A mobilidade falada nas redes sociais

João Forte @ Braga Ciclável

Publicado em 18/09/2021 às 7:45

Temas: Opinião Autárquicas Autárquicas 2021 Ciclovias debates eleições eleições 2021 João Forte Mobilidade redes sociais


As semanas que antecedem as eleições autárquicas são pródigas no que concerne ao debate sobre a temática da mobilidade. Deveria acontecer durante 365 dias, ano após ano, dada a sua importância. Todos os partidos políticos abordam esta questão e cada vez mais o fazem, seja por opção, seja por uma cada vez maior pressão dos eleitores. Observação à parte, o que me leva a escrever estas linhas é fundamentalmente o debate sobre a mobilidade feito pelos cidadãos. Este debate pode ter duas vertentes associadas, na primeira, e mais comum, uma vertente apartidária, e na segunda uma vertente mais politizada. Sobre a vertente politizada não irei aprofundar, já que sou apartidário. Pronuncio-me de uma forma técnica e numa tripla perspectiva, a de utilizador regular de bicicletas, a de automobilista e a perspectiva de geógrafo. Englobo ambas as vertentes e foco Braga.

Destaco duas ocorrências que detectei no meu radar das redes sociais. Na primeira, e num dos fóruns de Braga, no Facebook, uma imagem com um objectivo único, atacar a construção de ciclovias. Utilizaram uma fotografia onde dois ciclistas circulavam em linha ao lado de uma ciclovia. O título da mesma era “façam mais ciclovias!!!”. Não pretendia debater nada, simplesmente atacar com demagogia e populismo. O típico toca e foge.

A segunda ocorrência, no twitter, era mais fina e elaborada, um comentário que afirmava que haveria um crescente desfasamento entre as reais preocupações das pessoas e os responsáveis políticos e que a discussão sobre as ciclovias era mais um sintoma disso. Terminava com uma pergunta, sobre se alguém achava que as ciclovias ou a falta delas era um dos nossos principais problemas. Esta afirmação fez-me rir, pois apesar de não ter graça alguma, demonstra o cerne da questão, ou seja um profundo desconhecimento do funcionamento, das reais necessidades e da dinâmica de uma cidade. Quem faz tal afirmação não entende o mais básico, que é, quando se fala em ciclovias fala-se em urbanismo, fala-se em mobilidade ciclável e pedonal, fala-se em segurança, fala-se em transportes públicos, fala-se em lugares para cargas e descargas. E os carros? Estão no final, não no início! As ciclovias, sejam elas dedicadas ou não, são parte indissociável do urbanismo. Trabalhar em urbanismo é trabalhar um organismo complexo, o qual opera em várias realidades, com várias variáveis e a várias escalas temporais e espaciais. Uma destas variáveis é precisamente a mobilidade ciclável, a qual é parte integrante de um organismo que se pretende são, mas que infelizmente está muito doente!

 

As linhas vermelhas da câmara anti-bicicleta

João M Fernandes @ Braga Ciclável

Publicado em 3/09/2021 às 23:01

Temas: Opinião 30 30 km/h A Bicicleta em Braga Anti-Bicicletas Bicicleta Braga braga ciclável Ciclovias Linhas Vermelhas Município de Braga Ricardo Rio


Em engenharia, um padrão de concepção é uma solução eficaz/eficiente para um problema conhecido/recorrente. Quando conseguimos identificar o problema, então a sua solução não requer grande engenho. Recorremos ao padrão e já está. Dois exemplos ajudam a perceber o conceito. Quando num avião é preciso colocar uma janela, o padrão é elas terem os cantos arredondados. Uma janela quadrada, por ter cantos aguçados, é menos resistente à pressão e tem tendência a quebrar-se em pleno voo. Um outro problema clássico é a necessidade de construir edifícios altos como catedrais góticas. A solução padrão era o uso do arcobotante, que é uma construção em forma de meio arco, erguida na parte exterior da catedral para apoiar as paredes e repartir o peso das paredes e colunas.

