Projecto Caramelos: Dia 5 - Daquilo De Que São Feitos Os Sonhos

@ Lisboa Bike

Publicado em 17/07/2021 às 23:41

Temas: bikepacking viagem

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What? Nunca comeram feijoada na cama?


O Sol vai baixo e as sombras alargam-se pelas concorridas ruas do centro da capital espanhola. A bicicleta rola sem esforço pelo empedrado polido, o som da roda livre ecoando docemente nas paredes das casas centenárias. Desvio-me dos transeuntes com movimentos fluídos e elegantes, mantendo um ritmo suave mas constante. Sei, sinto, que estou a chegar. "Calle Victoria" leio numa placa na esquina de uma rua pedonal. Apropriado. Cá estamos. Entro na rua, a escassos metros da Puerta del Sol, o ponto mais central da capital do reino. Percorro os últimos metros entre esplanadas e um mar de turistas. A luz é simplesmente perfeita e de algum lado escuta-se o início de "In your eyes" de Peter Gabriel. É então que a vejo. Os cabelos cor de cobre resplandecem no contra-luz do final de tarde. O colorido vestido de verão destacando a sua silhueta na rua apinhada. Os nossos olhares cruzam-se, atraídos por alguma força invisível. "Estás atrasado", diz ela, esforçando-se por esboçar o seu melhor ar reprovador, mas não contendo o sorriso. 


Não chego a articular a minha resposta, que antevejo ser hilariante e charmosa, pois há um crescente som irritante que monopoliza a minha atenção. Não percebo de onde vem, mas parece conhecido... Instintivamente, silencio o alarme do telemóvel e levo alguns segundos a reconhecer o que me rodeia. São seis da manhã e ainda está escuro lá fora. Acendo a luz e levanto-me a custo da cama. Esforço-me por recordar que estou numa casa rural em Oropesa, uma pequena terra da província de Toledo, bem no meio do Grande Deserto Espanhol. 


Arrasto-me para o WC, mas as pernas pesam-me como dois marcos dos descobrimentos, e tenho o equilíbrio de um marujo bêbado recém regressado da carreira da India.  Tenho muita sede, embora me lembre de me ter hidratado bem a noite anterior. Lavo os dentes e constato que, de alguma forma, tenho a boca cheia de sangue seco. A próxima etapa da minha higiene matinal não é mais animadora: pelo quarto dia consecutivo, a minha urina é da cor de Earl Grey. Saio da casa de banho a murmurar alguma coisa sobre "isso não deve ser bom". Ao lado da janela aberta, repousa o Dentuça. O seu olhar parece questionar: "O que é que estamos a fazer?"



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#3 Bicicleta cá dentro


Não tenho resposta. Por isso limito-me a prosseguir mecanicamente com as arrumações. Tomo o pequeno almoço que tinha preparado e saio para a rua pelas sete da manhã. A esperada brisa refrescante não se materializa. Mesmo a esta hora, o dia está abafado. Nada posso fazer quanto a isso, mas posso acelerar o ritmo enquanto o Sol não me queima as pestanas. 


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Habitual reabastecimento num posto de combustível


Sigo meio macambúzio pela estrada fora. Aos poucos os músculos começam a responder melhor e consigo manter um ritmo confortável. Pela hora do almoço rolamos pela cidade de Torrijos, feia como poucas. Metade dos estabelecimentos comerciais estão encerrados, entaipados. E não é coisa recente, nem efeitos do COVID, alguns dos graffiti que "decoram" estes estabelecimentos têm décadas. Há edifícios de habituação no mesmo estado. E isto no centro, nos arredores o panorama ainda é mais deprimente. Mas o calor aperta e eu não quero outro dia a terminar tarde, comigo a transformar-me numa papa, rodeada de uma poça de suor. 



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Sombras e bancos! Foi a única vez que vi tal coisa!



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Mais um dia no deserto



Faço uma reserva pelo telemóvel para um hotel, convenientemente situado ao lado de um armazém, uma bomba de gasolina (da Galp!) e uma lavagem automática, e minutos depois estou na recepção. É um alívio sair do Sol da tarde! Descanso um pouco antes de voltar a sair, já trajando à civil, para conhecer a zona. Há um interessante stand de carros clássicos, exibindo um Clio Williams e vários Mercedes dos anos setenta, apetitosos, tudo rodeado por um matagal descontrolado, que parece saído de um filme pós-apocalíptico. E um supermercado para grossistas onde comprei uns petiscos a baixo preço, aparentemente safando-me da questão de não ser comerciante, não estar registado e não ter um NIF espanhol, por ser um turista parvo, o que suponho seja justo.

Refugiado no meu quarto de hotel climatizado, comendo várias excelentes iguarias, como uma feijoada, de lata, fria, pondero a cordura das minhas últimas decisões. Apesar de tudo estou vivo, estou inteiro, e pelo menos agora sei porque o Deserto Espanhol não parece ser grande coisa de destino turístico, e menos ainda para ciclistas. Amanhã, salvo algum imprevisto, estarei em Madrid. O GPS diz que serão apenas 86km de caminho, o que pode correr mal?

Dia 5. Oropesa-Torrijos. 107km. (Estrada) 
 

Projecto Caramelos: Dia 4 - Na Autoestrada, a Fugir à Polícia, com um Pneu Furado

@ Lisboa Bike

Publicado em 16/07/2021 às 23:02

Temas: bikepacking viagem

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Caramelos?


Decidido a evitar mais apertões de calor e surpresas tardias na jornada, na manhã do quarto dia levantei o rabo da cama o mais cedo que consegui. Tomei o pequeno almoço, incluído na estadia, tão cedo quanto era permitido e fiz-me à estrada. Desta vez tinha alojamento reservado, e estava decidido a ter um dia diferente. Para minha surpresa consegui mesmo fazer a navegação para fora da zona urbana de Trujillo sem percalços. Normalmente o meu GPS não permite esses luxos, mas naquela manhã tudo corria sobre rodas.


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Rumo a Este, como sempre


É claro que esta bonanza não poderia ser duradoura. Depressa percebi que a altimetria para a jornada era mais desafiante que nos dias anteriores. E o que não mudava contudo, era a temperatura elevada, e as grandes distâncias entre terras, amplos espaços onde não havia nenhuma possibilidade de descanso, refugio do Sol ou reabastecimento. O Deserto Espanhol, como lhe chamam alguns Portugueses de passagem, a caminho de destinos mais populares na Península Ibérica, faz jus ao seu nome.


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Olha, montanhas!


