fotocycle [279] like a “Bridge Over Troubled Water”…

paulofski @ na bicicleta

Publicado em 11/02/2026 às 12:20

Temas: fotocycle 1 carro a menos a chuva não atrapalha à chuva bicicleta bike to home bike to work Canyon ciclismo ciclismo urbano ciclistas urbanos do Porto Douro fotografia fotopedaladas Maneirinha mensageiro de bicicleta mobilidade motivação outras coisas pedaladas no inverno ponte Luiz I Porto rabelos

Como uma ponte sobre águas turbulentas, clássico de Simon & Garfunkel é um hino à empatia. É um compromisso de força, esperança e determinação, onde a ponte representa o meio seguro quando tudo o resto parece desmoronar. A mensagem é uma metáfora poderosa sobre oferecer apoio, conforto e segurança a alguém que está a passar por momentos difíceis. Atravessar a calamidade com coragem e determinação, não se deixando derrotar por toda esta corrente de incessantes tempestades que assolam populações, bens e negócios por todo o país.

 

é chover no molhado…

paulofski @ na bicicleta

Publicado em 23/01/2026 às 12:03

Temas: 1 carro a menos a chuva não atrapalha a gloriosa bicicleta à chuva bicicleta bike to home bike to work ciclismo ciclismo urbano ciclistas urbanos do Porto ciclo chico dicas fotografia fotopedaladas mobilidade mobilidade-urbana motivação no meu percurso rotineiro pr'o trabalho outras coisas pedaladas no inverno Ride Your Workout

… dizer que o tempo está horrível, mas lá vem o convicto ciclista urbano. Enquanto outros reclamam da chuva, do trânsito, da vida, ele sorri e sai a pedalar debaixo do dilúvio, porque – como bem sabe – para o ciclista não há mau tempo, só mau equipamento. Assim, entre pingos e vento, transforma a tempestade num passeio ao sol… ou pelo menos numa boa desculpa para comprar mais um casaco impermeável.

e nada de gozar com as capas dos sapatos, tá!?
 

um novo ano, o mesmo plano

paulofski @ na bicicleta

Publicado em 12/01/2026 às 15:07

Temas: motivação bike to home bike to work bom ano caso pra dizer "mexam-se" ciclismo ciclismo urbano cicloturismo fotografia fotopedaladas mobilidade mobilidade-urbana no meu percurso rotineiro pr'a casa no meu percurso rotineiro pr'o trabalho o sol outras coisas penso eu de que... Porto praia

Todos os dias vou de bicicleta para o trabalho. Como depois tenho de regressar a casa, invariavelmente durante a semana percorro mais de uma centena de quilómetros. De bicicleta circulo pelas ruas da minha cidade, o Grande Porto  Ao vento, faça chuva ou faça sol, às vezes tudo ao mesmo tempo.

Uma vez por semana, não tenho dia marcado, depois das obrigações laborais, faço uns quarenta quilómetros, para lá e para cá em visitas paternais. Qualquer coisa de duas horas, bem passadas, o tempo suficiente para pensar, admirar, abstrair e parar de pensar. Só pedalar.

Como também tenho outras bicicletas, o fim-de-semana não significa obrigatoriamente o bom e merecido descanso. Ao sábado e ao domingo lá vou eu, com ou sem destino, alargando horizontes. Só ou bem acompanhado, por agitadas ou encantadas estradas, com paragens a meio para almoçar, a liberdade e a saudade muitas vezes pedalam a par.

Seja para onde for, a bicicleta é o meu meio de transporte. É o meu expediente de trabalho. É o meu ginásio. É a minha intuição de lazer e descontracção. É gratuita… minto, anda a café e pasteis de nata. É ecológica, está sempre disponível de manhã e à noite, de inverno ou verão, haja transportes públicos ou não.

É possível e recomendável promover a mobilidade “ciclável” em Portugal, nas grandes cidades e fora delas. Afinal, de bicicleta, e por causa do trânsito de todos os dias, acabo por andar à mesma velocidade de qualquer veículo motorizado, muitas vezes bem mais depressa. Mas isso é a minha praia.