Por contraponto, um anti-padrão é uma solução para um dado problema, mas que é aplicada num outro problema, tornando-se assim ineficaz. Um exemplo muito simples é a utilização de um martelo para apertar um parafuso. Todos sabemos que o martelo funciona normalmente bem com pregos, mas não com parafusos. Um anti-padrão é uma ação, um processo ou uma solução que inicialmente parecia eficaz, mas que ao ser aplicado produz mais malefícios do que benefícios.

Vem isto a propósito de algumas soluções na área da mobilidade que a CM Braga tem implementado nas artérias do concelho. Vejamos alguns exemplos. Quando se deteta um uso abusivo do espaço público por parte de veículos (e.g., ocupação indevida de passeios), a solução padrão é colocar-se algum tipo de impedimento físico para evitar essa ocupação. A colocação de pilaretes bem fixos ao chão e em material metálico resistente é uma solução padrão. Infelizmente, a CM Braga parece gostar de colocar pilaretes plásticos que são um anti-padrão, pois como facilmente se constata são facilmente destruídos. Deixam de ser eficazes, i.e., não produzem o efeito desejado. A colocação de pilaretes metálicos mal fixos ao chão também não resulta, pois são facilmente removidos. Vemos isso também em muitos ruas de Braga.

Recentemente, a CM Braga resolveu pintar umas linhas vermelhas (que não são ciclovias) e colocar sinais de limitação de velocidade de 30 km/h em várias ruas. Este é mais um exemplo de um anti-padrão. O objetivo aparenta ser triplo: (1) permitir a coexistência de bicicletas e automóveis, (2) marcar as faixas de circulação das bicicletas e (3) limitar a velocidade dos automóveis para diminuir o risco de acidentes. Parece-me muito evidente que esta solução não vai resultar. É uma solução avulsa que carece de outros mecanismos para ser realmente efetiva. Alguns dos problemas que antecipo são: (1) muitas das pinturas foram feitas em pisos altamente degradados, irregulares e cheios de buracos, o que será perigoso para quem lá circula; (2) a colocação de sinais de limitação de velocidade em vias que “convidam” a circular mais rapidamente não resulta, e exemplo disso são os sinais na rodovia e no fojo; (3) a ausência de fiscalização do estacionamento irregular tornará muitas dessas linhas vermelhas não utilizáveis; (4) encostar a linha vermelha ao passeio e aos carros estacionados na Rua D. Pedro V é potenciar os acidentes e as ultrapassagens ilegais; (5) reduzir um passeio, para se pintar uma “ciclovia” na Rua 31 de Janeiro, vai apenas criar conflitos desnecessários entre pessoas a pé e de trotinetas/bicicletas, quando há ali muito espaço para reorganizar sem ser o do peão. Em Lisboa, surgiram também linhas (em verde) maioritariamente em ruas estreitas, mas acompanhadas de medidas de redução da velocidade. Mas muitas das intervenções lisboetas têm criado ciclovias, reorganizando o espaço automóvel.

Alguém dirá um dia que as linhas vermelhas não tiveram adesão, concluindo que não há utilização da bicicleta em Braga em número suficiente. Esta intervenção das linhas vermelhas, feita a correr antes das eleições e com custos muito elevados, dá ideia que irá servir essencialmente para justificar a ausência de investimento em ciclovias, que permitiriam a circulação segura de bicicletas.

 

can´t miss [227] dinheirovivo.pt/empresas/

paulofski @ na bicicleta

Publicado em 25/08/2021 às 11:36

Temas: can't miss it benefícios das pedaladas bicicleta ciclismo urbano coisas que leio governo mobilidade motivação outras coisas

Governo reforça ‘cheque’ para comprar bicicletas

Fundo Ambiental injeta mais meio milhão de euros na compra de velocípedes com e sem assistência elétrica. Apoios tinham esgotado em menos de meio ano

“Governo reforçou o ‘cheque’ para comprar bicicletas. O Fundo Ambiental injetou meio milhão de euros na medida de apoio à aquisição de veículos sem emissões, segundo despacho publicado esta terça-feira em Diário da República.

Subiu de 650 mil para 1,1 milhões de euros (mais 450 mil euros) o orçamento para a compra de bicicletas, motos ou ciclomotores. Sejam particulares ou empresas, as ajudas serão de até 350 euros por unidade, com a comparticipação de até metade do preço. Os particulares apenas poderão apresentar uma candidatura; as empresas terão direito a um máximo de quatro ajudas.