A manhã foi gasta a deambular por estradas de montanha, a ritmos muito lentos, enquanto a temperatura ia aumentado, até ficar intolerável. Continuava a não haver sombras para parar, nem lugares onde obter água ou comida. O desgaste era grande e o moral da expedição ia descendo ao ritmo que desciam também as reservas de líquidos disponíveis a bordo. Começava a ficar claro que, mais uma vez, não ia conseguir arrumar a etapa a tempo de evitar o calor infernal da tarde, no Deserto Espanhol.


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As coisas não são fáceis no deserto


Umas bombas de gasolina foram a minha salvação. Estava a ficar viciado em Aquarius, a coisa mais parecida a uma bebida energética que era possível encontrar em quase todos os postos de abastecimento de combustíveis. Eventualmente a estrada "alisou", depois de uma longa descida, onde cheguei a passar dos 75km/h. Tinha voltado a ficar sem almoço pois não encontrei nada pelo caminho na hora apropriada, estava a ficar frito pelo Sol, mas sabia que já estava perto do destino.


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Sombra! Para a bicicleta...


Eu claramente já estava acusar o desgaste do calor, do esforço e da falta de comida. Foi neste estado que rolei até um cruzamento onde a estrada em que eu estava continuava para Oeste, coisa que não me interessava nada. Eu tinha que virar para Este, no sentido de Talavera de la Reina e Madrid. A minha dormida para a noite era em Oropesa, uma cidade a meio caminho. Rolar no sentido contrário era andar para trás,

Para Este, na direcção certa, a única estrada era a Autovía para Madrid, a A-5. Autovía é o nome dado à rede de autoestradas gratuitas, que ligam Madrid com o resto do país. Eles também têm estradas a que chamam mesmo "autoestradas", mas tecnicamente são a mesma coisa. Logo, não é permitida a circulação de bicicletas em nenhuma destas vias. Mas era para aqui que o GPS insistia que eu deveria ir, e francamente, eu não estava a ver alternativas.


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O dilema



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O percurso que eu fiz


Consultei o Google Maps, que me indicou que eu, de facto, deveria mesmo virar à direita, para Este, para a autoestrada! Não podia ser. E no entanto, fazia sentido e não parecia existir alternativa. De notar que o processo de tomada de decisão decorria junto ao cruzamento, à torreira do Sol, já que como era costume, não havia nem um palmo de sombra em lado nenhum. 

Era tarde. Apesar de eu ter começado cedo, o dia já ia longo. Pressionado pelo calor, tive um momento "fuck it", e abalei a toda a velocidade para a Autovía. Tudo o que eu sabia era que sombra, água e descanso ficavam mais perto naquela direcção. Mesmo que esses luxos fossem obtidos numa esquadra da polícia, sempre era uma melhoria em relação à minha situação actual. A minha análise risco-benefício não era assim tão má.

Na autoestrada fui recebido por um ensurdecedor coro de buzinadelas. Ninguém abrandou nem nada do género, mas imensos automobilistas buzinaram para me avisar do meu "erro". Eu ignorei tudo e todos e rolava na berma a velocidades próximas dos 40km/h. Àquela velocidade depressa estaria debaixo de um belo duche gelado no hotel que tinha reservado e poderia esquecer aquele incidente. 


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A Autovía à esquerda


Mas claro, não poderia ser tão fácil. Estava a ensaiar mentalmente o que diria aos policias quando chegassem, coisas como "custava assim tanto plantarem umas árvores para dar sombra?" ou "quem é que foi o palhaço que desenhou a vossa rede de estradas?" quando o som inconfundível de um furo me chegou aos ouvidos. A rolar a toda a velocidade na berma, tinha passado por cima de alguma porcaria e o pneu traseiro começou a perder ar de forma audível. O líquido anti-furos não estava a funcionar e em pouco tempo estava a rodar encima do aro.

Abrandei o suficiente para não dar cabo da roda traseira, mas não parei. Não me pareceu boa ideia parar na AE... Depois reparei que havia uma área de serviço não muito longe e arrastei a bicicleta ferida até lá, instalando-me rapidamente num cantinho onde não estorvava ninguém. Debaixo do olhar curioso de camionistas, desmontei o que pude da bicicleta carregada e removi a roda traseira. 

Não tinha ar. O tubeless estava frito e ia ter que colocar uma câmera de ar, mas resolvi tentar pelo menos voltar a encher de ar e ver se a coisa aguentava. Mas por mais que tentasse, parecia que a minha bomba de ar também não estava operacional. E agora eu sentia que estava a perder rapidamente o controlo da situação. Olhei para cima e questionei "Não tens mais nada para mim agora?" 

E nesse momento, um carro patrulha da Guardia Civil entrou na área de serviço.


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O caminho para "casa"


Os agentes olharam para mim, e foram à sua vida. E isso deixou-me a pensar. Normalmente em Espanha não há a balda que se vive em terras lusas, se eles me ignoraram era porque deveria haver uma forma legítima de chegar ali, que justificasse a minha presença na área de serviço. Coloquei a câmera de ar no pneu de trás, montei tudo de volta o melhor que pude e fui dar mais uma olhada no Google Maps.
 
Só nessa altura é que eu percebi. Paralela à Autovía, ao longo de vários quilómetros, seguia uma pista de gravilha, onde era permitida a circulação de veículos. Tinha sinais de trânsito e tudo. Essa pista passava por trás da área de serviço e justificava a minha presença no local. E a de eventuais tractores e maquinaria agrícola. O piso de gravilha era mauzito, um bocado no limite para os meus pneus finos, já para não falar para o meu nível de desgaste naquele momento. Mas era uma alternativa à AE!


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Vista à chegada a Oropesa


E foi assim que, depois de reparar a minha mini-bomba e enchido por fim o pneu traseiro, fiz os últimos 30km a rolar em verdadeiro gravel. De vez em quando tinha umas atrevessadelas mais cabeludas, já que a tracção com pneus estreitos e lisos não era a melhor. Mas era suficiente. E por aquelas alturas, suficiente ia ter que chegar.

 
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Já fiquei em sítios piores



Dia 4. Trujillo-Oropesa. 128km. (Estrada/AE) 
 

Projecto Caramelos: Dia 3 - Um Gajo Vai Ter Que Se Chatear

@ Lisboa Bike

Publicado em 15/07/2021 às 23:31

Temas: bikepacking viagem

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Trujillo!


A manhã não começou muito cedo para mim. Eram já nove horas quando pus as rodas na estrada nacional 251, rumo a Cáceres. Para mais, não tinha tomado o pequeno almoço. Havia um restaurante no hotel onde tinha dormido, mas a comida gordurosa do jantar na noite anterior e a sensação de ter sido enganado com a conta, não me davam vontade de lá regressar.  Assim, fui rolando, até à vila de Malpartida de Cáceres. 

