1 disco, 2 rodas, 3 pessoas e 4 patas

Cátia Vanessa @ encontros

Publicado em 4/04/2014 às 20:38

Temas: costa vicentina cão frisbee praia praia do amado verão viagens

Viajar de bicicleta no nosso pais, felizmente ou infelizmente, ainda nos coloca numa posição de destaque. Sobressaímos por entre os automóveis, e suscitamos perguntas de quem connosco se cruza. Entre outros motivos, temos a liberdade de irmos para onde quisermos, quando quisermos, e não nos limitarmos a seguir as estradas com o resto do rebanho.

Por outro lado, viajarmos sozinhos ou, mesmo, estarmos sozinhos, costuma dar-nos mais abertura para contactarmos com quem nos rodeia. Vêem-nos, apercebem-se da nossa presença e espantam-se, instigando curiosidade e suscitando perguntas. E, assim, frequentemente surgem agradáveis conversas ou, como neste dia, interacções.

Na praia do Amado, depois de a ter atravessado para o extremo sul, fugindo à multidão, e de ter explorado os muitos recantos por entre dunas e rochedos, lá encontrei um spot que me agradou. Dali, poderia apreciar o pôr do sol, não era uma zona de passagem, estava mais elevado, dando-me alguma privacidade. Além disso, por ser entre duas pequenas dunas, providenciava-me abrigo suficiente do vento, mas não me roubava a panorâmica sobre o areal.
 
Instalei-me para comer qualquer coisa e apreciar as últimas horas de sol. Não levava grande aparato. Tinha parado, uns quilómetros antes, num trilho, para apanhar amoras. Muitas, de um grande arbusto, bem carregado delas. Deu para encher até meio o meu mini-tacho, e com algum pão, queijo, chouriço e tomate, foram uma bela refeição, ligeira mas agradável.

Durante esta viagem, tive sempre dois fieis companheiros, além da burra: o meu disco e as mulheres de Peito Grande, Ancas Largas. Não fazem exactamente o meu tipo (se é que isso existe), mas era o título do livro, também ele volumoso, que me acompanhou durante o verão. 600 páginas de uma epopeia familiar durante a China do século 20, da autoria de Mo Yan, recentemente galardoado com um prémio Nóbel da literatura.
 
Nesse dia, porém, a companhia que surgiu foi diferente. Um amigo de quatro patas, grande e peludo, veio sentar-se a poucos metros de mim, fitando-me com um olhar de quem diz "dá-me lá uma trinca disso que estás a petiscar". Não ladrou, não se aproximou demais, não sei para não parecer muito insistente, ou para não dar um ar de desespero. E, perante uma postura tão civilizada, não resisti e atirei-lhe um pedaço da minha sandes. Comeu-o em três tempos e por ali se deixou ficar.

Passado um bocado, como ele não abalara, lembrei-me do disco. Se é verdade que nós, humanos, podemos divertirmo-nos imenso com esse pedaço de plástico, não é menos verdade que muita gente o associa a brinquedo de cão. Assim, tirei-o da mochila, agitei-o um pouco à frente do cão que, imediatamente se pôs de pé. Na pior das hipóteses, ele deixar-se-ia ficar por ali, na esperança de que eu fosse buscar o disco e lhe desse oportunidade de atacar o meu farnel.
 
Saquei um pull para o meio do areal, cão e disco saíram disparados, e eu fiquei na expectativa de saber se voltaria a ver algum deles. Correu bem, e o cão, como que por instinto, trouxe-me o disco de volta. Perante esta inesperada hipótese de matar saudades do disco, não pensei duas vezes. Arrumei o que tinha a arrumar, lancei o disco novamente, e desci para a zona plana da praia para ir receber o disco.

Ficámos nisto uns bons 15 ou 20 minutos. Eu aproveitava para fazer uns lançamentos, ora contra o vento, ora a favor do vento, e o cão corria zarpava atrás do disco. Noutras ocasiões, fazia um hover sobre o cão, para ver até que altura ele saltava na ânsia de apanhar o disco.
 
