múltiplas casas de planta predominantemente circular. O local arqueológico bem preservado exibe dois exemplares de habitações completas com telhados tradicionais de palha, o que dá para criar uma ideia de como seriam à época. A caminhada é dificultada pelo declive e pela erosão natural dos caminhos, mas é gratificante pela envolvência da natureza, das árvores autóctones e da fauna existente.

As vistas da “acrópole” no topo do castro são espetaculares. Oferece-nos uma visão fabulosa ao lonje do vale do Rio Ave e das serranias que o circundam. Quem estiver interessado pode ainda estender a caminhada mais um pouco, e ir até às ruinas de um banho público descoberto durante a construção de estradas na década de trinta do sec.XX. Os artefactos descobertos no local estão em exibição no Museu da Cultura Castreja, na vila de Briteiros. São uma prova extraordinária da existência de um importante povoado primitivo.

A Citânia de Briteiros foi descoberta pelo reconhecido arqueólogo Francisco Martins Sarmento, ilustre conterrâneo e visionário muito à frente do seu tempo, que ao fazer a descoberta foi comprando os terrenos adjacentes à medida que ia escavando, revelando mais vestígios, habitações e artefactos da época. No Museu Arqueológico da Sociedade Martins Sarmento, em Guimarães, os visitantes podem concluir a visita, conhecendo parte do espólio recolhido nas escavações, bem como ficar a conhecer melhor a vida de Martins Sarmento, amigo próximo de Camilo Castelo Branco.

Finda a visita à Citânia, continuamos a pedalada até ao Porto via Santo Tirso, por ruas empedradas e estradas esburacadas. Em suma, por velhos caminhos, alguns nunca antes pedalados por mim, não que eu estivesse com muita vontade, mas para enriquecer sobretudo a curiosidade do nosso amigo polaco. No fim do dia ficou a satisfação de mais uma volta em conjunto, lenta mas gratificante.

Agradecimentos ao Jorge e ao Pawel pelo convite e companhia.

 

Dicas práticas para começar a usar a bicicleta nas deslocações diárias

Rita Rodrigues @ Braga Ciclável

Publicado em 9/05/2026 às 6:30

Temas: Opinião Bicicleta deslocações dicas rita rodrigues


No nosso dia a dia, quando pensamos em deslocações, o primeiro meio de transporte que nos vem à cabeça é o carro, certo?

Se vamos para o trabalho, vamos de carro. Se levamos os filhos à escola, tem de ser de carro (e até à porta!). Se precisamos de ir às compras, temos de levar carro para transportar todos os sacos. Se vamos de férias, vamos de carro ou até alugamos um no destino. Se vamos passear ao fim de semana, fazemo-lo quase sempre de carro.

E se déssemos a oportunidade a outros meios de transporte? E se ajustássemos o meio de transporte a utilizar consoante o destino, distância e o tempo que se faz sentir?
Podemos, e devemos, olhar para outras opções de transporte, tendo atualmente vários motivos e desculpas para o fazer: o aumento dos combustíveis, o trânsito caótico que se vive na cidade de Braga (e não só!), o sedentarismo, entre outras.

Sendo eu adepta do uso da bicicleta na cidade de Braga, vou deixar aqui algumas dicas para quem quer começar, como eu, a usar a bicicleta diariamente, e não apenas como lazer:

  1. Inicialmente, preferir zonas com ciclovias (se as houver) ou zonas com pouco trânsito, de forma a não sentir a pressão e a ansiedade de andar no meio do caos;
  2. Se a distância que vamos percorrer demora menos que 15/20 minutos de bicicleta, então esta é uma boa opção;
  3. Aproveitar o fim de semana para experimentar o trajeto de bicicleta, já que este poderá ser diferente do que habitualmente se faz à semana, de carro. Pode ser o percurso casa-trabalho ou até casa-escola, e aí aproveitar para ver alternativas, potenciais perigos e/ou dificuldades;
  4. Para evitar o desconforto de chegar suado ao trabalho, a bicicleta elétrica tende a ser a melhor opção. Mas tudo depende do tipo de trajeto que vamos fazer. Mesmo assim, ter sempre um kit de higiene connosco e/ou uma muda de roupa;
  5. Há lojas que alugam bicicletas diária ou mensalmente, o que permite experimentar uma bicicleta elétrica (e não só) antes de despender dinheiro para comprar uma nova;
  6. Para quem não quer investir já muito dinheiro em bicicletas novas, há sempre a opção de comprar bicicletas elétricas usadas;
  7. Para quem tem filhos, existem atualmente imensos modelos de bicicletas de carga, alguns que permitem transportar até 4 crianças, além do adulto;
  8. Aproveitar os incentivos à compra de bicicletas, tanto do Município de Braga como do Fundo Ambiental. Foi através destes incentivos que comprei uma bicicleta de carga (onde levo 2 crianças diariamente à escola) e uma bicicleta elétrica citadina;
  9. Equipar a bicicleta com tudo o que faz falta para o dia a dia: alforges, luzes e impermeável sempre à mão. E não esquecer de usar o capacete. Segurança acima de tudo!