No caso das bicicletas convencionais, sem assistência elétrica, o envelope financeiro duplicou para 100 mil euros. O Fundo Ambiental comparticipa em 20% no valor da aquisição, no máximo de 100 euros.

A grande fila de espera para beneficiar da ajuda do Estado explica o reforço do orçamento para a compra de bicicletas.”

[…]

Podes ler a noticia a notícia completa em: https://www.dinheirovivo.pt/empresas/governo-reforca-cheque-para-comprar-bicicletas-14056688.html

 

Lamento dizer, mas isso não é sequer argumento!

João Forte @ Braga Ciclável

Publicado em 21/08/2021 às 8:00

Temas: Opinião ciclistas Código da Estrada Estereótipos ultrapassar ciclistas Velocidade Excessiva


Um dos muitos pseudo argumentos que oiço por parte de alguns automobilistas que não suportam supostos obstáculos na estrada, vulgo ciclistas, é o de que os ciclistas não têm o direito de utilizar a estrada para fins de lazer ou actividade desportiva. Este pseudo argumento é contrariado pela lei, nomeadamente o Código de Estrada, no qual constam todos os direitos e deveres de cada um dos utilizadores da estrada, sejam eles automobilistas, ciclistas ou outros mais.

Outro dia, enquanto andava de bicicleta, numa voltinha de 20 km, ia a pensar precisamente nisto. Era de tarde, por volta das 16:30, e nesse dia tinha-me levantado às 6:40. Das 7 da manhã até às 14:40 fui 3 vezes ao Porto com uma ambulância. Foram 400 km sem parar para um lado e para o outro. Só tive a possibilidade de almoçar já passava das 15 horas. Já de barriga cheia, vi os e-mails e pesquisei oportunidades de trabalho na minha área profissional, seja bolsas de investigação, pós-docs, seja mesmo vínculos de trabalho numa qualquer universidade lá fora. Feito isto, fiz algo que também aprecio bastante e que me ajuda a manter a forma e a manter uma mente sã, ou seja andar de bicicleta. Peguei na bicicleta de estrada e lá fui eu, pensando em tudo isto. Durante os 20 km em que pedalei e recarreguei baterias, tive dois cuidados, um o de precaver automobilistas que passam por mim a grande velocidade e sem respeitar a distância de segurança, outro o de facilitar sempre que possível os restantes utilizadores da estrada, sejam eles automobilistas, camionistas, motociclistas e afins. Não confundir facilitar com qualquer tipo de subserviência, pois enquanto automobilista faço exactamente o mesmo, facilitar e respeitar todos.

Da próxima vez que forem a conduzir no vosso automóvel, pensem que quem vai ali na bicicleta vai a usufruir de um direito e provavelmente já trabalhou mais do que vocês nesse dia, transportando um familiar vosso para uma unidade de saúde, dando uma consulta a um conhecido vosso, levando o pão à vossa porta, reabastecendo as prateleiras do supermercado a que vão, abastecendo o vosso carro, varrendo a rua à vossa porta ou outra actividade de qualquer tipo, todas elas nobres e necessárias.

Só para terminar, após a volta de bicicleta lanchei tranquilamente, fiz a necessária higiene e fui fazer um turno, nocturno, de voluntário. Felizmente que correu bem e deu para trabalhar um bocado no computador, a ver se consigo dar mais contributos para a investigação em Portugal. Há que desmistificar estereótipos!

 

fotocycle [261] Verão no Porto

paulofski @ na bicicleta

Publicado em 17/08/2021 às 9:34

Temas: fotocycle Anémona bicicleta boas pedaladas ciclismo fotografia fotopedaladas Gorka Matosinhos motivação outras coisas Porto Verão

 

Braga me faz desandar de bicicleta

Pétilin Souza @ Braga Ciclável

Publicado em 7/08/2021 às 8:00

Temas: Opinião bicicletas Braga braga ciclável Diário do Minho Pétilin Pétilin Souza Presidente Prudente Santos São Paulo


Imigrada do Brasil para Portugal há 6 anos, dos quais 4 estou em Braga, nunca poderia imaginar o que me aconteceu.
Cresci na cidade de Santos (430 000 habitantes), litoral do estado de São Paulo, uma cidade com ciclovia junto ao jardim à beira mar. Me deslocava para todos os lados de bicicleta: de casa para o colégio, para a escola de idiomas, para o part-time, para as aulas de bateria, para a casa de todas as pessoas amigas… Saio de Santos uma adolescente mulher de 17 anos, independente, livre, mente leve e ciclista de coração.