Só que, a certa altura, o quadrúpede, em vez de me trazer o disco, decidiu ir lavá-lo. Já não estava a contar ir à água, estava de calções que não era suposto molharem-se, e o nevoeiro ameaçava e tirava-me a vontade de me molhar. Mas teve de ser, pois só assim recuperaria o disco. O cão ainda se fez de difícil, mas lá acedeu em deixar-me apanhar o disco, e assim se acabou a brincadeira. Despachei-o com um ar severo, e voltei para o meu poiso.

Depois de mais uma noite muito bem passada, acordo com uma manhã cinzenta e húmida. O sol não se quis mostrar e, perante esse cenário, pensei que o melhor que tinha a fazer era preparar-me para abalar cedo para outro destino. Esse era o plano, mas enquanto tomava o pequeno almoço, vi passar o meu amigo de quatro patas, acompanhado do dono, surfista de prancha grande, em direcção à água. E, poucos minutos depois, porque talvez o cão não seja grande surfista, ou porque simplesmente é mais adepto do frisbee do que do surf, lá o tinha outra vez ao pé de mim. Resolvi dar-lhe nova oportunidade mas, passado algum tempo voltou a fazer a mesma brincadeira. Lá voltei para o meu recanto, com o disco lavado, e os pés molhados.

Não muito tempo depois, apareceu-me o dono do cão, com um simpático convite para me juntar a ele e à mulher, na caravana deles, para tomar qualquer coisa. A dita caravana era uma muito recente VolksWagen California, com muitos extras, entre os quais a tracção 4x4 que o permitiu chegar aquele local remoto. Era um casal alemão, entre os 35 e os 40 anos de idade, que viajavam naquele veículo na companhia do cão, grande, e de um bebé de 4 meses, muito pequenino. Incrível o que era possível acomodar dentro daquele carro que, apesar de tudo, não é maior do que muitos outros que circulam pelas cidades no dia-a-dia.
 
Ele era ex-profissional de kite-surf e windsurf, ela professora primária, e tinham vindo aproveitar umas poucas semanas de férias, à procura de praias desertas, sol em abundância e, eventualmente, algumas ondas. Vinham do centro da Alemanha, onde tudo isso é escasso ou inexistente, com um espírito de comunhão com a natureza, com a praia e com o mar. Quantos casais portugueses conhecem que fariam uma viagem destas com uma criança tão pequena?

E, assim, passámos um par de horas a conversar. Sobre as suas viagens como atleta profissional, confirmando-me que o windsurf, embora seja uma modalidade muito agradável, tem realmente o grande problema das dimensões do equipamento. Ou, de alguns locais por onde já passáramos os dois, comparando notas. Ou do estilo de vida que cada um tinha, num país e noutro. Foram umas poucas horas de conversa casual, interessante e agradável, à volta de uma caneca de chá quente que me "soube a pato".

Como já era perto do meio-dia e o sol não se mostrava. Chegou a altura de nos despedirmos. Não iríamos ficar grandes amigos e nem sequer trocámos contactos. Não foi porque a companhia não nos tivesse agradado. Antes pelo contrário, estou certo que eles tiveram tanto prazer com aquela troca de impressões quanto eu. Simplesmente, estes momentos não são repetíveis, porque só existem graças a um combinar de imensos factores, que os tornam tão únicos que não vale a pena tentar reproduzi-los.  Afinal, desta vez, o encontro não fora provocado por haver bicicletas em comum. Apenas porque havia um disco, e um cão.
 