Acreditem que é tudo uma questão de começar e de experimentar algo novo e diferente. Rapidamente vão começar a dizer: “Afinal isto era fácil, porque não comecei mais cedo?”.

Com estas dicas, vamos deixar o preconceito e a preguiça de lado?

 

a expropriação da terceira via

paulofski @ na bicicleta

Publicado em 8/05/2026 às 18:38

Temas: ele há coisas! 1 carro a menos Avenida Boavista bicicleta ciclismo urbano ciclofaixa ciclovia cidades fotografia memórias MetroBus mobilidade mobilidade-urbana motivação outras coisas penso eu de que... Porto transporte urbanismo

Há coisa de 15 anos, era a gOrka uma jovem bicicleta, fiz com ela uma espécie de bici-teste à ciclovia que entretanto crescia ao fundo da Avenida da Boavista. O plano de uma cidade futurista, amiga das mobilidades suaves e sustentáveis, começava lentamente a sair do papel, fazendo crer que poderíamos sonhar com coisas bem feitas. Só que não! Chamei ao postal “A terceira via”, e para além da prometida extensão até à entrada nascente do Parque da Cidade mais nada se fez.

a terceira via

Como sabemos o chamado projecto MetroBus na Avenida da Boavista e Marechal até à Praça do Império entrou em funcionamento tarde e a más horas. O seu polémico planeamento, construção e falta de alternativas veio confirmar as fragilidades inerentes à circulação dos utilizadores vulneráveis e desenvolvimento de infraestruturas para as mobilidades suaves na cidade.

Paralela com a Casa da Música, a Avenida da Boavista tinha uma ciclovia mal resolvida, integrada na circulação automóvel. Mesmo assim existia e, pelo menos, assegurava algum espaço à circulação das bicicletas e outras mobilidades suaves. Com a primeira fase de obras do MetroBus toda essa infraestrutura desapareceu.

Entretanto e com o enorme atraso para se dar o inicio de exploração do MetroBus, as bicicletas e as trotinetas tomaram conta do canal BRT, apareceram e prosperaram, demonstrando assim que essa via dedicada em exclusivo às mobilidades suaves não só beneficiaria a segurança dos seus utilizadores como os restantes utilizadores da estrada.

Mas finalmente deu-se o inicio da circulação dos novos autocarros articulados, e as bicicletas e trotinetes foram empurradas para o meio dos automóveis, sendo obrigadas a partilhar uma artéria com um tráfego intenso, múltiplos cruzamentos e entradas laterais constantes.

Numa medida sem qualquer estratégia de integração numa rede ciclável, a solução apresentada pela autarquia assentou na sinalização e limite de 30 km/h, o que não é satisfatória, principalmente em termos de segurança, pois representa na prática o fim da mobilidade suave naquele eixo estruturante da cidade, aumentando o risco para todos os utilizadores.

Se o anterior executivo teve tempo para planear e não o fez, o actual executivo camarário apenas lhe deu continuidade. A segunda fase do projeto MetroBus foi submetido pela Metro do Porto à Câmara Municipal do Porto, que prevê a construção de um canal segregado ao longo do eixo viário da Avenida da Boavista, nomeadamente entre o cruzamento da rua António Aroso/Parque da Cidade e a Rotunda do Castelo do Queijo.

Para além de não corrigir os erros da solução anterior, mesmo com queixas de associações várias e providências cautelares, mesmo assim avançaram com o abate de árvores e as obras da segunda fase estão já a destruir o troço inicial da ciclovia junto à rotunda como se vè na foto que encima o post.