Quando chego à Universidade, que vou fazer em Presidente Prudente (230 000 habitantes),, cidade do interior de São Paulo, com declives mais acentuados, aprendo o que são as bicicletas com mudanças. Afinal, em Santos nunca precisei disso. Aprendi a gerir meus ritmos, e fortaleci mais não só o meu corpo, fortaleci ainda mais a minha mente. E isto é um ciclo. A cada nova subida feita por completo sem descer da bicicleta, era uma conquista saborosa. Uma pequena vitória no meu dia de universitária.

Mudo-me então para São Paulo (12,33 milhões habitantes), capital, a cidade onde tem emprego. Passo a usar transportes públicos e vivo aquela rotina paulistana, que me pede uma pausa. Volto a comprar uma bicicleta com mudanças e enfrento a selva de pedra. Passo a andar por todas as ciclovias que faziam parte dos meus trajetos.

E enfim, chego a Braga (cidade com 139 440 habitantes), uma jovem mulher de 24 anos na Europa. Tento manter minha independência, e começo a usar transportes públicos nas deslocações. Aqui de novo, de casa para o trabalho, para a universidade, para o mercado. Mas não consigo, não cumpro horários, porque os autocarros não cumprem horários, são poucos, fazem rotas sem sentido, as tabuletas eletrónicas de horários, que indicam quanto falta para o autocarro chegar, são só tótens ilusórios que de longe a longe nos informam a data do dia de hoje.

Na altura já tinha entendido o pensamento egoísta do transporte individual para este tipo de cidade, mas eu me recuso e passo a andar de bicicleta. Contudo, nos caminhos que faço, todos os condutores de carro se incomodam comigo, me espremem entre os carros deles e os que estão estacionados. As belas ruas em paralelo, com seus paralelos soltos me dão muita insegura de sofrer algum acidente. As ciclovias não existem, mais tarde até surgem numa ótica de lazer porque ligam nada a lugar nenhum, e aquelas marcações de que “aqui podem passar bicicletas” me desesperam. Me desesperam porque tenho que ciclar numa velocidade frenética para fugir dos motoristas de autocarros públicos – afinal, eles estão sempre atrasados – e o lugar onde “posso” andar de bicicleta é no mesmo trajeto deles.

Eu não tenho como estar de bicicleta à frente de um autocarro com 40 passageiros, dos quais, junto comigo, estamos todos a ir para o trabalho, ou em alguma deslocação qualquer, e cada um programou o seu tempo em função do seu modo de transporte. Eu não sou uma ciclo-autocarrista.

E assim, agradeço: Braga, graças às tuas des-políticas de mobilidade urbana sustentável, eu aprendi a desandar de bicicleta.

 

can’t miss [226] www.alvorada.pt/

paulofski @ na bicicleta

Publicado em 5/08/2021 às 11:08

Temas: motivação bicicleta ciclismo ciclistas no mundo coisas que leio história Joaquim Agostinho museu outras coisas Torres Vedras Volta a Portugal

Museu do Ciclismo Joaquim Agostinho abre esta quinta-feira em Torres Vedras

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Foto: D. R.

“O Museu do Ciclismo Joaquim Agostinho tem abertura marcada para esta quinta-feira. O novo equipamento cultural encontra-se no espaço do antigo refeitório da Casa Hipólito, no Bairro Arenes, onde irá apresentar uma exposição permanente e uma exposição temporária.

Preservar a memória do ciclista torriense Joaquim Agostinho faz parte da missão do mais recente museu oestino, que pretende, ainda, promover o ciclismo enquanto prática desportiva e social. Segundo uma nota de imprensa do Município de Torres Vedras enviada ao ALVORADA, “para isso, o equipamento irá investigar, conservar, interpretar, divulgar e valorizar os testemunhos materiais e imateriais mais relevantes da história do ciclismo, do uso da bicicleta e da memória e identidade da comunidade ciclística”.”