RF
 

Anda mais a pé

@ Bicicleta na Cidade

Publicado em 1/04/2014 às 19:15

Temas: Bicicultura Jornal Pedal

Texto originalmente publicado no Jornal Pedal nº 6, de Junho/Julho 2012. A edição de Setembro já está online e a circular pelas ruas. Jornal Pedal, agora também disponível em t-shirts.
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Os meus amigos ciclistas ficam surpreendidos quando lhes digo que vou a pé para algum lado. Parece-lhes estranho, nalguns casos mesmo descabido. Tento explicar-lhes que tem as suas vantagens. Dizem-me “para quê perder tempo se podes ir mais depressa de bicicleta?” numa primeira fase de choque e espanto, avançando depois para comentários mais jocosos. “Não tens pedalada” é talvez o meu preferido, por ser gratuitamente óbvio.

Gosto de andar a pé, é um facto. Sempre gostei mas só recentemente me vi confrontado com a necessidade de justificar esta opção de transporte – aliás, chamar-lhe “opção de transporte” é já de si uma justificação para uma coisa tão simples que não devia precisar de explicações, quanto mais ser defendida. Percebo que se possa achar fascinante que o ser humano seja o único primata bípede e se discutam as possíveis razões evolutivas que nos trouxeram até aqui. Agora, questionar o uso dessa faculdade que se adquire aos 12 meses de vida como se fosse um atavismo cultural já me parece excessivo. Um bêbado que não consegue andar é normal. Um sóbrio que anda, é uma extravagância.

Entre piadas e estupefacções, dei por mim a fazer exercícios de retórica numa tentativa de normalizar o meu comportamento, desviante aos olhos dos ciclistas. O que percebi é que nada mudou no mundo tirando, talvez, a forma como nos deslocamos. Senão reparem, quando tenho que justificar o andar a pé, os meus argumentos são os mesmos que qualquer ciclista aponta a um automobilista: é um meio de transporte muito ecológico porque, além de não produzir emissões de CO2, não contribui para uma indústria poluente como a das bicicletas – que implica a produção de óleos e lubrificantes à base de petróleo e peças feitas a partir de minérios cada vez mais escassos – nem depende (tanto) de bens importados de paragens longínquas e exóticas que aumentam substancialmente a sua pegada ecológica, também conhecida por emissões de CO2, também conhecida por poluição.

Estacionamento é um problema que não existe quando vou a pé porque não tenho que procurar um local visível e uma estrutura robusta para prender a bicicleta, nem saber se o meu cadeado é seguro para determinadas zonas e horas. Estacionamento à porta pode parecer uma ideia brilhante, mas não ter que estacionar de todo é que é. Outra vantagem a reter: intermodalidade com os transportes públicos, horários e condições de acesso? Deixem-me rir.

Depois, há toda uma nova perspectiva da cidade que se adquire, é uma descoberta que se faz como quando se experimenta usar a bicicleta numa base regular. Novos percursos, melhores caminhos com piso mais agradável, passeios mais largos...a lista de preferências é infinda. Para mim a grande diferença está na velocidade a que a cidade passa por nós e no que ela me permite apreender. Deslocando-me mais devagar, consigo descobrir novos restaurantes e lojas mais depressa do que a “Time Out”.

Menos é mais. E numa lógica de transporte pós-rodinhas tudo se torna mais relaxado. Andar de bicicleta é fixe e dá-nos uma sensação de adrenalina que, a pé, é substituída por uma calma que nos permite pensar, seja no que for. Quem vai de bicicleta tem que estar atento ao trânsito (chato), aos carros (chatos) e aos peões (lentos) que se atravessam sem aviso, sem olhar para os ciclistas. Agora compreendo-os. Eles estão ocupados a pensar em coisas muito mais importantes do que nas bicicletas. Estão a pensar na vida, na sua e na dos outros, nas bolas do vestido da rapariga que atravessa e em como ficarão vistas do avesso.

Mas a minha vida não mudou e tão-pouco deixei de andar de bicicleta. Nada disso. Passei apenas, isso sim, a fazê-lo quando estou com pressa. Experimentem! Não perdem nada, nem tempo. Vão ver que pelo caminho vos surgem ideias brilhantes, nem que seja para criticar este texto.

 

Meio de transporte e de diversão...