 

fotocycle [278] Pai Natal e o Avô já pedalam pela cidade

paulofski @ na bicicleta

Publicado em 16/12/2025 às 14:50

Temas: fotocycle amigo Couto amigo Gaspar bicicleta ciclismo urbano dos malucos das biclas voadoras fotografia fotopedaladas humor jantarada de amigos mobilidade motivação Natal noite tripeira outras coisas Pai Natal pelas ruas do Porto Porto quem avisa amigo é roda de amigos

 

fotocycle [277] magnético

paulofski @ na bicicleta

Publicado em 16/10/2025 às 11:17

Temas: fotocycle bicicleta bike to home Canyon cenas do quotidiano ciclismo urbano cicloturismo commutescount fotografia fotopedaladas Maneirinha mar momento momento zen motivação no meu percurso rotineiro pr'a casa o sol outras coisas praia

 

1 ano à Maneirinha

paulofski @ na bicicleta

Publicado em 16/07/2025 às 15:00

Temas: bicicleta 1 carro a menos a gloriosa bicicleta bom ano Canyon ciclismo ciclismo urbano ciclistas urbanos do Porto cicloturismo fotografia gravel longas pedaladas Maneirinha memórias mobilidade momento motivação outras coisas penso eu de que... Roadlite STRAVA

Após um ano de uso intenso, à data deste postal vai com seis mil e seiscentos quilómetros contabilizados, apenas perturbado com um furo e um patético trambolhão, o investimento que fiz na aquisição desta pequena máquina velocipédica compensou, e de sobremaneira!

Não hajam dúvidas que esta bicicleta ultrapassou largamente as minhas expectativas. Nada mal para quem já percorreu tanto. Nada mal para quem ousou optar e não dispensa este veículo de eleição nos commutes diários.. e extraordinários.

Conhecida por ser um modelo versátil, focada para o desempenho urbano, o conforto para quem busca algo entre o asfalto, o empedrado e a terra batida, o seu quadro leve e a geometria versátil tem-me oferecido uma experiência extraordinária, pedalada estável e potente, incrivelmente eficaz mesmo em longas distâncias. Para além de me garantir uma boa performance no trajecto diário, para e do trabalho, oferece-me ao mesmo tempo o conforto e segurança em aventuras mais off-road.

A Canyon Roadlite cumpre na perfeição o papel que se exige a uma bicicleta multifacetada. Perfeitamente adaptada a rodar em terrenos variados, não lhe poderei exigir o desempenho de uma bicicleta específica para cada função, mas esta mistura de utilização está proporcional às suas capacidades, onde o critério conforto é crucial.

Teve os upgrades que achei necessários, um ou outro acessório foi-lhe adicionado, o que melhorou significativamente a sua polivalência e a minha experiência.

.Deixo um apanhado “Stravico” das voltas inesquecíveis que ambos tivemos durante este ano:

 

Triban RC520 Gravel - Uma Review

@ Lisboa Bike

Publicado em 18/10/2021 às 23:22

Temas: bikepacking review

A Triban no Gerês 

Comprei a minha Triban quase por impulso, em Novembro de 2019, quando em casa moravam já outras duas bicicletas de estrada. Estes modelos eram algo peculiares: uma Surly Long Haul Trucker, a bicicleta mais confortável em que já rolei, e uma velhinha Raleigh inglesa dos anos oitenta, que eu usava sobretudo para fins utilitários.


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A minha antiga Surly 


O que eu procurava, já há algum tempo, era um modelo que permitisse substituir todas as outras bicicletas (as duas já citadas e uma BTT). A elusiva bicicleta única, que fosse capaz de fazer estrada a sério, viagens de longa distância, com carga, BTT em eventos e passeios, uso utilitário, e tudo o mais que se me ocorresse. E que fizesse tudo isto com alguma competitividade, que me permitisse participar ocasionalmente em eventos. Bem sei que não é pedir pouco, para mais de um modelo "económico". 


A Triban com todos os componentes de origem


A escolha da Triban foi motivada, se for sincero, sobretudo pelo preço aliciante, tendo em conta tudo o que oferecia. Mas pareceu-me na altura uma solução de compromisso, já que eu considerava que a Decathlon tinha sido um pouco preguiçosa e simplesmente mudado o nome e a pintura a um dos seus quadros de estrada. Era apenas uma estratégia para a marca ter um producto que lhe permitisse concorrer no mercado na área então muito na moda, o "Gravel".