Aqui consegui um pequeno almoço decente. E tive a companhia de um colorido local, um sexagenário de chapéu de couro e pele curtida pelo Sol, que assim que percebeu que eu era um ciclista, fez questão de me contar a sua epopeia de viagem de bicicleta, de regresso dos Picos de Europa à Extremadura, depois de ter sido defraudado do seu salário. Sem comida e sem dinheiro, nos nos anos setenta, ele lá conseguiu fazer o seu caminho até casa. Mais engraçado eram os comentários do empregado, que parecia ter bastante confiança com o velhote, que tudo indicava ser um cliente muito regular, pois interrompia o relato com frequência, para levantar dúvidas sobre a veracidade dos factos: "Trabajar? Pero si tu nunca hás trabajado un día en la vida?!"


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Rolando no Grande Deserto Espanhol


Não muito depois estava em Cáceres, e atravessei de uma lado a outro esta bonita capital provincial. Aqui dei conta do estranho habito dos espanhóis para usar máscara facial mesmo quando correm ou andam de bicicleta. O facto de eu não fazer o mesmo levantava alguns olhares desconfiados, mas eu continuei a só usar a máscara quando desmontava, já que fazia alguma questão, pelo menos de momento, de continuar a respirar. 


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A Autovía A-58

Continuei pela estrada nacional, que por momentos seguia paralela à Autovía A-58, pelo que o trânsito era inexistente. Depois virei para Norte, rolando por estradas mais remotas, já que a Nacional não seguia para os meus lados. Este giro forçado levou-me até La Aldea del Obispo, onde entrei pela hora do almoço. O Sol ia alto, o calor apertava e eu continuava sem grandes energias.



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A paisagem rumo a La Aldea del Obispo


Ao atravessar a aldeia, encontrei por acaso um alojamento de turismo rural,  aparentemente especializado em observação de pássaros. Estavam vazios e a simpática senhora que me atendeu teria todo o gosto em alojar-me por aquela noite. Achei que precisava de descansar e um dia mais curto era mesmo o que estava à procura. Tendo em conta as distâncias entre terras, o calor abrasador e a dificuldade em encontrar comida e água entre cidades, a ideia de tomar refúgio naquela vila simpática agradava-me imenso. 

Mas não estava nas cartas. Os sorrisos desapareceram quando tentei pagar o alojamento com cartão de crédito. Não era possível. Aliás, não aceitavam pagamento de nenhuma forma que não fosse em dinheiro vivo. Eu não costumo andar com muito dinheiro, e perguntei onde era a caixa automática mais próxima. Não havia. Na próxima terra, talvez. A 30km. 


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Hora do Almoço


Consultei a internet e verifiquei que existia alojamento abundante na próxima terra, Torrecillas de la Tiesa. Tinha pena de não ficar naquela Casa Rural, mas pronto, seriam só mais 30km, segundo a senhora. E era de facto mais ou menos isso. Mas em Torrecillas todo o alojamento estava tomado de assalto por um enorme exército de trabalhadores de um gigantesca central de energia solar em construção nas redondezas. Não havia vagas em lado nenhum. 

A hora de almoço tinha chegado e passado, o dia ia longo e eu ainda não tinha alojamento. O Google mostrava que não havia alternativas de nenhum tipo na zona, a não ser a cidade de Trujillo, que ficava fora de caminho. Liguei para a casa rural de La Aldea del Obispo, depois de ter levantado dinheiro na única caixa automática da zona, mas não tive muita sorte. A senhora informou-me que já tinha saído, que morava longe e portanto já não voltava. Tinha aquele tom de voz de "temos pena". 


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Trujillo!


Rabujento, esfomeado, a ser literalmente queimado pelo Sol da tarde, fui obrigado a andar para trás, para chegar à cidade histórica de Trujillo, onde tinha reservado alojamento pelo telemóvel. Mais uma vez, pelo caminho não se encontrava nenhum sítio onde se pudesse parar, nenhuma sombra, nenhum estabelecimento para comprar bebidas, nada. Só o escaldante deserto espanhol. Eu juro que vi mesmo arbustos secos a rolar na estrada deserta, e abutres a sobrevoar-me, para completar o panorama do Oeste selvagem.
 
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As gentes de Trujillo...


O que vale é que Trujilho, a terra natal de vários Conquistadores Espanhóis, é muito bonita. A cidade parecia deserta, mas eu estava a costumar-me ao facto dos espanhóis evitarem andar na rua entre as 10 e as 19 horas, para não terem que lidar com o Sol absolutamente escaldante destas paragens. Dei umas voltas e fui ao supermercado comprar comida a devorar no hotel, bem como abastecimentos para o dia seguinte.   


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Bicicleta no quarto #2


Dia 3. Aliseda-Trujillo. 127km. (Estrada) 

 

Projecto Caramelos: Dia 2 - Para lá da Fronteira

@ Lisboa Bike

Publicado em 15/07/2021 às 13:41

Temas: bikepacking viagem

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Caramelos?


Gostava de dizer que acordei rejuvenescido depois de uma boa noite de sono, mas no mundo real, as coisas nem sempre funcionam assim. Sendo certo que tive direito a umas oito horas de descanso, a verdade é que acordei a sentir-me letárgico, completamente sem energia. Parecia claro que o corpo ainda acusava o esforço do dia anterior. 


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A vastidão do Alentejo


A manhã foi muito bem passada, fiquei a conhecer todos os pontos de interesse da zona, que incluem  pinturas rupestres e uma fronteira muito original, à qual voltaremos em breve. Foi engraçado o contraste do passeio com amigos, (incluído o latifundiário conhecedor da zona), versus o tempo passado em modo bikepacker, em que raramente tenho companhia nem a oportunidade de ficar a conhecer tão bem uma zona, mesmo que lá durma. 

São obviamente dois modos de viagem bem diferentes, o passeio com amigos, e a aventura na bicicleta, em solitário. Sou grande apreciador de ambos, e naquela manhã quente, as minhas preferências por boa companhia e o uso de carro para as deslocações maiores eram evidentes. Fui ficando e depois do almoço ainda lá estava, à conversa. Fiz o meu melhor por disfarçar os meus anémicos níveis de energia e o fraco entusiasmo pelos quilómetros que estavam para vir, mas chegou a altura em que a partida era inevitável.  


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Tudo preparado. Tudo menos eu!