@ MA FYN BACH

Publicado em 13/03/2014 às 11:34

Temas: bicicleta bike lifestyle btt

Depois do meu percurso diário para o trabalho de 25kms (ida e volta) com direito a buscar o Gugas e a Nanny, nada como fazer uns singletracks e "passear" pelos tracks de downhill que há a 300 metros de casa!

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Tudo verdinho por causa da chuva dos últimos meses

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Esta descida o Gugas fez desmontado! 
É grandita e nem trouxemos os capacetes!

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O ponto alto da volta foi ficar a ver o sol a pôr-se ao fundo 
com as filas de trânsito na marginal em primeiro plano!

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Ali ao fundo...a marginal abarrotada.

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Os poucos raios de sol visíveis iluminavam a lua.

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Subimos pelo lado do depósito de água, 
o início das pistas de downhill!

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Muitas rampas, curvas com alto relevé (banked curves)
e saltos de loucos, como este.

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O gugas fê-lo mas a correr.

Meia horita depois estávamos de volta para o banho e o resto dos afazeres...mas com outros níveis de serotonina no corpo!

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Rescaldo da Alley Cat Cabeça de Medronho

rui henrique @ bicicleta voadora

Publicado em 4/02/2014 às 13:55

Temas: alley cat faia brava

No passado dia 25 de janeiro, nos jardins de Campolide, para além de uma tarde bem passada, conseguimos angariar mais ou menos 120 medronheiros que seguem directamente para o vale do rio Coa. 
Zona há muito desertificada e que aos poucos a natureza volta a ocupar o seu espaço natural. A Associação Transumância e Natureza está a dar a sua ajuda na Reserva da Faia Brava e desta vez contou com a nossa pequena, mas importante ajuda.

Quanto aos resultados da Alley Cat, foram os seguintes:
 
1º_ Laura Reis _ 4 min 06 seg
2º_ Miguel Reis _ 4 min 07 seg
3º_ Francisco Martins _ 22 min
4º_ Manuel Lino _ 23 min
5º_ Rui Costa _ 26 min
6º_ José Josué _ 27 min
7º_ Maarten _ 34 min
8º_ David Carvalho _ 35 min
8º_ Pedro Fernandes _35 min
10º_ João Rodrigues _ não terminou
11º_ Rogério Machado _ não terminou


Os prémios gentilmente oferecidos pela Associação Transumância e Natureza, foram sorteados quer pelos participantes na corrida, quer por quem apareceu no piquenique de apoio a esta iniciativa do Rolha Cycling Club.

Os dois Voucher para visitar a Faia Brava foram entregues ao Rogério Machado e ao José Josué.
Agora é pedalar até lá.

Agradeço também ao Artur do blog Diário de Lisboa pelas belas fotos que aqui publico.
Mais fotos aqui


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Durante o piquenique.

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Briefing da prova entre as hortas urbanas no jardim de campolide.

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Saída para a alley cat.

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A grande vencedora.

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 Momento do sorteio.

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Enquanto uns se divertiam, outros também se divirtiam nas hortas.

 

Bicicletas passam vermelhos a alta velocidade - A PROVA

Pedro M. Fonseca @ Pedalar na Cidade

Publicado em 23/01/2014 às 23:26

Temas: Alcântara Lisboa passadeiras

Esta semana decidi parar por breves minutos numa passadeira de Alcântara e filmar o que acontece quando cai o sinal vermelho para quem circula na estrada. Rapidamente obtive as imagens que provam a perigosidade das bicicletas a passar vermelhos, um grave problema da segurança para peões. Finalmente, a prova que faltava da rebaldaria que por aí vai.

Confiram o primeiro vídeo:



Viram as bicicletas? Eu também não, pelo que repeti de imediato a gravação, porque algo de anormal terá acontecido:




E agora, viram-nas?? Mas que raio, onde é que elas se escondem?