Bom, isso não deixa de ser um facto: trata-se de uma bicicleta de estrada, com algumas alterações, mas eu estava enganado. Para mim esta escolha veio a revelar-se extremamente acertada, e embora a bicicleta tenha certamente limitações, é difícil para mim ver alternativas viáveis neste momento. Vamos ver o que está em causa. (Nota: não tenho nenhuma ligação com a Decathlon e estas opiniões são minhas apenas).

Quadro: Para mim carbono estava fora de questão, por causa do uso para viagens longas em autonomia e o uso de bolsas de bikepacking. Os danos por atrito dos sacos ou numa queda são um risco demasiado grande. Aço e Titânio são materiais interessantes e esteticamente mais apelativos, mas mais caros e também pesados. Por isso alumínio acaba por ser uma boa escolha. O peso neste caso é apenas aceitável (os números estão no site). A surpresa veio da geometria. Eu tinha estudado a tabela e sabia que o quadro é exactamente o mesmo da gama de estrada. Portanto trata-se de um quadro "barato" de Endurance, com uma testa alta e uma posição pouco agressiva. Isso é ideal para longas distâncias e muitas horas no selim, e a geometria veio a revelar-se muito adequada para a minha fisionomia, depois de alguns ajustes. Eu não tenho muita flexibilidade natural e a minha postura não é muito agressiva. A bicicleta é muito estável em qualquer circunstância, mas mantém a capacidade de reacção e aceleração de uma bicicleta de estrada, que uma bicicleta de viagem (touring) não tem. E fora de estrada só em BTT mais sério perde a compostura, como seria inevitável. 


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Cassete, corrente e pedaleiro alterados


Grupo: A Triban vinha com um grupo Shimano 105 R7000 quase completo. Apenas a pedaleira era uma Shimano compacta de 11 velocidades, mas sem grupo, um pouco mais pesada que a 105 equivalente. Aqui eu achava que era mais uma das situações em que a Decathlon tinha feito a coisa mal, a cassete 11-32 (não Shimano) era demasiado pequena, e pensava na altura que a bicicleta deveria vir com um pedaleiro sub-compacto e talvez com um grupo GRX. A verdade é que esta mania da super-especialização dos componentes é muitas vezes exagerada. A transmissão não se desfaz se apanhar poeira por ser um grupo de estrada. O desviador Shimano 105 não é muito diferente de um Deore, as correntes e cassetes são aliás idênticas em vários grupos de estrada e BTT da Shimano, pelo que o desempenho fora de estrada não compromete. Já as relações de transmissão são claramente mais pensadas para o asfalto. Para rolar com peso extra e/ou fora de estrada (como sucede em bikepacking), optei por colocar uma pedaleira Miche 46-30 e uma cassete Shimano 105 maior, 11-34. Mesmo assim, eu agora reconheço que para um uso maioritariamente de estrada, a bicicleta vinha com um bom mix de peças. De tal forma que recentemente voltei a usar a cassete de 32 dentes original, para beneficiar de relações mais próximas entre si.    

 

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Os travões facilmente se ressentem com o pó


Travões: Os travões TRP mecânico-hidráulicos permitem casar um grupo totalmente mecânico, mais barato, nestes caso os shifters Shimano 105 R7000, com o modulação e sensações de um travão hidráulico. E a verdade é que funciona. Esteticamente é uma desgraça, mas funciona. Eu travo só com um dedo a maior parte das vezes. E a sensação de controlo é sempre boa. Há que notar contudo que estes travões estão mais à vontade em estrada, basta um pouco de pó para começar a haver vibrações e perdas de potência na travagem, quando em uso em gravilha ou terra. E só depois de uma limpeza cuidadosa é possível voltar a ter uma boa performance. 