[…]

Podes ler a notícia completa em; https://www.alvorada.pt/index.php/oeste/4199-museu-do-ciclismo-joaquim-agostinho-abre-esta-quinta-feira-em-torres-vedras

 

A primeira vez

Victor Domingos @ Braga Ciclável

Publicado em 24/07/2021 às 8:05

Temas: Opinião Acalmia de trânsito aprender Aprender a pedalar Aulas aulas de condução Bicicleta Bicicleta Braga Braga crianças Escola escolas


No início de cada mês, ali para os lados de Santa Tecla, a Braga Ciclável, numa iniciativa em parceria com a Junta de Freguesia de São Victor, ensina crianças, jovens e adultos a andar de bicicleta. É um momento único de partilha e aprendizagem, que a todos tem proporcionado a experiências inesquecíveis e, sobretudo a quem aprende, a oportunidade de descobrir um mundo novo.

A minha filha, a caminho dos seus 8 anos, tem sido também uma aluna dedicada nessas aulas. Como muitas outras crianças, esforçou-se por aprender a equilibrar-se em cima da bicicleta, a não olhar constantemente para o chão, a segurar o guiador de forma firme, a colocar o pedal em posição, a travar… Todos aqueles pequenos passos que hoje nos parecem simples e automáticos, mas que na verdade levam tempo a dominar!

Na última aula, conseguiu finalmente pedalar e, claro, durante todo o dia, não conseguia esconder a alegria imensa e o entusiasmo por ter vencido um obstáculo que antes lhe parecia gigante e quase intransponível. Queria uma bicicleta! Queria poder pedalar mais vezes! E queria que eu fosse com ela – passear, ir às compras, ou até para a escola. Rapidamente sentiu que a bicicleta era algo bom e que queria aproveitar mais. Sabe bem das suas vantagens e muitas vezes me viu a utilizá-la para as minhas deslocações diárias cá em Braga. Mas, agora, sabe-o na primeira pessoa: a bicicleta é algo muito especial.

Como qualquer pai, fiquei feliz pelo sucesso e por aquela alegria repentina. Mas fiquei também apreensivo ao notar que, apesar de cada vez haver mais utilizadores de bicicleta em Braga e em Portugal, a nossa rede viária e até mesmo as nossas áreas residenciais continuam a ser francamente deficientes em termos de segurança e conforto para quem se desloca a pé ou de bicicleta.

Ir de bicicleta para a escola, quando esta fica a 1 ou 2km de casa, não pode ser uma viagem arriscada. Algo vai mal quando assim acontece. Mas a realidade é que continua a haver demasiados obstáculos e muitos perigos para os modos suaves, ao mesmo tempo que se continuam a desperdiçar todos os anos verdadeiras exorbitâncias para facilitar e incentivar o uso excessivo do automóvel. Não temos em Braga uma rede ciclável, e as poucas medidas que têm sido implementadas, em termos de infraestrutura destinada ao uso da bicicleta, são avulsas e tecnicamente discutíveis. A cidade continua demasiado fragmentada e perigosa, quando pela sua dimensão, orografia e condições climatéricas tem tudo o que é necessário para ser uma cidade modelo no uso da bicicleta transporte.

Em 2021, já ninguém tem dúvidas quanto à necessidade de recuperar para as pessoas o espaço público urbano e de tornar mais seguras todas as ruas e avenidas, reduzindo em primeiro lugar a velocidade e intensidade do tráfego motorizado. Hoje em dia, todos sabemos que isso contribui para uma maior fluidez, menos acidentes, menos filas e, simultaneamente, permite acolher melhor todos os cidadãos, independentemente do modo de transporte que num ou noutro momento utilizem, seja a pé, de bicicleta, carro, mota ou transportes públicos.

E no final de contas, que cidade queremos oferecer aos nossos filhos?

 

Projecto Caramelos: Dia 4 - Na Autoestrada, a Fugir à Polícia, com um Pneu Furado

@ Lisboa Bike

Publicado em 23/07/2021 às 0:20

Temas: bikepacking viagem

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Caramelos?