O MetroBus foi-nos apresentado como uma solução de transporte público mais sustentável, no entanto considero que a sua concretização embora seja um serviço utilidade pública. não pode ser feita à custa do espaço verde e da mobilidade que promove alternativas.

Existem, no entanto, alternativas tecnicamente viáveis e com menor impacto, nomeadamente retirar apenas uma das quatro faixas destinadas ao tráfego automóvel, libertando o espaço necessário para a faixa dedicada ao MetroBus e para a ciclovia segregada. Dessa forma, seria possível preservar a ciclovia, mantendo as árvores e garantindo o equilíbrio entre transporte público, mobilidade ativa e a propriedade ambiental.

Aqui podes também assinar a Petição “Por uma Avenida da Boavista Verde, Humanizada e Sustentável”

 

no BRM Beira Rios 200, por rios de sobem e que descem

paulofski @ na bicicleta

Publicado em 27/04/2026 às 13:53

Temas: marcas do selim amigo Jacinto Baixo Mondego bicicleta brevet BRM 200 ciclismo cicloturismo economia da bicicleta estrada Estrada Nacional 2 fotografia fotopedaladas Gorka longas pedaladas memórias montanhas de quilómetros motivação Nacional 2 pelos caminhos de Portugal randonneur randonneurs portugal

Para relatar este novo brevet no calendário breveteiro dos Randonneurs Portugal, e para melhor emoldurar as fotografias que por lá fui tirando, decidi intercalar aquilo que fui retendo com a descrição “Por dentro do Brevet… Uma jornada onde rios e serras marcam o ritmo de cada quilómetro, que saquei da sua página (https://randonneursportugal.pt/brevet/beira-rios-200-2026/)

Costumo dizer que gosto de pedalar por estradas velhas e isoladas ao longo de um rio, de qualquer rio. Pedalar em boa companhia. Vaguear calmamente, relembrando histórias, ouvindo e revendo o que vivi inúmeras vezes. Não importam os destinos ou as distâncias, faço-me à estrada para sentir a inspiração de uma nova viagem e conhecer novos companheiros de viagem.

“O Beira Rios 200 é um brevet desenhado para quem procura descobrir o território pedalando ao ritmo dos rios e das serras do interior do centro de Portugal. Com 200 quilómetros de distância e aproximadamente 3000 metros de desnível acumulado, o percurso propõe uma jornada recompensadora, atravessando vales fluviais, pequenas vilas históricas e estradas tranquilas que revelam a autenticidade desta região.”

Pessoalmente, o atractivo para este “passeio” seria o de pedalar pelos encantos da região, onde uma boa parte era totalmente desconhecida para mim, e revisitar algumas passagens pela EN2. Comum a todos os brevets são os encontros e reencontros com alguns participantes das, e nas, mais variadas paragens.

A saida e a chegada têm lugar em Serpins, no concelho da Lousã, uma localidade intimamente ligada ao vale do rio Ceira e ao ambiente serrano que caracteriza toda esta paisagem. Logo após os primeiros quilómetros o percurso segue em direção a Góis, acompanhando o Ceira através de uma sucessão de estradas sinuosas passando pelo cerro da Candosa, com o som da água e o silêncio da serra a criar o cenário perfeito para iniciar esta aventura.

E como a tradição de me esquecer de alguma coisa continua a ser o que era, desta feita não sincronizei o percurso traçado na geringonça indicadora do caminho em devido tempo, o que me levou a ficar dependente das orientações do Jorge ou então ir seguindo a roda de outros companheiros de viajem. para não me perder algures por ali.

“De Góis avançamos para Arganil, entrando no magnífico vale do rio Alva, uma das zonas mais emblemáticas do interior do distrito de Coimbra. Aqui o percurso acompanha o rio através de estradas ondulantes e paisagens naturais que revelam aldeias tradicionais, campos agrícolas e encostas serranas que marcam profundamente este território.”

A primeira paragem de controle estava prevista para Arganil e fomos tão lestos a lá chegar que apanhamos a Filomena, habitual voluntária ao nosso serviço, a improvisar o escritório para nos registar a passagem. A meteorologia esteve de feição, mas a manhã teimava a elevar o termómetro e o sol aconselhou-me a aliviar alguma roupagem, até porque as subidas iriam suceder com maior frequência.