Guiador 44, mais estreito


Periféricos: Não posso falar muito destas coisas, porque foi quase tudo substituído rapidamente. O guiador era demasiado largo, o meu quadro XL vinha com guiador de 46cm, com um desenho de drops com que eu não me identifiquei. Troquei por um simples FSA de gravel, abertura a 12º, de tamanho 44. Apesar de mais pequeno ainda permitia o uso de sacos de bikepaking. O avanço de 120cm foi trocado por um de 80, para afinar a posição na bicicleta. Muitas bicicletas de gravel modernas são desenhadas para avanços curtos, e neste caso a adaptação foi natural. Sim, ao princípio eu também achei que era muito curto, mas fez maravilhas pela postura e pelo controlo da bicicleta. Mudei também o selim, por outro muito semelhante, e o espigão do selim, por estética e peso. 


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No Porto!


Rodas & Pneus: Usei pouco as rodas. Eram robustas e não deram problemas, lembro-me que os cubos pareciam bastante bons para esta gama de preços. Foram trocadas por umas DT Swiss, para perder umas gramas. Os pneus Hutchinson Overide de 35mm são excelentes. Têm uma aderência teimosa e salvaram-me o pelo em mais de uma ocasião. Permitem aventuras fora de estrada que a sua diminuta largura não deixa prever. E em estrada rolam muito bem. Há melhor e mais leve (e mais caro), mas não muito. Quando comprei a bicicleta achei que os pneus eram mais um compromisso, agora acho que são um excelente compromisso! Actualmente monto pneus de 38mm, a marca só recomenda até 36, mas a verdade é que cabem 40mm se fizer falta. Mas penso voltar aos 35mm quando surgir a oportunidade, julgo que é o melhor equilíbrio estrada-gravel e a marca voltou a acertar neste aspecto.   

Dois anos depois, dois Tróia-Sagres, uma volta a Portugal de várias semanas em autonomia, uma viagem a Madrid, o caminho de Fátima, uma subida à serra da Estrela, e muitas aventuras mais pequenas pelo meio depois, a Triban provou que não é só um modelo barato feito à pressa para seduzir os adeptos da "moda" do gravel. Não se deixem enganar pelas soldaduras mais abrutalhadas, nem pela palavra "Decathlon" na testa do quadro, a bicicleta foi bem pensada, o desempenho nunca compromete e tem alma para tudo o que se propuserem fazer com ela. 


Set-up recente, na Serra da Estrela


O facto de custar menos um terço ou metade dos modelos da concorrência também não é propriamente mau. Actualmente há vários modelos e cores disponíveis, baseados no mesmo quadro, que, consta, é fabricado em Portugal (o meu, especificamente, diz "made in France"). É possível também comprar um dos modelos de estrada da gama 520 e depois adaptar a um uso mais polivalente, já que o quadro é idêntico, mudando a pintura e a selecção de componentes.   

Não tenho actualmente nenhuma outra bicicleta, nem sinto falta de nada. Sei que não é solução para toda a gente, o meu uso tem sido muito lúdico e mais estradista, ultimamente. Mas é inegável que esta proposta low-cost permite acceder a um inesgotável mundo de aventuras, cujos limites não serão impostos pela bicicleta.

 

Projecto Caramelos: Dia 4 - Na Autoestrada, a Fugir à Polícia, com um Pneu Furado

@ Lisboa Bike

Publicado em 23/07/2021 às 0:20

Temas: bikepacking viagem

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Caramelos?


Decidido a evitar mais apertões de calor e surpresas tardias na jornada, na manhã do quarto dia levantei o rabo da cama o mais cedo que consegui. Tomei o pequeno almoço, incluído na estadia, tão cedo quanto era permitido e fiz-me à estrada. Desta vez tinha alojamento reservado, e estava decidido a ter um dia diferente. Para minha surpresa consegui mesmo fazer a navegação para fora da zona urbana de Trujillo sem percalços. Normalmente o meu GPS não permite esses luxos, mas naquela manhã tudo corria sobre rodas.


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Rumo a Este, como sempre


É claro que esta bonanza não poderia ser duradoura. Depressa percebi que a altimetria para a jornada era mais desafiante que nos dias anteriores. E o que não mudava contudo, era a temperatura elevada, e as grandes distâncias entre terras, amplos espaços onde não havia nenhuma possibilidade de descanso, refugio do Sol ou reabastecimento. O Deserto Espanhol, como lhe chamam alguns Portugueses de passagem, a caminho de destinos mais populares na Península Ibérica, faz jus ao seu nome.