Foi com algum esforço disfarçado que me despedi dos amigos e montei na bicicleta, agora cerca de oito quilos mais pesada, devidamente apetrechada com o conjunto completo dos meus sacos, que incluíam material de campismo. Mas pouco depois, o entusiasmo familiar de me encontrar em estrada aberta, em autonomia completa, veio ao de cima. As dúvidas e hesitações ficavam para trás, arranjaria forma de manter as pernas em movimento. Havia uma fronteira para passar, e depois disso, o mundo era a minha ostra.


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Sim, esta é a fronteira!


Cerca de 5km depois estava na "ponte internacional mais pequena do mundo", e cruzava a fronteira no Marco, entrando na Extremadura Espanhola. Parece ridículo afirmar que imediatamente se nota a diferença, mas essa é a realidade. Duas coisas depressa se tornam evidentes do outro lado da linha imaginária inventada pelos nossos antepassados: o ordenamento do território e a civilidade dos condutores. Parece que em Espanha se leva muito mais a sério a obrigatoriedade de garantir uma distância mínima lateral de segurança ao ultrapassar um velocípede, mesmo no fim do mundo que é esta zona fronteiriça. Em ambos os países essa distância são 1,5 metros, mas por vezes acho que em Portugal ninguém o sabe.

Quanto ao ordenamento do território, em Espanha, como na maior parte da Europa civilizada, não se pode construir em qualquer lado, nem de qualquer maneira, como acontece em Portugal. Por isso, saindo das vilas, não se encontra absolutamente nada senão campo. Não há casas dispersas nesta zona. Não há cafés da beira de estrada, não há barracões, não há oficinas, nem roulotes, nem pessoas a vender coisas na berma da estrada... nada.   



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A estrada para Aliseda


Após os primeiros momentos iniciais de apreço pelo arrumadinhos que são os espanhóis, aos poucos um problema começava a tomar forma, e seria uma questão com implicações duradouras. É que quando eu digo que não havia nada, para além do tapete de asfalto, é que não havia mesmo nada. Nada! Não se encontravam parques de merenda, não havia abrigos de paragem de autocarro, não havia bombas de gasolina, nem quaisquer zonas com árvores ou qualquer tipo de sombra, em lado nenhum. Só o asfalto e uma planície infinita de campo, sempre atrás de uma cerca de arame farpado. 

A única alternativa era continuar a pedalar até à próxima terra. Tendo arrancado apenas pelas 16:00h, era assumido que o dia na estrada seria de poucos quilómetros, e assim fiquei-me pela pequena cidade de Aliseda. Esperava que tendo feito apenas cerca de 70km, o meu corpo não tivesse problemas em recuperar para as etapas maiores, debaixo do Sol escaldante do grande deserto espanhol, que se avizinhavam.


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Bicicleta no quarto #1


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Camas separadas!


Dia 2
. Esperança-Aliseda. 69km. (Estrada)

 

Projecto Caramelos: Dia 1 - O Homem da Marreta

@ Lisboa Bike

Publicado em 13/07/2021 às 22:58

Temas: bikepacking viagem

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Caramelos?


As coisas começaram de forma bem inocente, como quase sempre acontece. Tinha feito planos para acompanhar um amigo na sua deslocação de bicicleta ao seu lar ancestral do Alentejo. Éramos 3 ao todo, em bicicletas de estrada, e o plano era fazer a distância, cerca de 200 redondos quilómetros, num só dia. Por responsabilidades e coisas da vida, o meu amigo acabou por fazer a viagem de carro, em data inadequada para os restantes, mas eu estava decidido a ir de qualquer forma. 

E depois, já que ali estava, imaginei que seria fantástico aproveitar a proximidade à fronteira para dar um "saltinho" a Madrid e visitar mais uns amigos por lá. Afinal, no mapa eram apenas mais 400Km a solo, depois de ultrapassado o obstáculo do primeiro dia. Tinha planeado uma semana na estrada ao todo, e cerca de 700 quilómetros de caminho. Preparei o equipamento do costume, de onde apenas havia a destacar uns pneus ligeiramente mais estreitos e mais lisos, uns GravelKing de 32mm, montados como sempre Tubeless.

 

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"Isso é tudo muito giro, mas aqui há AC!"

Para a longa primeira etapa, sendo que teria companhia, e carro de apoio, iria mais leve, sem os meus sacos, para mais facilmente fazer as tais cerca de duas centenas de quilómetros a um ritmo decente. No carro seguia também o Dentuça, talvez achando que já me aturaria o suficiente na semana que estava para vir. Ou talvez preferindo a companhia das "babes", como ele diria. Conhecendo quem lá estava, não sei se ele se safou com o estilo abusado do costume. Aliás, até hoje não sei bem como lhe foi o dia, a verdade é que ninguém está a falar. 


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A caminho do Montijo


Arrancando de casa num Sábado de manhã, a horas pouco recomendáveis, e apanhando o barco das 08:00 para o Montijo, tudo corria sobre rodas, não fosse o habitual comportamento cavernícola de muitos automobilistas da margem Sul, que parecem ter recentemente perdido a namorada para um ciclista. Ou talvez um ciclista lhes tenha roubado o bilhete vencedor do Euromilhões. Não sei. Não consigo explicar de outra maneira o nível de agressividade e ignorância de alguns condutores da zona. Alguns faziam mesmo questão de abrandar, num coro de buzinadelas, para nos "informarem" de que não podíamos circular a par ou que estávamos obrigados a rolar na "ciclovia" de 25m, cheia de carros e lixo, que o cacique local tinha construído com o apoio técnico de um fulano que, certa vez, viu uma bicicleta.


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Mais de 100Km, e ainda há sorrisos


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Almoço!

O ritmo era sempre alto, pelo menos para mim, mas eu rolava protegido na roda do meu amigo João, onde passei aliás 99% do dia. O percurso era bem a Norte da Nacional 4, onde eu tenho alguma experiência, e que por isso mesmo decidimos evitar, passando por Mora, onde nos cruzamos com inúmeras motos. Era o Lés-a-Lés deste ano! Na paragem para almoço, em Pavia, mais de 100Km feitos, tudo ia bem. E aquela bifana soube divinamente. O pior ainda estava para vir.


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Sem sacos de bikepacking é mais fácil!


O calor apertava, não havia sombra nem forma de nos esquivarmos ao aperto constante do Sol. Mas tínhamos água e os quilómetros iam passando. A paisagem ia desfilando a um ritmo muito razoável de 26km/h desde o Montijo. Nem a altimetria nem o trânsito chateavam: rolávamos quase sempre em plano, e poucos carros se viam. Apenas tínhamos que lidar com as temperaturas e manter o ritmo. Apenas.