Esperem, já percebi! Elas estão tapadas pelos automóveis e motas que, vendo um ciclista a preparar-se para passar um vermelho a alta velocidade, aceleram e colocam-se ao seu lado de forma a proteger potenciais crianças e outros peões indefesos do perigo do embate, assim lhes batendo primeiro. Toda a gente sabe que um automóvel com aquela chapa toda é um amortecedor natural de embates contra pessoas.

Estes automobilistas estão a oferecer a chapa ao manifesto no mais puro desprendimento, em benefício do peão.  E ainda por cima, sem que se perceba, porque ao olho desatento parece que são eles quem estão a cometer uma infracção/crime/estupidez (escolham um).

E os ciclistas, lá continuam, impunes. É bárbaro, o nosso país.

 

Porque gosto tanto de utilizar uma cargo-bike no meu commute?

@ MA FYN BACH

Publicado em 23/01/2014 às 16:35

Temas: bicicleta de carga commuting

Não é segredo nenhum de que ando de bicicleta para todo o lado desde 2008.

Assim como não é segredo de que adoro cargo-bikes e que me apaixonei pelo conceito da xtracycle e que decidi transformar a minha bicla numa longtail

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A bicla assim permite-me circular de bicicleta para todo o lado: desde as pequenas voltas, compras, assim como viagens e até o commute diário

Já cheguei a referir que permite andar de bicicleta com o mind-set de quem tem carro! (nem era o meu caso). Mas é mais fácil e por vezes só mesmo assim é possível dar boleia a alguém, levar os 2 miúdos à escola, carregar certas coisas, sem arriscar muito. 

Ainda anteontem o meu dia-a-dia seria muito difícil sem uma longtail:

Vim do trabalho e na bicicleta carregava o habitual: câmara de ar e kit ferramentas básico, cadeado, impermeáveis, muda de roupa e a marmita (já vazia). Cheguei à escola para buscar o Gustavo e reparei que tinha trazido a bola de basquete! Ele subiu para a bicicleta com a mochila às costas (ele pesa 30Kg, a mochila já deve pesar uns 5 ou mais), pôs a bola nos alforges e lá fomos. Subimos 1 km até à escola da Mariana. Subiu tb para a bicicleta mais a sua mochila e a barbie bailarina. Pedalámos outro kilómetro até chegar à banca da PROVE onde comprámos aos nossos amigos agricultores um cabaz de 6Kg mais uns brindes que nos ofereceram. E com isto o Gugas foi a pé e nós na bicla nos últimos 500 metros até casa.

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A bicla carregada e parada apenas num descanso lateral normal.


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O cabaz da PROVE, mochila, bola basket, impermeável, patati, patata...

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...e dois miúdos, outra mochila, a marmita!!!


Conseguia fazer isto com outra bicla? 

Conseguiria...mas não era DEFINITIVAMENTE a mesma coisa!




 

(Demonstrar a falácia do IUC para bicicletas) É desprestigiante, disse ele.

Pedro M. Fonseca @ Pedalar na Cidade

Publicado em 17/01/2014 às 10:31

Temas: comentários em fóruns Código da Estrada Imposto Único de Circulação IUC

Os comentários nas redes sociais nunca cessam de nos surpreender. No caso da promoção da utilização da bicicleta como meio de transporte e da melhoria das condições subjacentes, ocorre normalmente uma inflamação de opiniões superior à das notícias sobre aumentos de impostos. A desinformação e o achincalhamento são aqui normais.

É compreensível. Mandar um petardo a fingir de argumento é fácil, rápido e tem um potencial de estrago razoável, especialmente se repetido e disseminado. Lança a confusão, a dúvida e para rebater é sempre preciso tempo e esforço para desmontar o que em bom português não passa de Lógica da Batata, que tanta escola faz neste canto ibérico.