Decidido a evitar mais apertões de calor e surpresas tardias na jornada, na manhã do quarto dia levantei o rabo da cama o mais cedo que consegui. Tomei o pequeno almoço, incluído na estadia, tão cedo quanto era permitido e fiz-me à estrada. Desta vez tinha alojamento reservado, e estava decidido a ter um dia diferente. Para minha surpresa consegui mesmo fazer a navegação para fora da zona urbana de Trujillo sem percalços. Normalmente o meu GPS não permite esses luxos, mas naquela manhã tudo corria sobre rodas.


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Rumo a Este, como sempre


É claro que esta bonanza não poderia ser duradoura. Depressa percebi que a altimetria para a jornada era mais desafiante que nos dias anteriores. E o que não mudava contudo, era a temperatura elevada, e as grandes distâncias entre terras, amplos espaços onde não havia nenhuma possibilidade de descanso, refugio do Sol ou reabastecimento. O Deserto Espanhol, como lhe chamam alguns Portugueses de passagem, a caminho de destinos mais populares na Península Ibérica, faz jus ao seu nome.


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Olha, montanhas!


A manhã foi gasta a deambular por estradas de montanha, a ritmos muito lentos, enquanto a temperatura ia aumentado, até ficar intolerável. Continuava a não haver sombras para parar, nem lugares onde obter água ou comida. O desgaste era grande e o moral da expedição ia descendo ao ritmo que desciam também as reservas de líquidos disponíveis a bordo. Começava a ficar claro que, mais uma vez, não ia conseguir arrumar a etapa a tempo de evitar o calor infernal da tarde, no Deserto Espanhol.


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As coisas não são fáceis no deserto


Umas bombas de gasolina foram a minha salvação. Estava a ficar viciado em Aquarius, a coisa mais parecida a uma bebida energética que era possível encontrar em quase todos os postos de abastecimento de combustíveis. Eventualmente a estrada "alisou", depois de uma longa descida, onde cheguei a passar dos 75km/h. Tinha voltado a ficar sem almoço pois não encontrei nada pelo caminho na hora apropriada, estava a ficar frito pelo Sol, mas sabia que já estava perto do destino.


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Sombra! Para a bicicleta...


Eu claramente já estava acusar o desgaste do calor, do esforço e da falta de comida. Foi neste estado que rolei até um cruzamento onde a estrada em que eu estava continuava para Oeste, coisa que não me interessava nada. Eu tinha que virar para Este, no sentido de Talavera de la Reina e Madrid. A minha dormida para a noite era em Oropesa, uma cidade a meio caminho. Rolar no sentido contrário era andar para trás,

Para Este, na direcção certa, a única estrada era a Autovía para Madrid, a A-5. Autovía é o nome dado à rede de autoestradas gratuitas, que ligam Madrid com o resto do país. Eles também têm estradas a que chamam mesmo "autoestradas", mas tecnicamente são a mesma coisa. Logo, não é permitida a circulação de bicicletas em nenhuma destas vias. Mas era para aqui que o GPS insistia que eu deveria ir, e francamente, eu não estava a ver alternativas.


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O dilema



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O percurso que eu fiz


Consultei o Google Maps, que me indicou que eu, de facto, deveria mesmo virar à direita, para Este, para a autoestrada! Não podia ser. E no entanto, fazia sentido e não parecia existir alternativa. De notar que o processo de tomada de decisão decorria junto ao cruzamento, à torreira do Sol, já que como era costume, não havia nem um palmo de sombra em lado nenhum. 

Era tarde. Apesar de eu ter começado cedo, o dia já ia longo. Pressionado pelo calor, tive um momento "fuck it", e abalei a toda a velocidade para a Autovía. Tudo o que eu sabia era que sombra, água e descanso ficavam mais perto naquela direcção. Mesmo que esses luxos fossem obtidos numa esquadra da polícia, sempre era uma melhoria em relação à minha situação actual. A minha análise risco-benefício não era assim tão má.