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Suponho que é nesta altura que tenho de vos apresentar, a alguns de vós pelo menos, à figura lendária do Homem da Marreta. Sim, o Homem da Marreta. Trata-se de uma personagem mitológica, tipo um Yeti da estrada nacional, ou um Big Foot das subidas de dois dígitos de inclinação. Não há provas da sua existência, mas não falta quem tenha sentido a sua presença. O Homem da Marreta é um retro-grouch, um ciclista old-school (e mais outros anglicismos que agora não consigo, assim de repente, invocar), um tipo tão duro como um marinheiro do Pequod e com o nível de empatia do Soup Nazi.

O Homem da Marreta espera pacientemente, atrás de uma moita ou a seguir a uma curva apertada, por aqueles ciclistas incautos, que não são rijos o suficiente, que não acautelaram a hidratação, não comeram como deviam, ou simplesmente se aventuraram mais longe do que a sua forma física permitia. E naquele dia, foi o meu caso. Por volta do Km 170, deixei de conseguir ir na roda do João. Tudo ficou penoso e lento e complicado. Não tinha posição na bicicleta, todas as posturas eram incómodas, o meu pé direito inchou e parecia que não cabia no sapato, o meu traseiro perecia que estava sobre umas brasas quentes. 


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Acho que me voltei a esquecer do protector solar...


Tudo o que podia fazer era arrastar-me, a velocidades ridículas. E arrastei-me mesmo até ao fim, que para o caso era num monte junto à aldeia de Esperança, a um punhado de quilómetros da fronteira espanhola. Dei por mim deitado no banco de trás do carro de apoio, pois estar de pé era demasiado cansativo, enquanto se discutiam pormenores do jantar que viria a seguir. Eu pensava era em como ia conseguir fazer, já sem sem apoio, os quilómetros que tinha pela frente. Parecia que a minha boca tinha andado a passar cheques que o meu corpinho ia ter sérias dificuldades em pagar. 


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Fim de dia no Alentejo


Dia 1. Isaltinistão-Esperança. 201km. (Estrada) 

 

Ecopista do Dão : Bicicleta + Comboio

@ Eu e as minhas bicicletas

Publicado em 11/07/2021 às 23:05

Temas: comboio cp dão ecopista viseu

Andava com esta ideia fisgada há que tempos de pegar em mim e numa das bicicletas e fazer a Ecopista do Dão ali na antiga linha férrea entre Santa Comba Dão e Viseu... e surgiu uma oportunidade de uma escapadinha de fds com o meu primo N, que é como um irmão mais velho, e com quem não tenho passado tempo a não ser em esporádicas visitas. O meu bro V também devia ter vindo, mas "prontos", não deu!

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ver info:

-  Ecopista do Dão no site da IP

- https://ecopistadodao.pt/

- ver videos no youtube da Ecopista do Dão

Lancei o desafio que foi aceite e começámos a planear com entusiasmo a viagem, com tempo e controlando as evoluções da pandemia e demais restrições neste Verão de 2021.

A ideia era simples, ir no Sábado de manhã de comboio, fazer a Ecopista do Dão de Santa Comba Dão até Viseu, devagar devagarinho que afinal são apenas quase 50kms, de entre as 10h15 a meio da tarde, ficar alojados em Viseu de Sábado para Domingo, jantando lá, dormir, acordar, almoço e rolar de volta devagar devagarinho de Viseu para Santa Comba Dão, para apanhar o comboio de volta.

Eu já tinha ideia de ir de casa apanhar o comboio de bicicleta algures numa estação de Lisboa, para evitar ter de levar o carro, mas o meu primo pelas indisponibilidades ou até ausência de alternativas lá teve de ir de casa de carro até ao comboio em Santarém. Daí seguimos juntos.

Comprámos antecipadamente e com desconto as viagens no site da CP, para garantir o lugar da bicicleta, pois apesar de ser gratuito (que pessoalmente discordo, deveria ser pago mas com muitos mais lugares e de forma a garantir que houvesse oferta e não ficasse ao sabor dos humores dos revisores - no caso dos Regionais e Inter Regionais onde não há possibilidade de compra prévia)... dizia eu, apesar de ser gratuito tem de ser reservado. Nos Inter-Cidades existe um limite de duas bicicletas por carruagem. O que é manifestamente pouco.

Ver info no site da CP.pt

Para ter a garantia do transporte das bicicletas optámos pelos Inter-Cidades, sai de Lisboa às 7h39 e chega a Santa Comba Dão pelas 10h12 de Sábado. A vinda seria Domingo pelas 19h37 chegando a Lisboa pelas 22h22. Há outros comboios, os Inter-Regionais, mas garantia de transporte de bicicleta não há :(

Fiz um pouco mal as contas no Sábado, e demorei quase uma hora de bicicleta de minha casa à Estação do Oriente, pelo que cheguei com o coração a bater forte, e ainda por cima com uma chuvinha molha-tolos irritante. Mas cheguei a tempo, 3 minutos antes, e lá apanhei o comboio a caminho de Santa Comba, apanhando o primo pelo caminho em Santarém!

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Chegados à estação de Santa Comba Dão, que não é mesmo em Santa Comba mas nos arrebaldes, não existe nenhuma tabuleta que indique a Ecopista, mas sabendo de antemão e até seguindo outros ciclistas já conhecedores no momento, é indo para o final da plataforma seguindo o sentido do comboio, para norte.

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Uma das coisas que aconselho é levarem comidinha, pois não encontrei muita informação sobre cafés ou restaurantes pelo caminho. A não ser que queiram fazer desvios da Ecopista é melhor levarem farnel.

Os melhores spot para comer no curso da ecopista são em Farmilhão e Figueiró, ambos na zona norte. 

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A nossa ideia era mesmo ir a conversar, desfrutar, passear, devagar, na natureza, pelo que não tinhamos pressas e horas para cumprir, levámos alguma comida e bebida para estarmos sem necessidade de desvios ou acelerar para os cafés e outros locais de comezaima no caminho mas mais para lá de meio da Ecopista.

O que já tinha visto noutros blogs e videos e fóruns é o mau acesso da plataforma da estação de comboio à Ecopista. Muito mauzito mesmo. Já podiam ter resolvido isto... Uma pessoa com cadeira de rodas esquece, um carrinho de bebé é preciso fazer ginástica... enfim, mau! Ainda são uns 200 a 300 metros disto, terra batida com calhaus soltos e gravinha. Baah! 