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Olha, montanhas!


A manhã foi gasta a deambular por estradas de montanha, a ritmos muito lentos, enquanto a temperatura ia aumentado, até ficar intolerável. Continuava a não haver sombras para parar, nem lugares onde obter água ou comida. O desgaste era grande e o moral da expedição ia descendo ao ritmo que desciam também as reservas de líquidos disponíveis a bordo. Começava a ficar claro que, mais uma vez, não ia conseguir arrumar a etapa a tempo de evitar o calor infernal da tarde, no Deserto Espanhol.


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As coisas não são fáceis no deserto


Umas bombas de gasolina foram a minha salvação. Estava a ficar viciado em Aquarius, a coisa mais parecida a uma bebida energética que era possível encontrar em quase todos os postos de abastecimento de combustíveis. Eventualmente a estrada "alisou", depois de uma longa descida, onde cheguei a passar dos 75km/h. Tinha voltado a ficar sem almoço pois não encontrei nada pelo caminho na hora apropriada, estava a ficar frito pelo Sol, mas sabia que já estava perto do destino.


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Sombra! Para a bicicleta...


Eu claramente já estava acusar o desgaste do calor, do esforço e da falta de comida. Foi neste estado que rolei até um cruzamento onde a estrada em que eu estava continuava para Oeste, coisa que não me interessava nada. Eu tinha que virar para Este, no sentido de Talavera de la Reina e Madrid. A minha dormida para a noite era em Oropesa, uma cidade a meio caminho. Rolar no sentido contrário era andar para trás,

Para Este, na direcção certa, a única estrada era a Autovía para Madrid, a A-5. Autovía é o nome dado à rede de autoestradas gratuitas, que ligam Madrid com o resto do país. Eles também têm estradas a que chamam mesmo "autoestradas", mas tecnicamente são a mesma coisa. Logo, não é permitida a circulação de bicicletas em nenhuma destas vias. Mas era para aqui que o GPS insistia que eu deveria ir, e francamente, eu não estava a ver alternativas.


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O dilema



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O percurso que eu fiz


Consultei o Google Maps, que me indicou que eu, de facto, deveria mesmo virar à direita, para Este, para a autoestrada! Não podia ser. E no entanto, fazia sentido e não parecia existir alternativa. De notar que o processo de tomada de decisão decorria junto ao cruzamento, à torreira do Sol, já que como era costume, não havia nem um palmo de sombra em lado nenhum. 

Era tarde. Apesar de eu ter começado cedo, o dia já ia longo. Pressionado pelo calor, tive um momento "fuck it", e abalei a toda a velocidade para a Autovía. Tudo o que eu sabia era que sombra, água e descanso ficavam mais perto naquela direcção. Mesmo que esses luxos fossem obtidos numa esquadra da polícia, sempre era uma melhoria em relação à minha situação actual. A minha análise risco-benefício não era assim tão má.

Na autoestrada fui recebido por um ensurdecedor coro de buzinadelas. Ninguém abrandou nem nada do género, mas imensos automobilistas buzinaram para me avisar do meu "erro". Eu ignorei tudo e todos e rolava na berma a velocidades próximas dos 40km/h. Àquela velocidade depressa estaria debaixo de um belo duche gelado no hotel que tinha reservado e poderia esquecer aquele incidente. 


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A Autovía à esquerda


Mas claro, não poderia ser tão fácil. Estava a ensaiar mentalmente o que diria aos policias quando chegassem, coisas como "custava assim tanto plantarem umas árvores para dar sombra?" ou "quem é que foi o palhaço que desenhou a vossa rede de estradas?" quando o som inconfundível de um furo me chegou aos ouvidos. A rolar a toda a velocidade na berma, tinha passado por cima de alguma porcaria e o pneu traseiro começou a perder ar de forma audível. O líquido anti-furos não estava a funcionar e em pouco tempo estava a rodar encima do aro.

Abrandei o suficiente para não dar cabo da roda traseira, mas não parei. Não me pareceu boa ideia parar na AE... Depois reparei que havia uma área de serviço não muito longe e arrastei a bicicleta ferida até lá, instalando-me rapidamente num cantinho onde não estorvava ninguém. Debaixo do olhar curioso de camionistas, desmontei o que pude da bicicleta carregada e removi a roda traseira. 