Mas descubro que é ainda mais grave o problema e que, afinal, não basta responder à desinformação como tentei no post anterior. Não, demonstrado o ridículo da acusação do não pagamento de Imposto Único de Circulação por parte das bicicletas, perdão, velocípedes, vem o Rui Gomes na caixa de comentários queixar-se que afinal este é um não-assunto:

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"Rui Gomes5 de Janeiro de 2014 às 13:35
Curioso mas nunca vi ninguém em fóruns de rsocial, pelo menos que merecesse algum credito, a tecer qualquer comentário, depreciativo pelo fato das bicicletas estarem isentas ao IUC. portanto é um tema que não é tema... e pelos vistos também só serve para alimentar e até em desprestigio levantar essa questão no sense a quem nunca tinha ouvido comentar."

Portanto, está aqui o Rui Gomes a dizer que eu perdi o meu tempo e prestígio a ilustrar o ridículo do IUC para bicicletas, perdão, velocípedes, pois nunca ninguém tinha tecido qualquer comentário nesse sentido nas redes sociais.

Desconheço os fóruns de redes sociais frequentadas pelo Rui Gomes, se se trata do Clube Golf Portugal, do Canaricultura Tuga ou o Café Central, no Penteado:


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Matraquilhos! Quem não gosta de matraquilhos? 
E fica no Penteado, pelo que _______________ - espaço para o vossa piada preferida, deixo à liberdade de cada um


Mas naquilo que entendo por "fóruns de redes sociais", deixo-vos alguns exemplos:


No Facebook, num post da Polícia de Segurança Pública

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Nos comentários a uma notícia do Jornal de Notícias

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Comentários a um artigo do jornal Público

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Este comentário abaixo, na mesma notícia do Público, é um dos mais preciosos que já li. Veja-se o esforço que o seu autor faz para justificar que as bicicletas têm impacto ambiental elevado: Circulando mais devagar fazem com que os automóveis tenham que travar e portanto estes últimos perdem velocidade, tendo que voltar a acelerar para recuperar essa velocidade. Com isso produzem mais CO2, por culpa das bicicletas. É de génio!

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"Por fim, e pegando nesta citação: "O IUC serve para mitigar os custos dos impactos ambientais e sociais que o tráfego rodoviário acarreta e não apenas para a construção e manutenção das infraestruturas viárias(...)". Quero insistir no exemplo das bicicletas a circular na Marginal, onde os carros circulam a 70Km/h (ou mais, já fora da legalidade) e do embaraço ao trânsito que os vários ciclistas que a povoam (quase todos em âmbito desportivo, e quase nunca na óptica da mobilidade) tendem a causar. Há um grande impacto social nos automobilistas e nas situações perigosas que originam, e há um maior impacto ambiental devido à quantidade de carros que têm que travar e voltar a acelerar depois de os ultrapassar."


Seguindo esta lógica, deveríamos estar todos a lutar pela abolição das passadeiras. O pára/arranca do automóvel por causa dos atravessamentos de peões provoca aumento da poluição. Estes deviam atravessar apenas quando não tal não obrigasse um automóvel a travar. 

Aliás, há uma grande desfaçatez em quem quer andar a pé, com a mania que é mais "verde", pois reivindicam o espaço público com passeios e praças que podiam muito bem ser reservadas ao estacionamento automóvel, facilitando-o. Já viram quanta poluição é causada por automobilistas a andar às voltas à procura de estacionamento, por o espaço ter sido reservado para peões (que mais não fazem do que passear, veja-se)? Eu pensava que o excesso de poluição na Avenida da Liberdade que levou à instauração de um processo europeu era causado pelo excesso de tráfego, mas agora percebo que é pelo excesso de passadeiras. Fico muito grato por terem trazido luz e razão a um problema desta dimensão.


E chega, que já me dói o cérebro.


Mas atenção que o comentador Rui Gomes previu que eu pudesse achar umas dezenas de comentários a comprovar que o não pagamento de IUC é uma das acusações feitas a quem apenas pretende andar numa bicicleta, perdão, velocípede. E logo acrescentou que nunca viu "ninguém... pelo menos que merecesse algum crédito" a fazer tal defesa. Portanto, para a defesa do IUC ser relevante, não bastaria que a sua imposição fosse proclamada por dezenas de pessoas que se deram ao trabalho de o escrever nos ditos fóruns, tinha de ser por gente "com crédito".