Na autoestrada fui recebido por um ensurdecedor coro de buzinadelas. Ninguém abrandou nem nada do género, mas imensos automobilistas buzinaram para me avisar do meu "erro". Eu ignorei tudo e todos e rolava na berma a velocidades próximas dos 40km/h. Àquela velocidade depressa estaria debaixo de um belo duche gelado no hotel que tinha reservado e poderia esquecer aquele incidente. 


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A Autovía à esquerda


Mas claro, não poderia ser tão fácil. Estava a ensaiar mentalmente o que diria aos policias quando chegassem, coisas como "custava assim tanto plantarem umas árvores para dar sombra?" ou "quem é que foi o palhaço que desenhou a vossa rede de estradas?" quando o som inconfundível de um furo me chegou aos ouvidos. A rolar a toda a velocidade na berma, tinha passado por cima de alguma porcaria e o pneu traseiro começou a perder ar de forma audível. O líquido anti-furos não estava a funcionar e em pouco tempo estava a rodar encima do aro.

Abrandei o suficiente para não dar cabo da roda traseira, mas não parei. Não me pareceu boa ideia parar na AE... Depois reparei que havia uma área de serviço não muito longe e arrastei a bicicleta ferida até lá, instalando-me rapidamente num cantinho onde não estorvava ninguém. Debaixo do olhar curioso de camionistas, desmontei o que pude da bicicleta carregada e removi a roda traseira. 

Não tinha ar. O tubeless estava frito e ia ter que colocar uma câmera de ar, mas resolvi tentar pelo menos voltar a encher de ar e ver se a coisa aguentava. Mas por mais que tentasse, parecia que a minha bomba de ar também não estava operacional. E agora eu sentia que estava a perder rapidamente o controlo da situação. Olhei para cima e questionei "Não tens mais nada para mim agora?" 

E nesse momento, um carro patrulha da Guardia Civil entrou na área de serviço.


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O caminho para "casa"


Os agentes olharam para mim, e foram à sua vida. E isso deixou-me a pensar. Normalmente em Espanha não há a balda que se vive em terras lusas, se eles me ignoraram era porque deveria haver uma forma legítima de chegar ali, que justificasse a minha presença na área de serviço. Coloquei a câmera de ar no pneu de trás, montei tudo de volta o melhor que pude e fui dar mais uma olhada no Google Maps.
 
Só nessa altura é que eu percebi. Paralela à Autovía, ao longo de vários quilómetros, seguia uma pista de gravilha, onde era permitida a circulação de veículos. Tinha sinais de trânsito e tudo. Essa pista passava por trás da área de serviço e justificava a minha presença no local. E a de eventuais tractores e maquinaria agrícola. O piso de gravilha era mauzito, um bocado no limite para os meus pneus finos, já para não falar para o meu nível de desgaste naquele momento. Mas era uma alternativa à AE!


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Vista à chegada a Oropesa


E foi assim que, depois de reparar a minha mini-bomba e enchido por fim o pneu traseiro, fiz os últimos 30km a rolar em verdadeiro gravel. De vez em quando tinha umas atrevessadelas mais cabeludas, já que a tracção com pneus estreitos e lisos não era a melhor. Mas era suficiente. E por aquelas alturas, suficiente ia ter que chegar.

 
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Já fiquei em sítios piores



Dia 4. Trujillo-Oropesa. 128km. (Estrada/AE) 
 

Projecto Caramelos: Dia 7 - Até às Montanhas

@ Lisboa Bike

Publicado em 23/07/2021 às 0:07

Temas: bikepacking viagem

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Dois ursos e uma bicicleta


Ao Norte da capital Espanhola fica um lugar de mistério e imponência. Os Madrileños, como todos os citadinos de uma grande e competitiva urbe, adoram escapadas de fim de semana, para destinos mais serenos nos arredores. Alguns destes possíveis destinos ficam na Serra de Guadarrama, uma solene cadeia montanhosa a Norte da capital, com picos que ultrapassam os 2000m.

Tinha decidido que o meu destino final para esta viagem seria uma destas aldeias incrustadas no sopé da serra, um curioso misto de vila alpina e subúrbio urbano, já que fica a apenas 50km da capital. Uns amigos tinham-me prometido uns dias de alojamento com direito a relaxamento total, na tranquilidade das montanhas. E isso parecia-me o final perfeito para esta pequena viagem.