Não tinha ar. O tubeless estava frito e ia ter que colocar uma câmera de ar, mas resolvi tentar pelo menos voltar a encher de ar e ver se a coisa aguentava. Mas por mais que tentasse, parecia que a minha bomba de ar também não estava operacional. E agora eu sentia que estava a perder rapidamente o controlo da situação. Olhei para cima e questionei "Não tens mais nada para mim agora?" 

E nesse momento, um carro patrulha da Guardia Civil entrou na área de serviço.


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O caminho para "casa"


Os agentes olharam para mim, e foram à sua vida. E isso deixou-me a pensar. Normalmente em Espanha não há a balda que se vive em terras lusas, se eles me ignoraram era porque deveria haver uma forma legítima de chegar ali, que justificasse a minha presença na área de serviço. Coloquei a câmera de ar no pneu de trás, montei tudo de volta o melhor que pude e fui dar mais uma olhada no Google Maps.
 
Só nessa altura é que eu percebi. Paralela à Autovía, ao longo de vários quilómetros, seguia uma pista de gravilha, onde era permitida a circulação de veículos. Tinha sinais de trânsito e tudo. Essa pista passava por trás da área de serviço e justificava a minha presença no local. E a de eventuais tractores e maquinaria agrícola. O piso de gravilha era mauzito, um bocado no limite para os meus pneus finos, já para não falar para o meu nível de desgaste naquele momento. Mas era uma alternativa à AE!


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Vista à chegada a Oropesa


E foi assim que, depois de reparar a minha mini-bomba e enchido por fim o pneu traseiro, fiz os últimos 30km a rolar em verdadeiro gravel. De vez em quando tinha umas atrevessadelas mais cabeludas, já que a tracção com pneus estreitos e lisos não era a melhor. Mas era suficiente. E por aquelas alturas, suficiente ia ter que chegar.

 
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Já fiquei em sítios piores



Dia 4. Trujillo-Oropesa. 128km. (Estrada/AE) 
 

Projecto Caramelos: Dia 7 - Até às Montanhas

@ Lisboa Bike

Publicado em 23/07/2021 às 0:07

Temas: bikepacking viagem

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Dois ursos e uma bicicleta


Ao Norte da capital Espanhola fica um lugar de mistério e imponência. Os Madrileños, como todos os citadinos de uma grande e competitiva urbe, adoram escapadas de fim de semana, para destinos mais serenos nos arredores. Alguns destes possíveis destinos ficam na Serra de Guadarrama, uma solene cadeia montanhosa a Norte da capital, com picos que ultrapassam os 2000m.

Tinha decidido que o meu destino final para esta viagem seria uma destas aldeias incrustadas no sopé da serra, um curioso misto de vila alpina e subúrbio urbano, já que fica a apenas 50km da capital. Uns amigos tinham-me prometido uns dias de alojamento com direito a relaxamento total, na tranquilidade das montanhas. E isso parecia-me o final perfeito para esta pequena viagem.

Dada a proximidade, tinha planeado gastar a maior parte do dia em Madrid e seguir para Norte só no final da tarde. Assim, tratei de organizar a logística do meu regresso, planeado para uns dias mais tarde, e patear a cidade. 

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Puerta del Sol



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Calle Preciados



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E uma estátua de corvos em Lisboa?



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A velha Madrid



Mais importante, tinha um almoço (tardio, como todos em Espanha) combinado com uma amiga, que é a única pessoa que conheço que mora efectivamente na capital do reino. Passámos horas à conversa numa simpática esplanada. Acho que perdi um pouco a noção do tempo, até que um sopro de vento fez voar alguns itens de cima da mesa. Olhei para o céu, e fui surpreendido por umas nuvens sinistras que se avizinhavam, no que até ao momento tinha sido um impecável céu limpo.

Passava das 18 horas, e eu considerei aquela a minha deixa para me pôr a caminho. A travessia da capital teria sido facilitada se o meu pneu traseiro não estivesse vazio. Não compreendi como tinha furado entretanto, mas acabei por deduzir que a válvula da câmera de ar que tinha instalado uns dias atrás não estava a vedar bem. Bombei um pouco de ar, junto ao Bernabéu, e segui caminho. Tinha alguma pressa, já que agora era evidente que uma tempestade se aproximava, dirigindo-se, tal como eu, para Norte.    