“A viagem continua até Côja, muitas vezes chamada de Princesa do Alva, uma vila encantadora conhecida pela sua praia fluvial e pelo enquadramento natural que a rodeia. Pouco depois surge Avô, perto da confluência dos rios Alva e Alvoco, onde a ponte antiga e o casario tradicional recordam séculos de ligação destas comunidades à água e ao comércio fluvial.”

O desejo de pararmos com o pretexto para mais um par de fotografias, de nos abeirarmos e admirarmos vários rios, ao cruzarmos vilas de elevado interesse histórico, era imenso, mas a estrada, fascinante e quase deserta nos impelia para a frente. A escalada do dia teve o seu inicio, aqui e ali com algumas elevações consideráveis, fez com que cada um marcasse o seu ritmo, sozinho ou acompanhado. Assim estavam reunidos os condimentos para fazer crescer o acumulado de forma significativa nos próximos quilómetros.

“O percurso larga o rio para encontrar a icónica N17, mais conhecida por Estrada da Beira, agora uma estrada local perfeita para ciclistas, largando-a em direção a Tábua onde nos aproximamos de uma primeira visita ao Mondego. Depois de o cruzar, chegamos a Carregal do Sal, atravessando zonas rurais tranquilas onde o ritmo do interior ainda se sente nas pequenas aldeias, nos campos cultivados e nas estradas pouco movimentadas.”

Entre paragens para controlo de passagem e reforço, até parar novamente à hora do almoço, reuniram-se as condições do relevo da estrada que permitiram aumentar a velocidade e recuperar a média. Em Carregal do Sal as meninas da Pastelaria Millenium não tiveram mãos a medir para nos servirem as calorias necessárias e assim recompor energias para a etapa complementar da viagem. São porventura estas oportunidades de negócio que os cicloturistas esfomeados favorecem o comércio tradicional com a sua passagem.

Descendo e cruzando o vale do rio Dão, seguimos para talvez a estrada mais conhecida de Portugal, a velhinha N2. Fazemos um pequeno desvio para voltar ao Dão, antes de chegarmos a Santa Comba Dão, onde a paisagem começa gradualmente a anunciar a aproximação ao grande vale do Mondego.

Na minha memória fotográfica ia retendo alguns pontos marcantes aquando da minha travessia da Estrada Nacional 2, especialmente os vividos durante o segundo dia da minha epopeica viagem em que ainda tive a boa companhia do meu saudoso amigo Jacinto que estoicamente resistiu até ter de abdicar por dificuldades físicas.

A partir daqui seguimos pela N2 para Penacova, vila situada sobre as escarpas do rio e conhecida por oferecer uma das vistas mais marcantes sobre o Mondego. Aqui encontramos também uma das especialidades gastronómicas mais conhecidas da região: o Bolo Nevada, doce tradicional que poderá ser usado para recuperar energias antes de enfrentar os quilómetros finais do percurso.

Mas a envolvente é compensadora, com pouca civilização, muito arvoredo e descidas em conjunto com o grupo proveniente da zona de Condeixa. O convite para, em Penacova, acompanhar aquela malta a degustar uma bifana da região, que como sabemos é uma febra magnificamente temperada dentro de um pão, acompanhada com um ou dois copos de cerveja, foi aceite de bom grado. E ainda bem, pois as pernas e os olhos me agradeceram a paragem para apreciar a panorâmica do rio Mondego que se podia ter do miradouro.

“Deixamos de seguida o Mondego para subirmos a Vila Nova de Poiares, obrigando a uma gestão cuidada do esforço quando o contador de quilómetros já ultrapassa a centena e meia, antes de voltarmos à N17 e vermos novamente o rio Ceira. Pouco depois, tocamos brevemente o concelho de Miranda do Corvo antes de regressamos ao concelho da Lousã, dominado pela presença da serra e por estradas que são bem conhecidas de muitos amantes do ciclismo.”

ísicas.

Ao rever o suigéneris fontanário de Louredo e sentir de novo a ingreme subida para Vila Nova de Poiares, levam-me a retirar do baú algumas memorias, dos bons momentos e conquistas vividas em conjunto com o meu grande amigo Jacinto. (Na foto de cima revejo a última foto do Jacinto quando me acompanhou pela N2; na seguinte como o fontanário é no presente). A partir daqui o foco foi deixar ir o grupo de Condeixa, acompanhando e ajudando o meu amigo Jorge no sobe e desce para, em equipa, concluirmos o brevet em Serpins.