É evidente que, se eu alinhasse na mesma ilógica, a resposta natural ao comentário, seria a de que eu não sei quem o Rui Gomes é, e portanto não me merece qualquer crédito pelo que bem pode falar e comentar à vontade. Mas, nestes termos, responder-lhe seria "desprestigiante" dentro da lógica que proclama, e portanto fiquei calado. 

Agradeço o cuidado que o Rui Gomes tem com o meu prestígio, alertando-me para o "no sense" do meu artigo, mas na verdade eu não tenho prestígio algum. Ou tenho? É que o Rui Gomes comentou, dando afinal relevância ao que escrevi. Estou baralhado, é melhor parar por aqui.


 

/// ALLEY CAT CABEÇA DE MEDRONHO

rui henrique @ bicicleta voadora

Publicado em 16/01/2014 às 12:37

Temas: alley cat faia brava

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A Alley Cat Cabeça de Medronho será a corrida urbana mais verde alguma vez realizada em Lisboa.
Para além da competição e descoberta da cidade, esta Alley Cat tem um objectivo mais nobre - ajudar a tornar mais verde e com mais vida a Reserva da Faia Brava, o primeiro parque natural privado português que fica situado numa zona escondida nas margens do rio Coa, próximo da aldeia histórica de Castelo Rodrigo, distrito da Guarda.

Neste momento a Associação Transumância e Natureza, que gere a reserva, tem uma campanha para reflorestar o parque com medronheiros, espécie que em tempos foi abundante na zona e que por ação do homem deixou de existir...

Como praticamente todos os ciclistas adoram a natureza, e como já vem sendo costume, têm aqui uma excelente oportunidade de dar aos pedais e abrir os pulmões para o mais puro oxigénio!

O que pedimos é uma pequena contribuição na Alley Cat que será directamente convertida em pés de medronheiros que ainda este inverno serão plantados nas encostas do Coa.

O encontro será nos Jardins de Campolide dia 25 de Janeiro às 14H30, em frente à polícia municipal muito próximo do Teatro da Comuna, em pleno corredor verde.
Só se realizará se não chover, sendo adiada para a semana seguinte e à mesma hora caso o tempo não o permita.

FAIA BRAVA and the ATN's work for conservation from aidnature.org on Vimeo.


 

# Mudanças

rui henrique @ bicicleta voadora

Publicado em 15/01/2014 às 23:39

Temas:


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Desde há alguns meses que deixou de me fazer sentido tirar fotografias aos poucos ciclistas e aventureiros que circulavam por Lisboa, isto por um bom motivo, porque deixaram de ser assim tão poucos e felizmente a realidade actual nada tem a ver quando comecei com este blog.
Como tal, o diário fotográfico deixou de existir e a bicicleta voadora passará a ser um sitio de partilha e desenvolvimento de projectos dedicados à bicicleta, à arte, à solidariedade e a um estilo de vida sustentável e dirigido para os valores naturais e humanos.

Até Breve
 

IUC - Imposto Único de Circulação e a isenção das bicicletas.

Pedro M. Fonseca @ Pedalar na Cidade

Publicado em 4/01/2014 às 1:55

Temas: Alterações ao Código da Estrada Imposto Único de Circulação IUC

Os média estão ao rubro com as recentes alterações ao Código da Estrada. Eu tenho querido muito escrever sobre isso aqui, a sério. Mas depois leio os comentários às notícias e dá-me mais para rir. E chorar.

Uma acusação típica de muitos fóruns ou redes sociais é o pagamento de Imposto Único de Circulação de que as bicicletas estão isentas (o código chama-lhes velocípedes, porque o código é muito erudito). No meio de troca de argumentos (cof cof...) sobre a utilização da bicicleta como meio de transporte, há sempre o momento em que a fava é trincada com toda a convicção:

"Então mas se as bicicletas andam na estrada, porque é que não pagam o Imposto de Circulação??"