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O céu limpo deu lugar a nuvens sinistras


Encontrei com alguma facilidade a ciclovia que segue para Norte, um percurso que em outras ocasiões tinha visto da estrada e que sabia me poderia levar até muito perto do destino. Este é o habitat natural dos ciclistas de estrada da zona, e foi sem surpresa que me cruzei com muitos deles. Seguiam todos na direcção contrária, apressados por se abrigarem da tormenta que todos sabíamos próxima. 


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Para Norte!


Embora o pôr do sol estivesse previsto para dali a mais de duas horas, o céu escureceu de forma assinalável, à medida que a frente de tempestade se aproximava. Os outros ciclistas começaram a escassear na ciclovia, até desaparecerem por completo. Agora estava só eu, rumando a Norte, numa corrida contra a tempestade. Eu desconfiava que quando aquela massa de ar colidisse com as montanhas à nossa frente, o resultado não seria muito agradável para mim. 



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Percebem?


E não foi. O trovejar começou distante, mas em pouco tempo os raios caiam à minha volta, sem refugio à vista. O céu escureceu ainda mais, até ficar practicamente de noite, e uma chuva ligeira começou a cair, obrigando-me a parar para colocar o impermeável, a primeira vez que o usei na viagem. Era capaz de jurar que até o Dentuça estava intimidado, sobretudo quando a ciclovia acabou e tivemos que nos fazer à estrada.   


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A coisa promete!


E foi neste troço, de estrada estreita, sem berma e com bastante trânsito, que os céus finalmente se abriram e um dilúvio impiedoso assolou o sopé da serra, retirando ainda mais visibilidade e obrigando-me a cuidados redobrados. Apesar de duas boas luzes na traseira, levei com algumas razias preocupantes. De notar que os automobilistas espanhóis costumam respeitar os ciclistas muito mais que os portugueses (respeito é um conceito estranho em Portugal), mas por norma conduzem, na minha opinião, tecnicamente pior. Ou seja, têm um pior domínio do veículo e são mais facilmente surpreendidos por imprevistos.

Naquela estrada senti-me verdadeiramente em perigo, mas não havia muitas alternativas a continuar. Até que surgiu uma muito rara paragem de autocarro, com abrigo, que eu imediatamente adoptei como refugio. Foi um achado providencial, pois o dilúvio já me tinha ensopado até aos ossos, e a estrada estava mesmo perigosa, com a visibilidade extremamente reduzida.


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Na paragem do BUS


Uns minutos depois, as coisas acalmaram e eu regressei à estrada, que me havia de levar à magia da montanha em Manzanares el Real. Esperava-me um belo jantar entre amigos e uns dias de merecido descanso do guerreiro. 



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Dia 7. Madrid-Manzanares el Real. 49km. (Estrada/Ciclovia) 

 

Projecto Caramelos: Dia 6 - O Assalto à Capital

@ Lisboa Bike

Publicado em 19/07/2021 às 1:10

Temas: bikepacking viagem

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Caramelos?


O ar quente que me recebe à saída do hotel, pelas nove da manhã do sexto dia de viagem, já não surpreende. Tomei atempadamente o pequeno almoço e tenho memorizada a navegação que devo fazer para sair de Torrijos e regressar ao track de GPS que me há de levar à capital do Reino das Espanhas. A esperada distância de apenas 86km dá-me alguma tranquilidade para lidar com eventuais imprevistos.


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Não tendes nada com menos faixas?


Eu sei que para um ciclista de estrada que se leve a sério (e não faltam ciclistas de estrada que se levam muito a sério), 86km podem ser os kms de aquecimento para se juntar ao grupo numa manhã de Domingo. Para um ciclista utilitário, habituado a conciliar trajectos urbanos com os transportes públicos, pode parecer uma distância impossível. Cada um tem a sua bitola. Eu sei que sou capaz de distâncias de 200km, mas isso será normalmente num evento de um único dia, e em condições favoráveis. O calor e as distâncias entre paragens a que o Grande Deserto Espanhol obriga, reduzem claramente o meu desempenho. 