“Nos últimos quilómetros seguimos novamente pelo vale do rio Ceira, fechando o círculo em Serpins, onde termina esta jornada. O Beira Rios 200 é muito mais do que um simples percurso de longa distância: é uma travessia por alguns dos mais belos vales fluviais do centro de Portugal, onde cada quilómetro revela paisagens naturais, história local e o prazer puro de pedalar em estradas que parecem feitas para Brevets.”

Findada a jornada e a colecção de carimbos no cartãozinho, foi com enorme satisfação que nos juntamos aos que já haviam chegado e os que iam chegando em amena cavaqueira fazer uma espécie de rescaldo do dia vivido. Devo agradecer o esforço e dedicação dos VOA’s –  Voluntários Organizadores Autónomos do Beira Rios 200, Rui Fernandes & Carlos Rego, pela excelente organização deste magnífico dia de ciclo+turismo

 

Uma rede que ainda não chega a ser rede

Victor Domingos @ Braga Ciclável

Publicado em 25/04/2026 às 21:50

Temas: Opinião Alemanha Avenida do Fojo ciclovias intermunicipais ciclovias rápidas Dinamarca efeito de rede infraestrutura limpeza manutenção Odense Países Baixos Rede Ciclável Segurança Sevilha


Andar de bicicleta em Braga continua a ser um exercício de paciência, atenção e, muitas vezes, coragem. Não por causa do clima, do relevo ou das distâncias, todos no essencial favoráveis, mas por causa de uma infraestrutura construída em retalhos, de forma avulsa, sem a coerência que se exige a uma verdadeira rede ciclável.

A bicicleta é, para a maioria das deslocações urbanas, o meio de transporte mais eficiente: rápida em distâncias curtas, barata, silenciosa e não poluente. Cada deslocação de bicicleta em vez de automóvel é menos um veículo na via, menos pressão no estacionamento, melhor qualidade do ar. E devolve à cidade algo que cada vez mais lhe falta: espaço público. Porque onde estaciona um carro cabem facilmente umas oito ou dez bicicletas.

O que se fez nas últimas décadas e nos últimos anos é manifestamente insuficiente. Quem pedala no dia-a-dia sabe que cada percurso “ciclável” em Braga é uma sucessão de surpresas: lancis elevados de aresta afiada, capazes de transformar uma queda banal num acidente grave; vias estreitas demais para ultrapassar outro ciclista; detritos acumulados durante semanas no inverno; viaturas estacionadas em cima da faixa de rodagem da ciclovia, com a habitual ausência de fiscalização.

Ciclovia demasiado estreita em Braga

Na Avenida do Fojo, o que se apresenta como ciclovia é, na prática, uma berma sem largura adequada nem proteção suficiente face ao trânsito motorizado, que ali circula a velocidades incompatíveis com a segurança de quem pedala a poucos centímetros. Improvisos desta natureza não geram novos utentes; antes o remetem para o papel de cidadão de segunda.

E depois, há o problema mais estrutural: continuamos sem uma rede. Os troços existentes não se ligam entre si, nem ligam o que importa – zonas habitacionais densas, a Universidade, as unidades de saúde, escolas, polos empresariais, centro histórico, superfícies comerciais. Sem interligação não há efeito de rede, e pouco incentivo para que quem hesita comece a pedalar.

Outras cidades perceberam isto há muito. Sevilha construiu em poucos anos uma rede extensa e multiplicou várias vezes o número de utilizadores diários. Pontevedra transformou em duas décadas o seu centro num espaço pacificado, com reduções significativas no tráfego, na poluição e na sinistralidade. Odense, cidade dinamarquesa com população comparável à de Braga, dispõe hoje de mais de 540 km de ciclovias e tornou-se referência europeia em mobilidade ciclável. Nos Países Baixos, na Bélgica e na Alemanha investe-se hoje em ciclovias rápidas intermunicipais, com largura generosa, bom pavimento e poucas interrupções, que viabilizam a deslocação pendular entre concelhos.