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Depois de entrar, é rolar! A pendente/inclinação é a subir no sentido Viseu mas quase nem se nota... aliás, nós só notámos à vinda, pois as bicicletas rolavam embaladas com a parca inclinação que não sentimos no dia anterior. Impressionante... não custa nada. 

A Ecopista atravessa 3 concelhos, e cada qual tem a sua cor pintada no pavimento: Azul para Santa Comba Dão, Verde para Tondela e Vermelho para Viseu.

As cores estão desbotadas, sendo que onde tem as cores vivas são os trechos que tiveram manutenção mais recente, mas toda a Ecopista é de piso liso e rolante, não tem troços de terra batida - exceto onde as águas pluviais trazem as areias dos montes que os eucaliptos destroem as terras (enfim).

Tem pontes, tem túneis, tem retas (pequenas), tem cercas, tem vistas largas, tem passagem aberta na pedra, tem árvores com belas sombras, tem partes sem sombras, tem casas e terreólas, tem partes sem viválma, tem rebanhos de cabras, tem aves de rapina - não vimos cães, só ouvimos ao longe.

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Pernoitámos em Viseu, na Albergaria Hotel José Alberto, mais ou menos no centro, mas de distância a pé ao centro, onde jantámos e deambulámos (pelo Rossio, Parque da Cidade, mercado, zona da Sé).

Tinhamos previamente validado que podiamos ter espaço para guardar as bicicletas e tudo correu bem!

Simpatia do staff, localização e preço/qualidade muito bom.

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Com os COVIDs as unidades hoteleiras tiveram de se adaptar e assim não há buffets para ninguém, escolhes do cardápio e de manhã entregam o pedido. Mas o pequeno-almoço estava bom e simpaticamente indicaram que podiamos repetir o que quisêssemos. 

No dia seguinte era para almoçarmos em Viseu, mas com os planos furados, resolvemos ir andando devagar devagarinho, agora no sentido descendente... e claramente apesar da nossa surpresa a pendente é mesmo muito a descer, mas no dia anterior nem notámos que subíamos tal a suavidade que foi - afinal era a linha do comboio, há muitos muitos anos.

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O regresso foi mais rápido, será por irmos embalados a descer para sul seguindo o curso da água?! e rapidamente sem querermos chegámos a Santa Comba Dão onde esperámos pelo IC rumo a Sul e lá fomos de volta a casa com o coração cheio pela companhia um do outro e do passeio pela natureza de forma suave e sustentável. HAPPY DAYS!


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Dicas:

- Vão de comboio se puderem, ou até de autocarro; Comprem bilhetes para reservar o transporte de bicicleta, não arrisquem, pode correr menos bem;

- Façam em um fim-de-semana, ida no sábado e volta no domingo, devagar e sem pressas, sozinhos, com amigos ou família;

- Levem comida e água, não há lá muitos locais para refeições pelo caminho; os que há são já mais para meio em diante na parte de Tondela e de Viseu;

- Primavera ou Outono é capaz de ser melhor, nós apanhámos um dia de Verão muito ameno, mas com calor deve ser chato de fazer;

- Have fun! Ride bikes!

 

No País dos Rodinhas Tudo Corre Sobre Rodas

@ Lisboa Bike

Publicado em 30/06/2021 às 19:53

Temas: activismo ditadura do automovel

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DR


Não costumo falar destas coisas, mas esta situação é demasiado triste e acontece demasiado perto de casa, literalmente. Para mais, acabado de regressar de uma viagem pelo país vizinho, que penso trazer em breve a estas páginas, há realidades que saltam à vista e têm que ser mencionadas.

Em primeiro lugar, as minhas sentidas condolências e uma palavra de apoio para os familiares e amigos da Patrizia Paradiso, a ciclista abalroada por um automobilista na Marginal no fim de semana passado. Quando falamos destas coisas, é fácil passar rapidamente para as questões prácticas, técnicas e até morais da discussão. Nunca será demais lembrar que se extinguiu uma vida, ou duas neste caso, já que a Patrizia se encontrava grávida. Talvez por isso, e por se tratar de uma jovem académica, e uma pessoa que parecia ter muito para contribuir para a sociedade, tem havido um maior interesse mediático neste caso. Pensem na tragédia que este acidente significa, para os familiares, os colegas, os amigos da Patrizia. O impacto que terá nas próximas semanas, meses e anos das suas vidas.

E no entanto, lendo sobre o assunto, e sobre a temática em geral, somos imediatamente recordados que como estas coisas são tratadas em Portugal. É como se existissem uma série de consensos à priori, que moldam invariavelmente a discussão. Quem ler como a comunicação social aborda estes temas, encontra sempre dois elementos em comum:

  • Uma vontade irresistível de culpar a vítima. Ou pelo menos os ciclistas em geral. Porque "eles" saltam vermelhos, não usam luzes, não usam coletes reflectores, não circulam suficientemente encostados à berma, etc. (No fundo, porque existem).
  • A mesma vontade de desculpar o automobilista. Porque a estrada era estreita. Porque havia má visibilidade. Porque a diferença de velocidade era muito grande. Porque as condições climatéricas eram más, etc. (No fundo, porque não têm culpa que "eles" existam).

Os próprios ciclistas, que, recordemos, são na maioria das vezes também automobilistas, se dividem. Por exemplo, os apologistas da obrigatoriedade do uso do capacete parecem sentir um alívio intenso, se souberem que a vítima em causa não levava capacete. Assim podem viver na ilusão de estarem eles próprios completamente seguros, sempre que saem para a estrada com um pedaço de esferovite na cabeça. 

Há um par de semanas eu cruzei uma obscura fronteira no Alentejo e entrei na Extremadura Espanhola. Imediatamente me senti brindado por uma tremenda "cortesia" por parte dos automobilistas locais. A distância lateral que 95% deles me davam durante as ultrapassagens era, parecia-me, gigantesca. Um luxo, pensava eu. Toda a viagem me senti incrivelmente seguro, mesmo que não se visse nem mais um ciclista por aquelas paragens. Em Portugal, mesmo em zonas onde os ciclistas são presença habitual, as razias ao meu guiador são um acontecimento frequente. Ninguém é penalizado, e os automobilistas parecem desfrutar de "apertar" com o ciclista. 


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A sinalética não abunda por cá, mas as regras são as mesmas


Passados um dias, e pensado sobre o assunto, constatei o obvio. Aqueles automobilistas, de uma das zonas mais pobres e de menor nível educativo do país vizinho, note-se, estavam apenas a cumprir a lei. Sim, porque a lei exige que se abrande e se guarde pelo menos 1,5 metros de distância lateral ao ultrapassar um velocípede. Idéntica legislação existe em Portugal. Mas os portugueses ignoram ou desprezam o código da estrada, e as autoridades não se interessam minimamente por garantir o seu cumprimento. 