Seja como for, tenho todo o dia para chegar à Puerta del Sol, em Madrid, o destino para hoje. O meu GPS primitivo, esse traidor inveterado, vai cumprindo a sua função até chegarmos aos arredores da capital. O entramado de zonas industriais, centros comerciais, parques empresárias e vias rápidas dos arrabaldes de Madrid apresenta as primeiras dificuldades de navegação. O GPS parece insistir em enfiar-me numa das inúmeras "M", as vias rápidas radiais por onde flui boa parte do trânsito da capital espanhola.
    

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Madrileños, no seu habitat natural


Depois dos eventos do dia 4, estou especialmente atento e resistente à possibilidade de me voltar a enfiar numa via reservada a paquidermes metálicos. Mas o GPS tenta que eu o faça, uma e outra vez, até que volta mesmo a acontecer. Sigo numa estrada que de repente se transforma em acesso para uma "M" qualquer. Sem possibilidade de voltar para trás, lá estou eu a ser de novo recebido por um coro de buzinadelas. Felizmente a estrada estava em obras e a velocidade era reduzida. Saio assim que posso, e dou por mim em mais um parque industrial. 


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Na berma da via rápida em obras


Nesta altura já tinha passado mais uma vez da hora do almoço, o calor apertava e a minha frustração subia. Optei por desistir de vez do GPS e passei a usar o telemóvel. Pedi ao Google Maps um trajecto em bicicleta de onde estava para o centro de Madrid, e ele forneceu-me um percurso... inesperado. Para usar o telemóvel tinha que estar sempre a parar, pois ele seguia no bolso da jersey, mas eu estava disposto a isso para garantir a fiabilidade na navegação.
 

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Rumo a Madrid!


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Ciclovias de luxo 

De início esta nova metodologia parecia uma grande ideia. O percurso levou-me por parques e ciclovias que eu de outra forma nunca teria encontrado. O ritmo era lento, devido às paragens constantes e à natureza do percurso. Em certa altura quase perdia a carteira, com todos os meus cartões e documentos, de tanto andar a mexer no bolso para consultar o telemóvel. Mas foi só um susto e recuperei tudo em poucos minutos. Mais para a frente o percurso começou a ficar mais... exótico. 


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Há de haver uma cidade por aqui algures


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Madrid??


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Hum...


Começava a duvidar das ideias do Google Maps. Atravessei descampados, zonas de armazéns abarracados e outras zonas muito duvidosas. Fiz um pouco de BTT puro e duro, e circulei numa estrada fechada que estava aparentemente transformada numa lixeira a céu aberto. Passei em zonas que pareciam ter sido cenário recente de algum botellón épico, com o lixo e garrafas de centenas ou milhares de pessoas. Em todo este percurso não vi nenhum outro ser humano, o que por mim estava ótimo, mas levantava dúvidas sobre a esperada aproximação a uma das maiores zonas metropolitanas da Europa. 



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Sim, é uma lixeira numa estrada abandonada


Mas não havia motivos para preocupações. Eventualmente os trilhos transformaram-se em percursos dentro de jardins e parques, e depois em avenidas urbanas, que eu comecei a reconhecer. Estava em Madrid! A cidade nunca foi muito cycle-friendly e tem do trânsito mais agressivo que conheço, mas era excelente a sensação de estar a rolar em terreno conhecido. Lentamente, mas com confiança redobrada, fiz o meu caminho até ao hotel, junto à Puerta del Sol

Parecia surreal estar num ambiente tão cosmopolita, depois de tanto tempo passado no deserto. As ruas e avenidas estavam cheias de turistas, as esplanadas e bares a abarrotar de gente que parecia falar todas as línguas. Guardei o turismo e as fotos para o dia seguinte, pois teria tempo de desfrutar da cidade. Agora o que eu precisava era de uma cerveja, para celebrar os mais de 700km da ligação Lisboa-Madrid, percorridos em seis dias.


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Madrid!


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Vista de quarto


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Bicicleta no quarto #4

Dia 6. Torrijos-Madrid. 90km. (Estrada/Ciclovia) 
 
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