Braga precisa, com urgência, de duas coisas. Primeiro, tratar a sério o que existe: corrigir defeitos de construção, assegurar manutenção atempada, fiscalizar o estacionamento abusivo e implementar medidas efetivas de acalmia de tráfego. Segundo, planear o que falta: uma rede contínua e de boa qualidade na cidade densa, onde reside a maior parte dos potenciais utentes, e, a prazo, uma rede intermunicipal à altura de uma cidade europeia do século XXI.

Pedalar não pode continuar a ser visto como um ato de rebeldia ou de heroísmo. Tem de ser uma escolha sensata, cómoda e segura, ao alcance de todos.

 

Temos um problema na solução?

Inês Teixeira @ Braga Ciclável

Publicado em 14/04/2026 às 21:51

Temas: Opinião acalmia de tráfego Bicicleta carro Inês Teixeira liberdade Mobilidade passadeiras Passeios Segurança Velocidade Excessiva


Se há uma coisa na qual todos os bracarenses estão de acordo é que o trânsito é um problema cada vez maior na nossa cidade. Por mais planos e promessas, parece que nada melhora. Há projetos ambiciosos, soluções complexas, investimentos avultados… Muita expectativa mas, no dia a dia, continuam a faltar coisas minúsculas que fariam uma diferença imediata na vida de todos.

Quando começamos a conduzir, acreditamos que o carro nos dá liberdade. Que nos leva a todo o lado, sem barreiras. Mas, com o tempo, torna-se claro que é muitas vezes o contrário.

Em vez de simplificar, o carro condiciona tudo. Os nossos dias transformam-se numa coreografia repetida de trânsito, sempre pelos mesmos percursos. Planeamos a vida em função do carro: o tempo que vamos demorar, o stress que vamos enfrentar, o estacionamento que talvez, ou provavelmente não, vamos encontrar. As decisões mais simples deixam de ser espontâneas: aceitar um convite, ir a casa de um amigo, fazer um desvio, parar naquela loja nova que abriu… É um cálculo constante, e um filtro indesejável.

Há uns anos vivi num país que fez o caminho inverso: reduziu o espaço do carro e devolveu-o às pessoas. Foi aí que percebi que não depender de um único meio para tudo torna a vida muito mais simples. Poder caminhar, pedalar, combinar transportes, parar pelo caminho. Ir.

Hoje olho para Braga com outros olhos. Vejo uma cidade cheia de potencial: ruas onde seria fácil abrandar, ligações que podiam ser feitas a pé, percursos que podiam ser seguros para as crianças. Mas desespero perante a realidade: passeios interrompidos, passadeiras invisíveis, velocidades completamente desajustadas à vida urbana. E perante isso, não há verdadeira escolha.

Se não posso andar a pé com os meus filhos em segurança, então sou obrigada a usar o carro. E, ao fazê-lo, contribuo para o problema que todos reconhecemos.

Podemos discordar nas soluções. Mas talvez haja um ponto de partida comum: uma cidade que dá liberdade às pessoas é uma cidade onde o carro deixa de ser uma obrigação.

E essa mudança não depende apenas de grandes projetos. Começa com passeios contínuos, passadeiras seguras, velocidades controladas, espaço para caminhar e pedalar com confiança, ligações diretas e lógicas entre os vários pontos da cidade.
A questão é que (e é aqui que muitos irão discordar) se o problema é o trânsito, então o carro não pode ser a solução.

Criar condições para outras formas de mobilidade, com pequenas ações (não é necessário destruir tudo para voltar a construir!), permite que as pessoas escolham. E, podendo escolher, será que vamos querer ir todos de carro?

 

um Porto – Póvoa alternativo

paulofski @ na bicicleta

Publicado em 13/04/2026 às 14:20

Temas: marcas do selim a chuva não atrapalha amigo Pawel à chuva bicicleta boas pedaladas brevet BRM 200 Caminho cicloturismo Compromisso pela Bicicleta fotografia fotopedaladas longas pedaladas Metro Minho Miranda motivação Nortada o sol outras coisas randonneur randonneurs portugal roda de amigos vento

Ontem não foi dia de Brevet mas parecia. O propósito de sair cedo de casa e ir ao encontro do Pawel, tomar café e depois a inevitável N13, desviar mais à frente para a campestre N306 rumo ao Minho, não foi apenas a intenção de rodar os pedais numa bela manhã de sábado, mas o de fazer o reconhecimento do Brevet CaMinho 200 que se irá realizar no inicio de Maio.