Eu passo com alguma frequência no local do acidente da Patrizia, pois vivo muito perto. O limite de velocidade são 50Km/h. Não sendo ideal, e tendo bastante trânsito, não considero a estrada em si perigosa, afinal é plana, com bom piso e boa visibilidade. Sim, as faixas de rodagem são estreitas, como acontece em toda a N6, mas há duas para cada sentido. Por isso mesmo, os automobilistas deveriam mudar de faixa para realizar a ultrapassagem a um ciclista. O código da estrada a isso obriga. Mas o facto é que a maioria das pessoas da zona não se dá a esse trabalho. Menos ainda abrandam. Perderiam um par de segundos e não estão para isso. Muitos circulam em excesso de velocidade. Não poucos limitam-se a poupar a vida do ciclista no último momento, passando a uns míseros centímetros do guiador. 

É tão simples quanto isto: o condutor que atropelou a Patrizia é objectivamente um homicida negligente, era sua obrigação garantir que podia parar em segurança se algum obstáculo lhe surgisse na faixa de rodagem, e devia igualmente garantir que no caso de uma ultrapassagem, esta seria efectuada a baixa velocidade e garantindo uma distância mínima lateral de 1,5 metros do velocípede. Tal não aconteceu, e agora ele é responsável por uma tragédia. Pouco há para discutir neste caso. Como é obvio, este condutor deveria estar neste momento detido, aguardando uma investigação, mas duvido muito que seja o caso. 

Duvido mesmo, por experiência, que este homem venha a ser punido de alguma forma concreta ou sequer simbólica. E é esta ausência de qualquer castigo, qualquer responsabilização, tão portuguesa por sinal, que garante que continuarão a existir estes casos. Porque no fundo basta dizer "não vi" ou "aconteceu tudo muito rápido" e os culpados vão para casa, deixando um rasto de morte e destruição atrás de si. Não é falta de legislação, não é falta de ciclovias segregadas, é a actitude irresponsável de uma enorme fatia da população, que inclui a elite política e o poder judicial, para quem mobilidade é igual a automóvel e para quem as bicicletas são uns brinquedos incómodos, que devem simplesmente sair do caminho, como por magia, quando o veículo dos adultos se aproxima.

 


Pouco mudou. Este é uma país de rodinhas, onde as pessoas persistem em ir a todo o lado de automóvel, e consideram ter uma espécie de direito divino de nunca abrandar e ter lugar de estacionamento garantido a 10 metros do destino. Demasiados cidadãos olham para o mundo a partir desta visão provinciana do novo rico que adora o seu brinquedo mais caro. Um país onde por sistema se ignoram os limites de velocidade, impunemente. Onde diariamente se estaciona de qualquer maneira, em cima de passadeiras, de passeios, bloqueando a passagem em ciclovias, sem consequências. Onde uma enorme fatia da população não sabe, não conhece, não concebe outra forma de deslocar-se que não seja recorrendo ao automóvel. Assim é muito difícil ter uma discussão construtiva. O nível de ignorância em relação à temática dos modos suaves é demasiado grande. 

Num país de analfabrutos, patos bravos, rufiões e chicos-espertos, andar de bicicleta na via pública é de facto arriscado. Mas não será por culpa da legislação, nem sequer da infraestructura, (embora muito se possa fazer neste capítulo) e muito menos dos ciclistas.

 

Projecto Bacalhau: Notas & Fotos Finais

@ Lisboa Bike

Publicado em 16/05/2021 às 16:27

Temas: bikepacking viagem volta a Portugal

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Algumas notas sobre viagens aventura de longo curso e outros projectos assim mais malucos. Cabe talvez realçar que o mais importante nesta questão não são as finanças, ou negociar o tempo suficiente longe do trabalho e de muitas outras responsabilidades. Nem é o treino, a preparação física, a compra do material para a bicicleta, a roupa, o planeamento exaustivo da viagem em termos de geografia, estradas, previsões meteorológicas, cálculo de distâncias diárias, etc. 

Não, por mais trabalhoso que seja resolver estas questões prácticas, que são importantes, o mais complicado é mesmo decidir ir. Parece simples, mas não é. Tem de haver motivação, e essa não surge do nada. É preciso querer mesmo ir, estar motivado é a única forma de sobreviver sozinho, na estrada, dia após dia. Quando as coisas começarem a correr mal, e vão correr mal em alguma altura, não pode haver dúvidas que é ali que queres estar. 

Resolvida esta questão, tudo o resto se torna mais manejável e as coisas acontecem. 

E uma nota final: não esperem que todos compreendam a vossa vontade de devorar quilómetros. Haverá quem vos tente desmoralizar, colocando buracos nos vossos planos. Por vezes é um amigo bem intencionado, que julga que te vai salvar de um embaraçoso falhanço. Por vezes é alguém mais invejoso, que considera impossível que faças algo que ele próprio nunca conseguiria. Eu tive quem me dissesse que a viagem acabaria ao segundo dia na parte de trás de uma ambulância. E tive gente a dizer-me que eu parava demais, que parava de menos, e porque é que não ia a museus, que ia demasiado depressa, que ia demasiado devagar...  

Uma viagem destas é tua, não é de mais ninguém. Seria bonito, mas não esperes que toda a gente apoie a tua decisão. Ela pode parecer a algumas pessoas uma coisa demasiado estranha. E as pessoas não lidam muito bem com o que não compreendem. 

Dito isto, também ninguém faz nada sozinho. Eu contei com o apoio à distancia de vários amigos que vibraram com as noticias do meu progresso e me animaram ao longo do caminho. E do inestimável apoio em coisas mais técnicas do meu amigo João Serôdio, ao contrário de mim, um atleta a sério. Graças a ele, a minha posição na bicicleta estava muito bem afinada e não tive quaisquer problemas físicos. Obrigado João!

Deixo-vos com mais algumas imagens, para quem busque inspiração.


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Projecto Bacalhau: Dia 23 - Até ao Fim

@ Lisboa Bike

Publicado em 15/05/2021 às 15:35

Temas: bikepacking viagem volta a Portugal

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Almada. O Isaltinistão ali tão perto

A manhã do último dia começa em algumas das estradas onde eu mais evitaria pedalar em Portugal. As nacionais ao redor de Sines. Sem bermas, sempre com trânsito relativamente denso e rápido, e com malta que ultrapassa as bicicletas de qualquer maneira. Um TIR passou a milímetros do meu guiador e o Dentuça chamou-lhe nomes que eu nem sabia existirem. Este percurso foi tanto mais inglório porque eu fui mesmo obrigado a voltar para trás. Eu explico: há poucos anos algum iluminado resolveu caçar uns votos "inaugurando" uma autoestrada nesta zona, ou melhor, mudando o nome à antiga estrada de duas faixas por sentido que vinha para Sines, e com a alteração, para sempre banindo os velocípedes de ali circularem.