Pronto, está lançado o caos. As bicicletas não deviam poder circular, porque não pagam Imposto. Eu chamaria a isto inveja, mas na verdade é burrice porque estão a dizer que querem perder um benefício que também os atinge, visto que qualquer um pode possuir e conduzir uma bicicleta. E a grande maioria já o fez, mesmo que com 5 anos.

Mas vamos tomá-los a sério por cinco minutos. O que é que diz, afinal, a Lei sobre o IUC? Eu sou um tipo das leis, tinha que ir ver:

"Código do Imposto Único de Circulação
Capítulo I 
Princípios e regras gerais 

Art.º 1.º
Princípio da Equivalência

O imposto único de circulação obedece ao princípio da equivalência, procurando 
onerar os contribuintes na medida do custo ambiental e viário que estes provocam, 
em concretização de uma regra geral de igualdade tributária.
...

Art.º 5.º
Isenções

1 - Estão isentos de imposto os seguintes veículos:
...
d) Veículos não motorizados, exclusivamente eléctricos ou movidos a energias
renováveis não combustíveis, veículos especiais de mercadorias sem
capacidade de transporte, ambulâncias, veículos funerários e tractores
agrícolas;"



Quer dizer que o IUC se destina a obrigar quem adquire um veículo a motor a uma compensação pelo custo ambiental e viário que provocam. Ora então, vamos imaginar por uma loucura de segundos que se aplicava o mesmo princípio às bicicletas. Qual seria o valor a aplicar?

Ora neste simulador, ficamos a saber que uma mota com 125cc (poupando-vos trabalho, é a Tabela E) pagará em 2014 €5,49. Uma 125cc é o veículo mais simples que pode ser taxado ("O quê, abaixo disso também não pagam? Fim aos ciclomotores nas estradas JÁ!!"). Será dos que menos poluí e menor impacto na rede viária tem. Mas ainda assim são máquinas para pesar uns 180kg e sempre funcionam a motor, pelo que poluem bem mais que praticamente zero, que é o que polui a bicicleta.

Numa conta simples, uma bicicleta pesará cerca de 10 vezes menos que a mota 125cc (18kg, umas pesam mais mas a maioria pesa menos). Se pesa 10 vezes menos, o IUC também deve logo, à cabeça, ser 10 vezes menor, porque o desgaste na via tem essa proporção:

Resultado: €0,549 de IUC.

Mas tendo em consideração o custo ambiental, este valor tem ainda que ser reduzido, porque a bicicleta, não funcionando a motor, produz bem menos de metade da poluição num mesmo percurso. Talvez 2%, considerando pneus, óleo na corrente e desgaste das peças.

Ora 2% de €0,549 são... €0,01098, que é como quem diz UM cêntimo. Um cêntimo?? Seria este o valor proporcional do IUC de uma bicicleta e é por ele que tantos fazem tanto barulho? É realmente importante cobrar um valor inferior ao custo da folha onde imprimiríamos o comprovativo de pagamento (Ouch, mais um custo ambiental - cinco milhões de folhas no mundo)?

Ah, e 5 milhões de bicicletas X €0,01098 = €54.900,00. Presumindo que alguma vez haveria o registo dessas cinco milhões de bicicletas, claro. Cinquenta e quatro mil e novecentos Euros. Dá para tapar uns 200 metros de buracos na estrada, presumindo que a burocracia do Estado não gasta mais do que cobra, que seria o mais provável.

Já agora, vejam na alínea e) do referido art.º 5.º do Código do Imposto Único de Circulação quem mais está isento: Os táxis. Sim, os táxis a motor não pagam pelo impacto que causam na via e na poluição que provocam. Mas as bicicletas, meus amigos, essas marotas, não lhes perdoem!

Por mim, para não me chatearem mais, até pago já os meus sete cêntimos, só para não ter que os ouvir. Onde é a caixa de pagamento?
 
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