Dada a proximidade, tinha planeado gastar a maior parte do dia em Madrid e seguir para Norte só no final da tarde. Assim, tratei de organizar a logística do meu regresso, planeado para uns dias mais tarde, e patear a cidade. 

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Puerta del Sol



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Calle Preciados



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E uma estátua de corvos em Lisboa?



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A velha Madrid



Mais importante, tinha um almoço (tardio, como todos em Espanha) combinado com uma amiga, que é a única pessoa que conheço que mora efectivamente na capital do reino. Passámos horas à conversa numa simpática esplanada. Acho que perdi um pouco a noção do tempo, até que um sopro de vento fez voar alguns itens de cima da mesa. Olhei para o céu, e fui surpreendido por umas nuvens sinistras que se avizinhavam, no que até ao momento tinha sido um impecável céu limpo.

Passava das 18 horas, e eu considerei aquela a minha deixa para me pôr a caminho. A travessia da capital teria sido facilitada se o meu pneu traseiro não estivesse vazio. Não compreendi como tinha furado entretanto, mas acabei por deduzir que a válvula da câmera de ar que tinha instalado uns dias atrás não estava a vedar bem. Bombei um pouco de ar, junto ao Bernabéu, e segui caminho. Tinha alguma pressa, já que agora era evidente que uma tempestade se aproximava, dirigindo-se, tal como eu, para Norte.    


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O céu limpo deu lugar a nuvens sinistras


Encontrei com alguma facilidade a ciclovia que segue para Norte, um percurso que em outras ocasiões tinha visto da estrada e que sabia me poderia levar até muito perto do destino. Este é o habitat natural dos ciclistas de estrada da zona, e foi sem surpresa que me cruzei com muitos deles. Seguiam todos na direcção contrária, apressados por se abrigarem da tormenta que todos sabíamos próxima. 


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Para Norte!


Embora o pôr do sol estivesse previsto para dali a mais de duas horas, o céu escureceu de forma assinalável, à medida que a frente de tempestade se aproximava. Os outros ciclistas começaram a escassear na ciclovia, até desaparecerem por completo. Agora estava só eu, rumando a Norte, numa corrida contra a tempestade. Eu desconfiava que quando aquela massa de ar colidisse com as montanhas à nossa frente, o resultado não seria muito agradável para mim. 



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Percebem?


E não foi. O trovejar começou distante, mas em pouco tempo os raios caiam à minha volta, sem refugio à vista. O céu escureceu ainda mais, até ficar practicamente de noite, e uma chuva ligeira começou a cair, obrigando-me a parar para colocar o impermeável, a primeira vez que o usei na viagem. Era capaz de jurar que até o Dentuça estava intimidado, sobretudo quando a ciclovia acabou e tivemos que nos fazer à estrada.   


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A coisa promete!


E foi neste troço, de estrada estreita, sem berma e com bastante trânsito, que os céus finalmente se abriram e um dilúvio impiedoso assolou o sopé da serra, retirando ainda mais visibilidade e obrigando-me a cuidados redobrados. Apesar de duas boas luzes na traseira, levei com algumas razias preocupantes. De notar que os automobilistas espanhóis costumam respeitar os ciclistas muito mais que os portugueses (respeito é um conceito estranho em Portugal), mas por norma conduzem, na minha opinião, tecnicamente pior. Ou seja, têm um pior domínio do veículo e são mais facilmente surpreendidos por imprevistos.

Naquela estrada senti-me verdadeiramente em perigo, mas não havia muitas alternativas a continuar. Até que surgiu uma muito rara paragem de autocarro, com abrigo, que eu imediatamente adoptei como refugio. Foi um achado providencial, pois o dilúvio já me tinha ensopado até aos ossos, e a estrada estava mesmo perigosa, com a visibilidade extremamente reduzida.


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Na paragem do BUS


Uns minutos depois, as coisas acalmaram e eu regressei à estrada, que me havia de levar à magia da montanha em Manzanares el Real. Esperava-me um belo jantar entre amigos e uns dias de merecido descanso do guerreiro. 



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Dia 7. Madrid-Manzanares el Real. 49km. (Estrada/Ciclovia) 

 
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