 

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Por aqui?


Embora tudo indicasse o contrário, eu estava convencido que existiria um caminho para Norte para bicicletas, passando por Sines, mas evitando a dita A26, e o GPS, por uma vez, concordava comigo. O que eu não contava era com o que seria preciso para sair dali sem usar a dita nova "autoestrada". Para o GPS um caminho é um caminho. Mas eu é que tenho que lá passar!


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Por aqui??


Primeiro tive de usar uns acessos a um estacionamento, depois tive de contornar por trilhos a refinaria e os depósitos de hidrocarbonetos de Sines. Mais tarde andei mesmo no meio do mato, usei umas estradas de acesso para trabalhadores da refinaria e depois de circular numa linha férrea encerrada, lá encontrei uma saída para uma estrada nacional que seguia para Norte. 


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Por aqui!


Quando finalmente vi a zona de Sines pelas costas, realmente tinha evitado a autoestrada, mas era quase hora de almoço e o calor apertava. Tinha os pulsos em mau estado, devido ao piso e o terreno que tinha atravessado, e estava a ficar claro que não haveria pausa para almoço, não se eu queria estar em casa, no Isaltinistão, antes de escurecer.


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Hum...


Cheguei sem muitos incidentes a Troia, mas sempre debaixo de imenso calor. O trânsito cada vez mais intenso e os condutores que desprezam a vida dos outros vão tirando alguma piada a circular por estas bandas. Nesta altura ainda faltavam duas travessias de ferry e mais de 40Km para eu chegar a casa, mas eu sentia que era já mesmo ali ao lado.


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No Ferry



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Pronta para os últimos Km


Não era. No Ferry para Setúbal vimos golfinhos e a criançada a bordo correu para ver os simpáticos animais, que pareciam saudar a nossa passagem. Foi um momento de serenidade, que não me preparou para o que viria a seguir. A subida à saída de Setúbal fui brutal. Pouco depois encontrava um trânsito absolutamente infernal entre Setúbal e Almada, em hora de ponta e debaixo de um calor abrasador. Filas e filas de transito caótico, os paquidermes metálicos enfurecidos, que eu contornava e deixava para trás, apesar do cansaço dos mais de cem quilómetros nas pernas.


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De maneiras que foi isto

Suponho que não poderia ser de outra maneira, haveria esforço até ao fim. Em Almada tive de correr para o barco. Uns minutos depois estávamos a ser libertados na outra margem, no Cais do Sodré. O Dentuça exclamou um sentido "I'm back, bitches!" mas a euforia durou-lhe pouco. A rolar lentamente numa Marginal repleta de carros, uma certa melancolia pareceu instalar-se. Parecia incrível estar de volta, mas era verdade, ali estávamos nós, 23 dias e 1900Km depois, practicamente de volta ao ponto de partida. No ar andava uma pergunta, pesada, inevitável, incontornável. "E agora?"

Para libertar a mente destas questões fracturantes, comecei a assobiar o tema de Lucky Luke, como tinha feito em tantos outros finais de dia, nas semanas anteriores. Depressa o Dentuça me acompanhou e juntos cantarolamos pela estrada fora, enquanto mergulhávamos cada vez mais no caos do fim do dia do Isaltinistão. 



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Km finais: 1909


Obrigado a todos os que seguiram esta pequena saga desde o início, espero ter motivado alguém a fazer uma viagem mais longa de bicicleta ou ajudado a esclarecer o que acontece, ou pode acontecer, num tour deste género. Estarei disponível nos comentários para questões que surjam. 

Espero também encontrar alguns de vós na estrada. O tempo está excelente. Boas pedaladas!

Dia 23. Porto Covo-Isaltinistão. 153Km. (Estrada/Trilhos)
 

Projecto Bacalhau: Dia 22 - Roendo uma Laranja na Falésia

@ Lisboa Bike

Publicado em 14/05/2021 às 14:35

Temas: bikepacking viagem volta a Portugal

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Porto Covo


Olhando o mundo azul à minha frente, penso em todos os sítios por onde andamos nas últimas semanas. Do profano ao sagrado, da grande urbe ao parque natural, do litoral ao interior, o Dentuça e eu vagueamos ao nosso ritmo e ao sabor do vento, por algumas das mais belas estradas do nosso país. 

Esta manhã tomámos um descansado pequeno almoço em Lagos. Mas o ambiente turístico do Algarve não me convence. As pessoas dos hotéis e restaurantes do Sul parecem demasiado mercenárias.  A moça do alojamento de Lagos, depois de me fazer esperar uma boa meia hora, fez o equivalente a atirar as chaves para o chão e dizer "desenrasca-te, eu tenho que voltar para a praia". As boas gentes da N2 deixaram-me talvez mal acostumado.  


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Dizem que havia um pessegueiro na ilha


O vento sopra do mar, e na tranquilidade daquele miradouro de Porto Covo, com a barriga cheia de piza obtida ali ao lado, em Vila Nova de Milfontes, eu sei que tudo está prestes a acabar. Toda esta liberdade, esta alegre vagabundagem, vai ter mesmo um fim. Mas estou em paz com essa ideia. E isso será outro dia, por hoje tenho esta paisagem. E a brisa que sopra. E um mar de recordações.


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Isto é capaz de não ser normal


O corpo talvez agradeça um descanso também. Nem todas as mazelas dos primeiros dias sararam completamente. O Sol de Junho continuou a fazer estragos. Eu sinto que poderia prosseguir, talvez indefinidamente, mas também não será má ideia dar atenção a estas pequenas coisas.  



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Porto Covo


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Casa, por hoje

Para aquele que será o último jantar na Estrada, faço questão de comprar uns petiscos no mini mercado local e fazer uma festa de despedida no parque de campismo de Porto Covo, onde chegamos depois do almoço, fazendo o caminho mais directo desde Lagos. A opção de rumar a Norte deveu-se à falta de entusiasmo para ir até Sagres, onde já estive muitas vezes de bicicleta, e àquela sensação omnipresente de que isto está terminado.


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Vila Nova de Milfontes


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Rio Mira e o Mar, em Milfontes


Dia 22
. Lagos-Porto Covo. 112 Km. (Estrada)

 
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