Neste Brevet dos Randonneur Portugal a minha participação será meramente de voluntário organizador e, como tal, tinha encontro marcado com Mr. Miranda, habitual organizador dos brevets nortenhos, para uma reunião prática de trabalho. Em Barcelos estava combinado o ponto de encontro, para a partir dali, também com o Mário, pedalarmos em grupo,

O dia prometia várias sensações e que não demorariam muito a se sentir na pele. No rescaldo da voltinha disse ao Pawel que num só dia tivemos direito às quatro estações, não em forma de pizza mas dos vários padrões climáticos: primeiro a manhã gélida sob um sol convidativo (a primavera), na subida do dia levamos com a anunciada chuva, que surgiu em dobro (o inverno), até ao rio Minho o vento cortante e constante de frente (o outono) e no regresso, rumo a a sul, a força da Nortada que nos empurrou levou a suar mais um pouquinho (o verão).

Foi um excelente dia de pedal e convívio que me fez recordar a passos os dois brevets CaMinho 200 que completei em anos distintos e já longínquos (como o tempo passa), a bordo da polivalente Tripas InBicla com a inesquecível companhia dos meus amigos Couto e do saudoso Jacinto.

rios, pontes e vinho verde, a crónica CaMinho200

o CaMinho fez-se pedalando

Um Porto – Póvoa alternativo, só porque nos lembramos de interromper o círcuíto e fazer do Metro o o favor de nos poupar as pernas e nos levar relaxados para casa, mesmo a tempo do jantar.

Ficam aqui mais algumas fotos deste magnífico dia de pedal.

 

Variante para não variar

Rafael Remondes @ Braga Ciclável

Publicado em 28/03/2026 às 8:00

Temas: Opinião alternativa Bicicleta Braga BRT circular circular externa dependência infraestrutura joão rodrigues Joaquim Barbosa Nó de Infias Planeamento Urbano Rafael Remondes Variante do Cávado


Em janeiro deste ano, o presidente da Câmara Municipal de Braga, João Rodrigues, anunciou que daria prioridade máxima à implementação de uma nova circular externa, incluindo a concretização da variante do Cávado. Com esta decisão, o principal prejudicado foi o BRT, cuja última linha prevista foi adiada por tempo indeterminado. Depois de 4 linhas, passamos a ter zero.

O sinal político é claro.

Considerando o horizonte deste mandato, destacam-se duas grandes intervenções na mobilidade da cidade: o nó de Infias e a nova circular externa. Dado o tempo que estas obras demorarão a ser concluídas, dificilmente se vislumbrará outro projeto estruturante nos próximos 4 anos. A opção deste executivo é clara e resume-se, assim, a mais do mesmo: mais infraestrutura rodoviária, mais espaço para o automóvel, mais dependência do carro.

O problema não está apenas na insistência neste modelo. Está também na ausência de fundamentação clara. Foi referido pelo presidente da câmara que cerca de 80% do tráfego de atravessamento poderia ser desviado com a nova circular. Mas quanto representa esse tráfego no total da circulação na cidade? Joaquim Barbosa, deputado do PSD, mencionou, para defender a circular, que 60% do tráfego proveniente dos concelhos a norte de Braga não necessita de atravessar a cidade. Ainda assim, a questão essencial permanece: quantos veículos, em termos absolutos, se pretende desviar?

Se o tráfego de atravessamento representar ainda 13% do total, como indica um estudo de 2015, então desviar 80% desse valor significaria reduzir apenas cerca de 10% do tráfego global. Isto deixa praticamente intocado o problema central: as deslocações internas ao concelho, que são as que mais pressionam o sistema viário urbano.

Perante esta incerteza, o risco é evidente. Ao apostar em grandes infraestruturas rodoviárias sem um impacto claramente demonstrado, a cidade reforça um modelo que já mostrou os seus limites: mais dependência do automóvel, mais congestionamento e menos alternativas.

Braga arrisca, assim, investir dezenas de milhões de euros sem resolver os seus problemas estruturais de mobilidade. Os bracarenses continuarão dependentes do automóvel, vulneráveis às oscilações do preço dos combustíveis e presos em congestionamentos quotidianos.

Quando esse cenário se confirmar, não será por falta de aviso.

 
Página 1 de 39 | Seguinte >>